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América, Opinião, Politica internacional — 4 Outubro, 2026 at 3:11 p.m.

O futuro político da América Latina também passa polo Brasil?

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A sombra do presidente americano paira sobre as eleições deste domingo, 4 de outubro, cujo resultado parece mais do que incerto nesta sociedade polarizada entre a esquerda socialdemócrata do atual chefe de Estado e a extrema-direita de seu rival.

A pergunta pode parecer desmedida, porque nenhum país decide ou deveria decidir sozinho o futuro político de um continente e a própria ideia de América Latina encobre sociedades, formaçons económicas e trajetórias políticas suficientemente diferentes para desconfiar das metáforas que anunciam sucessivas «ondas» de esquerda e direita. Ainda assim, a eleiçom brasileira deste 4 de outubro possui um alcance que ultrapassa claramente a escolha do próximo ocupante do Palácio do Planalto. O Brasil vota quando boa parte da América do Sul passou novamente para governos conservadores ou de extrema-direita, quando as experiências progressistas mostram dificuldades para recompor a capacidade transformadora que lhes permitiu modificar a correlaçom regional no início deste século e quando a segunda administraçom de Donald Trump procura restaurar de maneira muito mais explícita a supremacia imperial norte-americana sobre o hemisfério.

A situaçom seria suficientemente importante mesmo sem Flávio Bolsonaro. Torna-se qualitativamente diferente porque o candidato que pode suceder Lula reivindica como aliado precisamente um governo norte-americano que deixou de limitar a sua intervençom na América Latina às sançons, pressons económicas, operaçons clandestinas, financiamento de aliados ou condicionamento diplomático. Em 3 de janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos atacaram território venezuelano, capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores e transferiram-nos coercivamente para território norte-americano. Especialistas em direito internacional reunidos por Just Security consideram que a operaçom constituiu uso da força contra outro Estado em violaçom do artigo 2.4 da Carta das Naçons Unidas e alcançou intensidade suficiente para configurar juridicamente um conflito armado internacional.

A agressom à Venezuela nom inaugurou a intervençom norte-americana no continente e seria historicamente absurdo apresentá-la dessa maneira. A memória latino-americana inclui Guatemala, Cuba, República Dominicana, Chile, Nicarágua, Panamá e outras experiências nas quais Washington combinou coerçom económica, operaçons clandestinas, financiamento político, apoio a golpes e intervençom militar. O Chile continua sendo um dos exemplos melhor documentados, inclusive polos próprios arquivos oficiais norte-americanos. Em agosto de 1970, um documento do Departamento de Estado examinava explicitamente a opçom de derrubar Salvador Allende através de umha operaçom clandestina que utilizaria instituiçons e atores chilenos para ocultar o papel dos Estados Unidos; depois da posse de Allende, a CIA reconheceu ter mantido a política de «máxima pressom clandestina» e canalizado milhons de dólares para partidos opositores, meios de comunicaçom e organizaçons privadas.

Por isso, «influência norte-americana» é umha categoria cinica, insuficiente eufemismo para descrever a relaçom histórica entre Washington e a regiom. Pode haver influência cultural, diplomática ou intelectual, mas a história hemisférica obriga a falar também de hegemonia, ingerência, operaçons clandestinas, coerçom económica, intervençom e, quando corresponde, dominaçom imperial. O que distingue a conjuntura inaugurada polo segundo governo Trump nom é a apariçom de um comportamento inteiramente novo, mas a disposiçom para voltar a exercer esse poder de maneira menos mediada e mais abertamente coerciva num sistema internacional muito diferente daquele da Guerra Fria. É justamente essa diferença que torna o Brasil tam importante.

A Venezuela e a nova escala da política hemisférica

A captura de Maduro interessa menos como episódio isolado do que como indicaçom do repertório que Washington considera novamente disponível. Qualquer avaliaçom crítica do chavismo, do autoritarismo venezuelano ou das controvérsias sobre a legitimidade eleitoral de Maduro deve ser separada do direito que outro Estado poderia atribuir-se para bombardear o país e remover pola força os seus governantes. A CLACSO interpretou a operaçom de janeiro como umha atualizaçom da Doutrina Monroe e advertiu que o precedente ultrapassava a Venezuela porque rompia também com a conceçom da América Latina e do Caribe como Zona de Paz proclamada pola CELAC em 2014.

