Enquanto a substituição do galego atinge níveis críticos, PP e PSdeG apresentam como novo consenso uma política que continua a administrar como equilíbrio a desigualdade entre a língua própria e a língua dominante. Após décadas de governo das instituições galegas e estatais, as forças que tiveram capacidade para intervir sobre este processo pactuam agora os limites da sua recuperação. O problema já não é apenas quanto galego cabe na escola, mas se uma sociedade pode reverter uma história de colonialidade linguística quando continua tratando como simétricas duas línguas que a realidade tornou profundamente desiguais. Porém, a Xunta adica, aproximadamente, 0,09% do orçamento autonómico

O galego não atravessa uma dificuldade conjuntural. Não estamos perante uma oscilação passageira nos hábitos linguísticos, nem diante de uma sociedade bilingue que muda serenamente a proporção em que utiliza cada uma das suas línguas. Os dados oficiais descrevem um processo moito mais grave. O galego perde falantes, perde transmissão familiar, perde presença entre crianças e jovens e perde capacidade para reproduzir a sua comunidade linguística. Em 2023 apenas 7,04% das crianças entre 5 e 14 anos falavam sempre galego. Outro 9,15% utilizava mais galego que castelhano. Mais da metade, 53,67%, falava sempre castelhano. Vinte anos antes, em 2003, 27,10% das crianças dessa idade falavam sempre galego e 34,17% sempre castelhano. A evolução não descreve duas línguas que trocam posições aleatoriamente. Descreve uma transferência continuada numa direção determinada.
A fratura geracional permite vê-lo ainda melhor. Entre os maiores de 65 anos, 67,92% utiliza sempre ou predominantemente galego. Entre os jovens de 15 a 29 anos a proporção cai para 28,18%. Entre os menores de 15 anos fica em 16,19%.
Não é apenas uma redução quantitativa. Está a debilitar-se o mecanismo que permite que uma língua continue existindo como língua social e não apenas como património cultural. A transmissão para a geração seguinte.
A Real Academia Galega formulou o diagnóstico sem a retórica tranquilizadora que durante anos acompanhou a política linguística oficial. Em dezembro de 2024 afirmou que o processo de substituição do galego adquirira neste século um «ímpeto extraordinário» e que a queda do uso, especialmente entre as novas gerações, colocava em grave risco a continuidade do idioma. A Academia atribuiu uma responsabilidade especial a quem governa e dispõe dos instrumentos de intervenção e planificação.
É perante esta realidade que PPdeG e PSdeG apresentam o seu acordo para atualizar o Plano Geral de Normalização da Língua Galega.
Há mudanças que aparentam corrigir decisões anteriores dificilmente justificáveis. Desaparece a proibição de ministrar em galego Matemáticas, Tecnologia, Física e Química. Haverá mecanismos de avaliação, um novo Conselho Assessor da Língua Galega, medidas nos meios, na formação profissional e no âmbito digital e um incremento anunciado dos recursos disponíveis. Negar qualquer relevância a estas medidas não tornaria a crítica mais sólida.
A questão é outra.
O pacto não modifica claramente a arquitetura política que durante estes anos organizou o ensino em torno de uma presumida equivalência entre galego e castelhano. Mantém como princípio uma distribuição de 50% das matérias não linguísticas em galego nos centros bilingues. O PP interpreta o acordo de maneira ainda mais restritiva. Se um centro escolher ministrar em galego Matemáticas, Tecnologia, Física e Química, deverá passar para castelhano Ciências Sociais, Geografia e História, Ciências da Natureza, Biologia e Geologia. Recuperar umas matérias não significaria, portanto, ganhar presença para o galego, mas deslocá-la de um bloco para outro.
Poucas horas depois da assinatura, o PSdeG sustentava que essa organização por blocos não figurava no acordo e insistia em que, para os de Besteiro, o 50% devia constituir um mínimo e não um máximo. A divergência emergia assim praticamente no mesmo momento em que o pacto era apresentado como um novo consenso histórico.
O veto deixa de estar previamente associado a determinadas matérias, mas permanece a fronteira política que impede que o galego ganhe peso efetivo no conjunto do ensino.
A diferença está longe de ser secundária. Se Matemáticas pode regressar ao galego apenas na condição de que História passe ao castelhano, não se está recuperando espaço social para a língua própria. Está-se redistribuindo a sua presença dentro do mesmo marco de contenção. O veto deixa de estar previamente associado a determinadas matérias, mas permanece a fronteira política que impede que o galego ganhe peso efetivo no conjunto do ensino.
