Um vídeo de TV Ferrol resume a grande transformação do século XVIII dizendo que antes havia «solo aldeas de pescadores» e que, em trinta anos, «de la nada nació una ciudad». A mudança foi extraordinária. O problema começa quando, para celebrá-la, é preciso apagar todo o que existia antes. O mais eficaz encobrimento não é aquele que não mostra o próprio como sendo Outro, mas aquele que o mostra e consegue, apesar disso, fazer-nos vê-lo como nada.
«Año 1742. En esta ría gallega todavía no existe ninguna ciudad. Solo aldeas de pescadores y una corona que quiere su armada.» Assim começa um vídeo publicado por TV Ferrol no Instagram sobre a transformação da ria no século XVIII. A partir daí sucedem-se os arsenais, os engenheiros, os navios, Esteiro, a Madalena e o crescimento vertiginoso da população. No final chega a frase que dá sentido a toda a narrativa: «En 30 años, de la nada, nació una ciudad».
A história que o vídeo pretende contar é, no essencial, conhecida. Durante a segunda metade do século XVIII, Ferrol converteu-se num dos grandes centros navais da Monarquia espanhola. Os arsenais alteraram radicalmente a escala do lugar, atraíram milhares de trabalhadores e fijeram aparecer uma nova cidade militar e industrial. Poucos lugares da Galiza conheceram em tão pouco tempo uma transformação semelhante.
É justamente por isso que não se percebe a necessidade da «nada».
Uns segundos antes o próprio vídeo reconhecera que havia «aldeas de pescadores». Depois já não há aldeias, nem pescadores, nem população, nem história. Há simplesmente vazio. O salto parece pequeno, quase uma licença narrativa, mas contém uma determinada forma de olhar para o passado: aquilo que existia antes da grande intervenção do Estado borbónico espanhol só adquire importância quando começa a servir o projeto da Monarquia. Quando a Monarquia decidiu converter a ria em infraestrutura naval, não encontrou umas indefinidas aldeias dispersas. Encontrou uma vila marinheira com história medieval, porto, igreja, relações senhoriais, agricultura próxima e redes de circulação marítima.
Ferrol, porém, não começa em 1742. A vila aparece documentada moitos séculos antes e Ferrol Velho conserva ainda no seu traçado a memória dessa ocupação anterior. Também A Granha, Canido e outros núcleos da ria faziam parte de uma sociedade marítima e rural que não esperou polos engenheiros borbónicos para começar a existir e ainda menos a como construir barcos. A própria organização naval da Monarquia na zona é anterior à data escolhida polo vídeo: em 1726, a ria já tinha sido integrada na reorganização dos departamentos marítimos, inicialmente com instalações na Graña. A grande operação de Esteiro e dos arsenais desenvolver-se-ia depois, sobretudo a partir das décadas de 1740 e 1750.
A transformação borbónica não se limitou a acrescentar uma nova cidade sobre uma paisagem vazia. Em alguns pontos, a nova infraestrutura militar teve de ocupar e substituir materialmente o mundo anterior. Um exemplo é particularmente eloquente: a antiga igreja de San Julián, núcleo religioso do velho Ferrol marinheiro, foi demolida durante a construção do fosso do Arsenal. Reconhece-se hoje que a concatedral neoclássica veio substituir aquele templo desaparecido. A modernização não encontrou, portanto, uma ausência: encontrou edifícios, ruas, usos e lugares que tiveram de ser removidos para que o novo espaço militar pudesse existir. A “nada” tinha edifícios que foi necessário derrubar.
Não existe, portanto, um verdadeiro ano zero. O que existe é uma mudança de escala e de função. A Monarquia identifica naquela ria um lugar privilegiado para a sua estratégia naval e passa a reorganizar o território de acordo com essa necessidade. O Ferrol que emerge dessa transformação é, em boa medida, uma cidade de nova planta. José María Cardesín descreveu-a precisamente como uma cidade concebida ex novo por engenheiros militares para albergar uma base naval, arsenais e a população necessária para os fazer funcionar ao serviço duma lógica imperial extrativista. Mas ex novo não significa ex nihilo.
