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Ceuta, laboratório da exceção

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A entrada de 72 mil pessoas em dous dias criou uma emergência humanitária sem precedentes numa cidade com cerca de 85 mil habitantes. A resposta da direita espanhola transformou, porém, a crise num campo de experimentação política: migrantes passaram a ser “invasores”, os fascistas de Vox reclamaram a militarização permanente da fronteira e o PP aproximou-se progressivamente da exigência de uma devolução generalizada, incluindo menores. Quando milhares de pessoas saíram para as ruas de Ceuta ao grito de “invasores, expulsão”, tornou-se visível um processo mais profundo: a exceção hai moito praticada na fronteira começava a converter-se numa linguagem política para o conjunto da sociedade. 

Cerca farpada de Ceuta

Na noite de 26 de agosto, milhares de pessoas voltaram a concentrar-se diante da Delegação do Governo em Ceuta. Ouviram-se palavras de ordem como “invasores, expulsão” e “Ceuta não se vende, Ceuta defende-se”. A manifestação deslocou-se depois para a praia de El Trampolín, onde ainda permaneciam migrantes sem alojamento adequado. A Polícia Nacional teve de criar um cordão para impedir que dezenas de manifestantes chegassem até eles. Segundo diversas fontes, houve tentativas de agressão a migrantes encontrados nas ruas, ouviu-se “a por ellos” e os agentes recorreram a gás lacrimogéneo para evitar confrontos.

A violência daquela noite não nasceu subitamente. Durante quase um mês, Ceuta vivera sob o impacto de uma entrada cuja dimensão ultrapassa qualquer episódio anterior na fronteira espanhola. O Governo fixou em 72 mil o número de pessoas que chegaram irregularmente nos dias 30 e 31 de julho, depois de algumas declarações oficiais terem feito circular a cifra de 80 mil. A diferença não altera a dimensão do acontecimento: em menos de dous dias entrou na cidade um número de pessoas equivalente a grande parte da sua população. A maioria regressou rapidamente a Marrocos, mas milhares permaneceram no território durante semanas.

A crise humanitária foi igualmente real. Durante uma missão realizada entre 15 e 18 de agosto, a Human Rights Watch entrevistou 76 migrantes e requerentes de asilo e encontrou milhares de pessoas a dormir nas ruas, em armazéns, nas encostas próximas da fronteira e em abrigos improvisados na praia de El Trampolín. A 13 de agosto, o Ministério do Interior calculava que permaneciam em Ceuta cerca de 5 mil pessoas; organizações locais admitiam que o número pudesse aproximar-se das 10 mil. Moitas não dispunham de abrigo, instalações sanitárias suficientes ou informação clara sobre os procedimentos de asilo. A organização documentou ainda uma situação particularmente vulnerável entre mulheres, raparigas e menores não acompanhados.

É importante partir daqui porque a transformação política da crise não pode ser analisada fingindo que Ceuta não enfrentou problemas concretos de capacidade, segurança, higiene, alojamento e convivência. Uma crítica da xenofobia que desprezasse essa experiência quotidiana apenas deixaria à extrema-direita o monopólio da descrição do que estava a acontecer. O problema começa precisamente na forma como uma emergência real é traduzida politicamente: quem passa a ser considerado sujeito de direitos, quem é convertido numa ameaça e que medidas se tornam aceitáveis quando essa ameaça é apresentada como existencial.

Uma exceção anterior

Ceuta não começou a funcionar como espaço de exceção em julho de 2026. Durante décadas, a condição de fronteira externa da União Europeia permitiu que práticas dificilmente concebíveis no interior da Península fossem apresentadas como consequência inevitável da pressão migratória.

A especificidade não reside apenas na vedação, na polícia ou na proximidade de Marrocos. A fronteira produz uma distribuição desigual da proteção. Para algumas pessoas, o Estado aparece como garante de direitos; para outras, apresenta-se sobretudo através da vigilância, da identificação, da detenção, da expulsão ou da espera administrativa. É precisamente esta clivagem territorial que permite interrogarmos. Falar de democracia obriga a perguntar para quem funciona como democracia e em que território, porque o mesmo aparelho estatal pode proporcionar segurança a uma população e administrar outra através da violência e da racialização.

