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América, Movementos sociais, Politica internacional — 4 Outubro, 2026 at 10:44 a.m.

Brasil vota entre o regresso bolsonarista e os limites do lulismo

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O Brasil vota hoje, 4 de outubro, numha eleiçom que à primeira vista parece repetir a polarizaçom de 2022, embora na realidade mostre quanto mudou o país nesses quatro anos. Jair Bolsonaro está fora da disputa, condenado pola tentativa de subverter o resultado eleitoral que o expulsou da Presidência, mas o bolsonarismo nom desapareceu com ele. Sobreviveu à derrota nas urnas, às investigaçons, à condenaçom do seu principal dirigente e ao fracasso da tentativa golpista, e chega novamente às portas do Palácio do Planalto através de Flávio Bolsonaro, sustentado nom só polo aparelho político, religioso, económico e mediático construído polo pai, mas também por umha rede transnacional da direita radical que encontrou na administraçom de Donald Trump um centro de apoio político cada vez menos discreto. Essa internacional trumpista já nom funciona apenas como comunidade ideológica. A administraçom norte-americana tem apoiado publicamente candidatos alinhados com o movimento MAGA em diferentes países, desde Javier Milei na Argentina até forças da extrema-direita europeia, e o próprio Brasil alertou parceiros franceses e alemáns para aquilo que os seus serviços de informaçom consideram interferência estrangeira no processo eleitoral. Washington nega qualquer intromissom, mas Flávio Bolsonaro apresenta Trump abertamente como aliado e um eventual governo seu significaria um realinhamento profundo da política externa brasileira com os Estados Unidos.

Do outro lado continua Luiz Inácio Lula da Silva. Aos oitenta anos, candidato a um quarto mandato nom consecutivo, Lula enfrenta talvez a eleiçom mais contraditória da sua longa trajetória. Governa um país com desemprego historicamente baixo, aumento do rendimento e melhoria de vários indicadores sociais, mas chega às urnas sem que esses resultados tenham produzido umha maioria política equivalente. As sondagens divulgadas na véspera mantinham-no à frente no primeiro turno, embora com vantagem curta, enquanto as simulaçons de segundo turno mostravam umha disputa praticamente empatada com Flávio Bolsonaro.

Na última jornada de campanha, Lula voltou a definir a escolha como um confronto entre democracia e barbárie, enquanto Flávio recuperava a iconografia paterna das motociatas, da mobilizaçom religiosa e da denúncia de um sistema supostamente capturado polo PT. A formulaçom de Lula tem fundamento num país onde a extrema-direita tentou impedir a transmissom constitucional do poder depois das eleições de 2022, mas torna-se insuficiente quando pretende abranger toda a explicaçom do presente. O Brasil que vota hoje nom está dividido apenas entre democracia e autoritarismo. Está atravessado pola desigualdade, o endividamento das famílias, a transformaçom do trabalho, a insegurança urbana, um Congresso situado muito à direita do Executivo e umha crise mais profunda da capacidade da esquerda para apresentar um horizonte que ultrapasse a administraçom do existente.

Umha economia que melhora sem dissipar a insegurança

O terceiro governo Lula dispõe de resultados económicos e sociais que nom podem ser descartados como mera propaganda eleitoral. O desemprego caiu para mínimos históricos, os rendimentos recuperaram-se, o salário mínimo voltou a crescer acima da inflaçom e a desigualdade recuou. O crescimento económico também resistiu melhor do que antecipavam vários prognósticos e permitiu ao governo reconstruir parte das políticas sociais enfraquecidas durante o período Bolsonaro.

A experiência quotidiana de milhons de trabalhadores, porém, nom acompanha mecanicamente essa melhoria dos agregados. Um emprego pode existir sem oferecer estabilidade suficiente, o rendimento pode aumentar enquanto a dívida absorve boa parte do acréscimo e a desaceleraçom da inflaçom impede que os preços continuem aumentando ao mesmo ritmo sem devolver os alimentos, a habitaçom ou os serviços aos valores anteriores.

