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Galiza, Obituário — 19 Agosto, 2026 at 11:16 a.m.

De Foz a Brest e de volta a “Foz” : morre Luís Gonçales Blasco

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Fundador da UPG, exilado antifranquista, redator e signatário da Carta de Brest, professor e reintegracionista, Luís Gonçales Blasco morreu no mesmo dia em que completava 85 anos. A sua vida percorreu meio século de nacionalismo galego, desde a clandestinidade dos anos sessenta até à tentativa de colocar a Galiza no mapa internacional das nações sem Estado.

Este verão, Foz faltou a Foz. Xabier Grandío (Cronica3con A Mariña) começara a estranhá-lo antes de saber que o amigo tinha morrido. Tinham falado última vez uns dois meses antes e vira-o com bom aspeto. Mas Luís Gonçales Blasco, conhecido durante décadas simplesmente como Foz, costumava regressar no verão à vila onde nascera e era raro que não estivesse por lá durante as festas do Carme. Desta vez não aparecera. Na terça-feira, 18 de agosto, Grandío recebeu polo WhatsApp a notícia do seu falecimento.

Luís Gonçales Blasco morria precisamente no dia em que completava 85 anos. Nascera em Foz em 18 de agosto de 1941 e o nome da vila acabou por acompanhá-lo como nome político por uma trajetória que, paradoxalmente, se desenvolveu em grande medida longe dela: Madrid, Compostela, Paris, Brest, Portugal e as comunidades da emigração galega na Europa.

A sua biografia atravessa algumas das grandes transformações do nacionalismo galego da segunda metade do século XX. Em Madrid integrou Brais Pinto, o grupo de estudantes e intelectuais galegos no qual participaram também figuras como Xosé Luís Méndez Ferrín e Bautista Álvarez. Passou depois polo Consello da Mocidade, a tentativa de reorganizar politicamente uma nova geração do galeguismo nos primeiros anos sessenta. As divergências entre o setor ligado a Ramón Piñeiro e os jovens que se aproximavam do marxismo acabariam na expulsão destes últimos e na criação de um novo espaço político. Foz participou, em 25 de julho de 1964, no ato da Rocha, em Compostela, considerado a fundação formal da União do Povo Galego (UPG).

Não era ainda o nacionalismo que emergiria da Restauração Borbônica do 78. Aquela primeira UPG formava-se sob o impacto internacional das lutas anticoloniais, da revolução cubana, da independência da Argélia, do Vietname e de figuras como Patrice Lumumba ou Ahmed Ben Bella. O próprio Foz explicaria décadas mais tarde que aquela geração interpretava a situação galega através de uma combinação de marxismo, anti-imperialismo e reivindicação nacional. Nesse vocabulário político, a Galiza era concebida como uma nação submetida a relações de dependência de tipo colonial dentro da Europa.

Paris e a Galiza exterior

A militância antifranquista obrigou-o a abandonar o país em 1968. Exilou-se em Paris, onde estudou Linguística na Universidade Paris VIII e trabalhou durante vários anos na editora Ruedo Ibérico, um dos grandes espaços editoriais da oposição ao franquismo no exílio. Desde França retomou a militância na UPG e participou na construção da sua estrutura exterior entre a emigração galega.

Paris converteu-se também na porta através da qual aquele pequeno nacionalismo clandestino estabeleceu relações com movimentos políticos de outras nações sem Estado. Foz recordava que os primeiros contactos sólidos se produziram com a Union Démocratique Bretonne (UDB). Num congresso da organização bretoa em 1972 coincidiram representantes galegos, bretões e irlandeses e começou a formular-se a possibilidade de articular politicamente as reivindicações nacionais existentes dentro dos Estados da Europa ocidental.

O resultado mais importante dessa política internacional chegou em fevereiro de 1974. Representantes da UPG, da UDB e do Irish Republican Movement subscreveram a primeira Carta de Brest, uma declaração que situava as suas respetivas lutas no quadro do anticolonialismo europeu. Foz participou diretamente na redação e assinatura do documento em representação da organização galega, juntamente com Carlos Xoán Díaz.

A Carta não pretendia ficar numa declaração. Durante 1974 e 1975 constituiu-se uma secretaria permanente e foram estabelecidos contactos com organizações bascas, catalãs, corsas, occitanas, sardas e galesas. Uma segunda declaração, difundida em 1976, ampliou o conceito inicial de luta anticolonial para falar de luta contra o imperialismo na Europa ocidental. O objetivo, segundo explicaria o próprio Foz quase cinquenta anos depois, era construir uma espécie de internacional das nações sem Estado e dar projeção exterior a conflitos nacionais que permaneciam encerrados dentro das fronteiras dos respetivos Estados.