Guadalupe González e Monica Hirst colocam essa ofensiva num quadro mais amplo de transformaçom da ordem mundial. A América Latina abandonou a relativa marginalidade estratégica que caracterizou parte do período posterior à Guerra Fria e voltou a adquirir valor pola combinaçom de minerais críticos, biodiversidade, capacidade energética, alimentos, água, infraestruturas e crescente presença chinesa. O paradoxo reside em que essa centralidade reaparece quando a regiom perdeu parte das instituiçons que poderiam converter os seus recursos em capacidade coletiva de negociaçom. Hirst descreve esta fase como um interregno em que a velha ordem se esgota sem que a nova esteja estabilizada e observa que a América Latina chega ao novo tabuleiro internacional com a sua própria arquitetura regional profundamente debilitada.

Essa fragmentaçom cria condiçons particularmente favoráveis para umha política de pressom bilateral. Um Estado isolado negocia com Washington ou Pequim desde umha posiçom muito diferente daquela que poderia sustentar um bloco regional dotado de mecanismos financeiros, infraestruturas comuns, capacidade tecnológica e coordenaçom diplomática. Ana Prestes interpreta precisamente a erosom da integraçom como um fator que ampliou a margem dos Estados Unidos para reorganizar as relaçons continentais segundo alianças nacionais e governos ideologicamente compatíveis, enquanto Jones Manoel tem insistido, desde outro ponto de partida, em que a integraçom latino-americana desapareceu quase completamente do horizonte estratégico de boa parte da esquerda institucional.

O problema nom pode ser explicado apenas pola intervençom externa. As experiências de UNASUL, CELAC ou Banco do Sul revelaram também umha debilidade própria, porque dependeram em excesso da coincidência temporal entre governos progressistas e nom chegaram a sedimentar um conjunto suficientemente robusto de interesses económicos, sociais e institucionais que sobrevivesse às alternâncias eleitorais. A facilidade com que vários desses mecanismos foram esvaziados mostra que a chamada integraçom regional permaneceu em grande medida como política de governos e nom conseguiu transformar-se numha estrutura capaz de vincular materialmente as sociedades latino-americanas.

É sobre essa fragilidade que opera hoje o novo intervencionismo norte-americano.

Umha internacional reacionária que nom nasce apenas em Washington

A centralidade de Trump tampouco deveria conduzir a imaginar Bolsonaro, Milei, Kast ou outras direitas latino-americanas como produtos artificiais de um centro imperial que simplesmente os distribui polo continente. Sergio Morresi recorda, no caso argentino, que a aproximaçom entre correntes liberal-conservadoras e nacionalistas precedeu a apariçom eleitoral de Javier Milei e que a base social que posteriormente se reconheceu nele já estava em formaçom. A insatisfaçom económica, a crise das expectativas e a perceçom de ineficácia das democracias locadas facilitaram a agregaçom dessas correntes, embora a posterior aproximaçom com Washington tenha reforçado material e simbolicamente o governo argentino.

O mesmo vale para o Brasil. Trump nom inventou o antipetismo, o poder político das igrejas evangélicas, o autoritarismo policial, o agronegócio, as tradiçons militares anticomunistas ou a nostalgia da ditadura. Bolsonaro conseguiu articular elementos existentes num novo bloco político e dotá-los de umha identidade que sobreviveu à sua derrota eleitoral e à sua própria condenaçom.

Isso nom significa, no entanto, que a potência norte-americana se limite a apoiar passivamente forças que se teriam constituído da mesma maneira sem ela. A própria experiência chilena mostra como a distinçom entre «interno» e «externo» pode ocultar a relaçom real. As elites, partidos e militares chilenos possuíam interesses próprios, mas a intervençom norte-americana financiou atores, alterou capacidades organizativas, produziu pressom económica e modificou a correlaçom interna de forças. A relaçom entre imperialismo e extrema-direita contemporânea pode ser compreendida, nesse sentido, como umha coproduçom desigual, na qual atores locais com base social própria se integram em infraestruturas transnacionais de financiamento, informaçom, comunicaçom e legitimaçom política, enquanto Washington conserva recursos incomparavelmente maiores para premiar aliados, sancionar adversários e alterar o terreno sobre o qual todos eles operam.

