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Literatura, Livros — 1 Outubro, 2026 at 12:28 p.m.

Antón Cortizas será padrinho da IV edição do Dia da Criança Galegofalante em Ferrol

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O escritor, mestre e investigador ferrolano pronunciará o pregão da jornada, organizada por Brincarmos, no sábado 3 de outubro, no Centro Cívico de Canido

O centro cívico comezou a funcionar no ano 2017 e leva o nome do poeta XoséMaría Pérez Parallé

O escritor, mestre e investigador do jogo tradicional Antón Cortizas será o padrinho da IV edição do Dia da Criança Galegofalante, que terá lugar no sábado, 3 de outubro, no Centro Cívico de Canido, em Ferrol. O autor, nascido precisamente no bairro de Canido, pronunciará às 16h00 o pregão que abrirá a programação da tarde desta celebração familiar, comunitária e reivindicativa.

A escolha de Antón Cortizas como padrinho da iniciativa constitui um reconhecimento à sua extensa trajetória ao serviço da infância, da língua galega, da educação e da recuperação do património cultural imaterial. Autor de mais de trinta obras, galardoado com prémios como o Merlín e o Barco de Vapor, Cortizas é uma das figuras de referência da literatura infantil e juvenil galega e um dos principais investigadores dos jogos e brinquedos tradicionais do país.

Organizado por Brincarmos —o grupo de famílias da Associação Cultural Artábria—, o Dia da Criança Galegofalante pretende reunir famílias de toda a comarca numa jornada de convívio, jogo, criação e música em galego. A iniciativa defende o direito das crianças a crescerem e socializarem na língua do país e procura criar espaços estáveis de encontro onde o galego seja uma língua viva de amizade, aprendizagem, imaginação e diversão.

Uma voz essencial da cultura infantil galega

Nascido em Ferrol, a 16 de outubro de 1954, Antón Cortizas construiu ao longo de quatro décadas uma obra particularmente rica e diversa, na qual convivem narrativa infantil e juvenil, poesia, teatro, investigação etnográfica e recolha de tradição oral. A sua experiência como mestre marcou profundamente uma escrita que confia na inteligência, na sensibilidade e na capacidade criadora das crianças.

Desde os seus primeiros títulos, Cortizas destacou-se por uma literatura que não reduz a infância a um público passivo. Pelo contrário, os seus livros apresentam meninas e meninos capazes de imaginar, perguntar, inventar, transformar o real e desafiar as limitações impostas pelo mundo adulto. A sua obra combina humor, oralidade, jogo verbal, ternura, fantasia e um profundo conhecimento da cultura popular galega.

Entre os seus títulos narrativos mais conhecidos encontram-se Memorias dun río, O conto dos sete medos, A bruxa sen curuxa, Os gritos das Illas Lobeiras, A merla de trapo e Leonel. A sua produção recebeu importantes distinções: venceu por três vezes o Prémio O Barco de Vapor e obteve, entre outros reconhecimentos, o Prémio Merlín de Literatura Infantil. A dimensão e qualidade da sua escrita favoreceram também a tradução de diversas obras para línguas como o castelhano, o catalão, o basco, o italiano e o grego.

“O lapis de Rosalía”: a imaginação como direito

Entre os livros mais emblemáticos de Antón Cortizas destaca-se O lapis de Rosalía, uma narrativa delicada e poética protagonizada por uma menina de seis anos que possui um lápis muito especial. Quando a professora dita frases convencionais, o lápis escreve outras, mais livres, surpreendentes e imaginativas.

O livro propõe uma defesa luminosa da criatividade infantil e da liberdade de expressão. O lápis de Rosalía torna-se uma metáfora da voz própria das crianças: uma voz que não se conforma com repetir fórmulas pré-estabelecidas e que reivindica o direito de nomear o mundo de maneira singular. É uma obra de grande valor para a educação linguística e literária, porque convida a reconhecer que aprender uma língua também é descobrir possibilidades de criação, jogo e pensamento.

A escolha de Cortizas como padrinho do Dia da Criança Galegofalante dialoga diretamente com esse universo: promover o galego entre a infância não significa apenas transmiti-lo como património, mas garantir que possa ser vivido como língua de invenção, relação, afeto e liberdade.

Recuperar os jogos para recuperar a comunidade

A contribuição de Antón Cortizas para a cultura galega vai muito além da criação literária. Através de obras como Chirlosmirlos. Enciclopedia dos xogos populares e Tastarabás. Enciclopedia de brinquedos tradicionais, realizou um extraordinário trabalho de recolha, classificação e divulgação do património lúdico galego.

