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Movementos sociais, Política, Politica internacional — 12 Setembro, 2026 at 10:21 a.m.

A Diada depois do Procés: juventude, esteladas e uma “nova” fronteira antifascista

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O Onze de Setembro de 2026 não recuperou as multitudes do Procés, mas quebrou a inércia de desmobilização dos últimos anos. A presença visível de uma nova geração, a ascensão da fascista Aliança Catalana e a resposta antifascista indicam, contudo, que o independentismo que regressa às ruas já não se move exatamente no mapa político de 2017, tal como a irrupção da Organização Juvenil Socialista veio evidenciar.

Há uma forma fácil de ler a Diada de 2026: o independentismo voltou a crescer nas ruas depois de anos de retração. Os números permitem sustentar esta leitura, embora obriguem a manter as devidas proporções. As polícias locais contabilizaram cerca de 58.000 pessoas entre Barcelona, Girona e Amposta, mais 16.000 do que no ano anterior; os organizadores elevaram a participação para mais de 130.000. Em Barcelona, a Guarda Urbana calculou cerca de 45.000 pessoas, ainda muito longe das mobilizações de massas da década passada. Trata-se, portanto, de uma recuperação real, mas não de um regresso ao tempo do milhão de manifestantes. O dado quantitativo, porém, talvez não seja o mais significativo. Vários observadores coincidiram em que havia moita gente moça. Antoni Bassas resumiu a composição da manifestação numa imagem sugestiva: maiores de cinquenta anos e menores de vinte e cinco, como se entre a geração do Procés e uma geração que quase não conserva memória política do Primeiro de Outubro se tivesse aberto um vazio. Salvador Cot também destacou «milhares de jovens» que, pola idade, apenas podem ter uma recordação distante de 2017. Ainda não dispomos de uma análise demográfica da manifestação que permita transformar estas impressões em percentagens, mas a coincidência entre crónicas e testemunhos é suficientemente assinalável para a considerar um dos fenómenos políticos da jornada.

Esta presença juvenil permite falar de renovação geracional, mas seria precipitado falar de simples continuidade. Os jovens de 2026 não chegam necessariamente ao mesmo independentismo de que partiram os seus pais uma década antes. Cresceram depois da derrota política de 2017, da repressão posterior, das divisões entre ERC e Junts, da perda da maioria independentista no Parlamento e da chegada de Salvador Illa à Generalitat. A sua paisagem política imediata é também constituída pola crise da habitação, a precariedade, Rodalies, a deterioração dos serviços públicos, a situação da língua catalã, Gaza e a ascensão da extrema-direita. O conflito nacional persiste, mas já não organiza sozinho todo o campo político.

Uma estelada que regressa, mas não ao mesmo lugar

Há um símbolo que condensa esta aparente continuidade entre gerações: a estelada. Alfred Bosch interpreta o seu reaparecimento massivo entre os jovens como o início de uma nova «era da Estelada». A agressão em Elche contra um menor que transportava uma e a posterior exibição de esteladas no Camp Nou terão contribuído para voltar a transformar a bandeira independentista num signo de rebeldia e solidariedade, especialmente entre uma geração que não viveu politicamente o seu anterior apogeu. A recuperação do símbolo é significativa precisamente porque durante os anos centrais do Procés uma parte do soberanismo tinha procurado reduzir a sua carga identitária. O argumento de então era que a independência deveria alargar a sua base apolando a razões democráticas, sociais e económicas mais do que a uma identidade nacional prévia. Agora a estelada reaparece com força, mas fá-lo num terreno muito mais disputado.

Porque o problema já não consiste apenas em saber se a Catalunha é uma nação e tem direito a decidir. Consiste também em determinar que tipo de comunidade política representa essa bandeira. A mesma Diada que mostrou milhares de esteladas transformou esta pergunta numa confrontação física e política nas ruas de Barcelona.

O Fossar e a disputa pola catalanidade

A 10 de setembro, a Aliança Catalana voltou a convocar o seu ato no Fossar de les Moreres. Diante dela mobilizaram-se milhares de pessoas convocadas pola esquerda independentista, pola Organização Juvenil Socialista, sindicatos e coletivos antirracistas, sociais e pró-palestinianos.