A dimensom intelectual dessa rede também importa. Alain Bergounioux e Gérard Grunberg propõem interpretar o trumpismo como umha forma contemporânea de fascistizaçom e recuperam o Ur-Fascism de Umberto Eco para destacar o culto do chefe, a produçom do inimigo interno, o ataque ao pluralismo, o nacionalismo excludente e a normalizaçom da violência. Enzo Traverso recomenda maior cautela e considera que aplicar diretamente a categoria fascismo às novas direitas pode apagar diferenças históricas fundamentais, enquanto Federico Finchelstein fala em wannabe fascists para designar dirigentes que chegam eleitoralmente ao poder, conservam parte das instituiçons democráticas e simultaneamente recorrem à mentira sistemática, à xenofobia, à violência política e a meios ilegais para corroê-las desde dentro.

O desacordo terminológico nom elimina a questom central. Trumpismo, bolsonarismo e experiências próximas nom aspiram simplesmente a alternar-se no governo respeitando passivamente o quadro institucional herdado. Procuram modificar as próprias regras, deslocar os limites do aceitável e criar condiçons para que a sua hegemonia sobreviva às eleiçons seguintes. A circulaçom entre CPAC, fundaçons, think tanks, juristas, plataformas digitais, empresários tecnológicos, dirigentes religiosos e produtores intelectuais mostra que estamos perante algo mais estruturado que umha afinidade espontânea entre presidentes.

A expressom «internacional trumpista» pode por isso ser útil, desde que nom faça depender todo o fenómeno de Donald Trump. Talvez seja mais rigoroso falar numha internacional reacionária cujo principal centro de gravidade atual está nos Estados Unidos, mas que possui atores, instituiçons e raízes nacionais capazes de sobreviver ao próprio presidente norte-americano.

A crise dos progressismos também é parte da explicaçom

A ofensiva imperial e a articulaçom transnacional das direitas nom explicam, por si mesmas, por que esses projetos conseguem obter votos entre setores populares. Umha análise que transforme a extrema-direita em produto da propaganda, das plataformas digitais ou da interferência estrangeira corre o risco de omitir as condiçons sociais sobre as quais todas essas ferramentas conseguem atuar.

Em meados de 2026, sete dos doze países da América do Sul estavam governados pola direita ou extrema-direita, mas Morresi adverte contra a leitura automática de umha viragem ideológica uniforme do continente. Parte do fenómeno pode expressar um cansaço mais geral diante de democracias situadas incapazes de oferecer estabilidade, expectativas de futuro e respostas convincentes a sociedades marcadas por precariedade, baixo crescimento, insegurança e endividamento. As direitas transformam esse mal-estar em outras coisas, mas nom precisam inventá-lo.

Esse problema toca diretamente o balanço dos progressismos latino-americanos. Diversos governos conseguiram reduzir pobreza, ampliar direitos, aumentar salários e recuperar capacidade estatal sem alterar de maneira comparável a estrutura de propriedade, o poder financeiro, a concentraçom mediática, o modelo extrativo ou as relaçons entre capital e trabalho. Enquanto houve crescimento, preços internacionais favoráveis e margem redistributiva, essa combinaçom produziu avanços sociais importantes. Quando essas margens diminuíram, boa parte das classes dominantes conservava os instrumentos económicos e institucionais necessários para impor limites, enquanto a força social autónoma das classes populares nom tinha aumentado na mesma proporçom.

Vladimir Safatle coloca esse impasse no terreno da imaginaçom política ao observar que a esquerda brasileira passou de representar a mudança a representar sobretudo a proteçom perante a possibilidade de algo pior. Lula condensava em 2002 umha promessa de transformaçom; Bolsonaro apropriou-se em 2018 da linguagem da rutura e conseguiu apresentar um programa favorável a setores poderosos como rebeliom contra «o sistema»; em 2026, o campo lulista apresenta-se principalmente como defesa da democracia, dos direitos sociais e da estabilidade perante um regresso bolsonarista. Para Safatle, umha esquerda que permanece indefinidamente nesse lugar defensivo corre o risco de entregar à extrema-direita a própria ideia de futuro.

