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Cedeira, Meio ambiente — 4 Setembro, 2026 at 2:03 p.m.

Território ou produto turístico?

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O turismo pode complementar umha economia produtiva e contribuir para conservar um território. A turistificaçom começa quando a relaçom se inverte e a vivenda torna-se alojamento, o caminho produto, a paisagem atrativo e até a pesca e o agro precisam demonstrar o seu valor dentro da cadeia turística. Os récords de agosto nom provam que Cedeira esteja permanentemente massificada, mas obrigam a perguntar se ainda fai sentido continuar estimulando a procura antes de conhecer os limites sociais, produtivos, ambientais e climáticos do território.

Nom há eclipses totais de Sol todos os anos. É umha obviedade, mas também a primeira precauçom necessária para interpretar os números que deixou agosto em Cedeira. Seria enganoso transformar o acontecido o dia 12, quando milhares de pessoas se deslocárom à comarca para observar um fenómeno astronómico excecional, na imagem dum dia qualquer de verám.

Também seria enganoso concluir que aqueles dados nom significam nada. Segundo a Polícia Local, o 12 de agosto as câmaras registárom 28.915 movimentos de veículos em 24 horas, correspondentes a 8.580 matrículas diferentes. Três dias depois, o 15 de agosto, alcançou-se o máximo de veículos distintos desde que existem estes registos: 9.157 matrículas diferentes e 27.853 movimentos. Nesse mesmo dia contabilizárom-se 14.257 passos pedonais e, entre as dez e as onze da noite, 1.650 na Praça da Galiza. Os 27.853 movimentos nom som 27.853 automóveis diferentes, nem os 14.257 registos pedonais equivalem necessariamente ao mesmo número de pessoas. O dado mais limpo é o das matrículas: 9.157 veículos distintos num único dia. A comparaçom divulgada pola própria Polícia Local ajuda a visualizar a magnitude: colocados hipoteticamente em fila, ocupariam mais de cinquenta quilómetros. Nom houvo, naturalmente, um engarrafamento de cinquenta quilómetros. A imagem apenas permite perceber a escala dum fluxo concentrado sobre um concelho pequeno.

A eclipse deve ser entendida, por isso, como umha prova de stress, nom como medida do turismo habitual. A própria Xunta tinha convertido previamente o fenómeno num dos grandes argumentos da oferta turística galega de 2026, apresentando-o em FITUR como acontecimento de impacto turístico. O interessante é que três dias depois, já sem eclipse, Cedeira voltou bater o récorde, desta vez durante a Patroa. Também nom é um dia normal, mas há umha diferença evidente: a Patroa regressa todos os anos.

Para afirmar que existe overtourism estrutural precisaríamos  a série diária ou semanal dos últimos anos, comparaçons entre julho e agosto, fins de semana e dias laboráveis, Festa do Percebe, Patroa e jornadas sem acontecimentos especiais. Mas nom precisamos esperar por esse estudo para formular umha pergunta política mais básica: se já conhecemos os extremos aos quais pode chegar a pressom, por que continuamos considerando automaticamente positivo aumentar a procura?

Durante décadas, a política turística aprendeu a contar o sucesso através de umha aritmética elementar: mais visitantes, mais dormidas, mais gasto nos bares e restaurantes, mais eventos, mais notoriedade. Essa lógica parece natural porque é a lógica de qualquer mercado: se vendes um produto, procuras aumentar a procura. Mas um território nom é um produto que se possa fabricar em maior quantidade quando cresce a procura. Cedeira nom pode ampliar cada agosto a superfície das suas praias, multiplicar as entradas da vila, produzir ruas suplementares, duplicar os aparcadoiros, acrescentar vivendas ao parque residencial ou aumentar automaticamente os serviços públicos. A promoçom cria procura; nom cria capacidade territorial.

É neste ponto onde a discussom deixa de ser um conflito simplista entre quem está «a favor» ou «contra» o turismo. O turismo pode produzir renda, emprego, atividade comercial e intercâmbio. A questom é que lugar deve ocupar dentro da economia e até que ponto deve ser estimulado quando começa a competir com outros usos do território?