É nessa diferença entre indicador económico e reproduçom concreta da vida que se encontra umha das debilidades centrais do governo. O mercado de trabalho brasileiro continua atravessado pola informalidade, pola terceirizaçom, polo trabalho em plataformas digitais e por formas de autoexploraçom apresentadas como empreendedorismo. O emprego aumentou sem que isso tenha significado o desaparecimento da precariedade, enquanto o crédito se tornou mecanismo ordinário para completar rendimentos insuficientes.

A sociedade brasileira chega assim às urnas com umha combinaçom que pode parecer contraditória apenas quando observada desde as estatísticas agregadas. Há mais emprego, mas continua havendo insegurança. Há melhoria dos salários, mas também elevado endividamento. Há crescimento económico, mas nom necessariamente umha perceçom generalizada de progresso social. Essa discrepância ajuda a compreender por que Lula nom converte automaticamente os bons resultados económicos em apoio eleitoral. A direita encontrou no intervalo entre a macroeconomia e a economia doméstica um terreno privilegiado para reorganizar o descontentamento, apresentando cada dificuldade particular como manifestaçom de umha mesma desordem atribuível ao PT.

O bolsonarismo converte mal-estar em identidade

Flávio Bolsonaro nom necessita oferecer umha explicaçom coerente para o conjunto das contradiçons económicas brasileiras se consegue reuni-las afetivamente em torno de um inimigo. O preço dos alimentos, a dívida, um assalto, a insegurança urbana, um escândalo de corrupçom, as mudanças culturais ou a sensaçom de perda de controlo podem ter causas diferentes e, contudo, terminar integrados numha narrativa na qual Lula, o PT e as instituiçons supostamente dominadas pola esquerda aparecem como responsáveis por todos eles.

O antipetismo funciona neste sentido menos como um programa do que como um princípio de ordenaçom da experiência social. A eficácia política da extrema-direita consiste precisamente em converter inseguranças dispersas numha identidade comum e oferecer a pertença política como resposta à perda de controlo sobre a própria vida.

A campanha de 2026 mostra também que o bolsonarismo aprendeu a sobreviver aos factos que deveriam desacreditá-lo. Quando a identificaçom política precede a avaliaçom dos acontecimentos, umha investigaçom pode ser interpretada como perseguiçom, um processo judicial como prova de que o sistema teme o acusado e umha condenaçom como confirmaçom do martírio. A extrema-direita consegue assim incorporar a própria refutaçom no relato que pretende refutar.

Essa capacidade explica em parte por que Jair Bolsonaro pôde desaparecer da candidatura sem arrastar consigo o movimento. Flávio recebeu a sucessom política do pai, mas herdou muito mais do que um apelido. Recebeu um ecossistema composto por parlamentares, governadores, igrejas, empresários, influenciadores, setores das polícias e das forças militares, redes digitais e umha relaçom orgânica com partes do agronegócio. A Reuters descreveu como Jair Bolsonaro transferiu explicitamente ao filho a liderança eleitoral, mas a verdadeira transmissom já tinha acontecido antes, quando o bolsonarismo deixou de depender exclusivamente do carisma pessoal do fundador.

A dimensom internacional reforça agora essa autonomia. O campo bolsonarista integra-se num espaço político que liga Washington, Buenos Aires e as novas direitas europeias, com circulação de discursos, estratégias digitais, empresários, organizaçons conservadoras e referências políticas comuns. A administraçom Trump rompeu inclusive parte das cautelas tradicionais da diplomacia norte-americana ao apoiar de maneira aberta forças consideradas ideologicamente próximas em outros países. A Reuters descreve essa política como um afastamento das normas históricas dos Estados Unidos e situa explicitamente o Brasil entre os cenários onde esse apoio suscita acusaçons de interferência. O bolsonarismo de 2026 é, portanto, simultaneamente brasileiro e transnacional. A direita radical construiu raízes próprias na sociedade brasileira ao mesmo tempo que se integra numha internacional política que lhe oferece legitimaçom, recursos simbólicos e, em determinados casos, apoio diplomático e económico.

