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Historia — 17 Agosto, 2026 at 9:48 a.m.

A Caeira e “A derradeira leición do mestre” reencontram-se 90 anos depois

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Amalia Bóveda depositará esta segunda-feira diante de A derradeira leición do mestre fragmentos da árvore junto à qual os fascistas fusilaram o seu pai. O gesto marca um Dia da Galiza Mártir que cumpre 84 anos, mas continua sem reconhecimento oficial da Xunta.

Noventa anos depois do assassinato de Alexandre Bóveda, um pedaço material daquele 17 de agosto de 1936 reencontrará a sua representação mais poderosa. Amalia Bóveda depositará esta segunda-feira no Museu de Pontevedra, diante de A derradeira leición do mestre, de Castelao, cascas do pinheiro da Caeira junto ao qual o seu pai foi fuzilado polos fascistas. Os fragmentos foram recolhidos e conservados durante décadas por Amalia Álvarez, viúva de Bóveda, e permaneceram no âmbito familiar até agora.

O encontro entre as cascas e o quadro une assim dois testemunhos de uma mesma história. Um procede diretamente do lugar do assassinato; o outro nasceu no exílio e converteu a figura de Bóveda num símbolo da repressão franquista. No óleo, o homem morto perante dois meninos tem o rosto do dirigente galeguista. Castelao definiu Bóveda como «prototipo da cidadanía galega e mártir da liberdade» e, através dele, homenageou também as vítimas da repressão e da destruição da legalidade republicana.

O ato decorrerá às 11 horas e foi promovido polo Museu de Pontevedra, a Fundação Alexandre Bóveda e a Fundação Castelao. Segundo a informação divulgada polas entidades organizadoras, será a primeira vez que as cascas conservadas por Amalia Álvarez sejam mostradas diante do quadro, atualmente exposto em Pontevedra e que poderá ser visitado até 27 de setembro.

A dimensão simbólica é ainda maior pola data. Fazem-se esta segunda-feira exatamente 90 anos do assassinato de Alexandre Bóveda e 84 anos desde que a Irmandade Galega de Buenos Aires, presidida por Castelao, instituiu em 1942 o Dia da Galiza Mártir. Desde então, o 17 de agosto deixou de recordar apenas Bóveda para se converter numa jornada de homenagem às milhares de pessoas perseguidas, encarceradas, depuradas ou assassinadas após o golpe militar de julho de 1936.

Bóveda tinha sido detido em 20 de julho e submetido em 13 de agosto a um julgamento militar que o condenou à morte sob acusação de traição. Foi fuzilado quatro dias depois na Caeira. Economista e funcionário de Fazenda, fora um dos principais organizadores do Partido Galeguista e membro da comissão responsável polo projeto de Estatuto de Autonomia. A sentença franquista contra ele só foi formalmente declarada ilegal e nula polo Governo espanhol em dezembro de 2024.

Uma memória ainda sem reconhecimento oficial

O 90.º aniversário chega, porém, com uma contradição política que atravessou durante todo o verão os atos em torno de Bóveda e Castelao. O Dia da Galiza Mártir continua sem ser institucionalizado oficialmente pola Xunta, apesar de a data ser comemorada há décadas por entidades memorialísticas, organizações políticas e instituições locais e provinciais de diferente orientação.

No passado mês de junho, o BNG levou novamente ao Parlamento galego uma proposta para reconhecer oficialmente o 17 de agosto. O PP votou contra, argumentando que a iniciativa era empregada para «confrontar» e defendendo espaços de encontro em vez de divisão. O PSdeG criticou a posição popular, mas apresentou uma emenda à totalidade por considerar que o texto do BNG partia de um relato partidário. A proposta não prosperou.

A votação produziu-se poucos dias antes da inauguração no Museu de Pontevedra da exposição de A derradeira leición do mestre. Amalia Bóveda, que fora convidada, decidiu não participar naquele ato. Explicou que o fazia por «dignidade e coerência cívica e política» e qualificou de «profunda hipocrisia institucional» homenagear o quadro e, ao mesmo tempo, recusar o reconhecimento do Dia da Galiza Mártir. Criticou igualmente os acordos do PP com Vox e rejeitou que a memória de Bóveda e Castelao pudesse funcionar como simples cenário institucional.

Amalia Bóveda anunciara então que visitaria a obra noutra ocasião. A ocasião escolhida é precisamente este 17 de agosto. A filha do dirigente galeguista estará diante da imagem do seu pai levando consigo as cascas que a sua mãe guardou durante décadas.

Depois do ato no museu, a Caeira acolherá às 13 horas a homenagem organizada pola Fundação Alexandre Bóveda e o Concelho de Poio. Nela intervirão Amalia Bóveda, o presidente da Fundação, David Otero, e o alcaide de Poio, Ángel Moldes. O Instituto de Estudos Agrários Mártires de Sobredo receberá este ano o Prémio Galiza Mártir, que será recolhido pola sua diretora, a escritora Marga do Val.

À tarde, os atos continuarão em Pontevedra com uma oferenda floral na praça Amalia Álvarez —que leva o nome da viúva de Bóveda— e uma homenagem no cemitério de Santo Amaro, onde repousam os seus restos. Às 20.30 horas o BNG celebrará o seu ato político sob o lema «Memoria, reconhecimento, soberania, nação», novamente com a reivindicação da institucionalização do 17 de agosto. Haverá também comemorações na Corunha, Lugo e Boiro, além de atos nos dias seguintes noutros pontos do país.

As outras «derradeiras lições»

A derradeira leición do mestre ultrapassa, além disso, a biografia de Bóveda. A obra ficou ligada à memória da perseguição franquista contra o professorado e contra a escola republicana. As investigações reunidas pola revista Sarmiento documentaram 100 mestres e mestras assassinados na Galiza após o golpe de 1936, além de centenas de docentes inabilitados, transferidos ou sancionados. O historiador da educação Xosé Manuel Cid caracterizou aquela repressão como um processo organizado para desmontar tanto a base ideológica como as experiências de renovação pedagógica desenvolvidas durante a República.

É também por isso que a imagem pintada por Castelao continua a funcionar oitenta anos depois: o morto tem um nome e um rosto, Alexandre Bóveda, mas atrás dele aparecem moitas outras vidas interrompidas.

Neste 17 de agosto, as cascas que Amalia Álvarez decidiu não abandonar na Caeira chegam finalmente diante desse rosto. Noventa anos depois, o vestígio físico do lugar do assassinato e a imagem criada no exílio ficam, pola primeira vez, frente a frente.

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