O Colectivo Decolonial de Ferrol convoca para domingo, 30 de agosto, às 12.00 horas, na praça que leva o nome de Ramón Plá y Monge, um ato dedicado à «Memória da Escravitude». A iniciativa chega depois de novas investigações terem documentado com moito maior precisão as relações da família Plá —e do próprio futuro marquês— com a economia escravista cubana. O debate já não consiste apenas em saber se Amboage foi o filantropo que a cidade homenageia há mais de um século, mas em perguntar de onde procedia o capital que tornou possível essa filantropia e quem ficou fora dessa memória.
A memória de Ferrol e de Galiza também se construiu sobre aquilo que ficou fora dela. Poucos lugares poderiam condensar melhor a questão. No centro da antiga praça de Dolores ergue-se desde finais do século XIX a estátua de Ramón Plá y Monge, marquês de Amboage. Depois da sua morte, em 1892, o Concello decidiu dar o seu nome à praça e perpetuar a memória de um homem cuja fundação destinara recursos à redenção do serviço militar de moços sem meios e à beneficência. Em 1893 ficou estabelecida também a celebração anual de uma homenagem a 31 de agosto. Durante gerações, essa foi essencialmente a história que Ferrol contou sobre Amboage: a do emigrante enriquecido em Cuba que devolveu uma parte da sua fortuna à cidade.
O «antitributo» convocado para o dia anterior desloca o olhar para aquilo que esse relato deixou fora. Não nega que a fundação existiu nem que famílias pobres de Ferrol se beneficiaram dela. Pergunta polo processo anterior: como se formou a riqueza que permitiu a Ramón Plá converter-se em grande investidor, proprietário e posteriormente benfeitor?
Durante moito tempo, a historiografia local respondeu separando claramente Ramón Plá do tráfico de pessoas escravizadas. Em 2005, quando preparava a sua extensa biografia do marquês, Juan José Burgoa qualificava de «manida e infundada» a afirmação de que a fortuna de Ramón procedesse da trata e atribuía a atividade escravista ao seu irmão José, proprietário e fazendeiro em Cuba. Essa interpretação acabou consolidando uma espécie de divisão familiar: José teria sido o negreiro; Ramón, o comerciante e investidor posteriormente dedicado à filantropia.
As investigações mais recentes obrigam, porém, a rever essa separação.

O historiador económico Luís Alonso Álvarez reconstruiu nos últimos anos a participação galega no tráfico transatlântico combinando a base internacional SlaveVoyages com documentação notarial. O seu trabalho mostra que o pai de Ramón, Francisco Félix Pla i Pullés, armador estabelecido em Ferrol, adquiriu navios destinados às costas africanas e fazia parte, já na segunda década do século XIX, das redes locais envolvidas na trata. Alonso Álvarez assinala ainda que os seus filhos se transformariam posteriormente em agentes importantes do tráfico de Havana.
A documentação é particularmente contundente no caso dos irmãos de Ramón. Em 1853, Narciso e José Pla, já estabelecidos em Cuba, participaram no financiamento do bergantim Nueva Empresa, que adquiriu 325 pessoas escravizadas em África e desembarcou 296 em Cuba. José Pla aparece depois associado a alguns dos maiores traficantes da ilha, entre eles Julián Zulueta. Alonso Álvarez situa expressamente Ramón Pla entre essa «segunda geração de traficantes galegos instalados em Cuba» e relaciona a acumulação familiar com o capital que o futuro marquês transformaria depois em ações do Banco de Espanha e noutros investimentos.
Mas a mudança historiográfica não depende apenas das atividades dos seus familiares. Uma investigação de Marcos Abalde Covelo, publicada em 2024 na revista O Retorno e apresentada em março de 2025 no Centro Social Artábria juntamente com Alonso Álvarez, procurou especificamente documentação sobre Ramón Plá. Segundo a documentação localizada por Abalde e posteriormente resumida por Enrique Barrera Beitia, Plá aparece como proprietário, com Jaime Font, de instalações em San Antonio Chiquito utilizadas para alojar pessoas escravizadas antes da venda, assim como do engenho açucareiro San Pablo, onde o registo consultado assinala mão de obra escravizada. A investigação liga-o também a La Positiva e posteriormente a La Alianza, sociedades relacionadas com a importação de trabalhadores chineses submetidos em Cuba a sistemas contratuais coercivos.