André Singer, Bernardo Ricupero, Cicero Araujo e Fernando Rugitsky descrevem o Lula 3 através da noçom de equilíbrio precário, no qual extrema-direita e campo democrático mantêm forças sociais semelhantes, enquanto um setor oscilante responde às condiçons concretas de emprego, rendimento, preços e dívida. A contribuiçom mais interessante do diagnóstico encontra-se na constataçom de que a clivagem nom coincide simplesmente com duas classes politicamente organizadas. A extrema-direita divide o próprio mundo popular, enquanto o campo democrático inclui fraçons das classes dominantes; como setores financeirizados possuem presença nos dous lados, a defesa da democracia pode coexistir com a permanência de um regime económico que continua produzindo parte da insegurança social sobre a qual a própria extrema-direita trabalha.

Jones Manoel introduz nessa discussom umha distinçom especialmente útil. A sua crítica ao Lula 3 e à austeridade nom o levou a considerar irrelevante a diferença entre lulismo e bolsonarismo. Durante a campanha, insistiu em que a extrema-direita devia ser derrotada ao mesmo tempo que criticava a tendência do campo governamental a disputar principalmente escândalos e medo em vez de oferecer um programa que fale às necessidades materiais da juventude e das classes populares. No seu diagnóstico, empregos precários, dívida, dificuldade de acesso à habitaçom e ausência de perspetiva de futuro constituem problemas que nom podem ser compensados indefinidamente mediante a lembrança dos governos anteriores ou a advertência sobre o perigo representado polo adversário.

A sua crítica à tentativa de Lula de chegar a um compromisso com Trump é igualmente significativa. Jones argumentou em maio que Washington continuaria trabalhando para fortalecer Flávio Bolsonaro mesmo que o governo brasileiro oferecesse concessons, porque o conflito nom nascia simplesmente de um desacordo comercial resolvível através da negociaçom. O bolsonarismo oferecia à política norte-americana um grau de alinhamento que o lulismo, apesar da sua moderaçom, nom podia proporcionar sem abandonar elementos centrais da autonomia brasileira.

Mário Maestri formulou em 2022 umha crítica muito mais radical e chegou a rejeitar o voto em Lula, entendendo a frente democrática como mecanismo de institucionalizaçom do status quo e de subordinaçom do trabalho ao grande capital. A conclusom eleitoral de Maestri separa-o profundamente de Singer, Safatle ou Jones e tornou-se ainda mais problemática depois da tentativa golpista bolsonarista, mas a pergunta estrutural que colocava nom desapareceu. Umha derrota eleitoral da extrema-direita nom modifica necessariamente as relaçons de poder económico que condicionam o campo progressista nem restitui por si só autonomia às organizaçons do trabalho.

A relevância continental da disputa brasileira nasce em parte desta contradiçom. Lula pode constituir umha barreira real contra um projeto autoritário e contra o alinhamento hemisférico pretendido por Trump sem que o lulismo constitua, por isso, a alternativa histórica capaz de resolver a crise que torna essa barreira continuamente necessária.

O Brasil nom é apenas objeto da disputa

Seria igualmente redutor tratar o Brasil como território onde Estados Unidos e China competem e onde os brasileiros apenas escolhem a potência à qual querem aproximar-se. A política externa brasileira construiu durante décadas umha tradiçom de autonomia relativa baseada na diversificaçom de parceiros e na recusa de um alinhamento automático, mesmo quando governos diferentes interpretaram essa autonomia de maneiras distintas.

Oliver Stuenkel descreve essa estratégia como multialinhamento, através do qual o Brasil procura manter relaçons com Washington, Pequim, Europa e Sul Global sem aceitar que um único eixo determine toda a sua política externa. A escala territorial, a populaçom, os recursos naturais e a dimensom económica proporcionam-lhe possibilidades que poucos países latino-americanos possuem, embora Stuenkel também assinale que a rivalidade crescente entre Estados Unidos e China está reduzindo o espaço disponível para essa ambiguidade estratégica.