Cedeira, ademais, nom é um território economicamente vazio à espera de ser salvo polo visitante. A sua lonja comercializou em 2025, malia a mudança climática,  mais de 1,24 milhons de quilos de produto pesqueiro por 8,07 milhons de euros, tornando-se a sexta lonja galega por valor económico das vendas, apenas por trás de Vigo, Corunha, Burela, Celeiro e Ribeira. Há pesca e marisqueio, agricultura e gandaria, transformaçom alimentar, comércio, serviços e conhecimentos produtivos acumulados durante geraçons. Isto muda bastante a perspetiva. Nom se trata de perguntar como pode o turismo criar umha economia onde nom existe. Trata-se de decidir que relaçom queremos entre a economia produtiva existente e a economia turística.

Um visitante que come peixe desembarcado em Cedeira, compra produto local ou utiliza um serviço da vila pode reforçar essa economia. Nesse caso, o turismo funciona como umha procura complementar. O problema começa quando a lógica se inverte e som a pesca, o agro, o comércio, a cultura ou a paisagem os que começam a ser reformulados para encaixarem dentro da cadeia de valor turística.

O próprio Plano de Sustentabilidade Turística em Destino do Xeoparque Cabo Ortegal permite observar essa tensom. O plano contém medidas de conservaçom, educaçom, mobilidade, eficiência energética e adaptaçom climática que nom deveriam ser ignoradas. Mas, simultaneamente, desenvolve umha política orientada à ampliaçom da oferta e à atraçom de visitantes.  Umha das atuaçons denomina-se literalmente «Posta em valor de produtos do setor primário para o turismo». Pretende introduzir produto local e quilómetro zero na hotelaria, melhorar etiquetagem e packaging e converter produtos agroalimentares em presentes, recordos do Geoparque ou experiências vinculadas à atividade produtiva. Noutra atuaçom posterior, a produçom local aparece já transformada em «lembrança gastronómica» dentro dum produto turístico competitivo. É difícil encontrar umha formulaçom mais clara da pergunta que deveríamos faier: é o turismo que se coloca ao serviço do setor primário ou é o setor primário que começa a ser colocado ao serviço do turismo?

Modelo Parque Temático

Nom porque Cabo Ortegal esteja sendo literalmente transformado num recinto fechado com bilheteira, atrações e visitantes. A lógica é mais subtil. Consiste em começar a organizar um território real como se a sua principal funçom fosse produzir umha sequência coerente de experiências para quem o visita. A paisagem converte-se em cenário. O caminho, em itinerário. A pesca, em experiência gastronómica. O produto agrário, em lembrança. A festa, em evento. O património geológico, em atraçom. A identidade, em marca. E todas essas peças começam a ser conectadas através de rotas, aplicaçons, sinalizaçom, reservas, conteúdos audiovisuais, storytelling e produtos comercializáveis.O território continua sendo real, evidentemente. Mas passa a ser selecionado, tematizado e apresentado como experiência. A literatura chama Disneyization precisamente à extensom dos princípios do parque temático a outros espaços sociais: tematizar os lugares, misturar diferentes formas de consumo, produzir mercadoria associada à marca e organizar o serviço como experiência. O fenómeno foi estudado também em espaços turísticos onde localidades inteiras começam a ser reorganizadas arredor destas lógicas de consumo

A pesca nom existe para proporcionar autenticidade à paisagem. Um porto nom é primeiramente um cenário. O percebe nom é um recurso cultural pensado para completar um pacote turístico. Som produçom, trabalho, conhecimento, relaçons sociais e formas históricas de vida. Diversificar umha economia nom pode significar simplesmente diversificar as cousas que somos capazes de vender aos turistas. Um território realmente diversificado é aquele que conserva atividades capazes de produzir renda e vida social independentemente de quantas pessoas o visitem. É precisamente essa fronteira a que separa turismo de turistificaçom.

A turistificaçom nom começa quando chega o primeiro turista nem se mede apenas contando visitantes. Começa quando a procura turística adquire peso suficiente para reorganizar progressivamente o território arredor dela: que negócios som rentáveis, que usos recebe a vivenda que investimentos públicos parecem prioritários, que elementos culturais merecem promoçom ou que atividades produtivas se tornam visíveis porque podem ser incorporadas à experiência do visitante.

