O que aconteceu em Ceuta permite ver com uma crueza particular aquilo que normalmente permanece escondido atrás da linguagem administrativa das «políticas migratórias»: seres humanos convertidos em moeda de troca num tabuleiro geopolítico. Pessoas com projetos migratórios próprios, famílias, adolescentes e crianças aparecem sucessivamente como instrumento de pressão entre Estados, problema de segurança, argumento eleitoral, ameaça à soberania ou simples número numa estatística. Enquanto milhares permaneciam sem alojamento adequado e menores aguardavam proteção, a direita espanhola encontrou nas imagens da fronteira a representação perfeita de uma suposta «invasão» sobre a qual construir medo, nacionalismo de Estado e desgaste do Governo.
A investigação sobre os acontecimentos de 30 e 31 de julho acrescentou agora um elemento que não pode ser ignorado. Um relatório do Centro Nacional de Inmigración y Fronteras (CENIF) considera que a mobilização não foi simplesmente espontânea e aponta para uma permissividade anómala das forças de segurança marroquinas, chegando a identificar agentes que teriam «guiado» pessoas em direção a Ceuta. O documento não demonstra que o Governo do sátrapa Mohamed VI tenha ordenado a operação nem identifica até agora a sua autoria intelectual, mas fornece indícios suficientes para que uma eventual participação do aparelho estatal marroquino seja investigada. Se essa hipótese se confirmar, estaremos diante de uma forma particularmente brutal de instrumentalização de pessoas utilizadas para produzir pressão territorial, social e diplomática sobre outro Estado. Precisamente por isso seria absurdo convertê-las retrospetivamente num «exército marroquino». Se foram utilizadas, a responsabilidade deve recair sobre quem as utilizou, não sobre as crianças, famílias ou jovens que atravessaram uma fronteira ao perceberem que se abria uma oportunidade para fazê-lo.
Mas a responsabilidade do Governo espanhol não desaparece por denunciar a de Marrocos. A política não é apenas aquilo que um Governo pretende fazer; é também aquilo que produz com aquilo que deixa de fazer.
Não existe equivalência entre Pedro Sánchez e Mohamed VI. Se setores do aparelho marroquino facilitaram deliberadamente a entrada, tratar-se-ia de uma decisão ativa que não pode ser atribuída ao Executivo espanhol. Houve, porém, um inquietante paralelismo nos efeitos. Enquanto de um lado milhares de pessoas podiam estar sendo convertidas em instrumento de pressão, do outro o Governo demorou demasiado a retirá-las da situação material que tornava possível continuar utilizando-as politicamente: pessoas durante semanas nas ruas, menores por identificar ou proteger, serviços públicos desbordados, cifras contraditórias e uma cidade submetida a uma situação que evidentemente não era normal.
No dia 31 de julho, Sánchez agradecia publicamente a cooperação das autoridades marroquinas e concentrava a explicação nas máfias que traficam pessoas e na desinformação que incentivara a travessia. Um mês depois, sabemos que uma unidade da própria Polícia tinha produzido um relatório que apontava para uma possível atuação de agentes marroquinos. Isto não demonstra que Sánchez conhecesse o documento nem que tenha deliberadamente encoberto Rabat. Demonstra algo politicamente suficientemente grave: o Governo construiu demasiado cedo uma explicação para acontecimentos cuja origem ainda desconhecia.
E construiu-a enquanto a resposta material chegava tarde. O grande plano de choque de 309 milhões de euros, incluindo 118 milhões para acolhimento e 63 milhões para políticas de menores, só foi aprovado em 1 de setembro. Nessa altura, o próprio Governo reconhecia 1.612 menores filiados em Ceuta, 1.129 chegados depois da crise, e admitia que era impossível saber quantos continuavam por filiar.
Esse deveria ter sido desde o início o centro da resposta de um Governo que se proclama progressista: proteger as pessoas e, em primeiro lugar, proteger as crianças. Não responder a cada exagero racista com outro número agregado nem minimizar a excepcionalidade material daquilo que estava acontecendo.