A moralidade selectiva do bolsonarismo

Há ainda umha contradiçom menos abstrata na campanha moral de Flávio Bolsonaro. Benjamin Fogel, parafraseando o sociólogo Celso Rocha de Barros, descreve-o como representante de umha constelaçom onde convergem o lobby dos jogos de azar, interesses ligados ao escândalo bancário do Master, as redes políticas construídas em Miami em torno do trumpismo, personagens investigadas polos desvios da seguridade social e velhas relaçons do bolsonarismo carioca com universos atravessados polas milícias e polo crime organizado. A formulaçom é deliberadamente polémica, mas aponta para conexons que a campanha nom conseguiu desfazer.

Flávio criticou a proibiçom das apostas decretada por Lula e defendeu a continuidade das apostas desportivas sob regulaçom, enquanto influenciadores ligados ao trumpismo difundiam propaganda paga que combinava a sua candidatura com a plataforma de apostas Polymarket. Ao mesmo tempo, admitiu depois de negá-la a sua relaçom com Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, a quem solicitara recursos para financiar o filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro. O banqueiro acabou destinando dezenas de milhons de reais ao projeto, num caso ainda investigado e cujos fluxos financeiros atravessaram os Estados Unidos. Flávio também saiu em defesa de Willer Tomaz, amigo pessoal e figura de grande influência em Brasília que a Polícia Federal investiga no esquema de fraudes do INSS e cujas movimentaçons bilionárias em plataformas de apostas passaram igualmente a ser objeto de apuraçom.

As antigas relaçons com o universo das milícias do Rio completam um quadro especialmente desconfortável para um candidato cuja principal mercadoria eleitoral é precisamente a ordem. A trajetória de Flávio inclui vínculos políticos e pessoais com Adriano da Nóbrega e outros personagens desse meio, enquanto investigaçons mais recentes situaram aliados seus próximos de estruturas criminosas do Rio. Nenhum desses elementos permite converter por inferência o próprio candidato em autor dos crimes atribuídos a terceiros, mas todos tornam difícil aceitar sem mais a autorrepresentaçom de um político exterior ao sistema que promete restaurar a legalidade perdida.

É precisamente aí que a campanha de «valores» adquire a sua dimensom material. Flávio pode defender família, religiom, ordem e puniçom ao mesmo tempo que constrói alianças entre interesses financeiros opacos, negócios de apostas, redes conservadoras transnacionais e personagens investigadas por esquemas que atingiram aposentados e recursos públicos. A aparente contradiçom dissolve-se quando se percebe que a moralidade da nova direita nom funciona como regra universal, mas como mecanismo de identificaçom política. Os valores som exigidos aos adversários e utilizados para delimitar quem pertence à comunidade dos «bons», enquanto as transgressons dos próprios aliados podem ser reinterpretadas como perseguiçom, conspiraçom judicial ou simples preço da guerra contra a esquerda.

A eficácia dessa operaçom ajuda a explicar por que um candidato rodeado por casos que deveriam ser devastadores consegue apresentar-se simultaneamente como restaurador da ordem e aproximar-se da Presidência. O bolsonarismo nom elimina a contradiçom entre moralismo público e redes de poder pouco edificantes. Transformou-a numha das condiçons do seu funcionamento.

A pergunta que a esquerda nom pode evitar

Se o bolsonarismo conseguiu sobreviver à derrota de 2022, ao fracasso do golpe e à condenaçom de Jair Bolsonaro, a questom deixa de ser apenas como combatê-lo eleitoralmente e passa a incluir as condiçons que lhe permitem continuar encontrando base social.

A explicaçom que atribui a extrema-direita exclusivamente à desinformaçom, às igrejas evangélicas, ao agronegócio, às plataformas digitais ou à ingerência estrangeira identifica elementos reais, mas nom explica suficientemente por que esses dispositivos conseguem interpelar milhons de pessoas que vivem do próprio trabalho.