O precedente dos menores devolvidos a Marrocos em 2021 é especialmente revelador. Em janeiro de 2024, o Tribunal Supremo espanhol confirmou que aquelas devoluções tinham sido ilegais. As autoridades tinham ignorado o procedimento individual previsto na Lei de Estrangeiros, que obriga a determinar a situação de cada criança ou adolescente, a ouvi-lo quando tenha maturidade suficiente, a assegurar a intervenção do Ministério Público e a decidir segundo o seu interesse superior. O Supremo acrescentou que se tratara de uma expulsão coletiva proibida pola Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

O episódio impede que se atribua a Vox a invenção da exceção fronteiriça. As devoluções ocorreram quando governavam em Madrid o PSOE e Unidas Podemos e quando Ceuta era dirigida polo PP de Juan Jesús Vivas. A diferença introduzida pola extrema-direita surge noutro ponto. Aquilo que o Estado democrático podia praticar como decisão administrativa irregular, posteriormente censurada polos tribunais, começa agora a ser defendido como programa político.

Ceuta permite observar aquilo a que Vladimir Safatle chama a passagem do “fascismo restrito” para o “fascismo generalizado”. É aqui que a noção de “fascismo restrito” não descreve necessariamente uma sociedade inteira como fascista. Procura identificar zonas onde a violência, a precarização ou a suspensão prática de garantias permanecem confinadas a determinadas populações sem comprometer a autoperceção democrática do conjunto. As tecnologias de violência exercidas durante séculos nos territórios coloniais constituiriam um precedente histórico dessa capacidade de separar espacialmente os destinatários da proteção e os destinatários da coerção.

Ceuta oferece uma expressão particularmente concentrada dessa estrutura. É território espanhol e europeu situado no continente africano, inserido numa história colonial e transformado numa das linhas de contenção da mobilidade entre África e a União Europeia. Não é necessário resolver a questão designando juridicamente a cidade como colónia para reconhecer a persistência de mecanismos de colonialidade: circulação diferenciada segundo a nacionalidade, externalização do control migratório para Marrocos, desigualdade no acesso à mobilidade e associação recorrente entre determinadas populações africanas, ameaça e desordem.

Da migração à “invasão”

A extrema-direita encontrou nesse espaço uma estrutura pronta a ser politicamente radicalizada. Durante a visita que realizou a Ceuta a 2 de agosto, Santiago Abascal pediu a “militarização permanente da fronteira” e descreveu a entrada como uma “invasão” promovida por Marrocos e permitida polo Governo de Pedro Sánchez. Apresentou-a também como uma agressão à soberania espanhola e exigiu que os migrantes que permaneciam irregularmente em Ceuta abandonassem imediatamente o território.

A mudança de vocabulário contém já uma mudança política. Um migrante que atravessa irregularmente uma fronteira continua a ser uma pessoa cuja situação deve ser determinada: pode ter direito a proteção internacional, pode ser menor, pode ter sido vítima de violência ou pode encontrar-se numa situação que permita legalmente a repatriação. Um “invasor” pertence à linguagem da guerra. A partir do momento em que a mobilidade é descrita como invasão, a militarização deixa de parecer uma medida extraordinária e começa a apresentar-se como defesa natural do território.

O desenvolvimento mais significativo, contudo, não está naquilo que Vox diz. Está na capacidade dessa linguagem para reorganizar a posição do PP. Nos primeiros dias de agosto, o Partido Popular ainda procurava marcar uma diferença relativamente à extrema-direita na questão dos menores. Defendia que qualquer solução teria de cumprir a legislação e admitia mecanismos de acolhimento entre comunidades autónomas. Poucos dias depois, a posição endureceu. A 12 de agosto, a vice-secretária de Coordenação Sectorial do PP, Alma Ezcurra, declarou em Ceuta que todos os menores deveriam regressar aos respectivos países de origem, fossem entregues às famílias ou aos sistemas nacionais de proteção.

Nas semanas seguintes, o partido exigiu que os serviços de estrangeiros trabalhassem “de manhã, à tarde e à noite” para acelerar as repatriações e insistiu em que deveriam regressar tanto adultos como menores, embora declarando que cumpriria a legislação aplicável.