Essa posiçom torna-se particularmente importante porque a China já nom é um ator periférico na economia latino-americana. No caso brasileiro, a relaçom económica é suficientemente profunda para impor limites materiais a qualquer tentativa de restaurar o alinhamento ideológico do primeiro bolsonarismo com Washington. O agronegócio, precisamente um dos principais suportes sociais da direita, necessita do mercado chinês, enquanto setores industriais e financeiros dependem de umha inserçom internacional diversificada.

Um eventual governo Flávio Bolsonaro encontraria assim umha contradiçom que o primeiro governo do pai já conheceu parcialmente. A afinidade política com Trump empurraria Brasília para um alinhamento maior com Washington, enquanto a estrutura económica dificultaria um rompimento sério com Pequim. Essa contradiçom nom torna irrelevante a mudança presidencial, porque política externa nom se reduz aos fluxos comerciais. Um governo pode conservar exportaçons para China e ao mesmo tempo modificar alianças diplomáticas, política climática, cooperaçom militar, comportamento nos organismos internacionais e a maneira como utiliza as instituiçons do Sul Global.

É precisamente neste ponto que os BRICS se tornam centrais.

Os BRICS e a disputa pela ordem internacional

O agrupamento que começou com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul possui hoje onze membros. Egito, Etiópia, Irám, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita incorporaram-se ao processo de ampliaçom, a Indonésia entrou posteriormente e um conjunto adicional de Estados participa como parceiros. Segundo dados apresentados pola presidência indiana em 2026, os onze membros reúnem cerca de metade da populaçom mundial, aproximadamente 40% do PIB global e mais de um quarto do comércio.

A cimeira de Nova Deli realizada em setembro de 2026 reafirmou a reforma das instituiçons internacionais, maior representaçom do Sul Global e cooperaçom económica e financeira como objetivos do agrupamento. A declaraçom final voltou a apresentar os BRICS como plataforma destinada a construir umha ordem internacional mais representativa e um sistema multilateral reformado, enquanto Narendra Modi sintetizou a reivindicaçom dizendo que o Sul Global continua na primeira fila das crises e na última fila das decisons.

Essas declaraçons nom transformam os BRICS num bloco anti-imperialista. As diferenças entre os seus membros som demasiado profundas para isso. China é umha grande potência capitalista com interesses globais próprios; Índia combina aspiraçons de autonomia estratégica com vínculos importantes com Washington e um nacionalismo interno autoritário; Rússia atua segundo umha lógica de potência que inclui a violaçom da soberania ucraniana; Irám, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos possuem regimes e interesses regionais contraditórios. A multipolaridade também nom é sinónimo de democratizaçom internacional, porque um mundo com mais centros de poder pode conservar hierarquias, dependências e formas de dominaçom.

A importância dos BRICS deve ser procurada noutro lugar. O agrupamento cria espaços nos quais Estados que nom pertencem ao núcleo ocidental podem coordenar posiçons, diversificar financiamento, negociar entre si e contestar parcialmente a distribuiçom de poder consolidada nas instituiçons do pós-guerra. O Novo Banco de Desenvolvimento, criado polos BRICS e presidido por Dilma Rousseff, constitui a materializaçom mais clara dessa estratégia. No final de 2025 tinha aprovado cerca de 42,9 mil milhons de dólares em financiamento para 139 projetos, principalmente em infraestrutura, energia, transportes, água e desenvolvimento sustentável.

A escala continua muito inferior à do Banco Mundial ou das principais instituiçons financeiras multilaterais, mas o significado político reside na possibilidade de construir fontes adicionais de crédito e ampliar o uso de moedas distintas do dólar. A chamada desdolarizaçom deve ser tratada sem fantasias. Nom existe umha moeda comum dos BRICS pronta para substituir o dólar e tampouco existe consenso entre os membros sobre um projeto dessa natureza. O que existe é um processo mais modesto e materialmente relevante de aumento das operaçons em moedas nacionais, diversificaçom dos instrumentos financeiros e tentativa de reduzir vulnerabilidades derivadas da capacidade norte-americana para utilizar o dólar, os sistemas internacionais de pagamento e as sançons financeiras como instrumentos de política externa.