É precisamente neste ponto que a crítica do Partido Comunista Brasileiro se torna relevante, mesmo que o peso eleitoral da sua candidatura seja pequeno. O PCB concorre com Edmilson Costa e Cleusa Santos e recusa antecipar no primeiro turno a escolha binária entre Lula e Flávio Bolsonaro. Edmilson Costa respondeu expressamente à tese de Breno Altman de que qualquer voto noutra candidatura de esquerda ajudaria objetivamente o bolsonarismo, defendendo que o primeiro turno existe precisamente para confrontar projetos diferentes e permitir a apresentaçom de alternativas para além da polarizaçom dominante.

A posiçom nom implica estabelecer equivalência entre Lula e Bolsonaro. O PCB reconhece a natureza reacionária e neofascista do bolsonarismo, mas considera que o terceiro governo Lula permanece submetido a umha estratégia de conciliaçom de classes que combina políticas sociais efetivamente favoráveis aos setores populares com a preservaçom das estruturas fundamentais de poder do capital financeiro, do agronegócio e das grandes empresas.

O programa comunista propom precisamente romper essa compatibilidade através da estatizaçom do sistema financeiro e de setores estratégicos, da reduçom da jornada de trabalho, da ampliaçom radical dos serviços públicos, da reforma agrária e da construçom de formas de poder popular. A candidatura tem umha dimensom eleitoral reduzida, mas coloca sobre a mesa umha pergunta que o lulismo prefere frequentemente deslocar. A questom nom é apenas saber quanto melhorou a vida dos trabalhadores, mas também determinar quem conservou o poder económico para definir os limites dessa melhoria.

A crítica comunista incide assim sobre um problema que atravessa toda a experiência progressista latino-americana. Os governos podem redistribuir rendimento, ampliar direitos e melhorar serviços sem modificar decisivamente a estrutura da propriedade, o poder financeiro, a concentraçom mediática ou as relaçons entre capital e trabalho. Enquanto a conjuntura permite crescimento e expansom fiscal, essa combinaçom pode produzir maiorias relativamente amplas. Quando as margens se estreitam, as classes dominantes conservam os instrumentos fundamentais de pressom enquanto as classes populares podem descobrir que as conquistas obtidas nom se converteram em força política autónoma suficiente para as defender ou aprofundar.

Safatle e a esquerda que deixou de representar a mudança

Vladimir Safatle formula a crítica por outra via e desloca a atençom da política económica para a própria imaginaçom política da esquerda. Ao caracterizar a campanha como umha das mais apáticas e despolitizadas da história recente brasileira, sustentou que Lula só poderia alterar a dinâmica eleitoral se o seu governo fosse capaz de se tornar, em certo sentido, a sua própria oposiçom, produzindo um conflito programático que rompesse a rotina administrativa.

O problema levantado por Safatle ajuda a compreender um deslocamento histórico mais amplo. Lula chegou à Presidência em 2002 representando para milhons de brasileiros a possibilidade de mudança social. Em 2018 foi Bolsonaro quem conseguiu apropriar-se, de maneira reacionária, da linguagem da rutura, apresentando-se como candidato contra um sistema do qual o seu próprio programa económico favoreceria alguns dos setores mais poderosos. Em 2026, Lula apresenta-se sobretudo como garantia de proteçom perante um eventual regresso da extrema-direita. Essa funçom defensiva é politicamente indispensável quando o adversário pertence a um movimento que tentou subverter o resultado eleitoral, mas existe umha distância profunda entre mobilizar umha sociedade em torno da transformaçom e mobilizá-la para impedir um retrocesso. A política pode conservar durante algum tempo a capacidade de produzir maiorias através do medo de algo pior, embora dificilmente reconstrua dessa maneira um horizonte emancipador.

Safatle tem insistido também no silêncio produzido em torno da crise ecológica, mostrando como parte da esquerda brasileira continua presa a um desenvolvimentismo que identifica crescimento económico com progresso e evita enfrentar as relaçons entre expansom produtiva, devastaçom territorial e emergência climática. A crítica é particularmente significativa num país onde a Amazónia, a mineraçom, as secas, as grandes enchentes e os conflitos sobre a terra já nom constituem questons setoriais, mas elementos centrais da própria reproduçom social.