A distinção entre PP e Vox continua a ser relevante. O primeiro, a priori, não abandonou formalmente o quadro jurídico nem assumiu integralmente o programa da extrema-direita. É precisamente por isso que o movimento merece atenção. O êxito político de uma linguagem radical não se mede apenas pola possibilidade de o partido que a criou chegar ao Governo. Pode medir-se também pola sua capacidade para determinar os termos dentro dos quais os restantes partidos sentem que têm de competir. Vox formula “invasão”, militarização e expulsão. O PP não precisa de repetir todos os elementos para operar dentro do campo já criado. Basta deslocar a discussão da proteção individual para a pergunta sobre a rapidez com que todos poderão regressar. Porém, o resultado do laboratório não aparece, portanto, numa simples deslocação de palavras de Vox para o PP.

A distinção entre PP e Vox continua a ser relevante, mas já não pode estabelecer-se simplesmente através do vocabulário que utilizam. O PP continua a reivindicar para si o quadro institucional e jurídico do Estado, embora algumas das soluções que propõe o tensionem cada vez mais; Vox, pola sua parte, formula abertamente a crise como um problema de soberania que exige militarização e expulsão. É precisamente por isso que o movimento merece atenção. O êxito político de uma linguagem radical não se mede apenas pola possibilidade de o partido que a criou chegar ao Governo. Mede-se também pola sua capacidade para determinar os termos dentro dos quais os restantes partidos sentem que têm de competir.

Neste caso, além disso, a categoria fundamental já era partilhada polos dous partidos desde os primeiros dias. Feijóo utilizou explicitamente “invasão” em 1 de agosto e falou também de uma “ocupação premeditada”; dous dias depois, Miguel Tellado descrevia o sucedido como uma “grande invasão”. Vox acrescentava-lhe a consequência mais coerente com esse léxico bélico: ataque à soberania, militarização da fronteira e expulsão imediata.

O que se modifica ao longo de agosto não é, portanto, a passagem da palavra “invasão” de Vox para o PP, mas aquilo que a categoria de invasão permite propor. A 19 de agosto, Feijóo já não distinguia entre adultos e menores: “Ni mayores ni menores. Han de regresar todos”. E a 27 de agosto José María Aznar, depois de declarar o seu apoio completo às medidas propostas polo líder do PP, condensou a lógica inteira afirmando en visita eleitoralista para apanhar o descontento da “debilidade” do governo espanhol que “se ha violado la integridad nacional de España. Una vez agredida solo cabe restaurar. Quien asalta nuestra frontera no puede permanecer en territorio nacional. Esta ha sido la mayor pero no primera avalancha”; quem “assalta” a fronteira não pode permanecer no território nacional e, uma vez agredida a soberania, “solo cabe restaurarla”. Há 8000 pessoas com necessidades das que hai que ocuparse. Porém, José Maria Aznar, presentou-se em Ceuta como o salvador dos ceutíes. O  especialista em pólvora e homem de Perejil (pouco antes de unir-se a Bush na guerra do Iraque polas armas de destruição massiva que não existiram nunca) quer uma devolução fulminante e sumaria e à margem das leis. Estamos assistindo a uma batalha pola exploração política do sofrimento humano.

A sequência é politicamente significativa. Primeiro, dezenas de milhares de pessoas com situações jurídicas, familiares e biográficas diferentes são convertidas discursivamente num corpo que ocupa território espanhol. Depois, desaparecem progressivamente as distinções internas desse conjunto: adulto ou menor, potencial requerente de proteção ou pessoa repatriável, situação familiar ou vulnerabilidade particular. Finalmente, a resposta deixa de ser pensada prioritariamente através dos direitos e procedimentos aplicáveis a cada pessoa e passa a ser deduzida da própria metáfora territorial: se existe uma invasão, existem invasores; se houve uma agressão à soberania, restaurá-la exige que os invasores abandonem o território.

É aqui que a linguagem deixa de ser apenas linguagem. A legislação espanhola continua a exigir, por exemplo, que a eventual repatriação de um menor seja decidida atendendo às suas circunstâncias familiares, depois de o ouvir e de avaliar o seu interesse superior. A fórmula “han de regresar todos” opera exatamente no sentido contrário: substitui a avaliação individual pola pertença a um sujeito coletivo previamente construído.