Para o Brasil, os BRICS cumprem outra funçom adicional, porque ampliam o espaço de negociaçom sem obrigar necessariamente a escolher entre China e Estados Unidos. Essa conceçom coincide com o multialinhamento descrito por Stuenkel, mas também apresenta contradiçons dentro do próprio agrupamento. Um estudo de Luis Gouveia Junior sobre a expansom na América Latina mostra que Brasil e China nom possuem interesses idênticos. Pequim favoreceu um crescimento mais amplo do grupo, enquanto Brasília agiu em vários momentos como gatekeeper, receosa de que a incorporaçom indiscriminada de novos membros latino-americanos diminuísse a singularidade brasileira e ampliasse excessivamente a presença chinesa na regiom.

A divergência permite evitar outro simplismo frequente. Participar dos BRICS nom equivale a alinhar-se com China, da mesma maneira que contestar a hegemonia norte-americana nom exige substituir Washington por Pequim. O interesse brasileiro pode consistir precisamente em impedir que qualquer potência disponha de capacidade suficiente para converter dependência económica em disciplina política.

Jones Manoel coloca essa questom num registro mais estrutural quando descreve o Brasil como capitalismo dependente submetido à importaçom tecnológica, à especializaçom primária e à transferência de riqueza para os centros mais avançados. A disputa contemporânea entre Estados Unidos e China em semicondutores, inteligência artificial, 5G, energia, indústria aeroespacial ou veículos elétricos deveria, na sua leitura, obrigar a esquerda brasileira a perguntar qual lugar o país pretende ocupar na divisom internacional do trabalho, em vez de limitar a política externa a escolher parceiros comerciais.

Esta crítica ajuda a colocar os próprios BRICS nos seus limites adequados. O agrupamento pode ampliar a margem externa de um país sem modificar automaticamente a sua dependência tecnológica ou as relaçons de classe que determinam como essa margem é utilizada. Um Brasil que exporta soja, petróleo e minério para China em vez de fazê-lo exclusivamente para o Ocidente nom deixa, só por isso, de ocupar umha posiçom periférica ou semiperiférica na economia mundial.

O problema geopolítico passa, portanto, por transformar multipolaridade em capacidade própria de desenvolvimento e nom apenas em possibilidade de escolher entre compradores.

Entre Caracas e Buenos Aires

A Venezuela, a Argentina e o Brasil permitem observar três modalidades distintas da atual recomposiçom hemisférica sem pretender reduzi-las a um único modelo. Na Venezuela, a assimetria desembocou no emprego direto da força e na captura do chefe de Estado; na Argentina, Milei construiu voluntariamente umha aproximaçom muito profunda com Washington e incorporou essa orientaçom ao seu próprio projeto interno; no Brasil, a disputa permanece aberta porque Lula combina negociaçom com os Estados Unidos, relaçom estratégica com China, pertença aos BRICS e defesa de umha margem própria de decisom.

Morresi destaca que o alinhamento argentino nom é apenas retórico. Mudanças legais que facilitam a arbitragem internacional e a aquisiçom de terras por capital estrangeiro acompanham a aproximaçom política de Milei com Trump, enquanto o apoio norte-americano também produziu retornos concretos para o governo argentino.

O Brasil oferece a Washington outra possibilidade. Flávio Bolsonaro pode chegar ao governo através das próprias urnas e modificar voluntariamente a orientaçom de uma potência regional sem que seja necessária a modalidade coerciva aplicada à Venezuela. Paulo Nogueira Batista Jr. considera precisamente essa combinaçom entre candidatura bolsonarista competitiva e nova política internacional norte-americana um risco excecional para a soberania brasileira, enquanto Mark Weisbrot caracteriza as intervençons da administraçom Trump na campanha como parte de umha operaçom destinada a modificar a orientaçom política do país.

A formulaçom necessita ainda de cautela. Flávio nom poderia converter mecanicamente o Brasil num satélite norte-americano, porque os interesses do agronegócio, a dependência comercial da China, o peso do Itamaraty e a própria complexidade do capitalismo brasileiro impom limites. Mas um alinhamento político mais estreito poderia enfraquecer a cooperaçom Sul-Sul, reduzir o investimento diplomático nos BRICS, mudar a atitude diante da integraçom regional e aproximar o Brasil das políticas norte-americanas de segurança e contençom chinesa.