É possível construir uma nova cidade sobre um território antigo. É possível traçar ruas, levantar bairros, instalar arsenais e multiplicar a população sem que todo o que estava ali antes se converta retrospectivamente em inexistência. O novo Ferrol não nasce da nada, mas nasce da transformação profunda de uma ria já habitada e de uma sociedade que passa a ser submetida a uma nova lógica económica, militar e territorial. Essa diferença é importante porque muda também quem aparece como sujeito da história.

No vídeo gerado por IA (com graves indícios de anacronismo e desfasamento temporal) primeiro vemos um espaço pouco definido, povoado por pescadores. Depois entra em cena «una corona que quiere su armada». A partir desse momento começa verdadeiramente a ação. A Coroa decide, os engenheiros desenham, os arsenais produzem e a cidade nasce. A população anterior permanece no fundo da imagem até desaparecer por completo na expressão «de la nada».
Não é necessário supor qualquer intenção consciente para reconhecer o mecanismo. É uma maneira moi antiga de narrar a modernização: antes há atraso, dispersão e ausência; depois chega o poder capaz de ordenar o espaço, produzir racionalidade e introduzir a história. É aí onde a ideia de colonialidade pode ajudar a ler o relato, sempre que não se confunda com uma afirmação simplista de que a Galiza do século XVIII fosse uma colónia equiparável aos territórios americanos. Porque a sua realidade colonial é bem anterior a 1492. A questão é outra. A colonialidade descreve também formas de conhecimento e de representação nas quais determinados poderes se apresentam como portadores da modernidade enquanto os mundos sobre os quais atuam aparecem como atrasados, incompletos ou vazios. Aníbal Quijano utilizou o conceito para explicar precisamente a persistência destas hierarquias para além das administrações coloniais formais. O «de la nada» funciona assim. Não informa sobre o Ferrol anterior. Decide que esse Ferrol não conta.
E, no entanto, aquilo que aconteceu no século XVIII torna-se moito mais interessante quando abandonamos essa imagem do vazio. A população cresceu de maneira impressionante. Cardesín documenta 455 vecinos em 1746, 1.208 apenas cinco anos depois e cerca de 4.100 no final do século. Vecino não equivalia diretamente a habitante, mas geralmente a uma unidade doméstica ou cabeça de família; as estimativas para finais do século situam a população total em torno de vinte a vinte e cinco mil pessoas. Uma transformação desta magnitude não precisa de mitologia.
Basta imaginar o que significou concentrar naquela ria milhares de trabalhadores, técnicos, marinheiros, funcionários e militares; construir docas, oficinas, fortificações e bairros inteiros; garantir madeira, ferro, alimentos e materiais; e organizar uma cidade segundo as necessidades de um dos maiores complexos navais da Monarquia. A narrativa di que Ferrol nasceu da nada; a história material mostra exatamente o contrário: para construir Ferrol foi preciso extrair de moitos lugares da contorna. A «nada» é o apagamento discursivo; a extração é a condição material daquilo que depois se apresenta como criação autónoma da Coroa.
Quando se olha dessa maneira, Ferrol deixa de parecer um milagre urbano e começa a aparecer como uma enorme operação política de colonialidade interna (categoria que permite explicar por que as hierarquias criadas por relações imperiais podem continuar a organizar a forma de ver, classificar e narrar moito depois). Também desaparece a inocência da expressão «nació una ciudad». As cidades não nascem. Constroem-se. E alguém as constrói. O mesmo Estado que fazia convergir madeira para Ferrol fazia também convergir corpos através de recrutamentos, levas e trabalho coercivo. Assim, recursos naturais e força de trabalho podem ser lidos conjuntamente: o Arsenal como dispositivo de concentração imperial de matéria, energia e trabalho.

