
No início de agosto visitamos o Pazo de Oca. A água, as camélias, os estanques, a pedra e os grandes jardins explicam facilmente por que o lugar se tornou um dos patrimónios aristocráticos mais conhecidos da Galiza e por que a promoção turística continua a apresentá-lo como o «Versalles galego». O que resultava mais difícil de explicar era outra cousa: na informação destinada ao público que encontramos durante a visita —folhetos, painéis e sinalética interpretativa— o galego não aparecia. A ausência seria significativa em qualquer espaço patrimonial galego. Em Oca é ainda mais difícil considerá-la um pormenor. Não estamos perante um monumento desligado das políticas públicas do país, mas perante um Bem de Interesse Cultural que a própria Xunta incorpora à promoção turística da Galiza, nomeadamente através da Ruta da Camelia. O Pazo pode ser apresentado como expressão da paisagem, da arquitetura e da história galegas enquanto a língua própria do território deixa de ser necessária para explicar ao visitante aquilo que está vendo.
A contradição não é nova nem desconhecida polas instituições. O Plan Xeral de Normalización da Lingua Galega, aprovado por unanimidade polo Parlamento em 2004, identificava precisamente no setor turístico uma «tendencia a ocultar a lingua galega» como se pudesse constituir um obstáculo ou uma impertinência perante os visitantes. Entre as medidas propostas estabelecia que, na rotulação dos lugares turísticos, nunca faltasse a versão galega e que esta figurasse em primeiro lugar. Vinte e dous anos depois, a visita a Oca mostra até que ponto esse diagnóstico continua vigente.
O problema não consiste simplesmente em que falte uma tradução. O castelhano e o galego não chegam em condições históricas equivalentes. Durante séculos, a castelhanização avançou precisamente entre as elites políticas, administrativas e proprietárias, enquanto o galego permanecia como língua maioritária das classes populares que trabalhavam a terra e sustentavam materialmente aquela sociedade. A língua hegemónica adquiriu assim a capacidade de ocupar determinados espaços sem precisar justificar a sua presença; é a língua subalternizada que continua sendo tratada como acrescento, opção ou concessão.
A própria história do Pazo permite perceber essa desigualdade. As contas do século XVIII mostram que os vassalos do couto entregavam ao senhorio, além de rendas e outros produtos, oito carros de lenha por ano e cerca de quarenta jornadas de trabalho «por señorío». A riqueza que permitia transformar uma parte do território em jardim, passeio e representação aristocrática dependia do trabalho e dos recursos entregues por uma população fundamentalmente galegófona. A presença do galego nos painéis de Oca é uma exigência elementar. Mas traduzir para galego a narrativa atual não seria suficiente para alterar a relação que fomos encontrando. Poderíamos conhecer em galego todos os casamentos dos Gayoso, todos os títulos dos Camarasa e todos os sucessores dos Medinaceli e continuar sem saber praticamente nada sobre as pessoas que entregavam os oito carros de lenha, cumpriam as jornadas «por señorío», atravessavam o caminho da Ponte das Donas ou trabalhavam os jardins.
Em 1842, Marx encontrara precisamente num conflito sobre os usos da madeira e os direitos dos pobres um dos problemas que o levariam da crítica jurídica à investigação das relações materiais de propriedade. Quase duas décadas depois, no prefácio de 1859 à Contribuição à crítica da economia política, Marx recordaria justamente os debates sobre os furtos de madeira e a divisão da propriedade fundiária entre os problemas que o tinham obrigado pola primeira vez a ocupar-se dos chamados «interesses materiais». O caminho que acabaria levando à crítica da economia política tinha passado por um bosque. O caso de Oca não precisa ser convertido numa réplica galega da Renânia para que essa leitura seja fecunda. Os próprios documentos fornecem a materialidade. Há vassalos obrigados a entregar lenha e trabalho; há um domínio que se expande; há um bosque incorporado à ordenação da propriedade; há uma muralha que fecha o conjunto; e há também caminhos cuja relação com essa propriedade não foi sempre pacífica.
O jardim de Oca oferece, portanto, uma imagem particularmente clara da divisão social que acompanhou também a divisão linguística. Aquilo que para uns podia ser paisagem, ócio e contemplação era para outros terra, madeira, trabalho e obrigação. Os grupos que dispunham do tempo e dos recursos para converter o território em espaço de fruição foram também aqueles que se integraram mais profundamente nos circuitos políticos e culturais castelhanizados. O galego ficou associado aos que produziam moito mais do que aos que deixavam o seu nome escrito na genealogia do Pazo.
