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Cedeira, Historia — 1 Setembro, 2026 at 10:29 a.m.

Dez anos a escavar o Sarridal: da sauna à casa incendiada

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O Sarridal ainda não acabou de contar a sua história. Dez anos de escavações transformaram uma primeira sondagem municipal num dos sítios mais singulares da Idade do Ferro no norte galego; a cabana selada polo lume descoberta agora acrescenta a vida doméstica a uma história feita de muralhas, sauna, espaços comunitários, metalurgia e sucessivas reconstruções.As campanhas arqueológicas iniciadas em 2017 transformaram a interpretação do castro de Cedeira. O que começou com a descoberta de uma extraordinária sauna da Idade do Ferro revela hoje um assentamento que mudou durante séculos: casas derrubadas para monumentalizar o povoado, fortificações refeitas, espaços públicos, uma forja e, agora, uma cabana selada por um incêndio

Ollaparo documentava já em 22 de abril de 2017, antes da descoberta da sauna, a primeira campanha arqueológica promovida polo Concello: cerâmica castreja e romana, duas linhas defensivas e o fosso. A notícia acrescentava um dado importante para a história do lugar: uma das sondagens situava-se no acesso a Sonreiras, numa zona que tinha sido moito alterada por uma intervenção da Demarcación de Costas cerca de quinze anos antes. Portanto, o ponto de partida correto não é «em dezembro de 2017 apareceu uma sauna», mas «em abril de 2017 começou uma investigação sistemática que primeiro confirmou arqueologicamente a ocupação castreja e romana e delimitou as defesas; meses depois apareceu a sauna».

A cobertura de 2018 permite seguir a investigação da sauna enquanto ela ainda estava a ser compreendida. Ollaparo registou a consolidação e continuação da escavação e destacou aquilo que então diferenciava Sarridal de outros monumentos com forno conhecidos na Galiza: o muro duplo na passagem entre antecâmara e câmara, interpretado como solução para conservar melhor o vapor. Isto é melhor jornalisticamente do que contar retrospetivamente apenas que «se escavou a sauna»: permite mostrar como a interpretação se foi formando durante as próprias campanhas. O lume que destruiu uma casa do castro do Sarridal há mais de dois mil anos pode ter feito, paradoxalmente, aquilo que séculos de abandono raramente conseguem conservá-la.

Nas escavações realizadas em 2026, a equipa dirigida polo arqueólogo Emilio Ramil, da Axa Arqueoloxía, encontrou junto ao paramento interior da muralha uma cabana que ardeu e colapsou sobre si própria. Primeiro caiu a cobertura, com o seu entrançado de madeira e palha-barro; depois ruíram as paredes. O espaço não voltou a ser ocupado e ficou selado. Conservam-se madeiras, carvões, grande quantidade de material da cobertura e cerâmicas, incluindo fragmentos de dois recipientes com abundante decoração sogueada. No exterior apareceu ainda uma concentração de cerâmica que abre a hipótese da existência de uma área de produção oleira próxima. A casa nem sequer chegou ainda ao seu nível de ocupação: por enquanto, os arqueólogos trabalham sobre o derrube. (Cultura Galega, 2026)

É uma descoberta excepcional. Mas é também a última página —por agora— de uma história arqueológica que começou há quase dez anos e que foi modificando uma e outra vez aquilo que se pensava sobre o Sarridal.

Porque em 2017 ninguém sabia ainda que debaixo daqueles terrenos municipais da pequena península situada sobre a ria de Cedeira estava a aparecer uma das sequências castrejas mais complexas documentadas no norte da Galiza.

2017: uma sondagem e uma surpresa

Em abril de 2017, quatro pequenas sondagens arqueológicas no Campo do Castro começaram a transformar aquilo que Cedeira sabia sobre a península do Sarridal. Apareceram fragmentos de cerâmica castreja e romana, duas linhas defensivas e um fosso. Uma das catas abria-se precisamente junto ao acesso a Sonreiras, numa área alterada anos antes polas obras da Demarcação de Costas. O objetivo inicial era confirmar e delimitar arqueologicamente um castro conhecido, mas pouco estudado. Ninguém podia saber então que aquelas primeiras semanas abririam uma investigação que, quase uma década depois, continua a modificar a história do assentamento.

Meses depois apareceria a sauna castreja que tornou o Sarridal conhecido moito além de Cedeira. Depois vieram a pedra formosa, as datações anteriores à conquista romana, novas muralhas e fossos, um torreão, um grande espaço de provável uso comunitário, pavimentos de diferentes épocas, uma forja galaico-romana e, debaixo da própria monumentalização do castro, as estruturas do povoado que existira antes dela. Agora, em 2026, uma cabana destruída polo lume e conservada sob o próprio derrube permite aproximar-se de uma dimensão que os monumentos quase sempre deixam na sombra: como vivia a gente que construiu e transformou o Sarridal.