O resultado teria um efeito que ultrapassaria as fronteiras brasileiras precisamente porque nenhum outro Estado sul-americano combina escala semelhante, participaçom nos BRICS, capacidade diplomática e peso económico suficiente para compensar facilmente essa mudança.

Os BRICS nom substituem a América Latina

Seria um erro, contudo, imaginar que os BRICS resolvem o problema da integraçom latino-americana. Um foro que reúne China, Índia, Rússia, Irám, Arábia Saudita ou África do Sul responde a necessidades distintas das que deveriam orientar um projeto regional.

A América Latina necessita de capacidade própria para articular cadeias industriais, energia, infraestruturas, ciência, tecnologia, transportes, financiamento e soberania alimentar. Se essa capacidade nom existir, cada país continuará relacionando-se com as grandes potências desde posiçons fragmentadas, ainda que disponha de mais alternativas que durante a hegemonia unipolar norte-americana.

Jones Manoel sustenta, desde uma perspetiva classista, que umha verdadeira unidade latino-americana nom poderia limitar-se aos acordos entre elites nacionais e teria de constituir-se desde as classes exploradas e oprimidas. A formulaçom pode ser discutida na sua intensidade, mas toca num problema real que as experiências anteriores de integraçom nom resolveram. Para sobreviver às mudanças presidenciais, um projeto regional necessita produzir interesses sociais e económicos concretos suficientemente fortes para que a sua continuidade deixe de depender exclusivamente de quem governa temporariamente cada capital.

A multipolaridade oferece mais espaço para esse projeto, mas nom o cria. Pode inclusive dificultá-lo se os Estados latino-americanos se limitarem a negociar separadamente com China, Estados Unidos ou Europa e convertirem a concorrência entre potências numha nova forma de dependência diversificada.

A soberania, nesse sentido, nom deveria significar apenas que Brasília possa dizer nom a Washington. Deveria incluir capacidade para decidir sobre tecnologia, crédito, energia, território, recursos minerais, comunicaçom e modelo produtivo. Hirst e González relacionam precisamente soberania, democracia e justiça social porque um Estado pode possuir autonomia diplomática enquanto a maior parte da sua populaçom carece de controlo efetivo sobre as condiçons materiais da própria vida.

Umha barreira necessária sobre um terreno instável

É aqui que o significado de Lula se torna simultaneamente claro e limitado. A sua eventual vitória preservaria um governo que nom aceita o alinhamento automático com Washington, mantém os BRICS como espaço estratégico, procura conservar relaçons com China e Sul Global e representa um obstáculo real à completa incorporaçom da maior potência latino-americana ao campo de Trump.

Nada disso obriga a converter o lulismo num programa suficiente de emancipaçom.

Singer, Ricupero, Araujo e Rugitsky mostram que o terceiro governo Lula conseguiu manter à tona umha democracia atacada polo bolsonarismo e por um ambiente internacional crescentemente autoritário, mas nom conseguiu romper o «mau equilíbrio» no qual a extrema-direita permanece socialmente forte e as políticas transformadoras encontram limites dentro do próprio campo democrático. Safatle chega ao mesmo problema quando pede ao governo que se torne a sua própria oposiçom, recuperando capacidade para produzir conflito programático em vez de apenas administrar a ameaça. Jones Manoel formula a diferença entre tática e estratégia de maneira ainda mais nítida ao defender a derrota eleitoral do bolsonarismo sem abandonar a crítica ao neoliberalismo, à dependência e à perda de horizonte da esquerda.

Esta distinçom é essencial para a América Latina de 2026. Pode haver umha enorme diferença entre as condiçons criadas por um governo progressista moderado e aquelas produzidas por um governo de extrema-direita alinhado com Washington sem que o primeiro deixe de necessitar umha crítica radical desde a esquerda. O erro estaria tanto em estabelecer umha equivalência entre Lula e Flávio como em transformar a diferença real entre ambos no limite máximo da política possível.