A historiografia sobre o Arsenal mostra que a necessidade de mão de obra foi tão grande que a Monarquia não pôde confiar apenas na atração voluntária de trabalhadores. Alfredo Martín García estudou as chamadas «levas honradas», através das quais trabalhadores eram deslocados obrigatoriamente para Ferrol, embora recebessem salário, e também o recurso a presos, vagabundos e outros grupos submetidos a formas de trabalho coercivo. A “cidade ilustrada” foi, portanto, uma obra de engenharia extraordinária, mas também uma gigantesca máquina de mobilização de recursos e pessoas sob uma lógica de encobrimento (por utilizar aqui o termo dusseliano) que ainda perdura. Pode-se «descobrir» um território precisamente ao mesmo tempo que se o encobre, porque ele passa a ser interpretado apenas em função do sistema que o incorpora. Dussel formula a modernidade como um processo no qual a alteridade é apropriada e convertida em parte do «Mesmo», isto é, legível segundo a racionalidade do conquistador. Justamente porque a racionalidade moderna e a colonialidade não constituem duas histórias separadas: a produção de conhecimento universalista está relacionada com uma estrutura de poder que classifica populações e culturas e naturaliza a superioridade da perspectiva do estado imperial europeio, para dentro e para fora.
Ferrol oferece uma versão interna particularmente elucidativa desse mecanismo. Isso é particularmente importante porque o encobrimento não implica ausência de conhecimento sobre o que existia. O poder pode conhecer perfeitamente aquilo que subordina. Pode cartografar os montes, conhecer os pescadores, recrutar trabalhadores, aproveitar conhecimentos marítimos, identificar lugares e populações. O encobrimento consiste antes em reordenar o significado de tudo isso a partir das categorias da modernidade dominante.
A Ilustração não chegou a Ferrol apenas com novos conhecimentos. Chegou também com uma nova hierarquia do conhecimento. A engenharia, a cartografia, a matemática e a administração naval não precisavam destruir fisicamente todos os saberes anteriores para se impor. Bastava ocuparem a posição a partir da qual se decidia o que era ciência, racionalidade, progresso e história. O pescador continuava a conhecer a ria; o carpinteiro continuava a saber construir uma embarcação; a população continuava a nomear em galego os ventos, os baixos e os lugares. Mas esses saberes ficavam situados do lado do particular, do tradicional, do oral. Do outro lado encontravam-se o plano, a academia, o regulamento e o arquivo: o conhecimento com capacidade de apresentar-se como suposto universal. O encobrimento que perdura é, portanto, intrínseco à própria operação moderna de iluminar. Para fazer aparecer o novo Ferrol como expressão da razão, é necessário produzir simultaneamente um Ferrol anterior como aquilo que ainda não é moderno. A luz da cidade ilustrada projeta a sua própria sombra.
Basta imaginar o que significou concentrar naquela ria milhares de trabalhadores, técnicos, marinheiros, funcionários e militares; construir docas, oficinas, fortificações e bairros inteiros; alimentar essa população e manter em funcionamento uma indústria que consumia enormes quantidades de madeira, ferro, cânhamo e outros materiais. O Arsenal não transformou apenas Ferrol: estendeu a sua necessidade de recursos para além da ria. Montes, portos e territórios passaram a integrar uma rede de abastecimento organizada segundo as necessidades da construção naval da Monarquia.
É aqui que a transformação pode ser lida também em chave extrativa. A madeira necessária para os navios não aparecia no Arsenal por milagre. A expansão naval europeia converteu os bosques numa reserva estratégica e levou a Coroa a intervir cada vez mais diretamente na sua localização, corte, transporte e conservação. A historiografia ambiental mostrou como as necessidades da Armada estiveram ligadas à expansão da administração florestal e à tensão entre os usos locais dos montes e as exigências militares do Estado. Ferrol inseriu-se plenamente nessa geografia material: durante o século XVIII chegaram ao seu Arsenal importantes fornecimentos de madeira procedentes, entre outros lugares, de Astúrias, através de circuitos especificamente orientados para a construção naval.
Vista assim, a «cidade que nasceu da nada» necessitava na realidade de moitos outros lugares para poder nascer. Necessitava retirar madeira dos montes, mobilizar matérias-primas, concentrar alimentos, transportar materiais e deslocar força de trabalho. O centro monumental que hoje vemos pressupunha uma periferia moi mais extensa de territórios fornecedores. A modernidade do Arsenal tinha, portanto, uma geografia de extração que se fazia sentir em todas as comarcas e vilas vizinhas.