Há uma pequena intervenção recente no jardim que ajuda a perceber como funciona essa transformação do território em representação. A Fundación Casa Ducal de Medinaceli decidiu retirar os tileiros situados junto da muralha porque formavam uma barreira visual que diminuía a sensação de amplitude. Ao cortá-los, recuperava-se a continuidade visual entre as sebes vivas do jardim e a fraga de Guillufe. O muro permanecia, mas o olhar podia atravessá-lo e incorporar a fraga à paisagem contemplada desde o jardim.
Mais um caso do que acontece política e culturamente com a própria Galiza. O território entra na representação; a língua pode ficar fora. Entram a pedra, o cruzeiro, a camélia, a fraga, a arquitetura, os topónimos e a categoria turística de «Versalles galego». A expressão «Versalles galego» condensa uma relação de poder que a linguagem turística tende a naturalizar. Oca adquire inteligibilidade e prestígio através da comparação com um centro já consagrado do imaginário aristocrático europeu, enquanto a sua diferença fica reduzida ao adjetivo que territorializa a versão periférica do modelo. Aí a categoria deixa de ser apenas uma metáfora promocional e passa a mostrar uma forma moito concreta de colonialidade cultural em que a periferia reconhecida enquanto diferença, mas medida polo centro e representada segundo categorias que não precisa controlar.

A sinalética encontrada durante a visita permite perceber que a questão ultrapassa a ausência de uma tradução. Num dos cartazes, a Fundación Casa Ducal de Medinaceli adverte em castelhano: «Siglos de civilización han creado lentamente este jardín. La barbarie destruye su encanto inmediatamente».
O cartaz leva esta pedagogia da propriedade à caricatura daliniana da mão de Albert Boadella, dramaturgo e patrono* da Fundación Casa Ducal de Medinaceli, fotografado rubindo muros, entrando nas sebes e manipulando a vegetação. A legenda pede ao visitante que não imite os «actos vandálicos» que ele representa e adverte que «siglos de civilización han creado lentamente este jardín» enquanto «la barbarie destruye su encanto inmediatamente». No rodapé, a Fundação identifica-se como «Propietaria de este monumento». A própria classe que administra o património encena assim ludicamente a alegada transgressão para estabelecer a norma que os restantes devem obedecer. E a autoridade capaz de definir simultaneamente a civilização, a barbárie, o comportamento legítimo e a propriedade do lugar fala exclusivamente em castelhano. Quanto mais se olha para a trajetória pública de Boadella, mais o cartaz deixa de ser apenas uma excentricidade humorística da Fundação. A sua escolha como figura que ensina ao visitante, em castelhano, a diferença entre “civilização” e “barbárie” introduz no Pazo uma conceção política bastante determinada das relações entre língua, território e Estado e condensa uma determinada maneira de narrar Oca.
O jardim aparece como produto abstrato da «civilização», enquanto desaparecem da frase as relações sociais concretas que o produziram: as rendas, as prestações de trabalho, a lenha entregue polos vassalos, os cerramentos e a longa concentração da propriedade. E a voz que estabelece simultaneamente o que é civilização, o que é barbárie e quem possui o monumento fala exclusivamente em castelhano. Porém, a escolha da figura que encena essa pedagogia da «civilização» também não é indiferente. Boadella representa fotograficamente a «barbárie»: trepa, entra nas sebes, toca, atravessa limites. A Fundação pede aos restantes visitantes que não imitem esses atos. E em baixo recorda quem possui o espaço: «Fundación Casa Ducal de Medinaceli. Propietaria de este monumento.» Tudo está escrito exclusivamente em castelhano.