A linguagem institucional dá numerosas pistas. Nos últimos meses, a delegada territorial da Xunta em Ferrol, Martina Aneiros, participou em FITUR na apresentaçom de nove rotas autoguiadas polo Xeoparque, destacando a necessidade de promover o património geológico; a Xunta incorporou a eclipse à sua oferta turística; e anteontem, 3 de setembro, Aneiros apresentava o Camiño do Litoral em Cabo Prior e na Frouxeira como instrumento de conservaçom, mas também como um novo «atrativo de turismo ativo».

Cada iniciativa considerada isoladamente pode ter umha justificaçom razoável. O problema aparece ao observar a direçom comum da que participam  a maioria dos agentes políticos. O património geológico transforma-se em rota; o litoral em atrativo; o caminho em produto; o setor primário em experiência; a gastronomia em recordo; um fenómeno astronómico em oportunidade turística. Aneiros representa umha conceçom institucional moito mais ampla: parece que cada dimensom do território necessita demonstrar o seu valor tornando-se recurso turístico. E é neste ponto onde a turistificaçom pode ser entendida como algo mais profundo que a chegada de visitantes. O que está em jogo é a progressiva submissom do território à forma mercadoria.

Umha casa possui antes de mais um valor de uso: serve para habitar. Um caminho permite deslocar-se e comunica lugares. Um porto permite pescar. Umha festa é umha prática coletiva. Umha paisagem é também o meio material e simbólico no qual umha comunidade vive. Nada impede que todos eles tenham simultaneamente valor económico. O conflito aparece quando a possibilidade de os converter em mercadoria começa a condicionar os usos e formas  de vida anteriores. A casa torna-se alojamento. O caminho, rota comercializável. A festa, evento. A paisagem, atrativo. A cultura, conteúdo. A identidade, marca. Nom se vende já apenas um produto dentro do território: progressivamente começa a vender-se o próprio território sob a forma de produto.

Nom porque Cedeira, como o resto do país, seja literalmente posta à venda, mas porque partes crescentes da vida territorial som selecionadas, apresentadas, embaladas e promovidas segundo a sua capacidade para gerar procura externa. A habitaçom mostra com especial clareza as consequências desta transformaçom. Seria simplista atribuir ao turismo toda a dificuldade para encontrar aluguer anual em Cedeira. Os mercados residenciais dependem de múltiplos fatores e umha vivenda turística nom equivale automaticamente a umha casa que estaria disponível para residência permanente. Mas também seria insustentável pretender que os dous usos dum parque residencial pequeno nom competem entre si. Neste mesmo agosto o Concelho anunciava como oportunidade relevante a incorporaçom de nove vivendas a um programa estatal de aluguer acessível, com rendas entre 350 e 381 euros.

A contradiçom é conhecida noutros destinos já que o turismo pode criar emprego e simultaneamente encarecer o espaço onde devem morar as pessoas que trabalham nele. Pode aumentar a faturaçom comercial e reduzir a variedade de negócios orientados à populaçom residente. Pode incrementar determinados indicadores económicos enquanto diminui a habitabilidade. Por isso perguntar apenas «quanto dinheiro deixa o turismo?» é insuficiente. Importa também saber que atividades desloca e quais impede, que emprego cria, com que salários, quanto valor permanece localmente, que recursos consume e que capacidade conserva a comunidade para produzir riqueza quando passa agosto.

Nada disto é exclusivo de Cedeira. A turistificaçom forma parte dumha lógica capitalista mundial e, especialmente, a espanhola que se derivou do turismo de “sol y playa”. Países, cidades e regiões competem por visitantes, conectividade, eventos, investimento, notoriedade e marcas territoriais. Durante décadas, o aumento contínuo das chegadas funcionou como sinónimo internacional de sucesso. O interessante é que alguns territórios começaram precisamente a pôr essa equivalência em causa. Amesterdám nom deixou de receber visitantes nem declarou guerra ao turismo. Fijo algo conceitualmente mais interessante quando passou a afirmar oficialmente que pretende limitar o número de visitantes para manter a cidade como um lugar agradável para viver. A sua política turística procura reduzir determinados fluxos, restringe o crescimento hoteleiro e coloca explicitamente a qualidade de vida dos residentes entre os critérios que devem ordenar a economia do visitante. Nom é necessário imaginar Amesterdám como modelo transferível a Cedeira —as escalas, problemas e economias nom têm comparaçom— para perceber a mudança intelectual a cidade deixou de considerar que a procura turística seja um bem que deva maximizar-se sem limite. A pergunta passa de «como atraímos mais?» para «que quantidade e que tipo de turismo som compatíveis com a cidade que queremos?». Compostela também está a faier esta reflexão.

