Histagra iniciará entre 31 de agosto e 11 de setembro a primeira cata arqueológica no cemitério ferrolano, onde estão documentadas polo menos 197 pessoas assassinadas e enterradas em várias fossas. O grupo da USC pede a colaboração de familiares e da vizinhança para reconstruir a identidade e a história das vítimas.

Noventa anos depois do golpe de Estado de julho de 1936, uma das maiores concentrações conhecidas de vítimas da repressão franquista na Galiza começa finalmente a ser investigada sobre o terreno. O grupo Histagra da Universidade de Santiago de Compostela (USC) realizará entre 31 de agosto e 11 de setembro a primeira intervenção arqueológica no cemitério de Serantes, em Ferrol, onde a documentação histórica permite estabelecer que polo menos 197 pessoas foram assassinadas e enterradas em várias fossas.
Antes do início dos trabalhos, Histagra lançou um chamamento às famílias das vítimas, mas também à vizinhança de Serantes e a qualquer pessoa que conserve documentos, fotografias, testemunhos ou informações sobre os enterramentos. O objetivo é completar a investigação histórica já realizada e reunir dados que possam ser relevantes à medida que a intervenção arqueológica avance. A USC disponibilizou para este fim o endereço
A magnitude de Serantes é excecional. Segundo os dados recolhidos polo projeto Nomes e Voces, em 1936 foram assassinadas e enterradas no cemitério polo menos 139 pessoas. Setenta delas foram vítimas dos chamados paseos e outras sessenta foram fuziladas depois de conselhos de guerra. Só em 22 de setembro de 1936 foram executadas 32 pessoas. Os enterramentos continuaram nos anos posteriores e a contagem documentada para o período entre 1936 e 1942 eleva-se a 197 vítimas.
Serantes não constitui, além disso, um episódio isolado dentro da repressão sofrida por Ferrol e Trasancos. A investigação histórica situa em mais de 900 as pessoas assassinadas na comarca histórica de Trasancos e estima que outras 298 vítimas foram enterradas nas fossas do desaparecido cemitério ferrolano de Canido.
De Beira a Serantes: da documentação aos corpos
A intervenção faz parte do convénio entre a Deputação da Corunha e a Universidade de Santiago, através do qual Histagra coordena em 2026 a investigação das fossas de Beira, em Carral; Boisaca, em Compostela; e Serantes, em Ferrol. O próprio grupo da USC identifica estes três espaços como parte da sua atual linha de investigação em memória democrática.
Os trabalhos realizados este verão em Beira mostram a importância que pode adquirir esta investigação. A documentação histórica indicava que polo menos 18 pessoas assassinadas polo franquismo tinham sido enterradas naquele cemitério. A primeira cata arqueológica permitiu localizar quatro corpos, um dos quais já apresentava, depois da exumação, indícios de violência compatíveis com o contexto repressivo documentado.
A localização dos restos abriu ali uma segunda fase: análise antropológica e forense e, quando seja possível, comparação genética com familiares das vítimas. A experiência de Beira ajuda assim a compreender por que o chamamento realizado agora em Serantes não constitui apenas um exercício de memória oral. A participação das famílias pode acabar sendo necessária para devolver um nome aos restos que eventualmente sejam localizados.
Um território marcado pola ditadura fascista
A memória de Serantes não termina, porém, nas fossas de 1936. As antigas parroquias do município de Serantes conservaram durante décadas outras consequências materiais das decisões tomadas durante a ditadura.
Em 1960, o Concello de Ferrol promoveu o consórcio dos montes comunais de San Xurxo, As Cabazas de Covas, Briom e Doninhos, no antigo território de Serantes. A vizinhança perdeu usos tradicionais ligados ao pastoreio e à recolha de estrume e chegou a ser sancionada pola guarda florestal quando continuava utilizando uns terrenos que considerava comunais. Décadas depois, os conflitos em torno dos Montes do Chá continuavam vivos e os moradores reclamavam a restituição desses bens para o uso em mão comum.
São processos históricos diferentes e não devem ser confundidos: uma cousa são os assassinatos, as fossas e a política de terror iniciada em 1936; outra, as transformações patrimoniais e administrativas realizadas décadas depois. Mas ambos ajudam a compreender que a ditadura deixou em Serantes uma memória inscrita não apenas nas biografias, mas também no território.
A escavação que começará no fim deste mês acrescenta agora uma nova camada. Durante décadas soube-se que havia mortos em Serantes; conhecem-se moitos dos seus nomes e as circunstâncias da repressão. O que começa em 31 de agosto é outra distinta perguntar arqueologicamente ao terreno onde estão, quantos são e se ainda é possível identificá-los.
Para isso, a memória conservada polas famílias e pola vizinhança pode ser tão importante como a documentação depositada nos arquivos.
Contacto para fornecer informação sobre vítimas ou enterramentos em Serantes:
Histagra – Universidade de Santiago de Compostela
histagra@usc.gal