A própria reação das duas principais instituições culturais do país colocou o problema precisamente nesse ponto. Dolores Vilavedra, presidenta do Conselho da Cultura Galega, advertiu que o plano educativo deveria ter maior alcance porque o equilíbrio normativo entre as duas línguas não corresponde à sua diferente situação social de partida. Pediu ir além de uma distribuição equilibrada dos usos e atuar sobre aquilo que condiciona a transmissão e o emprego efetivo da língua. Henrique Monteagudo, presidente da Real Academia Galega, considerou positiva a eliminação do veto às matérias científicas, mas reclamou uma reflexão muito mais profunda sobre o modelo educativo.É difícil formular melhor a contradição central do pacto.
Galego e castelhano não chegam à escola em condições equivalentes.
Uma das línguas possui o aparelho comunicativo de um Estado de quase cinquenta milhões de habitantes, uma enorme indústria audiovisual e editorial, plataformas digitais praticamente ilimitadas, presença esmagadora no mercado cultural espanhol, centralidade na justiça e na administração estatal e plena suficiência para desenvolver toda uma vida social e profissional na Galiza. A outra perde falantes precisamente entre as gerações que deveriam assegurar a sua continuidade. Dividir o horário escolar pola metade não elimina essa desigualdade. Pode consolidá-la.
O cinquenta por cento possui uma enorme força simbólica porque parece representar igualdade. Metade para cada língua. Nenhuma privilegiada. Nenhuma discriminada. Um equilíbrio aparentemente impecável que protege a desigualdade. Só que a sociolinguística não começa a contar quando a criança atravessa a porta da escola. Se fora da aula uma das línguas domina grande parte do audiovisual, das redes, dos videojogos, do mercado laboral, dos serviços estatais, do lazer juvenil e, progressivamente, das próprias famílias, a igualdade matemática dentro da escola deixa de ser igualdade sociolinguística.
Uma política idêntica aplicada a duas situações desiguais reproduz a desigualdade.
O Conselho da Europa já advertira há anos que a limitação do galego a um máximo de 50% no ensino constituía um problema no cumprimento dos compromissos assumidos polo Estado espanhol na Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias. O seu Comité de Peritos manifestou preocupação pola redução gradual do ensino em galego e pola própria existência daquele limite. A questão torna-se ainda mais difícil de explicar quando se observam os recursos mobilizados. Os Orçamentos da Xunta para 2026 destinam 13.008.030 euros à normalização linguística. É a cifra oficial consignada nas contas autonómicas.
Segundo a comparação realizada por Nós Diario a partir dos orçamentos das comunidades com língua própria, apenas Baleares e Astúrias destinam atualmente menos recursos às respetivas políticas linguísticas. Navarra, com uma população muito inferior e uma extensão social do euskera também inferior à do galego, prevê uma dotação superior. O País Valenciano também investe mais. As comparações entre comunidades devem ser tomadas com prudência porque as rubricas orçamentais nem sempre abrangem exatamente as mesmas políticas, mas permitem contextualizar a dimensão do esforço galego. Mais reveladora ainda é a comparação da Galiza consigo própria.
Em 2009 foram destinados 21,7 milhões de euros à normalização linguística. Nós Diario calcula que, corrigida a inflação, aquela quantidade ultrapassaria hoje os 30 milhões. Dezassete anos depois, com uma situação sociolinguística muito mais deteriorada, a verba nominal é de 13 milhões.
A ordem das prioridades materiais contradiz assim a linguagem da emergência. Uma língua que perde rapidamente a transmissão intergeracional necessitaria multiplicar os espaços em que é necessária, útil e socialmente disponível. Necessitaria professores, materiais, audiovisual infantil, produção cultural, tecnologia, terminologia científica, presença empresarial, serviços públicos, meios de comunicação, redes digitais, ferramentas de inteligência artificial e políticas destinadas a criar novos falantes. Não basta pedir-lhes que a amem. Uma língua sobrevive quando pode ser usada.