Há, portanto, uma diferença importante entre repetir que «Amboage era negreiro» como uma acusação transmitida durante décadas e afirmar que a investigação contemporânea está proporcionando fontes que permitem reconstruir materialmente as suas relações com o sistema escravista cubano. É justamente aí que o debate deixa de depender da reputação posterior do personagem.
Ferrol não aparece só nesta história
O caso de Amboage insere-se num quadro moito maior que começa agora a chegar ao espaço público galego. O trabalho de Alonso Álvarez documenta a participação direta ou indireta de empresários estabelecidos nos portos galegos na trata transatlântica. As investigações divulgadas polo projeto A Coruña entre memorias contabilizam polo menos 84 expedições entre 1800 e 1860 e 23.176 pessoas africanas embarcadas como escravizadas, com A Corunha como principal porto, mas também com a participação de Vigo e Ferrol.
A questão saiu entretanto dos arquivos. A exposição A Coruña: porto negreiro, apresentada inicialmente no MUNCYT e aberta atualmente no espaço NORMAL da Universidade da Corunha, reconstrói as ligações entre tráfico de pessoas, acumulação de fortunas, crescimento urbano e memória pública. Em março deste ano, uma apresentação do projeto no Centro Social Artábria assinalava precisamente que A Corunha e Ferrol funcionaram como «portos irmãos» neste circuito, com famílias e redes empresariais que se moviam entre as duas cidades do golfo Ártabro.
Também não é a primeira intervenção deste tipo em Ferrol. Em 18 de junho, o mesmo Colectivo Decolonial de Ferrol organizou no Centro Cívico de Canido uma Xornada de descolonización e memoria reparadora, com Germán Labrador, Marcos Abalde, Eliseo Fernández e Celia Fernández. O «antitributo» de agosto pode ser entendido, portanto, como a passagem desse trabalho de investigação e debate para o próprio espaço monumental da cidade.
Nem uma Galiza inocente nem uma culpa galega abstrata
Reconhecer esta história exige também cuidado com o sujeito coletivo. Dizer simplesmente que «a Galiza foi escravista» pode ocultar tanto como o velho relato que a apresentava apenas como vítima da pobreza e da emigração. Não foram «os galegos» indiferenciadamente que financiaram navios, compraram pessoas em África ou possuíram engenhos cubanos: foram comerciantes, armadores, proprietários e redes familiares concretas, inseridas no aparelho económico e político do império espanhol.
Ao mesmo tempo, outros galegos chegaram a Cuba precisamente como força de trabalho pobre. O episódio da empresa de Urbano Feijoo Sotomayor é exemplar. Em 1854 transportou 1.744 trabalhadores galegos para a ilha com o objetivo explícito de proporcionar mão de obra branca barata num contexto de dificuldade crescente para manter a oferta de trabalhadores escravizados. Os contratos e as condições efetivas foram tão coercivos que a documentação contemporânea comparou a sua situação com a escravidão.
Não há contradição entre ambas as histórias. Há posição social e de classe mas também um estatuto de dupla colonialidade. A mesma sociedade que expulsava camponeses e trabalhadores por falta de meios produziu elites mercantis capazes de organizar e rentabilizar os circuitos coloniais espanhois. Cristina Botana e Fernando Pérez Barral formularam precisamente este problema ao analisar a memória colonial galega: o relato da Galiza empobrecida, subordinada e emigrante não pode converter-se numa explicação que apague a participação de determinadas elites galegas na produção da própria colonialidade.
É provavelmente aqui que o «antitributo» pode adquirir uma dimensão que vai além do julgamento moral de um homem morto há 134 anos. A questão não é decidir se Ramón Plá deve ser recordado como benefator ou como participante numa economia escravista, como se uma das duas coisas anulasse necessariamente a outra. A questão historicamente mais interessante é precisamente compreender como puderam coexistir.
Ferrol conserva o nome, a praça e o monumento do homem que distribuiu uma parte da sua riqueza. As pessoas cujo trabalho escravizado participou na produção dessa riqueza não têm estátua, praça nem homenagem anual.
No domingo 30, o «antitributo» propõe alterar, polo menos durante algumas horas, essa distribuição da memória.