Chirlosmirlos reúne mais de quatrocentos jogos populares, apresentando regras, variantes, cantigas e modos de participação. A obra recupera brincadeiras transmitidas de geração em geração e devolve-lhes utilidade pedagógica e social, propondo-as como ferramentas de encontro entre crianças, famílias e comunidades.

Em Tastarabás, Cortizas aprofunda esse caminho com uma investigação de grande alcance dedicada aos brinquedos tradicionais. A obra documenta brinquedos construídos com materiais simples e acessíveis —madeira, arame, canas, latas, cordas, chapas ou papel— e recupera conhecimentos práticos ligados à criatividade, à autonomia e ao aproveitamento dos recursos disponíveis.

Estes livros mostram que o jogo tradicional não é apenas uma recordação nostálgica. É uma forma de cultura viva: cria relações entre pares, promove a cooperação, estimula a imaginação e transmite vocabulário, cantigas, gestos e memórias em galego. A investigação de Cortizas demonstra que brincar é também uma maneira de aprender, habitar o território e construir comunidade.

Um padrinho para uma festa em galego

A participação de Antón Cortizas como padrinho da IV edição do Dia da Criança Galegofalante tem, por isso, uma forte dimensão simbólica. A sua trajetória reúne precisamente os elementos que dão sentido à jornada: a defesa da infância, a centralidade da língua galega, o valor educativo do jogo, a importância da criação artística e a recuperação da memória coletiva.

Cortizas integrará assim o grupo de padrinhos e madrinhas que apoiaram esta celebração em anos anteriores, entre os quais se encontram Paula Carballeira, Ánxela Loureiro e Sabela Díaz. No seu pregão, às 16h00, o escritor dará início à programação da tarde, colocando a palavra, a imaginação e o jogo no centro da festa.

Programa para todas as idades

A IV edição do Dia da Criança Galegofalante decorrerá ao longo de todo o dia, com entrada livre e gratuita para as atividades. A programação começará às 12h00 com um atelier de elaboração de instrumentos de percussão tradicional, orientado pelo artesão naronês Emilio Romero Fabal, conhecido como SirFabal. A proposta convida as crianças a construírem os seus próprios instrumentos com materiais acessíveis, aproximando-as da criação manual e do património musical galego.

Às 13h30, o quarteto Catropea animará a sessão vermute com uma proposta musical que combina ritmos balkan, ska e rumba. Às 14h30 haverá jantar popular, concebido como espaço comunitário de partilha. A reserva pode ser feita através do telefone 646 068 586 ou do correio eletrónico brincarmos@gmail.com.

Depois do pregão de Antón Cortizas, às 16h00, o palco acolherá às 16h30 o Festival Micro Aberto Infantil, destinado a que as próprias crianças partilhem canções, contos ou música em galego. Às 17h00 atuará Gael Ares, jovem músico de Fene e vencedor do certame Quero Cantar na categoria infantil.

A programação continuará às 18h00 com o espetáculo do Mago Dani García, ilusionista de Neda, que combinará magia, comédia, teatro gestual e narração oral. A jornada encerrará às 19h30 com um concerto a solo de MJ Pérez, uma das vozes consolidadas da música galega contemporânea e vencedora do Prémio Martín Códax.

Língua, memória e solidariedade

O Dia da Criança Galegofalante conjuga a dimensão festiva com um compromisso claro com os direitos da infância, a dignidade linguística e a solidariedade entre povos. O cartaz desta quarta edição apresenta uma menina galegofalante fazendo o sinal da vitória e usando ao pescoço um lenço palestiniano, símbolo da solidariedade com as crianças e os povos que sofrem situações de injustiça.

A iniciativa recupera também a memória do comício realizado a 4 de outubro de 1908, em Serantes, Ferrol, no qual Rodrigo Sanz e Lugrís Freire empregaram o galego, pela primeira vez na comarca, numa intervenção de caráter político e sindical. A celebração liga, assim, a transmissão intergeracional da língua à história da dignidade popular e da defesa coletiva dos direitos sociais.

Brincarmos convida todas as famílias da comarca a participarem numa jornada pensada para tecer redes, fortalecer a comunidade e fazer do galego uma língua presente na vida quotidiana das crianças. Como salienta o coletivo, para que o galego floresça não basta que seja língua materna: é necessário que seja também língua fraterna, de socialização, jogo e aprendizagem entre pares.

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