Treze dias depois chegou a descoberta que mudou a dimensão do projeto. As estruturas que estavam a aparecer não eram simples habitações. Formavam um monumento com forno, isto é, uma sauna castreja: forno, câmara de vapor, antecâmara e outras estruturas que faziam parte de uma arquitetura especializada então documentada em moito poucos sítios da Galiza. Era um edifício situado, além disso, dentro do recinto fortificado. (Cultura Galega, 2017)

O Sarridal deixava nesse momento de ser apenas mais um castro costeiro conhecido pola topografia para se converter num sítio arqueológico de referência.

2018: a sauna era anterior aos romanos

As intervenções de 2018 concentraram-se em compreender, escavar e consolidar aquela arquitetura. Na campanha de março completaram-se diferentes partes do monumento e apareceu, entre outros elementos, a base de uma coluna que sugeria que uma parte da estrutura exterior estivera coberta. No verão recuperaram-se o lajeado e empedrado do acesso, o banco da antecâmara, a entrada da câmara e a boca do forno. Identificou-se também uma solução construtiva pouco habitual: um sistema de dupla parede ou falsa abóbada destinado a conservar o vapor. 

Mas o dado decisivo chegou no final daquele ano. Uma amostra de carvão foi submetida a carbono 14 e situou a construção aproximadamente em 230 a.C., no século III antes da nossa era. A cronologia era fundamental porque demonstrava que o edifício termal fora construído antes da conquista romana do noroeste. O Sarridal contribuía assim para um debate arqueológico mais amplo: as chamadas saunas castrejas não precisavam de ser interpretadas como uma importação romana, pois a sua origem podia ser plenamente indígena. (La Voz de Galicia, 2018c)

A primeira imagem do Sarridal ficou assim estabelecida: um castro fortificado da Idade do Ferro com uma arquitetura coletiva extraordinariamente sofisticada. Mas essa imagem ainda era demasiado simples.

2019-2020: a sauna deixa de estar sozinha

Em 2019, os trabalhos começaram a alargar o olhar para o espaço envolvente. A escavação avançou sobre a muralha próxima da sauna e procurou novos troços da canalização de água relacionada com o complexo termal. A intenção já não era apenas conhecer o monumento, mas perceber como se integrava na organização do castro. (Ferrol360, 2019)

Em 2020, essa mudança de escala tornou-se evidente. A intervenção sobre o sistema defensivo revelou uma estrutura pouco comum: um torreão exterior à muralha, levantado sobre o fosso, além do bastião, outros tramos da muralha e pavimentos. Apareceu também uma moeda romana que, depois identificada com Vibia Sabina, mulher do imperador Adriano, permitiu confirmar que a ocupação e o uso daquele setor chegavam bem dentro do século II d.C. (Historia de Galicia, 2020)

O castro começava a mostrar uma característica que será determinante em todas as campanhas posteriores: não é um povoado congelado num único momento da Idade do Ferro. As muralhas caem, reconstroem-se e reforçam-se; os acessos mudam; os edifícios são reutilizados; novas construções ocupam espaços anteriores. Cada geração do Sarridal constrói, em certa medida, sobre a anterior.

2021: um espaço público que sobrevive à sauna

A campanha de 2021 reforçou ainda mais essa interpretação. Ao lado da sauna e em frente da porta monumental apareceu um grande edifício de cabeceira absidal, com pavimento de opus signinum, que não parecia ter função doméstica. Os materiais —entre eles terra sigillata hispânica tardia— situavam-no já em época tardo-romana, provavelmente no século IV d.C. (Cultura Galega, 2021)

A disposição era particularmente sugestiva: porta monumental, sauna e grande edifício não doméstico concentravam-se num mesmo setor. A equipa começou a considerar que aquela entrada do castro podia ter funcionado durante séculos como uma área pública ou comunitária, embora os edifícios que a compunham fossem mudando de função e cronologia.

A descoberta alterava também a velha imagem da romanização como simples final do mundo castrejo. No Sarridal, a incorporação ao mundo romano não significou o desaparecimento imediato do assentamento. Pelo contrário, houve reformas, novas construções e nova monumentalidade.