Essa transformação ajuda também a compreender o que acontece na rua. “Fora invasores” já não necessita de desenvolver uma teoria política sobre imigração: recebe pronta uma categoria que converte pessoas distintas numa presença coletiva hostil. A passagem decisiva não é, portanto, a de uma palavra de Vox para o PP e depois para a rua. É a formação de um campo semântico comum no qual “invasão”, “ocupação”, “assalto”, “avalanche”, “integridade territorial”, “soberania” e “restauração” começam a encadear-se como se descrevessem naturalmente o mesmo fenómeno. A manifestação apenas leva essa lógica à sua fórmula mais elementar: se são invasores, devem ser expulsos.

A fronteira não produz assim apenas uma política migratória mais dura. Produz uma gramática mediante a qual a presença de determinadas populações pode ser pensada como agressão e a redução das suas garantias como defesa legítima da comunidade. O migrante deixa de comparecer prioritariamente como indivíduo perante o direito e passa a fazê-lo como membro indiferenciado de um corpo estranho que entrou no território.

Há ainda uma segunda operação discursiva, diferente e não equivalente, que merece ser observada. Enquanto a direita apaga a individualidade das pessoas migrantes convertendo-as em “invasores”, o Governo tende a apagar a dimensão política da dependência espanhola de Marrocos apresentando-a como “cooperação”, coordenação diplomática ou boa vizinhança. A própria gestão da crise demonstra, porém, que o controlo efetivo da fronteira e, sobretudo, o retorno das pessoas que permanecem em Ceuta dependem da colaboração das autoridades marroquinas.

Surge assim um paradoxo. Quanto mais a direita invoca uma soberania absoluta e territorialmente autossuficiente, mais a crise revela que Espanha não possui uma soberania operacional absoluta sobre essa fronteira. Pode mobilizar polícia, Guardia Civil ou Exército; pode instalar barreiras e iniciar procedimentos de retorno. Mas não pode decidir unilateralmente que dezenas de milhares de pessoas regressem a Marrocos se Marrocos não controla a sua própria margem da fronteira ou não coopera posteriormente na sua readmissão.

Talvez seja precisamente esta contradição que a palavra “invasão” ajuda a ocultar. Converte uma relação política profundamente assimétrica e interdependente entre dous Estados numa imagem muito mais simples: um território soberano, uma fronteira violada e uma massa exterior que a atravessa. Mas Ceuta mostra justamente o contrário: a soberania que a direita apresenta como absoluta depende, para poder ser exercida, da cooperação do Estado que está do outro lado da fronteira.

A infância como fronteira política

É na situação dos menores que a racialização se torna mais visível. Depois de eliminar duplicações nos registos informáticos, o Ministério do Interior reduziu em 26 de agosto de cerca de 2.900 para 1.500 o número de menores migrantes identificados pola Polícia Nacional. A alteração mostrou também até que ponto a própria Administração continuava a tentar determinar, quase um mês depois da entrada, quantas crianças e adolescentes se encontravam efectivamente sob a sua responsabilidade.

A legislação permite a repatriação de um menor estrangeiro não acompanhado. O que não permite é partir da conclusão de que todos devem regressar e investigar depois como concretizar essa decisão. O interesse superior do menor deve ser determinado individualmente; é necessário conhecer a situação familiar, ouvir a criança ou adolescente e garantir que a eventual entrega no país de origem oferece condições adequadas. Foi precisamente a inversão desta lógica que o Tribunal Supremo declarou ilegal no caso das devoluções de 2021.

A diferença parece procedimental, mas contém uma concepção política fundamental. Enquanto existe avaliação individual, o Estado continua a ter diante de si uma criança cuja situação precisa de conhecer. Quando a resposta é “têm de regressar todos”, a pertença a uma população previamente classificada torna-se suficiente para antecipar o destino.

É neste sentido que a categoria de racialização é mais útil do que uma procura exclusiva de declarações biologicamente racistas. As formas contemporâneas de racismo não necessitam de empregar explicitamente o conceito de raça. Podem produzir hierarquias através da nacionalidade, da condição administrativa, da origem geográfica, da aparência, da religião presumida ou de categorias como “MENA”, convertendo depois essas características em indicadores de perigosidade ou de utilização ilegítima dos recursos públicos.

A fronteira entre a criança que deve ser protegida e aquela cuja presença é apresentada prioritariamente como problema migratório passa assim a reproduzir outra fronteira, menos visível do que a vedação de Ceuta, mas politicamente mais complexa.