Isto permite precisar também o sentido da colonialidade de que falamos. Não se trata de afirmar que toda extração de madeira seja automaticamente «colonial», nem de equiparar a Galiza a uma colónia americana. Trata-se de observar uma relação espacial característica dos projetos imperiais: determinados territórios tornam-se legíveis para o poder sobretudo em função daquilo que podem fornecer —madeira, alimentos, trabalho, posição estratégica— enquanto a decisão sobre a finalidade desses recursos se concentra noutro nível de poder. A ria deixa então de ser apenas um lugar onde vive gente e passa a ser também uma peça dentro da infraestrutura material de uma potência naval.
O próprio desenho urbano revela essa dimensão. Cardesín mostrou como a organização da nova cidade não respondia apenas a uma ideia abstrata de racionalidade urbanística. A distribuição dos espaços ajudava também a separar grupos sociais e a disciplinar uma população trabalhadora indispensável para o funcionamento dos arsenais. A cidade da Armada e a cidade dos trabalhadores cresceram juntas, mas não ocupavam o mesmo lugar na estrutura social nem na memória oficial de Ferrol.

Talvez por isso a maneira de contar este passado não seja uma questão menor. Quando se di que «de la nada nació una ciudad», não se está apenas simplificando uma cronologia. Está-se escolhendo um ponto de vista. A história começa quando a Coroa intervém; aquilo que precede essa intervenção pertence a uma espécie de pré-história local. Os pescadores podem ser mencionados como elemento pitoresco, mas não participam realmente da fundação do mundo moderno que vem depois.
Não eram apenas pescadores: eram portadores de conhecimento
Há ainda outra coisa que desaparece quando aquelas comunidades são reduzidas a «solo aldeas de pescadores». Não desaparecem apenas pessoas. Desaparecem saberes. Antes dos engenheiros militares já havia na ria gente que sabia construir e reparar embarcações, escolher madeiras e adaptar os cascos às condições locais; gente que sabia onde e quando pescar, que conhecia ventos, correntes, marés, baixos e fundos, que construía e manejava artes de pesca e que transmitia esse conhecimento entre gerações. Os saberes marítimos locais circulavam sobretudo através da experiência e da oralidade galega. A atual legislação galega de património reconhece precisamente a carpintaria de ribeira como um conjunto de técnicas e conhecimentos nascidos da experiência dos construtores e dos usuários das embarcações, adaptados às condições concretas da água e às necessidades da pesca e da navegação. Reconhece também como parte desse património os conhecimentos sobre meteorologia, estado do mar, técnicas de navegação, toponímia marítima e terminologia própria. Não eram conhecimentos científicos no sentido académico que a Ilustração começava a institucionalizar, mas eram conhecimento sofisticado. E eram indispensáveis para viver do mar. É aqui que «solo aldeas de pescadores» revela uma segunda operação. O «solo» não diminui apenas a dimensão dessas comunidades: diminui também aquilo que sabiam.
Quando Ferrol se converte a partir de meados do século XVIII num grande centro de construção naval, concentra efetivamente novos conhecimentos formalizados. Pegerto Saavedra recorda que, junto da construção de navios para a Armada, se instalaram na cidade saberes científicos vinculados às matemáticas, à física, à geografia e à astronomia. (Saavedra, 2020). Mas a chegada desse conhecimento não ocorreu sobre um território epistemicamente vazio. Um sistema de saberes encontrou outro sistema de saberes, embora ambos não dispusessem do mesmo poder para se definir como conhecimento.
De um lado estavam a engenharia naval, a cartografia, as matemáticas, a administração e a ciência patrocinadas pela Monarquia. Do outro, conhecimentos empíricos acumulados durante gerações por pescadores, marinheiros, carpinteiros de ribeira e habitantes da ria. Os primeiros deixaram planos, arquivos, edifícios, academias e documentação estatal. Os segundos circularam sobretudo através da prática, da experiência e da transmissão oral. E circulavam, em grande medida, em galego.