Uma política mais próxima da cosmética institucional do que de uma intervenção proporcional ao processo de substituição
A insuficiência do esforço material torna-se ainda mais visível quando se observa o que fam outros governos perante línguas minorizadas ou submetidas a fortes processos de substituição. Os Orçamentos da Xunta para 2026 consignam 13,008 milhões de euros ao programa 151A, Fomento da Língua Galega, que constitui a totalidade da função orçamental específica de Normalização Linguística. Não é todo o dinheiro público que pode beneficiar indiretamente o galego através da educação, cultura ou meios públicos, mas é a partida específica que permite medir o compromisso diretamente identificável com a normalização.
A comparação internacional deve ser feita com prudência porque os governos não classificam da mesma maneira as despesas linguísticas. Ainda assim, a diferença de escala é reveladora. A Escócia destina em 2026-2027 £32,4 milhões especificamente ao gaélico, depois de elevar a dotação de £25,7 milhões em 2024-2025 e £30,8 milhões em 2025-2026. Estamos a falar de uma língua para a qual o censo de 2022 registava cerca de 130.000 pessoas com algum conhecimento e aproximadamente 69.700 capazes de a falar, uma comunidade demograficamente moito menor que a galegófona.
O problema é a escala do esforço perante a dimensão da emergência que as próprias instituições reconhecem.A Xunta apresenta como reforço o aumento de um milhão de euros para ações de dinamização, enquanto a língua perdeu entretanto dezenas de milhares de falantes jovens e deixou de ser maioritária no conjunto da sociedade.
O País de Gales oferece outro contraste. O orçamento de 2026-2027 reserva £39,334 milhões somente à linha específica Welsh Language, destinada a aumentar o uso e a criar a infraestrutura necessária para a estratégia Cymraeg 2050. A isto acrescentam-se perto de £9,5 milhões para a vertente educativa de Cymraeg 2050, incluindo programas de imersão, além de outras partidas distribuídas pelo sistema educativo. O objetivo político não é simplesmente conservar uma percentagem de uso, mas alcançar um milhão de falantes e duplicar o uso quotidiano da língua.
Na Irlanda, onde a transmissão comunitária do irlandês continua ameaçada nas próprias áreas da Gaeltacht, o orçamento de 2026 prevê 159 milhões de euros para a Gaeltacht, a língua irlandesa e as ilhas, 36 milhões mais que no ano anterior. Não é uma comparação direta com os 13 milhões galegos porque essa rubrica inclui desenvolvimento territorial, transportes e infraestruturas insulares. Mas precisamente essa diferença conceptual é significativa. A política de revitalização irlandesa incorpora desenvolvimento económico, serviços, planeamento linguístico, equipamentos culturais e sustentabilidade das comunidades onde a língua ainda conserva transmissão social.
Mesmo em Aotearoa Nova Zelândia, a revitalização do te reo Māori é tratada através de linhas expressamente destinadas à recuperação da língua no âmbito nacional e no seio das famílias, tribos e comunidades. Só essas duas dotações alcançavam NZ $10,914 milhões e $19,423 milhões, respetivamente, no exercício 2025-2026, às quais se somam políticas educativas e mediáticas. O orçamento de 2026 acrescentou ainda NZ$48 milhões para os quatro anos seguintes destinados à sustentabilidade dos meios maori e à criação de novos conteúdos em te reo Māori.
Nenhuma destas cifras pode ser convertida numa classificação simples de governos melhores ou piores. As populações, moedas, competências administrativas e perímetros orçamentais são diferentes. Mas o conjunto permite estabelecer uma comparação política mais importante. Nos processos sérios de revitalização linguística, a língua não é tratada como um apêndice cultural ao qual se concede um orçamento limitado. A recuperação de falantes envolve escola, imersão, meios de comunicação, infância, transmissão familiar, criação cultural, tecnologia, serviços públicos e desenvolvimento das comunidades que ainda conservam a língua. É precisamente isso que torna difícil conciliar a palavra «emergência» com a dimensão do esforço galego. A Xunta reconhece uma crise de transmissão que atinge sobretudo as novas gerações, mas a partida específica para a língua continua nos 13 milhões de euros, abaixo inclusive dos 21,77 milhões nominais que a própria Galiza destinava à mesma função em 2009.
A comparação internacional não prova por si mesma que uma determinada quantidade de dinheiro reverta a substituição. Nenhum orçamento compra automaticamente novos falantes. Demonstra, porém, onde a sobrevivência de uma língua é assumida como objetivo estratégico de país, o poder público mobiliza recursos, instituições e políticas de uma escala coerente com a gravidade do problema.Na Galiza, a distância entre o diagnóstico e os meios continua sendo parte do próprio diagnóstico.