Singer e a contradiçom da frente democrática

André Singer chega a um diagnóstico parcialmente convergente sem abandonar a estratégia da frente democrática. Para o antigo porta-voz de Lula e principal teórico do lulismo, a coligaçom ampla que derrotou Bolsonaro continua sendo necessária diante de umha direita radical que nom desapareceu, mas a permanência nessa frente nom deveria obrigar a esquerda a deixar de defender um programa próprio.

A dificuldade encontra-se na própria composiçom social da aliança. Nela convivem trabalhadores que necessitam de melhores salários, investimento público, proteçom social e ampliaçom dos serviços universais com setores empresariais interessados na austeridade fiscal, na disciplina do gasto e na preservaçom de mecanismos económicos que restringem precisamente essas políticas. Singer considera que a organizaçom autónoma dos trabalhadores e a crítica à política económica neoliberal continuam sendo indispensáveis para impedir que a frente democrática se transforme simplesmente num dispositivo de contençom da extrema-direita.

Safatle, Singer e o PCB nom defendem a mesma estratégia, mas convergem num problema que ultrapassa as suas diferenças. A derrota eleitoral do fascismo nom garante a eliminaçom das condiçons que o produzem, e um campo progressista que se limite a reconstruir periodicamente umha coligaçom de emergência contra a extrema-direita corre o risco de ficar sempre dependente do perigo que pretende eliminar.

O Congresso desloca os limites do governo

A capacidade transformadora de qualquer governo brasileiro depende, além disso, de umha correlaçom institucional muito diferente daquela que existia durante os primeiros mandatos de Lula. O Congresso apropriou-se nas últimas décadas de parcelas crescentes do orçamento e ampliou a sua capacidade de condicionar a política económica e social, ao mesmo tempo que o Centrão converteu a negociaçom de emendas, cargos e recursos territoriais num mecanismo permanente de governabilidade.

O problema nom reside apenas no oportunismo parlamentar. O Congresso expressa materialmente interesses sociais que possuem enorme capacidade de organizaçom. O agronegócio, as igrejas conservadoras, os setores vinculados às forças de segurança e diferentes fraçons empresariais dispõem de bancadas capazes de condicionar qualquer governo, mesmo quando a Presidência é conquistada pola esquerda.

Lula encontra-se assim perante um círculo difícil de romper. Precisa de alianças conservadoras para governar, mas quanto maior é a dependência dessas alianças menor se torna a possibilidade de realizar reformas que modifiquem a correlaçom social de forças; e quanto menos se modifica essa correlaçom, mais fortes permanecem os setores com os quais o governo é obrigado a negociar.

A eleiçom de hoje nom decide por isso apenas a Presidência. A renovaçom de toda a Câmara e de dois terços do Senado pode condicionar decisivamente a margem de atuaçom do próximo governo, especialmente quando o PL e outras forças da direita procuram ampliar a representaçom parlamentar e reforçar a pressom sobre o Supremo Tribunal Federal.

Representar outros conflitos

É também no Parlamento que aparece umha das experiências políticas mais interessantes desta campanha, protagonizada polo crescimento das candidaturas indígenas e por movimentos que pretendem levar para as instituiçons conflitos que a política brasileira costuma subordinar aos interesses do agronegócio, da mineraçom e da grande propriedade.

A ideia de «aldear a política» nom se reduz a aumentar simbolicamente a diversidade parlamentar. Introduz no debate o território, a água, a soberania alimentar, o desmatamento, a saúde comunitária e os direitos coletivos, questionando a separaçom tradicional entre questom ambiental e questom social. Esse deslocamento converge com a crítica ecossocialista de Safatle. Perguntar se o PIB cresce torna-se insuficiente quando nom se pergunta também que atividades crescem, quem se apropria dos resultados, que territórios pagam o custo e que formas de vida som destruídas para sustentar esse crescimento.

A questom ecológica introduz deste modo outro limite na velha imaginaçom desenvolvimentista da esquerda e obriga a reconsiderar o próprio significado da transformaçom social num país onde os principais conflitos ambientais coincidem frequentemente com conflitos de classe, de raça e de propriedade territorial.