As Augas Santas deveriam servir de advertência. A Praia das Catedrais converteu-se num dos grandes ícones turísticos da Galiza até chegar a um ponto em que a própria administraçom teve que limitar o acesso. Desde 2015, durante os períodos de maior afluência, nom podem entrar na praia mais de 4.812 pessoas por dia. O objetivo declarado é precisamente evitar que o êxito turístico acabe comprometendo os valores naturais que justificam a proteçom do espaço. O paradoxo é evidente: primeiro um lugar excepcional converte-se em imagem, depois a imagem em destino, o destino atrai milhares de pessoas e finalmente é necessário criar reservas, quotas, vigilância e restriçons para proteger o lugar do sucesso da sua própria projeçom.

Cabo Ortegal deveria aprender dessa experiência antes, nom depois. Moitos dos lugares que agora aparecem em guias, vídeos promocionais, redes sociais e novas rotas possuem precisamente as características que podem produzir concentraçons moi rápidas: som espetaculares, fotogénicos, geologicamente singulares e, nalguns casos, de acesso relativamente simples. A fotografia perfeita para Instagram pode converter um lugar até agora pouco frequentado num destino em poucos anos. E as redes sociais introduzem um mecanismo novo. A administraçom já nom controla completamente o alcance dumha campanha. Umha fotografia, um vídeo ou umha localizaçom viral podem multiplicar exponencialmente a procura sobre um ponto muito concreto. Aquilo que desde um gabinete de promoçom parece apenas «dar a conhecer o património» pode terminar produzindo umha concentraçom que exige aparcadoiros, novos acessos, barreiras, vigilância e finalmente limitaçons de entrada.

As Catedrais mostram  aquilo que se começa a calcular quando a massificaçom já aconteceu. A pergunta para o Geoparque Cabo Ortegal é se vai esperar a que algum dos seus lugares mais frágeis percorra o mesmo caminho ou se vai fazer o percurso inverso: estudar primeiro fragilidade, acessibilidade e capacidade de carga e decidir depois quanto interessa promovê-lo. Porque nem todo geossítio necessita converter-se num ícone turístico.E talvez a melhor maneira de conservar alguns deles seja precisamente nom fazê-los virais.

Fonte: disfRutas Ortegal

Num contexto completamente diferente, o Butám construiu durante décadas a sua política arredor da ideia de High Value, Low Volume. O interesse deste modelo nom reside em idealizar um país com condiçons económicas, políticas e territoriais radicalmente distintas das galegas. Está no princípio que formula: o volume turístico deve manter-se dentro da capacidade de absorçom do ambiente natural, da sociedade, da cultura e das infraestruturas. A política oficial define precisamente o «baixo volume» em relaçom com essa capacidade de carga.

A ordem das perguntas é a inversa da que domina habitualmente a promoçom turística. Nom se decide primeiro quantos visitantes queremos conseguir para depois procurar como absorvê-los de maneira «sustentável». Determinam-se primeiro os limites do território e só dentro deles se decide o turismo que cabe. Esta diferença torna-se ainda mais importante quando introduzimos a mudança climática. Porque mesmo um destino perfeitamente gerido a nível local pode formar parte dum sistema turístico global climaticamente insustentável.