Albert Boadella mantém há décadas uma intervenção pública particularmente intensa sobre a questão linguística. Foi distinguido em 1997 pola Asociación de Profesores por el Bilingüismo, crítica da política de normalização catalã; participou na plataforma que deu origem a Ciutadans e, em 2008, assinou o Manifiesto por la lengua común, que atribuía ao castelhano uma condição que negava às restantes línguas do Estado: ser a única língua «comum» de todos os cidadãos. O mesmo documento reclamava limites às políticas destinadas a privilegiar institucionalmente as línguas próprias nos territórios onde estas tinham sido historicamente subordinadas. Boadella di que o catalão é a sua língua materna, que o utiliza com a família e amigos e que se expressa nele tão bem como em castelhano. Também manifestou uma admiração profunda pola língua de Josep Pla. Portanto, a questão não é uma hostilidade individual a falar uma língua minorada. É politicamente mais significativa: Boadella representa uma conceção segundo a qual essas línguas podem possuir valor afetivo, literário e privado, mas não devem alterar a posição privilegiada do castelhano como língua do espaço público. Aparentemente, trata-se de um argumento “liberal” contra a intervenção do poder na língua. Mas a situação sociolinguística da qual parte já não é livre nem simétrica dado que uma das línguas possui Estado, administração, mercado comunicativo estatal e obrigação constitucional de conhecimento; a outra, no seu territorio, tenta recuperar institucionalmente funções das quais fora historicamente deslocada. Tratar a intervenção reparadora como “imposição” e a posição previamente adquirida polo castelhano como liberdade de escolha converte uma desigualdade histórica em ponto de partida neutro.
Boadella representa uma conceção segundo a qual essas línguas podem possuir valor afetivo, literário e privado, mas não devem alterar a posição privilegiada do castelhano no espaço público onde quer que haja uma língua nativa.
Todo isso torna moito mais difícil tratá-lo como uma escolha cultural inocente. Quem aparece no interior de um pazo galego ensinando ao visitante, exclusivamente em castelhano, a diferença entre os «séculos de civilização» que produziram o jardim e a «barbárie» que pode destruí-lo é precisamente uma figura pública identificada com uma conceção das relações linguísticas na qual o castelhano ocupa a posição de língua comum e as políticas compensatórias das línguas subalternizadas aparecem como imposição. Em Oca, essa hierarquia já não precisa sequer ser argumentada porque se encontra materializada na própria distribuição das línguas. O castelhano fala; o galego não está. É justamente essa construção de “língua comum” versus “línguas territoriais” que interessa para Oca. Não significa castelhano contra outras línguas numa oposição simples. Significa atribuir-lhes funções políticas diferentes. O castelhano aparece como língua não marcada da cidadania geral; catalão, galego ou basco aparecem como línguas específicas, territorialmente localizadas, cuja utilização institucional intensa corre constantemente o risco de ser descrita como identitária, coerciva ou particularista. Porém, em Oca, o galego nem aparece territorialmente localizado.
A escolha linguística adquire aí uma densidade histórica particular. Durante séculos, o galego permaneceu sobretodo entre a população que trabalhava e sustentava materialmente aquela sociedade, enquanto o castelhano se consolidava entre as classes que ocupavam os espaços de propriedade, administração e prestígio. Séculos depois, a população trabalhadora deixou de entregar jornadas «por señorío», mas a narrativa monumental continua podendo fazer desaparecer tanto o trabalho como a sua língua: os primeiros são absorvidos na palavra «civilização»; a segunda nem sequer entra no cartaz.
O castelhano não precisa demonstrar por que está num pazo galego. A história fez com que a sua presença pudesse aparecer como não marcada. Durante séculos foi a língua das funções oficiais, das elites progressivamente castelhanizadas e dos circuitos estatais de prestígio. O galego, associado durante grande parte dessa história às classes que trabalhavam a terra, pagavam rendas e permaneciam afastadas da cultura formal, chega à democracia com oficialidade jurídica, mas essa oficialidade não elimina automaticamente a distribuição social anterior das funções. É por isso que a ausência encontrada em Oca não pode ser tratada como simples falta de uma tradução.O castelhano não é uma língua que casualmente ocupa o espaço deixado livre pelo galego. É a língua que historicamente ocupou os espaços dos quais o galego foi sendo desalojado à medida que poder político, posição de classe e prestígio cultural se reorganizavam.E o Pazo reúne de uma maneira quase excessivamente concreta essas histórias.
Encontramos uma propriedade senhorial alimentada por rendas, lenha e jornadas obrigatórias; um domínio territorial que cresce e fecha o seu perímetro; uma aristocracia galega que acumula casas e se integra progressivamente em redes cortesãs supra-territoriais; uma língua popular que perde presença precisamente nos espaços dessas elites; uma propriedade nobiliária posteriormente convertida em património cultural; uma administração autonómica que a incorpora à representação turística do país; e, no fim do percurso, a língua histórica da população que sustentou aquele mundo fora da informação oferecida ao visitante. Nenhuma destas transformações é idêntica à anterior. O senhorio do século XVIII não é uma fundação do século XXI, a Xunta não é a Casa de Medinaceli e a normalização linguística não pode ser reduzida à história da propriedade da terra. Mas uma análise das formas de colonialidade não procura uma instituição que tenha permanecido imóvel durante cinco séculos. Pergunta como determinadas assimetrias conseguem sobreviver precisamente porque mudam de forma. A prestação senhorial desaparece enquanto a propriedade permanece; perdida a antiga jurisdição, esta converte-se em património, o património privado passa a ser protegido e promovido publicamente e o galego, já juridicamente oficial, continua sem adquirir por isso uma presença necessária nos espaços de prestígio que essa nova ordem patrimonial produz.