Este elemento não é secundário. Durante os mal chamados Séculos Escuros, o castelhano consolidara-se como língua da administração e da escrita institucional, enquanto o galego permanecia fundamentalmente como língua oral da população. O sociolinguista Ramón Mariño Paz caracteriza precisamente o galego dos séculos modernos como idioma de uso oral habitual da maioria, frente ao prestígio institucional do castelhano e do latim. (Mariño Paz, 2017)
Antes e durante o Arsenal havia gente que sabia, falava e narrava o seu próprio mundo em galego.
A expressão «solo aldeas de pescadores» já contém essa hierarquia. O advérbio “solo” fai quase todo o trabalho. Não di simplesmente que havia aldeias de pescadores. Di que havia apenas isso. E uma aldeia de marinheiros, vista a partir do grande Arsenal que será construído depois, pode parecer pequena. Vista a partir dos seus próprios habitantes, porém, era um mundo inteiro: trabalho, propriedade, parentesco, circulação marítima, conhecimento da ria, relações comunitárias, língua e memória.
Essa sociedade não desapareceu quando começaram as obras. Foi incorporada, deslocada, transformada e ultrapassada numericamente por uma população que chegava atraída ou empurrada pelo novo centro naval. É essa transformação, e não um nascimento a partir do vazio, que explica Ferrol.
A diferença importa ainda hoje porque a cidade continuou durante séculos ligada às decisões do Estado sobre construção naval, orçamento militar e carga de trabalho. A mesma intervenção que impulsionou o crescimento produziu uma dependência estrutural que reapareceria ciclicamente nas crises posteriores. A historiadora Esperanza Piñeiro recordava recentemente, nas comemorações dos trezentos anos da cidade departamental, que Ferrol já era uma vila antes de 1726 e que foi a posterior decisão naval que provocou a grande expansão. Esta formulação parece moito mais fértil que a da «nada».
Havia uma vila e uma ria habitada. A Monarquia decidiu instalar ali um dos centros fundamentais da sua política naval imperial. A partir dessa decisão, chegaram investimento, engenharia, trabalhadores, militares e funcionários. O território foi profundamente reorganizado e, em poucas décadas, apareceu uma cidade de uma escala inteiramente nova. Nada disso diminui Ferrol. Polo contrário, devolve complexidade à sua história.
Permite admirar os arsenais sem converter os pescadores em ausência. Reconhecer a capacidade técnica dos engenheiros sem imaginar que encontraram um território vazio. Explicar a modernização sem aceitar que a modernidade só começa quando o Estado olha para a ria. E compreender também que o património naval de Ferrol não é apenas a história dos que ordenaram construí-lo, mas igualmente a dos milhares de pessoas que o construíram e viveram sob a ordem social que aquele projeto criou.
Talvez por isso as duas frases do vídeo sejam tão reveladoras.Primeiro havia «solo aldeas de pescadores». Trinta anos depois, di-nos, a cidade surgiu «de la nada».Entre uma frase e outra não desapareceram apenas umas aldeias. Desapareceu a gente que estava nelas.E talvez uma história de Ferrol que queira olhar criticamente para o seu próprio passado deva começar precisamente aí: lembrando que antes do Arsenal não havia nada. Havia gente e continua havendo gente.
O mais revelador é que essa assimetria linguística pode ser observada no próprio Ferrol setecentista. Em 1777, quando a nova cidade naval estava já em plena expansão, um autor anónimo escreveu o Romance da urca de Santo Antón¹, 668 versos maioritariamente em galego, sobre a viagem de uma urca desde a Havana até Ferrol e sobre a sociedade que encontra à chegada. O narrador apresenta-se orgulhosamente como «galego castiço» e considera absurdo falar em castelhano com outro galego. Mas quando introduz o piloto faz uma advertência extraordinária: fala castelhano «porque lhe o requer o ofício». A divisão linguística aparece assim inscrita dentro do próprio mundo naval: a língua quotidiana da comunidade e a língua requerida por determinadas funções do aparelho não ocupam o mesmo lugar. Isto torna ainda mais problemática a imagem das «solo aldeas de pescadores». Aqueles habitantes não eram apenas mão de obra anterior à modernização. Tinham uma língua capaz de narrar o mar, as embarcações, as tempestades, os ofícios, as hierarquias, a religião e a própria transformação de Ferrol. Não estamos perante um mundo sem discurso esperando que o Estado viesse nomeá-lo. O mundo que a modernidade converterá em periferia já se nomeava a si próprio —e fazia-o em galego.