PISA e responsabilidade política
Há ainda outro dado que impede apresentar esta crise como um fenómeno exterior à ação dos poderes públicos. O último PISA também trouxe más notícias para o sistema educativo galego. Em 2025 a Galiza obteve 454 pontos em leitura, 466 em matemática e 486 em ciências, menos 31, 20 e 20 pontos que três anos antes. Continua acima da média espanhola nas três competências, mas sofre uma deterioração particularmente intensa na compreensão leitora. O PISA não mede a saúde social do galego e seria metodologicamente abusivo estabelecer uma relação causal entre estes resultados e a política linguística. O contraste é outro. A perda acelerada da língua não ocorreu em troca de um sistema educativo que pudesse invocar uma trajetória inequívoca de melhoria.
Apenas meses antes de conhecer estes dados, a própria Xunta utilizava os resultados de PISA 2022 para exibir a fortaleza do seu modelo educativo e compará-lo favoravelmente com o finlandês. O novo informe torna mais difícil manter essa autocomplacência. A administração que durante anos apresentou como êxitos próprios os bons indicadores não pode converter agora os maus resultados em acontecimentos sem responsáveis políticos.
Algo semelhante sucede com a língua. A substituição do galego não caiu sobre as instituições como um fenómeno meteorológico. Produziu-se durante décadas de decisões, omissões, normas educativas, orçamentos e escolhas sobre os espaços que a língua podia ou não podia ocupar. A própria Real Academia Galega foi excepcionalmente clara em 2024 ao afirmar que os dados constituíam uma prova das consequências do Decreto 79/2010 e do abandono das políticas de proteção do galego, e ao situar a primeira responsabilidade no Governo galego, precisamente por dispor dos mecanismos de atuação e planificação.
Esta responsabilidade possui uma história política concreta. O PP governou a Xunta entre 1990 e 2005 e voltou ao poder em 2009, onde permanece desde então. O PSdeG presidiu o Governo galego entre 2005 e 2009 e anteriormente entre 1987 e 1990. No Estado, PSOE e PP alternaram a presidência do Governo durante mais de quatro décadas. São precisamente duas forças com uma longa experiência de administração das instituições que agora se apresentam como arquitetas do consenso destinado a reparar a emergência linguística.
O atual modelo educativo galego procede diretamente do Decreto 79/2010 aprovado pela Xunta do PP, e a própria RAG coloca no Governo galego a responsabilidade política primeira. Mas torna difícil aceitar uma representação do pacto em que os seus signatários aparecem simplesmente como observadores que chegam para resolver uma catástrofe produzida noutro lugar. O paradoxo é que as mesmas instituições que tiveram durante décadas capacidade para regular, financiar, avaliar e modificar as políticas linguísticas apresentam agora como grande exercício de responsabilidade a administração de uma emergência desenvolvida sob a sua própria tutela. A questão, portanto, não é apenas quem consegue agora chegar a um acordo. É também quem deve responder polo caminho que nos trouxe até aqui e que interpela mas não exonera á própria cidadania e ás familias na responsabilidade da desfeita.
Também não basta que a administração proclame que as duas línguas são iguais se uma delas permite viver integralmente sem conhecer nem utilizar a outra. Esse é precisamente um dos mecanismos através dos quais uma relação histórica de dominação pode reproduzir-se depois de desaparecerem as suas formas mais explícitas.
Uma história de colonialidade e substituição
A história linguística galega não começou com o Estatuto de Autonomia nem com o Decreto de plurilinguismo de 2010. Durante a Idade Média o galego desenvolveu uma importante tradição literária e documental. Foi língua escrita de nobres, igrejas, mosteiros, concelhos e corporações. A partir dos séculos XIV e XV o castelhano começou a deslocá-lo progressivamente dos usos formais. A historiografia recente relaciona essa substituição com a expansão da corte castelhana, com o novo aparelho estatal implantado na Galiza e com a crescente dependência das elites eclesiásticas galegas em relação a Castela. Em meados do século XVI, o galego desaparecera praticamente da escrita formal.Durante os mal chamados Séculos Escuros, Estado e Igreja utilizaram o castelhano nos documentos, processos e ofícios, enquanto o galego sobrevivia fundamentalmente como língua oral da população. A posterior construção do Estado-nação reforçou o castelhano como língua da administração, da educação, das classes acomodadas e da promoção social….e da repressão. Não é necessário transformar toda esta história numa equivalência simples entre a Galiza contemporânea e uma colónia ultramarina para reconhecer uma lógica colonial na relação linguística. Essa lógica aparece quando a língua vinculada historicamente ao centro político se apresenta como universal, neutra e não marcada, enquanto a língua do território necessita justificar continuamente a sua presença.