O muro de Guillufe parece-me agora mais interessante por aquilo que deixou de representar. Já não separa confortavelmente o jardim aristocrático de uma fraga galega livre que começaria do outro lado. Os documentos mostram que Guillufe estava igualmente atravessado pela expansão da propriedade, pela gestão do bosque e pelos caminhos que relacionavam o Pazo com o território.
A operação permite valorizar a paisagem galega sem deslocar a hierarquia cultural que determina a medida do seu valor. E permite incorporar a Galiza como cenário sem que a língua galega seja necessária para produzir a interpretação legítima desse cenário. A galeguidade funciona então como atributo visual e mercantilizável —pedra, camélias, clima, fraga, pazo— sem precisar assumir a língua que historicamente pertenceu sobretodo aos trabalhadores e grupos subalternizados daquela sociedade. O Pazo não é apresentado primeiro a partir da sua própria história social, territorial ou estética; é legitimado como versão periférica de um modelo já consagrado.Todo isso pode ser incorporado a uma imagem valorizada e consumível da diferença galega. Mas essa diferença pode ser apresentada sem que o galego participe da autoridade para explicá-la.
A trajetória política de Boadella personifica quem pertence justamente a uma corrente que apresentou as políticas de restituição funcional das línguas subalternizadas como ameaça à liberdade individual e reservou ao castelhano a categoria superior de língua
É neste sentido que o ocultamento da língua em Oca ultrapassa uma deficiência de sinalética. Mostra uma forma de integração desigual em que o galego está reconhecido juridicamente, é utilizado pola própria Xunta para promover o património e possui há décadas instrumentos de normalização, mas a sua presença continua podendo desaparecer justamente quando se entra num dos espaços de maior prestígio histórico e turístico do país.
Não é necessário procurar uma proibição. As relações linguísticas de poder raramente precisam hoje dela. Basta que uma língua seja considerada suficiente e a outra facultativa. Por isso escrevemos à Fundación Casa Ducal de Medinaceli reclamando que o galego (sem confirmar o recebemento) seja incorporado aos folhetos, painéis e restantes materiais informativos em condições de igualdade. Mas a questão não termina na Fundação. A Xunta protege e promove Oca e possui desde 2004 uma política que afirma explicitamente que nos lugares turísticos nunca deve faltar o galego. A distância entre essa declaração e aquilo que encontra o visitante é também responsabilidade de uma política patrimonial que conseguiu galeguizar simbolicamente Oca sem tornar necessária a sua galeguização linguística.Talvez seja essa a contradição mais reveladora.
A colonialidade linguística dificilmente poderia adquirir uma forma mais concreta. Não se manifesta aqui mediante a proibição do galego, mas através de uma distribuição desigual da autoridade linguística: na própria entrada do Pazo, a Fundação proprietária define em castelhano a «civilização», a «barbárie» e as regras de comportamento do visitante, enquanto a língua do território simplesmente não participa da enunciação. Uma língua aparece como particular e precisa continuamente conquistar funções; a outra pode falar em nome da civilização, da propriedade, do património e do público sem sequer precisar nomear-se. O Pazo pode ser suficientemente galego para ser promovido como património da Galiza e, ao mesmo tempo, não ser suficientemente galego para que a língua do país seja indispensável na forma como esse património se conta Uma língua que continua ausente dos lugares onde o país representa publicamente a sua própria história dificilmente pode deixar de ser uma língua subalternizada.
* Uma publicação académica de 2025 continua a apresentá-lo nessa função. Além disso, mantém desde os anos oitenta uma relação pessoal estreita com Ignacio Medina, duque de Segorbe e presidente da Fundação; em 2021 publicou El duque, dedicado precisamente a essa amizade e à sua admiração pola relação do aristocrata com a conservação, a beleza e o património. Portanto, o que encontramos em Oca é um membro do próprio patronato, ligado pessoalmente à direção da instituição e publicamente identificado durante décadas com uma determinada política das línguas.

