O Romance da urca permite elevar o argumento do epistemicídio a outro nível. Não temos apenas de dizer que os pescadores e carpinteiros possuíam conhecimentos que foram subalternizados. Temos um texto contemporâneo que prova que o mundo marítimo ferrolano também produzia representação de si próprio, possuía vocabulário naval, identificava funções, descrevia técnicas e relações a bordo, narrava a experiência do oceano e, inclusive, refletia conscientemente sobre a sua própria língua perante o castelhano. A Real Academia Galega utiliza precisamente o Romance como uma das primeiras fontes do galego moderno escrito para terminologia marítima como marinheiro e embarcação.
O saber do engenheiro entra no plano. O do funcionário, no expediente.O do oficial, no arquivo. O pescador sabe onde muda a corrente, o carpinteiro sabe como deve abrir uma peça de madeira, o marinheiro conhece o nome de um baixo e a mudança do vento. Mas grande parte desse saber permanece nos corpos, nas práticas e nas palavras daqueles que o receberam de outros. E quando essas pessoas desaparecem do relato, o seu conhecimento desaparece com elas.
É neste sentido que a ideia de epistemicídio, desenvolvida por Boaventura de Sousa Santos, se torna útil. Santos emprega o conceito para pensar os processos pelos quais determinados sistemas de conhecimento são desqualificados, marginalizados ou tornados inexistentes perante uma epistemologia que se atribui a capacidade exclusiva de definir o que conta como conhecimento. A alternativa seria uma «justiça cognitiva» capaz de reconhecer a pluralidade dos modos de saber. (Santos, 2014)

O epistemicídio não necessita de um decreto que ordene destruir o conhecimento dos pescadores para ser efetivo. A reorganização borbónica da ria estabeleceu uma hierarquia material e epistémica: a engenharia militar, a cartografia, a ciência naval, a administração e o castelhano escrito ocupavam o lugar do conhecimento autorizado pelo Estado, enquanto os saberes marítimos locais —transmitidos sobretudo pela prática, pela experiência e oralmente em galego— permaneciam do outro lado dessa fronteira de legitimidade. Uns produziam planos, regulamentos, academias e arquivos; os outros sabiam construir e reparar embarcações, interpretar ventos e marés, localizar baixos, trabalhar com as madeiras, pescar e nomear a ria. A diferença não estava entre conhecimento e ausência de conhecimento, mas entre conhecimentos dotados de poder para se instituírem como universais e conhecimentos progressivamente convertidos em particulares, tradicionais ou simplesmente invisíveis. O Outro não precisa desaparecer fisicamente para ser encoberto. Pode estar diante dos nossos olhos e, mesmo assim, ser produzido como inexistência histórica.
Deste modo, a modernização não se limita a apresentar algo novo. Necessita produzir o anterior como ausência. E isso permite reler também a dimensão extrativa. A nova cidade recolhe madeira dos montes, matérias-primas de outros territórios e força de trabalho de milhares de pessoas. Mas há outro recurso que não entra facilmente nas contas do Arsenal: o conhecimento acumulado do território e do mar.
A modernidade imperial hispanocêntrica não extrai apenas matéria e trabalho. Também encontra saberes locais, apropria-se do que lhe resulta útil, subordina aquilo que não reconhece e impõe uma hierarquia sobre as formas legítimas de conhecer.
Que Ferrol foi historicamente considerado digno de representar Ferrol?


