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Agro, Ortegal — 22 Setembro, 2026 at 8:26 a.m.

A Fusquenlla: transformar a horta para que o rural nom fique só na matéria-prima

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O centro de transformaçom agroalimentária de Moeche consolida-se como uma infraestrutura partilhada que permite a pequenas produtoras converter excedentes em alimentos comercializáveis, reduzir investimentos individuais e criar redes de cooperaçom. Um projeto que começa a superar a fase experimental e a construir um pequeno tecido produtivo próprio.

Fonte: Concelho de Moeche
A Fusquenlla. Instalaçons

A reportagem que El Comarcal dedica este mês à Fusquenlla ocupa a capa e três páginas sob uma ideia que resume bem a filosofia do projeto: «A horta tem futuro». Nom se trata, porém, de defender simplesmente que haja que produzir mais. O que está em jogo é que uma parte maior do valor gerado polos produtos agrários fique no território, permitindo que quem cultiva tomate, maçá, limom, pimento ou fruta possa também transformá-los, conservá-los e comercializá-los sem ter que realizar individualmente investimentos difíceis de assumir.

O Centro de Transformaçom Agroalimentária A Fusquenlla funciona no recinto feiral de Sam Ramón, em Moeche. O projeto nasceu inicialmente da cooperaçom entre Moeche, Sam Sadurninho, Cerdido e Valdovinho e foi incorporando Cedeira, Narom e As Pontes. Hoje estes sete concelhos partilham uma infraestrutura dotada de maquinaria profissional para produzir conservas vegetais, zumes, marmeladas, compotas, desidratados ou preparados de mel.

Segundo fontes consultadas, o custo da maquinaria, a impossibilidade de montar um obradoiro próprio, os excedentes sazonais, as exigências sanitárias, o tempo necessário para limpar os equipamentos ou a dificuldade de produzir durante todo o ano, mostram precisamente aí onde se percebe a utilidade económica da infraestrutura partilhada. María Jesús Abeal resume na reportagem de El Comarcal que seria inviável montar um obradoiro próprio apenas para experimentar uma nova linha de produto; outras produtoras explicam que A Fusquenlla lhes permite testar receitas e mercados antes de comprometer investimentos muito maiores. Na mesma linha, Manolo Varela, concelheiro de Desenvolvimento Local de Sam Sadurninho e também produtor, descreve o centro como uma ferramenta destinada a permitir que os pequenos projetos «medrem», evitando que cada iniciativa tenha de adquirir de maneira individual equipamento especializado.

Esse princípio explica também a evoluçom do projeto. Em 2025, arredor de 40 pessoas utilizaram regularmente as instalaçons, nas quais se produziram perto de 8.000 envase, aproximadamente 3.600 de zume de maçá e 4.400 de marmeladas, conservas e outros elaborados. O dado é relativamente modesto se se compara com qualquer indústria alimentar convencional, mas é precisamente essa comparaçom que resulta enganosa na medida que A Fusquenlla nom foi concebida como uma fábrica centralizada, senom como infraestrutura pública partilhada por pequenas produçons e projetos independentes.

Durante 2026 essa base continuou a ampliar-se. Em maio foram acreditadas outras 48 pessoas —entre usuárias principais e ajudantes— e o próprio centro situava já perto de uma centena o número de pessoas habilitadas para produzir ou colaborar nas instalaçons. O acesso nom consiste simplesmente em reservar maquinaria pois requer formaçom em manipulaçom de alimentos, higiene, rastreabilidade, etiquetagem, prevençom de riscos e funcionamento dos equipamentos.

Nas páginas de El Comarcal aparecem produtoras de diferentes concelhos que elaboram desde zumes de tomate, maçá ou limom até cebola desidratada, pimentos, compotas, marmeladas ou piparras. Nom formam uma empresa única nem respondem a um modelo produtivo idêntico, mas partilham infraestrutura, conhecimento técnico e, em ocasiões, experiências de comercializaçom.

Alguns desses projetos começam ademais a adquirir identidade comercial própria. Em junho de 2026, Ay Carmen, Aires de Susi e Manda Carballo, três iniciativas vinculadas à Fusquenlla, figuravam entre as primeiras empresas incorporadas à marca de qualidade KB0 Ortegal; as promotoras de Piparra Atlántica preparavam também a sua produçom no centro. Isto mostra o passo importante de passar do aproveitamento doméstico dos excedentes a circuitos comerciais de proximidade nos quais transformaçom, marca e origem territorial podem funcionar conjuntamente.

Mas talvez a evoluçom mais interessante esteja a ocorrer fora das máquinas. Em julho, uma vintena de pessoas usuárias iniciou a constituiçom da Associaçom de Transformaçom Agroalimentária A Fusquenlla. O objetivo é representar as produtoras, organizar formaçom e compras conjuntas, cooperar na promoçom e comercializaçom e negociar coletivamente algumas necessidades do centro. A comissom promotora ficou integrada por Carmen Caínzos, María Jesús Abeal e Manolo Varela.