O medo como programa

Flávio Bolsonaro responde às inseguranças sociais a partir de outro repertório. A sua campanha concede centralidade à criminalidade, ao endurecimento penal, à expansom das prisons e ao fortalecimento das forças policiais, retomando umha fórmula histórica da direita latino-americana que converte problemas sociais complexos em questons de autoridade.

A eficácia eleitoral desta política nom depende necessariamente da capacidade de diminuir estruturalmente a violência. O seu atrativo reside em oferecer umha causalidade simples num mundo vivido como desordenado. O crime deixa de aparecer ligado à desigualdade urbana, aos mercados ilícitos, à segregação territorial, à violência policial, ao encarceramento massivo ou à ausência de serviços públicos, e passa a ser apresentado como consequência da fraqueza do Estado diante de indivíduos perigosos.

Quando o diagnóstico é reduzido à falta de autoridade, a soluçom autoritária deixa de parecer autoritária e passa a apresentar-se como proteçom. A direita consegue assim converter o medo numha procura de poder punitivo e transforma a insegurança social em consentimento para ampliar a coerçom estatal.

Um Brasil inserido na disputa internacional

A eleiçom ocorre ainda num momento de reorganizaçom política da América Latina e de crescente intervençom da administraçom Trump nas disputas internacionais. Lula representa hoje um dos poucos grandes governos latino-americanos que conserva umha orientaçom relativamente autónoma de Washington, mantém umha relaçom estratégica com a China e atribui aos BRICS um papel central na construçom de maior margem de soberania internacional.

Flávio Bolsonaro oferece a orientaçom inversa e apresenta Trump como aliado político, enquanto o governo norte-americano tem demonstrado disposiçom para apoiar forças ideologicamente próximas no exterior. A Reuters informou que responsáveis brasileiros transmitiram a representantes franceses e alemáns a existência de indícios que, segundo a inteligência brasileira, apontariam para interferência dos Estados Unidos e também da Rússia no processo eleitoral, num contexto em que Washington tem assumido publicamente o apoio a candidatos alinhados com o trumpismo em diferentes países. Os Estados Unidos negam estar interferindo nas eleições brasileiras.

A internacional trumpista fornece assim um contexto indispensável para compreender a atual extrema-direita brasileira. Bolsonaro nom foi apenas um fenómeno nacional exportado para outros lugares, nem Trump é simplesmente um modelo externo imitado no Brasil. Formou-se um espaço transnacional onde circulam estratégias, quadros ideológicos, técnicas de mobilizaçom digital, redes empresariais e formas comuns de combate às instituiçons liberais quando estas limitam o exercício do poder da direita radical. A crítica anti-imperialista do PCB amplia esta discussom ao sustentar que a soberania brasileira nom se esgota numha política externa diplomaticamente autónoma e deveria incluir a reduçom da dependência financeira, tecnológica e produtiva do capital internacional. Essa crítica pode considerar insuficiente a estratégia de Lula sem por isso eliminar a diferença qualitativa entre um governo que procura conservar margens de autonomia e um projeto bolsonarista explicitamente alinhado com Washington.

A democracia como condiçom e nom como programa completo

A frase de Lula sobre a escolha entre democracia e barbárie conserva, portanto, um núcleo incontornável. A candidatura de Flávio Bolsonaro é herdeira de um movimento que nom aceitou a derrota eleitoral de 2022 e cuja principal figura foi condenada por conspirar contra a ordem constitucional. A diferença entre os dois campos nom necessita ser artificialmente reduzida para formular umha crítica de esquerda ao governo. A dificuldade começa precisamente quando a defesa da democracia se converte no limite máximo da imaginaçom política. O PCB insiste em que a luta contra o neofascismo nom deveria suspender a autonomia política dos trabalhadores nem converter a conciliaçom de classes em estratégia permanente. Safatle adverte que a simples defesa do existente deixa à extrema-direita a linguagem da rutura. Singer procura preservar a frente democrática sem dissolver nela o programa da esquerda.