Há uma ironia difícil de ignorar quando se regressa hoje ao bairro marinheiro de Ferrol. Aquilo que o relato fundacional consegue reduzir a «solo aldeas de pescadores» e finalmente a «la nada» não desapareceu por completo. Continua ali, em Ferrol Vello, descendo pelas ruas estreitas em direção ao porto. Mas a distribuição contemporânea da memória urbana também pode ser lida nas pedras. Enquanto o Arsenal e a Magdalena representam monumentalmente o Ferrol que a Monarquia construiu, uma parte do tecido urbano associado ao Ferrol anterior e popular chegou ao século XXI entre edifícios deteriorados, fachadas protegidas por redes, imóveis vazios e sucessivas operações de emergência e reabilitação. A fotografia atual do antigo bairro marinheiro produz por isso uma imagem perturbadora. Na mesma rua convivem a ruína e a faixa de Rexurbe. Mas a própria necessidade de uma intervenção desta magnitude revela a profundidade da deterioração acumulada e a lógica interna que a foi articulando.
O Arsenal conservou a monumentalidade do poder. A Magdalena, a racionalidade da cidade ilustrada. Ferrol Velho conservou moito mais precariamente a memória material do mundo que já estava ali. E então a expressão «de la nada nació una ciudad» adquire uma ressonância inesperada. Primeiro, a narrativa transforma o bairro marinheiro em ausência histórica. Séculos depois, parte desse mesmo tecido urbano chega até nós fisicamente ameaçado pela ruína. A “nada” não era um vazio. Tinha casas, ruas, embarcações, trabalho, língua e conhecimento. Algumas dessas casas ainda estão diante de nós, esperando que decidamos se também fazem parte da história que merece ser conservada, o que nos permite falar de colonialidade da memória e do património. Não apenas que conhecimentos foram hierarquizados, mas que os próprios espaços urbanos podem receber diferentes graus de monumentalização, investimento, visibilidade e valor simbólico. O poder deixou pedra monumental; os subalternos tiveram de lutar para que as suas pedras não desaparecessem.
Quase três séculos depois, essa hierarquia continua a poder reproduzir-se sem necessidade de que ninguém a proclame como tal. O vídeo de TV Ferrol oferece um exemplo extraordinariamente condensado da extraordinária capacidade de reprodução de uma narrativa do poder. Primeiro reconhece que havia «solo aldeas de pescadores»; poucos segundos depois afirma que «de la nada nació una ciudad». Não é preciso que o autor queira apagar ninguém. O apagamento já está incorporado na estrutura do relato. As pessoas que viviam ali, aquilo que faziam, aquilo que sabiam e a língua na qual conheciam o território podem ser mencionados e, simultaneamente, classificados como nada. A colonialidade torna-se particularmente eficaz quando já não necessita apresentar-se como colonialidade: converteu-se em senso comum histórico. E a sua eficácia está em que, quase três séculos depois, ainda seja possível chamar a tudo isso «nada». Não é que já ninguém saiba aquilo que sabiam os pescadores. É que ainda podemos contar a história de Ferrol como se eles nunca tivessem sabido nada.
E há ainda uma consequência para a palavra «Ilustração», usada tão positivamente na identidade patrimonial ferrolana —«Ferrol da Ilustração», «cidade ilustrada», etc. Não é necessário abandonar a categoria nem negar a extraordinária produção científica, tecnológica e urbanística do século XVIII. Dussel, aliás, entre outros, não propõe simplesmente rejeitar o conteúdo emancipador da modernidade; pretende subsumir o que nela é emancipador e superar o seu mito sacrificial e hispano e eurocêntrico.O mais eficaz encobrimento não é aquele que não mostra o Outro, mas aquele que o mostra e consegue, apesar disso, fazer-nos vê-lo como nada.
A Monarquia construiu realmente uma cidade ex novo destinada a servir a sua política naval; Cardesín documenta tanto essa finalidade estatal como o caráter disciplinador e socialmente segregador do novo espaço urbano. Mas ex novo acabou transformando-se, na memória, em ex nihilo. E isso é particularmente revelador porque até a narrativa turística institucional atual reconhece que Ferrol era anteriormente uma vila de forte tradição pesqueira e que a utilização naval da ria remontava polo menos ao século XVI. A colonialidade não terminou quando acabaram as obras do Arsenal. Sobrevive na possibilidade de continuar a olhar a ria desde o ponto de vista da Coroa imperial: os seus recursos como matéria disponível, os seus habitantes como força de trabalho, os seus saberes como não-saber e a sua história anterior como “nada”.