A resposta policial não foi simétrica. Os Mossos d’Esquadra montaram um dispositivo de grandes dimensões para garantir que o ato de Aliança Catalana pudesse realizar-se e impediram os manifestantes antifascistas de chegar ao Fossar. No Passeig del Born produziram-se repetidas cargas policiais contra os antifascistas e houve detenções. O partido de Sílvia Orriols conseguiu, assim, realizar o seu ato, de cerca de 350 pessoas, protegido por um cordão policial que continha uma mobilização antifascista muito mais numerosa.

O lugar importava tanto como os participantes. O Fossar não é uma praça qualquer, mas um dos principais espaços simbólicos do independentismo catalão. O conflito consistia, portanto, em algo mais do que impedir ou defender um comício: disputava-se quem possui legitimidade para inscrever o seu projeto político na memória nacional catalã. E nessa disputa apareceu também um terceiro ator: um aparelho policial que, independentemente da sua justificação formal de garantir um ato autorizado, exerceu concretamente a força contra aqueles que tentavam impedir a presença da extrema-direita no Fossar.

No dia seguinte, a situação repetiu-se diante de Núcleo Nacional, desta vez com uma organização da extrema-direita espanholista. Cerca de três mil antifascistas conseguiram ocupar a praça de Mossèn Jacint Verdaguer e impediram que a organização neonazi realizasse ali o ato previsto. Mas, novamente, os Mossos separaram e escoltaram a concentração ultra e carregaram contra os manifestantes antifascistas.

A repressão policial não foi um elemento marginal da jornada. Houve confrontos, cargas, uma manifestante ferida e dezoito detenções relacionadas com os incidentes posteriores à mobilização, dez delas de menores. A ANC denunciou posteriormente detenções irregulares, uso desproporcionado da força e tratamento vexatório de alguns dos jovens detidos.

Deste modo, o resultado político daqueles dois dias não pode resumir-se simplesmente dizendo que antifascistas e extrema-direita se enfrentaram nas ruas. A extrema-direita independentista e a extrema-direita espanholista foram protegidas por dispositivos policiais que utilizaram a força contra as mobilizações antifascistas que procuravam impedir os seus atos. Esta dimensão repressiva faz também parte daquilo que a Diada de 2026 revelou.O resultado político dos dous dias é difícil de ignorar jà que a extrema-direita tentou intervir na Diada a partir dos dous nacionalismos possíveis e encontrou pola frente uma mobilização antifascista moi superior nas ruas.

Isto modifica substancialmente a narrativa segundo a qual a grande novidade política da Catalunha pós-Procés é simplesmente a ascensão da Aliança Catalana. Eleitoralmente, essa ascensão é indiscutível: várias sondagens colocaram o partido de Sílvia Orriols como segunda força, com uma projeção que chegaria aos 25-28 deputados. Mas as urnas potenciais e a rua não estão a produzir exatamente a mesma correlação de forças. A Diada mostrou que, ao mesmo tempo que cresce eleitoralmente uma extrema-direita independentista, existe uma geração jovem disposta a confrontá-la precisamente em nome da loita de classes e do direito de autodeterminação.

Autodeterminação e classe

Aqui surge uma diferença importante relativamente ao ciclo do Procés. A Organização Juvenil Socialista não propõe simplesmente recuperar a independência como objetivo nacional adiado. A jornada que organizou no Onze de Setembro em Santa Coloma de Gramenet situava explicitamente a autodeterminação no interior da luta de classes e propunha combater simultaneamente o espanholismo e aquilo que define como «catalanismo de vertente reacionária». Depois do ato, os militantes incorporaram-se na mobilização contra Núcleo Nacional.

A fórmula é politicamente relevante porque desmonta a alternativa que a extrema-direita tenta impor: ou identidade catalã ou esquerda; ou nação ou luta social; ou independência ou antirracismo. Este novo espaço juvenil afirma, polo contrário, que o direito à autodeterminação só pode ser defendido de forma coerente juntamente com os direitos sociais e políticos da classe trabalhadora, e que a opressão nacional não justifica uma comunidade definida etnicamente. Ainda não é possível saber que capacidade terá este espaço para transformar mobilização juvenil em força social estável. Mas a sua simples presença altera o esquema segundo o qual o fracasso do Procés teria deixado apenas duas saídas: regresso ao autonomismo ou radicalização fascista-identitária.

Quem é o adversário?