Esse movimento introduz uma mudança qualitativa. A Fusquenlla começou fundamentalmente como uma iniciativa intermunicipal que punha à disposiçom do território equipamento que dificilmente poderia financiar uma pequena exploraçom. Se a associaçom se consolida, ao investimento público acrescentar-se-á uma organizaçom estável das próprias pessoas produtoras. Nom significa que os problemas desapareçam. Há custos de funcionamento, necessidade de assistência técnica, exigências sanitárias rigorosas, tempos de limpeza muito elevados e uma evidente dependência de manter volume suficiente de atividade. A reportagem recolhe precisamente várias dessas limitaçons e evita apresentar o obradoiro como uma soluçom automática.

Também há um desafio de escala. O futuro do centro nom dependerá apenas de aumentar o número de pessoas acreditadas, mas de que parte delas consiga manter produçons estáveis, encontrar mercados próximos e gerar rendimento suficiente para que a transformaçom deixe de ser uma atividade ocasional.

O principal interesse da Fusquenlla talvez nom esteja na quantidade que produz hoje, mas no modelo de infraestrutura rural que ensaia

 

O dado dos 8.000 envases de 2025, a lista de espera para a formaçom e o aparecimento de marcas comerciais indicam que existe procura, mas ainda estamos perante um tecido produtivo pequeno.

Por isso, o principal interesse da Fusquenlla talvez nom esteja na quantidade que produz hoje, mas no modelo de infraestrutura rural que ensaia. Em vez de pedir a cada pequena produtora que compre um autoclave, uma envasadora, sistemas de pasteurizaçom ou equipamento industrial que tardaria anos em amortizar, a administraçom financia uma infraestrutura comum e estabelece um sistema de acesso, formaçom e controlo sanitário. A propriedade do equipamento é coletiva; os projetos produtivos continuam sendo autónomos.

Até o nome escolhido para o centro participa dessa ideia. A Fusquenlla foi a irmandade encabeçada por Roi Xordo que protagonizou a revolta irmandinha de 1431, e o Concello de Moeche explicou em 2021 que a denominaçom pretendia reivindicar, além da referência histórica, um modelo baseado nos produtos de proximidade e contraposto à dependência das grandes cadeias de distribuiçom e dos mercados globalizados.

Cinco anos depois, a referência histórica já nom é apenas um nome numa fachada. Entre autoclaves, tarros, sumos, conservas e pessoas que partilham horas de trabalho, A Fusquenlla começa a demonstrar que produzir no rural é importante, mas possuir os meios para transformar o produzido pode ser decisivo para que uma parte maior do seu valor permaneça nele.

Referências

A Fusquenlla. (2025, 22 de dezembro). A Fusquenlla fai balance de 2025 e prepárase para o ano que entra.

A Fusquenlla. (2026, 19 de maio). A Fusquenlla acredita outras 48 persoas máis para o uso do centro de transformación agroalimentaria. https://afusquenlla.gal/a-fusquenlla-acredita-48-persoas-para-o-uso-do-centro-de-transformacion-agroalimentaria/

A Fusquenlla. (2026, 5 de junho). Tres empresas da Fusquenlla, entre as primeiras en sumarse á nova marca de calidade KB0 Ortegal. https://afusquenlla.gal/tres-empresas-da-fusquenlla-entre-as-primeiras-en-sumarse-a-nova-marca-de-calidade-kb0-ortegal/

A Fusquenlla. (2026, 23 de julho). As persoas usuarias da Fusquenlla dan o primeiro paso para constituír a súa propia

Cuba, I. F. (2026, setembro). A Fusquenlla, «un empujón» para el sector primario. El Comarcal, 2–4.

Concello de Moeche. (2021, 6 de abril). O centro de transformación agroalimentaria chamarase “A Fusquenlla”.https://moeche.gal/o-centro-de-transformacion-agroalimentaria-chamarase-a-fusquenlla

[1]: https://afusquenlla.gal/ ” A Fusquenlla”
[2]:https://afusquenlla.gal/a-fusquenlla-fai-balance-de-2025-e-preparase-para-o-ano-que-entra/ “A Fusquenlla fai balance de 2025 e prepárase para o ano que entra . A Fusquenlla”
[3]: https://afusquenlla.gal/a-fusquenlla-acredita-48-persoas-para-o-uso-do-centro-de-transformacion-agroalimentaria “A Fusquenlla acredita outras 48 persoas máis para o uso do centro de transformación agroalimentaria | A Fusquenlla”
[4] https://afusquenlla.gal/tres-empresas-da-fusquenlla-entre-as-primeiras-en-sumarse-a-nova-marca-de-calidade-kb0-ortegal/ “Tres empresas da Fusquenlla, entre as primeiras en sumarse á nova marca de calidade KB0 Ortegal | A Fusquenlla”
[5] https://afusquenlla.gal/as-persoas-usuarias-da-fusquenlla-dan-o-primeiro-paso-para-constituir-a-sua-propia-asociacion
“As persoas usuarias da Fusquenlla dan o primeiro paso para constituír a súa propia asociación | A Fusquenlla”
[6]”Concello de Moeche | O centro de transformación agroalimentaria chamarase “A Fusquenlla”

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