Notas
¹ O próprio poema reflete conscientemente sobre a relação entre galego, castelhano, profissão, hierarquia naval e sociedade ferrolana. E fá-lo em 1777, no coração do Ferrol que a narrativa de TV Ferrol apresenta como produto da modernidade borbónica.O Romance da urca de Santo Antón é uma composição anónima de 668 versos, escrita maioritariamente em galego, embora com intervenções em castelhano. Narra satiricamente acontecimentos reais relacionados com a viagem da urca San Antonio desde a Havana até Ferrol em 1777 e, depois da chegada, com uma função religiosa celebrada na cidade. O manuscrito conserva-se no Códice 1052B do Archivo Histórico Nacional; a edição crítica de Ramón Mariño Paz, Margarita Sánchez Yáñez e Damián Suárez Vázquez apareceu em 2012.E começa com uma declaração linguística extraordinária.O narrador dirige-se a um amigo que está longe e explica por que lhe escreve em galego. Define-se como «ghallegho castizo» e afirma que falar ao amigo em castelhano «sería un gran desatino».Não é uma interpretação sociolinguística nossa feita a posteriori. É o próprio texto de 1777 que tematiza a escolha da língua.Conta inclusive que uma vez tentou falar castelhano, pronunciou mal uma palavra, provocou risos e ficou envergonhado. A partir daí decidiu não falar senão galego. E ridiculariza também aqueles que tentam produzir uma mistura de línguas.Isto já é moi significativo: o sujeito que relata o Ferrol naval fala galego e apresenta essa língua como a sua forma natural de comunicação.Mas há algo ainda mais importante.O castelhano aparece explicitamente ligado ao ofício. Quando introduz o piloto da urca, o narrador avisa o destinatário de que esse personagem falará em castelhano. E explica por quê:temos em 1777 uma representação literária produzida no próprio Ferrol naval que associa a escolha do castelhano não a uma incapacidade de falar galego, nem necessariamente à origem geográfica do personagem, mas ao ofício.Ou seja, o poema deixa entrever uma distribuição funcional das línguas:o galego pertence à relação pessoal, à narração, à sociabilidade quotidiana; o castelhano aparece ligado a determinadas funções profissionais e institucionais do novo mundo naval.
A partir daí começa o relato da viagem. A urca sai da Havana em direção a Ferrol. Há temporal, medo, ordens, confusão, capitão, piloto, contramestre, capelão e marinheiros. O tom é deliberadamente cómico e satírico. O capelão fica aterrorizado com o mau tempo, teme não chegar vivo a Ferrol e promete uma celebração religiosa se sobreviver.Mas a sátira também deixa ver hierarquias moi materiais a bordo. Num episódio particularmente revelador, o contramestre atravessa o navio e, ao encontrar um pobre marinheiro no caminho, dá-lhe uma bofetada e manda-o afastar-se chamando-lhe «cochino» Isto acrescenta outra dimensão ao nosso argumentario. O mundo marítimo que precede e acompanha a cidade-arsenal não é uma massa indiferenciada de «pescadores». O poema distingue capitão, piloto, contramestre, capelão, oficiais e marinheiros; mostra relações de mando, violência e desigualdade e reproduz inclusive diferentes usos linguísticos associados aos personagens.Depois chegamos ao Ferrol propriamente dito. Superado o perigo, organiza-se a função religiosa prometida. O poema descreve os preparativos, a recolha de dinheiro, a missa, o coro, o sermão e os convidados. E aparece diante de nós uma sociedade ferrolana moi concreta: o general, oficiais, o governador, o intendente, pessoal do Ministério, senhoras e gente da vila participam na cerimónia. Há ensaios, cantores que desafinam, preocupações sobre se o pregador será ouvido e uma crítica cómica ao sermão. O latim também entra no jogo linguístico: o autor ironiza dizendo que talvez fosse igual continuar o sermão em latim porque boa parte dos presentes não entendera melhor o que ouvira
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