Quando um Governo responde a um problema real como se o problema fosse apenas a percepção exagerada da direita, a direita pode dizer: «nós somos os únicos que vemos o que está acontecendo». Depois acrescenta a sua explicação: a cidade não está desbordada porque as instituições falharam diante de uma situação excepcional, mas porque existe uma «invasão»; a criança que dorme na rua deixa de demonstrar a incapacidade do Estado para protegê-la e passa a demonstrar que Espanha está ameaçada. É assim que a inação pode alimentar exatamente o discurso que diz combater.
Durante semanas, enquanto o Governo falava de fluxos, retornos, cooperação e normalização, a direita mostrava fotografias de milhares de pessoas na rua. Uma narrativa era xenófoba; a outra parecia demasiadas vezes tecnocrática. E entre a xenofobia e a tecnocracia existe uma enorme desigualdade política: a primeira oferece uma causa, um culpado e uma emoção. Foi nesse espaço que prosperou a banderita.
As mobilizações de 2 de setembro, formalmente apresentadas como solidariedade com Ceuta, transformaram-se em moitos lugares em protestos contra Sánchez, pedidos de demissão, reivindicações identitárias e exigências de expulsão. Em Ceuta, milhares de pessoas saíram às ruas com bandeirinhas espanholas; PP e Vox aproveitaram a crise para endurecer o discurso sobre imigração e soberania. O problema não consiste apenas em que Vox fale de «invasão», «invasores» ou «expulsão». Consiste em que a direita convencional se desloque para o mesmo enquadramento porque descobriu a sua rentabilidade política.
É aqui que Les irresponsables, de Johann Chapoutot, se torna perturbadoramente atual. O historiador francês mostra como a chegada de Hitler ao poder não pode ser explicada simplesmente por uma irresistível «maré nazi». Elites conservadoras, nacionalistas, empresariais, administrativas e mediáticas consideraram que poderiam aproveitar a capacidade de mobilização da extrema-direita, incorporá-la ao seu projeto político e controlá-la depois. Não estamos em Weimar, e transformar toda semelhança política numa repetição de 1933 seria intelectualmente preguiçoso. Mas o mecanismo merece atenção. A extrema-direita não necessita sempre de converter todos em extrema-direita. Às vezes basta que consiga determinar de que se fala e com que palavras.
Quando uma emergência humanitária começa a ser narrada fundamentalmente como agressão à Espanha; quando «solidariedade com Ceuta» passa a significar banderitas, hostilidade ao Governo e maior dureza migratória; quando a palavra «invasão» abandona a periferia de Vox e começa a parecer uma descrição espontânea do acontecimento, a extrema-direita já ganhou parte importante da batalha cultural. É aí que aparecem os «irresponsáveis» de Chapoutot, não apenas aqueles que pretendem liquidar uma democracia liberal, mas aqueles que acreditam poder utilizar o medo, o nacionalismo de Estado e o racismo para derrotar o adversário sem pagar depois o preço daquilo que normalizaram. Mas também seria um erro começar a história no dia em que milhares de pessoas apareceram diante da fronteira espanhola.
Durante anos, Espanha e a União Europeia deslocaram para Marrocos uma parte crescente da tarefa de impedir que migrantes alcancem território europeu. Chama-se externalização das fronteiras: financiar, cooperar e negociar com países terceiros para que o controlo migratório seja exercido antes que as pessoas consigam alcançar o espaço jurídico no qual poderiam reclamar determinados direitos. A Amnistia Internacional tem advertido reiteradamente para os riscos humanos dessa política. Durante anos a Europa pediu a Marrocos que fosse o seu guarda-fronteiras; Ceuta mostra também o risco político de entregar a outro Estado a capacidade prática de apertar ou aliviar essa contenção.
A eventual instrumentalização marroquina, portanto, não é completamente exterior ao sistema europeu de controlo migratório. É uma das possibilidades produzidas pola própria relação de dependência. Quando a contenção de seres humanos se converte em objeto permanente de negociação económica e diplomática, esses seres humanos tornam-se inevitavelmente uma variável nas relações entre Estados. Aquilo que ontem funcionava como contenção pode amanhã transformar-se em pressão. E o Mohamed VI não chega a este conflito internacionalmente isolado.