O castelhano pode ocupar quase qualquer espaço sem ser percebido como imposição.O galego precisa explicar por que deve estar nele. O castelhano pode ser necessário.Ao galego permite-se-lhe ser sentimental e ,por tanto, opcional. O castelhano pode expandir-se como consequência aparentemente natural da mobilidade, da televisão, da escola, da administração ou do mercado. Qualquer tentativa de ampliar significativamente o espaço do galego corre o risco de ser apresentada como excesso, conflito ou imposição.
A investigação sociolinguística contemporânea continua a descrever o galego como língua historicamente subordinada perante o castelhano e estuda precisamente como as ideologias linguísticas podem naturalizar relações de hegemonia. A forma mais eficaz de uma hierarquia não é aquela que precisa ser imposta todos os dias. É aquela que acaba parecendo natural. Quando isso acontece, a sociedade subordinada pode começar a reproduzir ela própria os limites que anteriormente lhe eram impostos de fora. Pode administrar na sua própria língua a supremacia funcional de outra.
Pode dispor de um Parlamento galego, de um Governo galego, de partidos com G de Galicia, de uma Secretaria Geral da Língua e de uma televisão pública em galego e continuar aceitando como princípio de prudência que a língua própria não adquira demasiado espaço. Pode chegar inclusive a considerar equilíbrio que uma língua em retrocesso não ultrapasse a metade enquanto a língua dominante conserva intactos os seus restantes domínios sociais. É nesse sentido que a questão colonial continua a ser pertinente. Não como metáfora destinada a substituir a análise, mas como pergunta sobre quem possui o poder de definir o que é normal.
A política linguística autonómica nasceu precisamente para corrigir uma desigualdade histórica. Se acaba convertida num sistema destinado sobretudo a garantir que a correção dessa desigualdade nunca altere excessivamente a posição da língua dominante, deixa de cumprir a função compensatória que justificava a própria normalização. A palavra normalização perde então o seu significado. Normalizar uma língua minorizada não pode consistir simplesmente em reservar-lhe uma percentagem. Significa criar as condições para que volte a ser normal usá-la. Normal no recreio. Normal numa consulta médica. Normal num tribunal. Normal numa empresa.Normal numa aplicação. Normal numa aula de Física. Normal perante a administração. Normal entre adolescentes. Normal entre pais e filhos.
A questão mais grave do pacto PP-PSdeG talvez não resida, portanto, nas medidas que incorpora, mas nos limites políticos que continua aceitando e naturalizando.O acordo parte de uma situação que os próprios dados oficiais descrevem como crítica, mas conserva a ideia de que o principal objetivo deve ser o equilíbrio entre duas línguas formalmente cooficiais.cA cooficialidade jurídica, porém, não elimina a desigualdade social.cUma língua pode ser oficial e continuar minorizada.cPode possuir gramática, academia, televisão e presença escolar e continuar perdendo a comunidade que a fala.Pode ser homenageada e desaparecer.
A política linguística não se mede polo número de atos institucionais celebrados no Dia das Letras Galegas. Mede-se pola possibilidade real de uma criança nascer numa família castelhanófona e adquirir competência plena em galego. Pola possibilidade de uma criança galegófona chegar à adolescência sem abandonar a sua língua para integrar-se no grupo. Pola possibilidade de um jovem utilizar galego sem perceber que está escolhendo constantemente uma opção socialmente marcada.
A escola ocupa um lugar decisivo porque a família já não pode garantir sozinha a transmissão.Precisamente por isso resulta difícil compreender que, perante a redução extraordinária de crianças galegofalantes, a resposta continue a tratar a língua minorizada como se o principal perigo fosse que pudesse ocupar demasiado espaço.