Antoni Bassas resumiu o dilema afirmando que a política catalã está a decidir onde situa o seu adversário, se na imigração ou nos mecanismos de dependência política, financeira e competencial relativamente ao Estado. O fracasso de 2017 deixou espaço para que problemas como a habitação, a insegurança, os serviços públicos ou a língua sejam reinterpretados pola Aliança Catalana através do mesmo mecanismo utilizado polas extremas-direitas europeias: transformar a imigração numa explicação geral do mal-estar. Mas a Diada sugere que esta bifurcação pode ser ainda mais complexa.

Para a Aliança Catalana, o adversário tende a materializar-se no imigrante — e moi especialmente no muçulmano —, apresentado como uma ameaça simultânea à segurança, aos serviços públicos, à identidade catalã e a uma determinada ideia de Ocidente. Para o independentismo tradicional, o adversário continua a ser fundamentalmente o Estado espanhol e a dependência política que impede o exercício da autodeterminação.  Para o novo espaço socialista e antifascista, polo contrário, a opressão nacional inscreve-se numa estrutura mais ampla de desigualdade social, autoritarismo e conflito de classe. Esta é provavelmente a disputa mais profunda deixada polo Onze de Setembro de 2026.

Duas tentativas diferentes de começar de novo

Há também, na realidade, dous “resets” independentistas em curso. O primeiro é o proposto pola ANC. O seu novo presidente, Josep Vila, fixou o outono de 2027, coincidindo com o décimo aniversário do Primeiro de Outubro, como horizonte de uma nova grande mobilização e anunciou uma cimeira da sociedade civil independentista. O objetivo é reconstruir uma transversalidade que as divisões partidárias destruíram depois de 2017.  O segundo reset é menos institucional e provavelmente mais difícil de delimitar. Manifesta-se nos jovens que recuperam a estelada sem terem vivido o ciclo que a transformou em símbolo maioritário; nos que ligam autodeterminação e conflito social; na resposta antifascista do Fossar e de Verdaguer; e na recusa em deixar que a Aliança Catalana monopolize a radicalidade política surgida do desencanto com o Procés.

Òmnium parece ter percebido esta fronteira com particular nitidez. Xavier Antich transformou o seu discurso da Diada numa defesa da coesão social perante a extrema-direita: sem coesão, afirmou, não pode haver emancipação social, libertação nacional nem independência. A entidade propôs uma «frente cívica ampla, maioritária e radicalmente democrática» que una soberania nacional e defesa dos direitos e das liberdades.

Não é uma questão menor. Significa afirmar que a definição de quem faz parte do povo catalão não é posterior à independência, mas uma condição do próprio projeto independentista.

Uma Diada de transição

Por isso talvez fosse excessivo afirmar que a Diada de 2026 inaugura um novo ciclo independentista. Ainda não existe força social comparável à do período 2012-2017, nem uma estratégia partilhada, nem uma maioria política preparada para a executar. O aumento da participação relativamente a 2025 não elimina estes limites. Mas também seria um erro reduzir a jornada a uma versão diminuída das antigas Diades.

Alguma coisa se moveu. Uma nova geração entrou nas ruas quando parecia que o fracasso de 2017 tinha interrompido a transmissão geracional do independentismo.  Fê-lo, além disso, coincidindo com a batalha para impedir que o descontentamento pós-Procés seja capitalizado exclusivamente pola extrema-direita. Esta coincidência pode acabar por ser mais importante do que os números de participação.

A grande pergunta deixada pola Diada já não é apenas quando voltará o independentismo a ter força suficiente para tentar uma ruptura com o Estado. É anterior: que independentismo poderá reconstruir uma maioria social e sobre que ideia de Catalunha? A estelada volta a aparecer entre os jovens, mas sob ela competem projetos incompatíveis. Um transforma-a em fronteira identitária perante o imigrante. Outro procura recuperar a transversalidade cívica do Procés. E um terceiro tenta articular autodeterminação, antifascismo e transformação social.

O futuro do movimento dependerá em boa medida de qual destas interpretações conseguir transformar o mal-estar acumulado em projeto político. Evidentmente a  Diada de 2026 não resolveu esta disputa, mas enxergou, não sem dificultade, alguns vieiros ideológicos polarizados no nacional quanto no internacional. O que fez foi levá-la definitivamente para a rua.

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