2022: compreender a porta e as defesas

As campanhas de 2022 concentraram-se sobretudo no sistema defensivo. Avançou-se na escavação do paramento exterior da muralha, do torreão e do antigo fosso. Ficaram à vista as suas paredes e o fundo, assim como sucessivos pavimentos: um empedrado de tradição castreja e outro posterior, galaico-romano. A investigação mostrava que também a própria entrada mudara de forma e função ao longo dos séculos. (Enfoques, 2022; Galicia Ártabra, 2022)

Nesse mesmo ano abriu no próximo Castelo da Concepción uma exposição permanente com materiais recuperados nas escavações, integrando a investigação arqueológica num projeto de divulgação e valorização pública do Sarridal. (Ferrol360, 2022)

2023: o ruído da forja fora do bairro residencial

Em 2023 chegou outra descoberta que obrigou a ampliar a interpretação económica do povoado. Nesse ano houve duas intervenções. Na primavera consolidou-se a muralha até ao cantil norte. No outono, os arqueólogos voltaram a uma plataforma situada entre as fortificações, onde sondagens anteriores tinham detetado escórias de ferro, fossas cavadas na rocha e sinais de combustão. A escavação permitiu identificar uma forja, com paredes, área de combustão, uma base pétrea que poderia ter servido de bigorna e recipientes ou fossas relacionados com o arrefecimento das peças. Sobre um nível castrejo aparecia uma fase galaico-romana com opus signinum, tégulas e outras estruturas. (Cultura Galega, 2023; Concello de Cedeira, 2023)

A posição da oficina era tão significativa como a própria forja: encontrava-se separada do espaço habitacional pola organização defensiva. pola primeira vez começava a ser possível falar de especialização funcional do espaço no Sarridal: áreas para viver, espaços comunitários, sistemas defensivos e uma zona de produção metalúrgica.O castro deixava definitivamente de poder ser lido como uma simples acumulação de casas dentro de uma muralha.

2024: para construir a sauna foi preciso destruir um bairro

Se 2023 permitiu olhar para fora da área residencial, 2024 obrigou a olhar para baixo. Na campanha realizada junto à sauna apareceram, cerca de um metro abaixo do monumento, restos de várias construções circulares. Os materiais situavam essas unidades domésticas nos séculos V-IV a.C., portanto antes da construção da sauna no século III a.C. A conclusão era extraordinariamente clara: para levantar o complexo termal, uma parte do povoado anterior fora demolida e todo aquele setor fora reorganizado. (Cultura Galega, 2024a)

A sauna adquiria assim um significado novo. Já não era apenas um edifício tecnicamente complexo. A sua construção implicara eliminar espaços habitacionais e reservar uma área próxima da entrada para uma arquitetura monumental de uso coletivo. Alguma decisão social — não sabemos tomada por quem nem através de que mecanismos — foi suficientemente importante para transformar a organização física do povoado.

No outono, outra campanha avançou sobre uma grande estrutura anterior à sauna. Apareceram três muros de uma construção de cantos arredondados e uma estrutura então interpretada provisoriamente como um possível “forno comunitário”. A hipótese de uma padaria, olaria ou outro espaço produtivo ficou aberta, precisamente porque a escavação ainda estava incompleta. (Concello de Cedeira, 2024; Cultura Galega, 2024b)

Essa hipótese é importante hoje precisamente porque já não se mantém.

2025: retirar um caminho para recuperar o caminho antigo

Em 2025, a investigação mudou novamente de setor e enfrentou um problema peculiar: para compreender a entrada antiga do castro era necessário retirar parcialmente o caminho contemporâneo que atravessava o sítio.

A campanha financiada pola Xunta atuou sobre cerca de cem metros quadrados entre o torreão defensivo, o fosso e o acesso atual à Punta Sarridal, procurando documentar a continuação do fosso, pavimentos e um grande muro com vão parcialmente conhecido. O projeto ficou ligado à construção de uma futura passagem elevada de madeira que permita manter o trânsito pedonal sem voltar a cobrir as estruturas arqueológicas. (Xunta de Galicia, 2025; Concello de Cedeira, 2025)

Foi uma campanha menos espetacular em termos de “objeto encontrado”, mas importante para reconstruir algo mais difícil: como se entrava realmente no castro e como esse acesso se modificou ao longo da sua história.

E é precisamente esta continuidade — escavar, consolidar e regressar depois às estruturas parcialmente conhecidas— que explica os resultados de 2026.

2026: aparece a casa e desaparece o forno

Este ano desenvolveram-se novamente duas campanhas, financiadas respetivamente polo Concello de Cedeira e pola Direção Xeral de Patrimonio. Os trabalhos abrangeram tanto a área próxima do paramento interior da muralha como o espaço exterior de alimentação da sauna. (Concello de Cedeira, 2026; Xunta de Galicia, 2026)

E produziram dois resultados que se complementam.