Podemos instalar painéis solares nos hotéis, separar resíduos, reduzir plásticos, utilizar produto quilómetro zero, criar vias cicláveis ou substituir veículos de combustão. Todas essas medidas som desejáveis. Mas existe um problema que a eficiência nom resolve se a procura continua crescendo mais depressa. Umha investigaçom publicada em Nature Communications estimou que o turismo mundial produziu em 2019 cerca de 5,2 gigatoneladas de CO₂ equivalente, 8,8 % das emissons globais de gases com efeito de estufa. Entre 2009 e 2019, as emissons turísticas aumentárom arredor de 3,5 % ao ano, enquanto os ganhos de eficiência tecnológica cresceram apenas aproximadamente 0,3 %. A principal causa foi o aumento da procura. Os autores concluem que alinhar o turismo com os objetivos climáticos exige, entre outras medidas, estabelecer limiares para o volume da procura turística.

Esta conclusom coloca um limite bastante material ao discurso do «crescimento turístico sustentável». É possível tornar cada viagem algo menos intensiva em carbono e, ao mesmo tempo, aumentar as emissons totais porque há mais viagens, mais distâncias e mais consumo. A verdadeira divisom política nom passa, portanto, simplesmente entre turismo «sustentável» e «nom sustentável». Passa entre dous modos moi diferentes de entender a sustentabilidade. Num deles, o crescimento continua sendo o objetivo e a tarefa consiste em torná-lo progressivamente mais verde: mais visitantes, mas fora de temporada; mais visitantes, mas usando mobilidade elétrica; mais experiências, mas de baixo impacto; mais produtos, mas quilómetro zero.

No outro, a sustentabilidade atua como limite anterior ao crescimento: primeiro decide-se o que deve ser conservado, que necessidades possui a populaçom, que economia queremos manter, que capacidade têm os ecossistemas e as infraestruturas e que orçamento climático podemos assumir. Só depois se pergunta que volume turístico é compatível com tudo isso.

Fonte: La Voz de Galicia

O PSTD de Cabo Ortegal contém precisamente esta tensom. Por um lado, incorpora a mudança climática, a sustentabilidade e a sensibilizaçom ambiental entre os seus objetivos. Por outro, promove novos produtos e experiências e dedica atuaçons específicas a incorporar o setor primário à economia turística. O problema nom é que um Xeoparque faça turismo. A própria UNESCO integra o desenvolvimento sustentável local entre as funçons dos Geoparques Mundiais. O problema é que o desenvolvimento sustentável acabe sendo interpretado automaticamente como desenvolvimento do turismo sustentável.Nom som a mesma cousa. Um Geoparque Mundial da UNESCO deve integrar conservaçom, educaçom e desenvolvimento sustentável com participaçom das comunidades locais. A UNESCO relaciona hoje explicitamente os geoparques com o uso sustentável dos recursos, a mitigaçom da mudança climática e a reduçom de riscos naturais. O Geoparque Cabo Ortegal, portanto, nom necessita justificar-se pola quantidade de pessoas que consegue trazer.

Pode justificar-se polo conhecimento que produz, polo património que conserva, pola educaçom ambiental, pola capacidade de fortalecer atividades económicas locais, polo apoio que recebe da populaçom e pola preservaçom dum território extraordinário. De facto, um excesso de sucesso promocional pode terminar ameaçando justamente aquilo que se pretendia valorizar. Um lugar natural nom aumenta a sua capacidade porque aumente a sua fama. Se cresce a concentraçom nos mesmos caminhos, miradouros, praias e afloramentos, chegam depois os aparcadoiros, os novos acessos, as estruturas de segurança, a canalizaçom dos visitantes e as transformaçons necessárias para adaptar o espaço à procura que fomos capazes de criar.

Hai, além disso, umha consequência menos visível da conversom do território em produto turístico pois nom todo aquilo que é ecologicamente prioritário possui o mesmo valor promocional. Um miradouro, um caminho costeiro, um regato, uma fonte ou umha paisagem facilmente fotografável podem transformar-se em rota, conteúdo para redes sociais e experiência turística. Recuperar durante décadas um monte ocupado por plantaçons monoespecíficas de eucalipto é outra cousa. Exige política forestal, investimento continuado, acordos com a propriedade, restauraçom ecológica e resultados que talvez nom sejam imediatamente vendáveis num folheto turístico. E, no entanto, pode ser bastante mais importante para o futuro ambiental do território.

