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Opinião, Oriente Médio e Norte da África — 19 Agosto, 2026 at 12:27 p.m.

Como se sente um pogrom de colonos israelenses

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Pola primeira vez na vida, me vi completamente impotente. O meu carro estava em chamas, mas tudo o que importava era a sobrevivência da minha família.

Aldeia At-Tuwani, março de 2021
Aldeia At-Tuwani, março de 2021

Eu sabia que eles estavam aqui antes mesmo de vê-los. Era pouco depois da meia-noite de 18 de julho, e cerca de 40 colonos israelenses mascarados, vindos do notório e violento assentamento ilegal de Havat Ma’on, estavam invadindo minha aldeia de At-Tuwani, nas colinas do sul de Hebron — armados com paus, pedras e gasolina. 

Ouvi gritos, seguidos polo som inconfundível de pedras quebrando vidros. Depois, senti o calor do fogo que haviam acendido. 

Os colonos atacaram primeiro a Mesquita Al-Taqwa. Quebraram as janelas, derramaram gasolina no chão e incendiaram a entrada. Pintaram Estrelas de David nas paredes e slogans em hebraico, incluindo “Vingança”. 

Vingança por quê exatamente? Culparam-nos por termos iniciado um incêndio florestal que devastou o assentamento de Havat Gilad naquel mesmo dia. As autoridades israelenses anunciaram posteriormente que o incêndio provavelmente foi iniciado acidentalmente por um cigarro não apagado.

 

As autoridades israelenses anunciaram posteriormente que o incêndio provavelmente foi iniciado acidentalmente por um cigarro não apagado.

Mas esse falso pretexto era apenas uma desculpa para os colonos descarregarem a sua fúria sobre os palestinos. Sabiam que não seriam punidos por seus crimes — e que, se tentássemos defender-nos, o exército israelense viria em nossa defesa, prendendo-nos ou até mesmo atirando em nós sem duvidar.

Após atacarem a mesquita, dividiram-se em vários grupos e deslocaram-se de casa em casa. Arremesaram mais pedras, quebraram mais janelas e lançaram gasolina nas casas antes de as incendiarem.

Eu estava na casa do meu tio quando o ataque começou, enquanto o resto da minha família — meus pais, minhas três irmãs e meu irmãozinho — dormia em casa, ali perto. Ouvim minhas irmãs gritando ao acordarem com o cheiro de fumaça e paredes queimadas, percebendo o que estava acontecendo. Corrim em direção à casa com um aperto no estômago. 

POla primeira vez na vida, senti-me completamente impotente. Era só eu contra mais de 40 pessoas, apoiadas polas forças de ocupação. Atiravam pedras em mim enquanto eu corria; não fazia ideia se alguns deles estavam armados. Mal tinha fôlego para gritar, só para ter a sensação de que não era apenas um espectador da destruição da minha própria casa. 

Durante todo esse tempo, eu só conseguia pensar na família Dawabsheh, da cidade de Duma, cuja casa foi incendiada por colonos israelenses em 2015, matando três deles, incluindo Ali, de 18 meses. Eu estava apavorada com a possibilidade de perder minha própria família da mesma forma.

Quando cheguei em casa, a primeira cousa que vi foi meu carro em chamas. Mas naquele momento, eu não me importei: todo o que importava para mim era se a minha família estava segura. 

Encontrei minha mãe e minhas irmãs chorando e tremendo. Graças a Deus, todos estavam ilesos, mas os cacos de vidro das nossas janelas quebradas estavam espalhados polo chão. O terror, o pânico e o medo que todos sentimos naquela noite ficarão para sempre em nossas memórias — intensificados pola consciência de que isso pode acontecer novamente amanhã.

Perto dali, um dos meus vizinhos, um rapaz de 16 anos, dormia debaixo de uma janela quando colonos despejaram gasolina lá dentro, parte da qual salpicou as suas roupas. Se as chamas o tivessem atingido, ele não estaria vivo hoje. Em vez disso, ficará para sempre marcado pola memória do cheiro rançoso do fumo, polo gosto amargo do medo e pola sensação de pavor existencial. 

Embora esse adolescente tenha tido “sorte”, outra tragédia atingiu sua família naquela noite. Sua mãe, que estava grávida, foi atingida por uma pedra arremesada por colonos contra a janela de sua casa. O Crescente Vermelho Palestino chegou cerca de 20 minutos após o fim do ataque e levou a mulher — Roqaya Rabie, de 35 anos — às pressas para o hospital, mas seu bebê não pôde ser salvo, sendo -lhe negada sequer a chance de conhecer uma vida aqui, intocada por essa violência. 

Os colonos também atacaram a nossa fábrica de lacticínios, incendiando-a. Para a maioria das mulheres da nossa aldeia, essa é a única fonte de renda. Já fomos privadas de tantas formas de sustento: o posto de gasolina local, as construtoras e as fábricas de costura que antes funcionavam aqui fecharam nos últimos anos. A fábrica de laticínios é tudo o que nos resta, e os colonos tentaram destruí-la também. 

Todo o pogrom durou apenas cerca de 10 minutos. Mas 10 minutos acreditando que  está prestes a perder a tua família parecem uma eternidade. Ao partirem, os colonos incendiaram uma última casa, como se já não tivessem causado destruição suficiente.

Nessa altura, já tínhamos começado a apagar os incêndios . Tentámos salvar a mesquita, as nossas casas e a fábrica de laticínios. O meu carro estava irrecuperável; o fogo reduziu-o a cinzas quase instantaneamente. 

Como de costume, o exército e a polícia israelenses só chegaram depois que os colonos já haviam ido embora. Em vez de perseguir os agressores ou invadir o seu posto avançado para prendê-los, eles nos confrontaram. Empurravam-nos e gritavam-nos enquanto permitiam que os terroristas colonos se afastassem do local com total impunidade. Mais uma vez, os palestinos ficaram indefesos diante da violência coordenada perpetrada por colonos com a proteção do Estado.

Enquanto estás sentado na tua casa, imagino que nunca precises  preocupar-te com uma invasão violenta. Não esperas que o teu carro seja repentinamente consumido polas lapas Provavelmente nunca pensas em reforçar as tuas janelas ou pintar as tuas paredes com uma pintura que facilite a remoção de grafites após um ataque.

Mas aqui em Masafer Yatta, essas são preocupações do dia a dia. Não importa que um dos nossos tenha ganhado um Oscar por “No Other Land ”, ou que, graças a este filme, o mundo agora conheça o nome da nossa pequena aldeia. 

Em vez de recebermos proteção, fomos deixados à própria sorte para lidar com as consequências de mais um ataque que pôs nossas vidas em risco. Depois que as paredes foram limpas e a fuligem removida, começamos a avaliar o que poderia ser recuperado — e o que se tinha perdido para sempre devido à violência do regime de colonização israelense.

 

Este artigo foi originalmente publicado na revista +972 . 

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