A posição de Marrocos foi profundamente reforçada durante os últimos anos pola relação estratégica construída com Estados Unidos e Israel. Em dezembro de 2020, Donald Trump reconheceu a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental no mesmo processo político em que Rabat normalizou relações com Israel. A troca alterou significativamente a correlação regional: uma reivindicação central da monarquia marroquina recebia o apoio de Washington, enquanto Israel adquiria um novo parceiro árabe no quadro dos Acordos de Abraão. A relação não ficou no plano diplomático. Marrocos e Israel aprofundaram a cooperação militar e de segurança e, em janeiro de 2026, assinaram um novo plano conjunto de trabalho militar. Entretanto, Trump reafirmou este verão o reconhecimento norte-americano da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental. Nada disto demonstra que Israel ou Estados Unidos tenham participado diretamente nos acontecimentos de Ceuta. Afirmá-lo ultrapassaria as provas disponíveis. Com certeça? Significa que Rabat atua hoje a partir de uma posição geopolítica moito mais forte do que aquela que tinha antes da triangulação com Washington e Tel Aviv.
Moito antes de aquelas pessoas chegarem à praia ou à vedação, Estados Unidos, Israel, Marrocos, Espanha e União Europeia já negociavam fronteiras, soberania, reconhecimento territorial, cooperação militar, segurança e contenção migratória. Os poderosos discutem territórios e áreas de influência. Quem não tem poder acaba convertido em moeda de troca. É também por isso que o racismo que agora emerge nas ruas espanholas não pode ser reduzido a alguns insultos ou aos excessos verbais de Vox. A crise não inventou o racismo: retirou-lhe a tampa.
A Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância já advertia antes desta crise da persistência em Espanha de problemas relacionados com discurso de ódio e discriminação racial. A chegada massiva a Ceuta não encontrou, portanto, uma sociedade politicamente neutra. Encontrou categorias previamente disponíveis para classificar determinadas pessoas como «ilegais», «fluxos», «ameaças» ou «invasores». É isso que significa falar de racismo estrutural. Não significa afirmar que cada polícia, cada ceutense ou cada pessoa que se manifestou seja individualmente racista. Significa reconhecer uma estrutura na qual direitos, suspeita, mobilidade, proteção e violência se distribuem de maneira profundamente desigual segundo a origem, a nacionalidade e a racialização das pessoas.
Mas problema começa antes de alguém pronunciar essas palavras, quando determinadas populações passam a ser pensadas essencialmente como corpos que devem ser contidos, classificados, devolvidos ou utilizados. E quando entre esses corpos há crianças, toda a obscenidade da construção aparece diante dos olhos.
Enquanto os Estados discutem soberania, Saara Ocidental, alianças militares, segurança nacional e relações diplomáticas, o primeiro dever de uma democracia deveria ser muito mais elementar: alimentar, alojar e proteger uma criança. Não embalar-se numa banderita.
Uma criança dormindo na rua não ameaça a soberania espanhola. Acusa o Estado que não conseguiu protegê-la. No entanto, enquanto ainda havia menores por identificar e acolher, milhares de adultos agitavam banderitas para proclamar que «Ceuta se defende». A inversão é quase perfeita: quem necessita proteção aparece como ameaça; quem deveria protegê-lo aparece como vítima.
A banderita permite então evitar a pergunta verdadeiramente incómoda. Não apenas «quem atacou Espanha?», mas como construímos uma ordem política na qual uma criança pode tornar-se simultaneamente moeda de troca entre Estados, ameaça à identidade nacional e objeto descartável de uma política de fronteiras.
Ceuta mostra, afinal, o percurso do mesmo ser humano através de sucessivas operações de desumanização. Pode começar como alguém que quer atravessar uma fronteira; converter-se em instrumento de pressão para Marrocos; em «invasor» para a direita; em expediente administrativo para o Estado; em argumento eleitoral para Vox e PP. Cada um lhe atribui uma função. E em cada função desaparece um pouco mais a pessoa. Até que quase deixe de ser vista.