A comarca do Ortegal apresenta historicamente umha forte presença de massas de eucalipto, e a própria Xunta reconhece atualmente a necessidade de controlar a superfície dedicada a esta espécie, financiando a transformaçom de eucaliptais em outras formaçons florestais para melhorar a biodiversidade, diversificar o monte e reduzir o risco de incêndio. Mas todos sabemos que isso não é assim.

Aqui aparece outra limitaçom da turistificaçom como política territorial. Aquilo que nom produz visitantes pode acabar parecendo menos valioso do que aquilo que produz imagens. Mas um Geoparque nom deveria conservar apenas a parte do território que pode converter-se em atrativo. A restauraçom dum bosque autóctono, a recuperaçom dumha zona húmida, a substituiçom progressiva dum eucaliptal ou a proteçom dum solo degradado podem ter pouco rendimento turístico imediato e, ao mesmo tempo, enorme valor ecológico. Se a sustentabilidade é real, a ordem deveria ser justamente a contrária: primeiro perguntar que necessita o ecossistema, mesmo quando a resposta nom seja comercializável; depois decidir se algumha parte disso pode também formar parte dumha oferta turística. Caso contrário, corremos o risco de praticar umha espécie de conservaçom seletiva. Proteger e financiar aquilo que aumenta o valor do destino e deixar num segundo plano aquilo que aumenta simplesmente o valor ecológico do território. E esse é talvez o melhor exemplo da diferença entre conservar um lugar e pô-lo em valor para o mercado.

Há aqui um paradoxo que diz bastante sobre o tipo de desenvolvimento que se está construindo em Cabo Ortegal. Enquanto a pesca, a gastronomia, o agro, os caminhos ou mesmo as festas som progressivamente reinterpretados para entrarem na cadeia turística, um dos usos produtivos que mais profundamente transformou a paisagem, a plantaçom industrial de eucalipto, nom necessita converter-se em atrativo turístico para conservar a sua funçom económica. A explicaçom é relativamente simples. A madeira já é mercadoria. Possui o seu próprio mercado industrial e a sua própria cadeia de valor. Nom precisa ser transformada em experiência, recordo ou produto turístico. O peixe, polo contrário, pode tornar-se experiência gastronómica. O produto agrário, lembrança do Xeoparque. O caminho, rota. A cultura, evento. A paisagem costeira, atrativo.

Isto revela umha característica importante da turistificaçom: nom substitui necessariamente as outras formas de exploraçom económica do território mesmo sendo contraproducentes e não tendo atrativo para o visitante; pode acrescentar-se a elas. O território pode continuar submetido a umha lógica florestal intensiva e, simultaneamente, ser reorganizado noutros âmbitos para o consumo turístico. A madeira sai como matéria-prima para um mercado exterior; a paisagem, a gastronomia e a cultura som comercializadas para outro mercado exterior ( o visitante). E aqui o paradoxo torna-se ainda maior. Porque umha transformaçom ecológica da paisagem florestal —reduçom progressiva das massas monoespecíficas de eucalipto, recuperaçom de carballeiras, soutos, vegetaçom de ribeira, matogueiras atlânticas e mosaicos agroflorestais— nom teria apenas valor ambiental.  Provavelmente produziria também umha paisagem mais diversa e, em muitos lugares, mais atrativa para a própria visitaçom..

Os bosques autóctones galegos apresentam maior diversidade de plantas e aves que os eucaliptais, e estudos recentes de paisagem mostram que as massas florestais maduras e multiespecíficas tendem a possuir maior valor recreativo e estético que as plantaçons intensivas. Um estudo publicado este mesmo 2026 sobre Galiza resume-o já desde o título: Not all green is good. Nem toda superfície coberta de árvores produz a mesma qualidade ecológica nem a mesma satisfaçom paisagística. Portanto, se o objetivo fosse realmente construir simultaneamente um território ecologicamente mais resiliente e paisagisticamente mais valioso, a restauraçom florestal poderia ser umha política muito mais coerente que a criaçom permanente de novos produtos turísticos. Mas isso obrigaria a tocar interesses económicos consolidados para alguns. E talvez aqui esteja a verdadeira contradiçom.