O primeiro é a cabana destruída por um incêndio. A estrutura conserva paredes de altura considerável, madeira carbonizada e grande quantidade de palha-barro procedente da cobertura. O paramento exterior é de boa qualidade, enquanto o interior parece mais pobre, talvez porque estivesse revestido com barro. O lume criou, sem o saber, uma cápsula arqueológica: a madeira e os carvões poderão fornecer novas datações e, quando se alcance o pavimento de ocupação, será possível saber que objetos ficaram dentro da casa no momento em que foi destruída. (Cultura Galega, 2026)

É ainda cedo para saber exatamente quando ardeu. Ramil considera que os materiais apontam para as primeiras fases da Idade do Ferro documentadas no assentamento. E há outra razão para a importância do achado: é uma das primeiras estruturas claramente suscetíveis de ser interpretadas como domésticas numa zona das escavações dominada até agora por arquiteturas monumentais, defensivas, produtivas ou comunitárias.

O segundo resultado de 2026 é quase o inverso de uma descoberta: uma hipótese desapareceu. Aquela estrutura interpretada em 2024 como um possível forno comunitário já não parece ser um forno. A continuação da escavação revelou numerosos moinhos circulares e naviculares e mesmo um almofariz, polo que algum tipo de atividade relacionada com cereal parece provável. Mas o edifício está ao mesmo tempo funcional e espacialmente relacionado com o complexo termal. É anterior à sauna e sofreu, como ela, numerosas reformas. Por agora, a sua função concreta permanece aberta. (Cultura Galega, 2026). Em 2024 havia uma estrutura incompleta e formulou-se uma hipótese. Em 2026 há mais superfície escavada, mais materiais e melhores relações estratigráficas, e a hipótese é abandonada. O Sarridal não está apenas a produzir achados; está a corrigir as interpretações produzidas polos próprios achados anteriores.

Quase mil anos escritos uns sobre os outros

Depois de quase uma década de investigação, é possível reconstruir uma sequência que em 2017 era inimaginável. Antes da sauna existiu um povoado da Idade do Ferro com casas e outras construções. Por volta do século III a.C., uma parte daquele espaço foi profundamente remodelada para instalar um complexo monumental de banhos de vapor. A sauna continuou a ser reformada e utilizada durante séculos. As fortificações também mudaram, com muralhas, fossos e torreões que conheceram diferentes fases. Em época galaico-romana continuaram as atividades económicas, entre elas a metalurgia, e o assentamento manteve a sua vitalidade. Já em época tardorromana ergueu-se junto à entrada um grande edifício não doméstico com cabeceira absidal e pavimento de opus signinum. (Castro Sarridal; Cultura Galega, 2021)

A cronologia final exige alguma prudência. As evidências publicadas permitem sustentar com clareza uma ocupação desde polo menos os séculos V-IV a.C. e a continuidade durante a época romana; materiais tardo-romanos levam determinadas estruturas até o século IV d.C. A página oficial do projeto propõe ainda uma possível fase sueva, nos séculos V-VI, a partir de algumas estruturas murárias, mas reconhece que nesse nível não apareceu material arqueológico diagnóstico que permita assegurar essa datação. (Castro Sarridal)

Esta precaução é também parte da história do sítio. O Sarridal que conhecemos hoje não apareceu inteiro em 2017. Foi construído arqueologicamente campanha após campanha.

Primeiro vimos a sauna.Depois percebemos que tinha uma data e  que continuara em uso durante a romanização; que diante dela havia um espaço monumental e  que o castro possuía uma complexa história defensiva pois apareceu uma área industrial. Depois descobrimos que, para construir a sauna, tinham sido derrubadas casas anteriores. E agora aparece uma dessas casas, selada polo lume, enquanto uma estrutura que julgávamos compreender volta a tornar-se uma pergunta.

É talvez essa a grande descoberta de 2026. O Sarridal deixou de ser o castro onde apareceu uma sauna para se converter num lugar onde podemos começar a observar como uma comunidade transformou, geração após geração, o espaço em que vivia.

A casa incendiada aproxima-nos finalmente das pessoas que habitavam atrás das muralhas. Se a conservação que se observa no derrube continuar no nível do chão, as próximas campanhas poderão encontrar algo ainda mais valioso do que um novo monumento: os objetos, os alimentos, os trabalhos e os gestos quotidianos de quem viveu no Sarridal antes de desaparecer debaixo das suas próprias paredes.

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