O Brasil pode ser umha barreira contra a ofensiva trumpista e continuar assentado sobre um capitalismo agrofinanceiro, dependente tecnologicamente, extremamente desigual e capaz de reproduzir as bases materiais da extrema-direita. Jaldes Meneses interpreta o período posterior a 2016 precisamente como consolidaçom de um novo bloco de poder no qual agronegócio, rentismo, novas finanças e Centrão adquiriram um peso que reduz a capacidade transformadora de qualquer Executivo que governe através da conciliaçom com esses setores.

A existência dessa estrutura explica por que derrotar um candidato nom equivale a derrotar o fenómeno político que o produz.

Mais que a última barreira

Dizer que o Brasil é a última grande barreira à vaga trumpista na América Latina seria literalmente incorreto. México continua sendo um polo de enorme dimensom sob Claudia Sheinbaum e as trajetórias políticas latino-americanas som demasiado instáveis para converter qualquer mapa eleitoral atual numha ordem permanente.

Há, contudo, umha intuiçom correta dentro dessa imagem. O Brasil é hoje a principal dobradiça sul-americana entre um aprofundamento da recomposiçom hemisférica pretendida por Trump e a conservaçom de um espaço no qual outra política regional continua sendo possível.

Umha vitória de Flávio Bolsonaro significaria mais que a chegada de outro governo conservador. Colocaria à frente da principal potência regional um campo político explicitamente identificado com Trump apenas nove meses depois da intervençom militar norte-americana na Venezuela e poucos anos depois da tentativa bolsonarista de impedir a transferência constitucional do poder no próprio Brasil. Ao mesmo tempo, introduziria um aliado de Washington num Estado que possui capacidade material para condicionar o futuro dos BRICS, do Mercosul, da política amazónica e das relaçons latino-americanas com China.

Umha vitória de Lula nom produziria o movimento inverso com a mesma intensidade. Nom restauraria automaticamente a integraçom latino-americana, nom resolveria a crise dos progressismos, nom transformaria os BRICS num projeto emancipador e nom modificaria por si só as relaçons sociais que sustentam a extrema-direita brasileira. Preservaria, porém, margens de autonomia sem as quais todas essas tarefas se tornariam mais difíceis.

É esta assimetria que permite compreender o voto defensivo sem convertê-lo em programa.

O futuro político da América Latina passa polo Brasil porque ali convergem neste momento várias disputas que costumam ser examinadas separadamente. A primeira diz respeito à tentativa norte-americana de reconstruir umha hierarquia hemisférica numha época em que a ascensom chinesa e os BRICS tornam o sistema internacional muito mais plural que durante a Guerra Fria. A segunda enfrenta a extrema-direita transnacional e democracias que continuam incapazes de transformar suficientemente as condiçons sociais das quais essa direita se alimenta. A terceira atravessa a própria esquerda e pergunta se a defesa necessária das instituiçons e da soberania pode transformar-se novamente num projeto de reorganizaçom do trabalho, da propriedade, da tecnologia e do território. A quarta refere-se à capacidade dos países latino-americanos para converter a multiplicaçom dos centros de poder internacionais numha autonomia coletiva em vez de simplesmente diversificar dependências.

Nenhum BRICS resolverá essa questom por eles e nenhum governo Lula poderá resolvê-la sozinho. A existência de alternativas financeiras, comerciais e diplomáticas ao monopólio ocidental amplia, no entanto, o campo em que essa disputa pode ocorrer, enquanto o regresso a umha ordem hemisférica disciplinada por Washington reduziria sensivelmente essa margem.

Depois do Chile, seria ingénuo chamar a tudo isso «influência». Depois da Venezuela, seria ainda mais difícil tratá-lo como hipótese remota. E depois de duas décadas de experiências progressistas, tampouco parece suficiente responder à nova ofensiva imperial restaurando simplesmente as fórmulas que deixaram intactas demasiadas estruturas de dependência e poder.

A eleiçom brasileira nom decidirá qual dessas contradiçons será resolvida, mas pode determinar o terreno em que continuarám abertas. É nesse sentido preciso, e nom porque Brasília possa falar em nome de um continente, que o futuro político da América Latina também passa hoje polo Brasil.

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