A fronteira de Ceuta contém uma contradição que o discurso espanhol sobre soberania raramente reconhece. O seu control não depende apenas do Estado espanhol, mas da colaboração quotidiana de Marrocos. Essa cooperação tem sido intensa e moitas vezes eficaz, mas não é politicamente incondicional. A crise de 2021 demonstrou que Rabat estava disposto a flexibilizar o control migratório no contexto de um conflito diplomático sobre o Saara Ocidental; o próprio Parlamento Europeu qualificou então a migração como instrumento de pressão política. Espanha respondeu um ano depois modificando substancialmente a sua posição sobre o Saara e reconstruindo a relação bilateral. A fronteira que a direita apresenta agora como lugar onde deve exercer-se uma soberania espanhola absoluta é, na realidade, administrada através de uma dependência permanente de um Estado vizinho com interesses próprios.  A crise de 2026 põe ambas as narrativas sob tensão. Além disso, em Marrocos hai eleições gerais em 23 de setembro.

Que benefícios tirou Espanha ao assumir as teses de Marrocos sobre o Saara Ocidental?

Em 2022, Madrid trocou uma posição diplomática que mantivera durante quatro décadas por uma relação mais estável com Rabat. Alegaram ter obtido  alguns resultados: foi restabelecida a normalidade diplomática e retomado o diálogo político de alto nível, a cooperação migratória reduziu durante vários anos a pressão sobre algumas rotas, reabriram-se fronteiras e, com enorme atraso, as alfândegas de Ceuta e Melilha. Mas nenhuma dessas contrapartidas eliminou a relação de dependência que estava na origem da crise. Marrocos não reconheceu formalmente a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilha, não renunciou a reivindicá-las e conservou aquilo que mais poder lhe oferece perante Madrid: a capacidade de aumentar ou diminuir a contenção migratória na fronteira. A crise de julho de 2026 torna por isso inevitável uma pergunta que a narrativa da “boa vizinhança” procurava dar por resolvida: que recebeu Espanha, em termos estratégicos permanentes, em troca da sua mudança sobre o Saara Ocidental? 

Quando a exceção regressa da fronteira

As mudanças são tão vastas que a própria maneira como medimos e compreendemos as coisas está desaparecendo. As manifestações de 26 de agosto mostram até onde essa transformação pode chegar. A categoria de “invasor” já não estava apenas num discurso de Santiago Abascal ou numa publicação das redes sociais. Milhares de pessoas podiam utilizá-la nas ruas, e algumas tentaram deslocar migrantes de uma praia por iniciativa própria. A existência de problemas graves de convivência ou segurança não estabelece uma relação causal automática entre o discurso dos partidos e cada comportamento individual, mas revela que o enquadramento da população migrante como corpo estranho e ameaçador se tornou socialmente disponível.

O problema ultrapassa, aliás, Ceuta. O relatório sobre Espanha publicado em 2025 pola Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância já alertava para a difusão de discursos políticos que associavam imigração, criminalidade, insegurança e pressão sobre os serviços públicos, atingindo particularmente migrantes, muçulmanos e pessoas de ascendência africana. A crise não criou essa estrutura discursiva. Deu-lhe uma materialidade extraordinária e permitiu experimentar até onde poderia ser levada.

É neste ponto que Ceuta pode ser pensada como laboratório. Não porque a cidade seja essencialmente xenófoba, nem porque as preocupações dos seus habitantes perante a chegada de dezenas de milhares de pessoas devam ser desqualificadas como racismo. O laboratório encontra-se no processo polo qual uma emergência concreta altera os limites daquilo que pode ser proposto politicamente.

Durante anos, a fronteira tornou habitual que algumas pessoas fossem submetidas a um grau de vigilância, coerção, espera administrativa e vulnerabilidade jurídica que dificilmente aceitaríamos como normal no resto do território. A crise de 2026 permitiu dar um passo adicional. Essa desigualdade deixou de aparecer apenas como efeito indesejado da gestão fronteiriça e começou a ser apresentada como solução: militarizar, devolver em massa, rejeitar o acolhimento territorial dos menores e estabelecer uma hierarquia entre a segurança da população nacional e os direitos daqueles que chegaram de fora.