A experiência de Brest é provavelmente o episódio que melhor singulariza a sua trajetória. Foz não foi apenas um militante de uma organização nacionalista clandestina: pertenceu ao pequeno grupo que tentou relacionar a questão galega com o ciclo internacional de descolonização e com outros movimentos nacionais europeus. A distância histórica permite discutir as categorias políticas utilizadas por aquela geração —incluindo a caracterização colonial da Galiza—, mas não a centralidade que tiveram na forma como esses militantes entenderam o país e procuraram fazê-lo visível fora dele.

Portugal tornou-se outro ponto fundamental daquela geografia. Foz viajou para o país depois da Revolução dos Cravos para estabelecer contactos políticos, acompanhar os exilados galegos e manter as relações internacionais da UPG. Paris e Portugal seriam também espaços de encontro entre militantes galegos, bascos e catalães durante os últimos anos da ditadura e o início da Transição.

Uma vida que não cabe numa sigla

A biografia política de Foz, contudo, não terminou na organização que contribuíra para fundar. Abandonou a UPG em 1978 e passou polo Partido Galego do Proletariado, Galiza Ceive, a Frente Popular Galega e a Assembleia do Povo Unido. Já no século XXI participou na formação de Anova e posteriormente integrou-se em Cerna. Por cima das sucessivas recomposições organizativas permaneceu uma convicção que manteve até ao final da vida: o independentismo galego.

Também a língua fazia parte dessa conceção política. Foz foi membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL) e académico da Academia Galega da Língua Portuguesa, e utilizou a norma reintegracionista na sua produção escrita. A aprendizagem das línguas foi, além disso, uma paixão que conservou durante toda a vida. Grandío recorda que entre elas estava também o catalão.

A atividade política conviveu com uma longa vida profissional. Trabalhou na Livraria Páxina e em Ruedo Ibérico e acabou exercendo como professor de língua e literatura galegas no ensino secundário, até se jubilar no IES Arcebispo Xelmírez de Compostela.

Nos últimos anos, uma parte importante do seu trabalho consistiu precisamente em transformar a própria experiência em documentação histórica. Publicou A política e a organizaçom exterior da UPG (1964-1986), em 2012; A UPG em Portugal e alguma cousa mais, em 2022; e Celso Emilio Ferreiro, nacionalista galego, em 2023. Não era apenas alguém que tinha participado nos acontecimentos, tornou-se também uma fonte para reconstruí-los.

Essa condição ficou particularmente clara na extensa entrevista que concedeu em 2023 ao historiador Javier García Fernández para o projeto Memorias del Anti-imperialismo. Quase meio século depois de Brest, Foz reconstruía ali com detalhe as redes internacionais da UPG, os contactos com bretões e irlandeses, a influência das lutas de libertação dos anos sessenta e as tentativas de coordenação entre nacionalismos durante os últimos anos do franquismo. A memória individual convertia-se assim em material para compreender uma história política que durante décadas ficou dispersa entre arquivos, militantes e exílios.

Voltar a Foz

).Mas uma necrológica corre sempre o risco de converter uma vida numa cronologia de organizações, congressos e livros. Xabier Grandío, que não escondia as suas importantes discrepâncias políticas com Foz, escolheu precisamente outro caminho ao recordá-lo. Falou do amigo que lhe apresentara uma novela, que telefonava quando voltava à Marinha para tomar alguma cousa e conversar, que conhecia os seus interesses e por isso lhe emprestava e oferecia livros. E lembrou também os pequenos gestos que normalmente desaparecem das biografias políticas (como as castanhas e os kiwis de Eirapedrinha que Foz lhe levava quando podia )

É talvez aí, entre Brest e Eirapedrinha, onde cabe a vida inteira. Porque “Foz” pertenceu a uma geração que procurou pensar a Galiza numa escala moito maior que as possibilidades políticas que o franquismo lhe permitia. Participou na reconstrução clandestina do nacionalismo, conheceu o exílio, trabalhou entre emigrantes, procurou aliados noutras nações, atravessou as divisões da esquerda independentista e, quando chegou o tempo de fazer memória, deixou escritos os nomes, os encontros e os documentos de que fora testemunha.

Ainda em abril deste ano aparecia publicamente em Compostela na inauguração da escultura dedicada a Moncho Reboiras, outro nome daquela geração nacionalista marcada pola clandestinidade e a ditadura. Quatro meses depois, no mesmo 18 de agosto em que cumpria 85 anos, morreu em Ames.

Dessejamos agora que as instituições públicas reconheçam a sua trajetória. É uma reivindicação do amigo Grandío e, ao mesmo tempo, uma questão que fica aberta depois da morte: que lugar ocuparão “Foz” e aquela geração na memória pública da Galiza.

O homem que levou durante toda a vida o nome da sua vila percorreu uma geografia política que ia moito além dela. De Foz a Paris, de Paris a Brest e de Brest novamente a Foz. E entre esses lugares fica uma parte da história do nacionalismo galego contemporâneo.

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