 

 

Resulta relativamente fácil transformar o Caminho de Santo André em produto turístico, pedir ao setor primário que melhore o seu packaging, converter a gastronomia em experiência ou abrir um novo itinerário para visitantes. É bastante mais difícil intervir sobre um modelo florestal que possui propriedade fragmentada, rendibilidade económica, indústria associada e décadas de consolidaçom territorial  depredadora. A turistificaçom acaba assim sendo seletiva. Turistifica-se aquilo que pode ser convertido em mercadoria turística sem questionar necessariamente as outras mercadorias que já estruturam o território. Por isso o resultado nom é umha substituiçom do velho modelo produtivo por outro ecologicamente sustentável. Pode ser simplesmente a superposiçom de duas lógicas: extrativismo florestal sobre o monte e extrativismo turístico sobre a paisagem, a cultura e a vida social.

O mesmo território é valorizado duas vezes para mercados externos, embora de formas diferentes. E isto permite formular de outro modo a pergunta sobre Cabo Ortegal: se dispomos de recursos públicos para transformar o território em destino turístico, por que nom colocar um esforço equivalente em transformar ecologicamente a paisagem que esse turismo vem contemplar?

O paradoxo é evidente uma vez que podemos acabar modificando aquilo que promovemos porque tivemos demasiado sucesso promovendo-o. Também a desestacionalizaçom necessita ser analisada sob esta perspetiva. Distribuir ao longo do ano um fluxo muito concentrado em agosto pode melhorar as condiçons laborais e reduzir picos. Mas se mantemos intacta a procura estival e simultaneamente criamos novas rotas, campanhas e experiências para aumentar as chegadas na primavera e no outono, nom estamos necessariamente reduzindo a pressom. Podemos simplesmente estendê-la ao conjunto do ano.

Desestacionalizar dez nom é o mesmo que transformar dez em quinze. Em Santiago de Compostela esta discussom chegou quando a massificaçom já era parte do problema. O atual processo de planeamento turístico municipal formula como objetivo um modelo ambiental, económico e socialmente sustentável, com especial atençom à convivência entre residentes e visitantes, e declara que pretende privilegiar umha procura de maior valor acrescentado frente a um turismo de massas baseado na quantidade. Nom é necessário esperar a chegar ao mesmo ponto para formular a mesma pergunta em Cabo Ortegal. Talvez o papel dumha política turística responsável nom seja sempre promover. Em certos momentos pode consistir em distribuir fluxos. Noutros, em limitar acessos. Noutros, em nom converter um novo lugar em produto. E onde a procura já seja suficiente ou excessiva, pode consistir simplesmente em deixar de estimulá-la. Nom há eclipses todos os anos. O 12 de agosto de 2026 foi excecional e nom deveria ser utilizado para fabricar umha imagem falsa dumha Cedeira permanentemente colapsada. Mas as exceçons também revelam os limites dum sistema. E três dias depois, sem eclipse, 9.157 veículos diferentes voltárom passar pola vila numha jornada que forma parte do calendário anual. Talvez ainda nom saibamos se Cedeira tem «demasiados turistas» em termos absolutos. O que sim podemos começar a perguntar é por que «mais» continua sendo o ponto de partida.

Cabo Ortegal nom necessita converter cada recurso num produto. Nem as Comarcas de Ortegal e Ferroterra nem Cedeira, necessitam que o agro e a pesca se transforme em experiência para demonstrar o seu valor. A paisagem nom precisa ser um atrativo antes de ser paisagem. Umha casa nom deveria valer mais como alojamento que como lugar onde alguém possa construir umha vida. O turismo pode estar ao serviço dum território assim. Pode complementar a pesca, o agro, os serviços e o comércio. Pode gerar renda sem substituí-los. Pode ajudar a conservar sem apropriar-se daquilo que conserva. A turistificaçom começa quando se inverte essa relaçom e o território passa progressivamente a existir em funçom daquilo que pode vender.

Um território vivo nom é um catálogo de experiências. É um lugar onde se produz, se trabalha, se habita, se cuida, se celebra, se conserva o valioso e se lembra. A sustentabilidade real nom consiste em conseguir que todo o turismo que sejamos capazes de atrair leve o adjetivo «sustentável». Consiste em decidir, antes de promovê-lo, quanto turismo é compatível com um território que queremos continuar habitando.

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