A fronteira não produz assim apenas uma política migratória mais dura. Produz uma gramática que alimenta a xenofobia, legitima a hostilidade e desumaniza. “Invasão”, “ocupação”, “avalancha”, “assalto” e “invasores” não descrevem simplesmente uma entrada irregular no território: transformam pessoas em ameaça, substituem indivíduos por uma massa indiferenciada e fazem desaparecer as suas histórias, direitos, idades, vínculos familiares e situações jurídicas concretas.

Há, além disso, uma discrepância reveladora entre essa representação e o próprio desenvolvimento dos acontecimentos. Mais de 70.000 pessoas entraram em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho, mas, segundo os dados apresentados polo Governo, entre 90% e 95% regressaram a Marrocos nas 24 ou 48 horas seguintes. Isto não significa que a crise desaparecesse: milhares permaneceram na cidade, numa situação humanitária e administrativa extraordinariamente difícil. Significa, porém, que a imagem de uma massa de dezenas de milhares de pessoas “ocupando” território espanhol sobrevivia discursivamente mesmo depois de a imensa maioria ter regressado ao outro lado da fronteira.

É precisamente esta capacidade de congelar a imagem do momento de máxima entrada que torna politicamente eficaz a metáfora da invasão. A palavra conserva os 70.000; a realidade posterior devolveu a Marrocos nove de cada dez, ou mais. O “invasor”, porém, já tinha sido produzido como sujeito político. A partir daí, a presença dos milhares que continuavam em Ceuta podia continuar a ser interpretada através da mesma categoria aplicada inicialmente a dezenas de milhares. Não é necessário negar que uma entrada de mais de 70.000 pessoas em dous dias constituiu uma perturbação extraordinária para uma cidade das dimensões de Ceuta. Polo contrário, a questão é como se transforma um acontecimento excecional numa identidade permanente atribuída às pessoas que participaram nele. «Entraram 70.000» é uma descrição quantitativa de um acontecimento; «70.000 invasores» já é uma interpretação política que lhes atribui coletivamente intenção, hostilidade e condição de inimigo. E o facto de 90–95% terem regressado em apenas 24–48 horas é particularmente incómodo para a percepçao inducida de «ocupação»: uma ocupação territorial pressupõe permanência; a esmagadora maioria daqueles que foram apresentados como ocupantes já não estava no território dous dias depois. 

A desumanização opera nessa passagem. Quem entrou deixa de aparecer como um conjunto de indivíduos que tomaram decisões diferentes — incluindo dezenas de milhares que regressaram quase imediatamente — e converte-se retrospetivamente numa única massa dotada de uma intenção comum: invadir, ocupar ou assaltar Espanha. A categoria não descreve apenas o que essas pessoas fizeram; atribui-lhes aquilo que supostamente são.

E quando a pessoa migrante deixa de ser apresentada como pessoa, menor, potencial requerente de proteção ou indivíduo sujeito a determinadas garantias e passa a integrar um corpo coletivo que agride o território, modifica-se também aquilo que parece legítimo fazer-lhe. Já não hai indivíduos perante o direito: hai um inimigo perante a comunidade. É nesse ponto que a linguagem xenófoba prepara o terreno para a redução das garantias individuais, para a expulsão coletiva e para a hostilidade social.

Por isso, “invasores, fora” não é simplesmente uma maneira mais dura de dizer “imigração irregular”. É a conclusão lógica de uma operação discursiva anterior: primeiro constrói-se uma massa hostil; depois atribui-se-lhe uma vontade coletiva; finalmente, a expulsão dessa massa pode ser apresentada não como limitação dos direitos de pessoas concretas, mas como restauração da soberania e legítima defesa da comunidade.

Ceuta deixa então de representar apenas o ponto geográfico onde a Europa procura impedir a entrada. A fronteira começa a cumprir uma função política mais ampla ao definir quem pertence à zona do ser a quem à zona do não-ser, que vidas merecem prioritariamente proteção e até onde podem ser reduzidos os direitos daqueles que ficam do outro lado dessa divisão. Em termos de Fanon, quem passa a ser gerido sob a racialização, agravando assim as restantes opressões e aumentando a disponibilidade estrutural da violência e da despossessão. É esse movimento da periferia para o centro, mais do que qualquer declaração isolada de Vox, que transforma Ceuta num laboratório da direita espanhola e europeia.

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