As três perspetivas partem de tradiçons distintas, embora apontem para um problema comum. A democracia constitui umha condiçom imprescindível para qualquer processo emancipador, mas nom pode substituir o próprio conteúdo da emancipaçom.

Bolsonaro encontrou sucessor, Lula ainda nom

Há finalmente umha assimetria que pesa sobre toda a eleiçom e ultrapassa o resultado deste domingo. O bolsonarismo demonstrou que pode reproduzir-se sem Jair Bolsonaro, enquanto o lulismo ainda nom demonstrou capacidade equivalente para existir sem Lula.

A extrema-direita produziu um ecossistema de dirigentes, governadores, parlamentares, influenciadores, igrejas e organizações que pode substituir parcialmente a figura fundadora. A esquerda institucional continua extraordinariamente dependente de um dirigente que chegou pela primeira vez à Presidência em 2002 e que, quase um quarto de século depois, permanece como o único candidato capaz de reunir todo o campo progressista e parte do centro liberal. Essa dependência nom é apenas um problema geracional. Revela umha dificuldade de organizaçom e de produçom de novas lideranças sociais. Quanto maior se torna a ameaça da extrema-direita, mais indispensável aparece Lula; e quanto mais indispensável aparece Lula, menos urgente parece construir aquilo que deverá substituí-lo. A estabilidade imediata reproduz dessa maneira a fragilidade futura. 

A história recente permite perceber a mudança. Em 2002, Lula condensava a esperança de transformar o país. Em 2018, Bolsonaro conseguiu apropriar-se perversamente da ideia de rutura e apresentou um programa profundamente favorável às elites económicas como se fosse umha rebeliom popular contra o sistema. Em 2026, Lula representa sobretudo a defesa das conquistas sociais, da institucionalidade democrática e de umha política externa relativamente autónoma, enquanto Flávio promete restaurar o ciclo interrompido pola derrota do pai. 

A crítica que vem da esquerda acrescenta um terceiro horizonte ao recusar que a política brasileira fique indefinidamente limitada à escolha entre conservar o possível e impedir o pior. É aí que se encontram, apesar das diferenças entre eles, a candidatura comunista, a crítica de Safatle à despolitizaçom, a defesa de Singer de umha frente democrática com autonomia de classe e as novas experiências indígenas e ecossociais que tentam alterar os próprios termos da disputa.

As urnas deste domingo dirám quanto resta da capacidade de Lula para organizar umha maioria, quanto do bolsonarismo consegue sobreviver sem Jair e que correlaçom parlamentar encontrará o próximo presidente. Também mostrará até que ponto a nova extrema-direita brasileira pode aproveitar o apoio da constelaçom trumpista internacional para voltar ao governo apenas quatro anos depois de ter tentado permanecer nele contra o resultado das urnas. Se houver um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, o dilema democrático adquirirá novamente umha forma mais simples e brutal, porque a distância entre um governo de conciliaçom social-liberal e um movimento proveniente de umha tentativa golpista impede qualquer equivalência politicamente séria. Reconhecer essa diferença, contudo, nom encerra a discussom da esquerda, mas situa o ponto a partir do qual ela deveria começar.

O problema brasileiro continuará existindo depois da contagem dos votos porque a derrota de Jair Bolsonaro nom significou a derrota do bolsonarismo e umha eventual derrota de Flávio tampouco eliminará as condiçons sociais que permitem a sua reproduçom. Enquanto a precariedade, a dívida, a desigualdade, a concentraçom da propriedade e a perda de controlo sobre a própria vida continuarem a produzir medo e ressentimento, haverá forças dispostas a transformar essas experiências em autoritarismo. O Brasil que derrotou Bolsonaro ainda nom derrotou o bolsonarismo.

A dificuldade histórica da esquerda brasileira encontra-se precisamente nesse ponto. Nom basta escolher a democracia contra a barbárie sempre que a barbárie reaparece nas urnas. É necessário construir dentro da democracia as forças sociais capazes de fazer com que ela deixe de funcionar apenas como trincheira defensiva e volte a significar para as maiorias a possibilidade concreta de transformar a vida.

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