Também merece atenção o calendário. As principais alterações educativas anunciadas não serão plenamente efetivas de imediato. A Xunta situa a sua aplicação no curso 2028-2029, embora o PSdeG considere possível antecipá-las. Entretanto, a tendência continua. Em 2003 mais de uma em cada quatro crianças de 5 a 14 anos falava sempre galego. Em 2023 era uma em cada catorze. Este deveria ser o número colocado sobre a mesa cada vez que alguém utiliza a palavra consenso. Porque consenso não é sinónimo de eficácia e menos se nao é capaz de inserir no pacto a forzas soberanistas nem garantir o refrendo completo das principais instituçoes linguísticas e culturais do país. Duas forças políticas podem chegar a acordo sobre uma política insuficiente. Um pacto pode ser institucionalmente amplo e sociolinguisticamente estreito. Pode corrigir erros no papel e não modificar a direção do processo.Pode melhorar a gestão de uma língua e não garantir a sua reprodução. A questão também não deveria reduzir-se à disputa entre partidos sobre quem ama mais o galego. A substituição linguística é demasiado profunda para ser convertida numa competição simbólica.
O que importa é o efeito das políticas. A RAG advertia em 2024 que a continuidade do idioma estava em grave risco. O Consello da Cultura afirma agora que a igualdade normativa não pode ignorar a desigualdade sociolinguística. O Conselho da Europa leva anos reclamando maior presença educativa da língua. Os dados do IGE mostram uma quebra geracional acelerada. E os próprios orçamentos revelam que o esforço económico atual continua muito abaixo do realizado noutros momentos em que a situação era menos grave.Não faltam diagnósticos. Falta saber se existe vontade política de aceitar as consequências do diagnóstico. Se uma língua está perdendo falantes porque ocupa uma posição estruturalmente subordinada, não basta assegurar-lhe formalmente o mesmo espaço que à dominante. Uma política compensatória terá necessariamente de ser assimétrica enquanto a realidade continuar sendo assimétrica. De outro modo, o princípio de igualdade pode acabar protegendo a desigualdade existente.
A dimensão histórica torna isto especialmente doloroso.Falamos de uma língua formada ao longo de mais de um milénio, com uma das grandes tradições literárias medievais da Europa, que resistiu séculos afastada da administração, da escola e da escrita institucional e que chegou ao século XX como língua maioritária da população apesar de tudo isso
O perigo contemporâneo possui outra natureza. Já não é necessário proibir o galego. Basta torná-lo progressivamente dispensável.Dispensável para estudar.Dispensável para trabalhar. Dispensável para acceder a cultura. Dispensável para relacionar-se com o Estado. Dispensável para socializar. Dispensável inclusive para viver na Galiza agora que também é receptora de novas galegas.
Uma língua pode morrer rodeada de homenagens se deixa de ser necessária para aqueles que deveriam transmiti-la. É por isso que a lógica colonial mais profunda não aparece apenas quando alguém de fora despreza a língua do país. Aparece também quando o próprio país aprende a administrar a sua subordinação como se fosse equilíbrio. O pacto entre PPdeG e PSdeG poderá introduzir melhorias concretas no papel. Poderá recuperar matérias, estabelecer controlos, incrementar algumas partidas e produzir novos programas. Todo isso deverá ser avaliado polos seus resultados. Mas o critério não pode ser se o novo plano é um pouco melhor que o Decreto de 2010. O critério tem de ser outro. Se dentro de dez ou vinte anos haverá mais crianças capazes e dispostas a viver em galego do que hoje. Se continuará existindo transmissão intergeracional. Se o galego recuperará espaços dos quais foi deslocado. Se deixará de ser a língua que sempre precisa pedir autorização para estar presente. Se a normalização deixa finalmente de significar administrar percentagens e passa a significar recuperar uma comunidade linguística. Porque quando apenas 7,04% das crianças fala sempre a língua histórica do país, o problema já não é encontrar uma fórmula confortável de convivência.O problema é saber se essa língua continuará sendo uma língua viva das gerações futuras.
Este pacto de forças políticas de obediência ao Estado não elimina as hierarquias linguísticas, mas contribui para as tornar invisíveis ou, pior ainda, para as apresentar como naturais. O que não podemos continuar a ignorar é uma extensão ideológica que se faz passar por virtuosa, mas que, ao fazê-lo, torna-se um substituto da crítica das condições sociais que produzem a situação de substituição inoculada polo bilinguismo harmónico fraguiano.
