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Ciencia, Galiza, Opinião, Ortegal — 12 Agosto, 2026 at 2:04 p.m.

A sombra que nos assombra

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Todo começa com uma coincidência de proporções quase indecentes. O Sol tem um diâmetro cerca de quatrocentas vezes maior do que o da Lua, mas encontra-se aproximadamente quatrocentas vezes mais longe da Terra. Por isso, vistos daqui, os dous discos ocupam quase a mesma porção do céu e um satélite minúsculo em comparação com a estrela consegue ocultá-la quase por completo. A NASA chama-lhe uma coincidência cósmica. Basta o alinhamento certo para que uma geometria indiferente a nós produza um dos acontecimentos que mais persistentemente mobilizaram a imaginação humana.

Durante séculos, essa interrupção da luz foi lida como mensagem, mau agoiro ou sinal escatológico. A longa história religiosa do eclipse mostra como o mesmo fenómeno físico foi integrado em cosmologias moi diferentes. A ciência moderna desfijo a necessidade de uma intenção celeste, mas não eliminou o assombro. Tornou possível desfrutar da perturbação sabendo que a ordem regressará.

A sete horas do eclipse do século — de mais um momento histórico na série de momentos históricos que, disque, nos toca gozar, cada ano, mes e semana — seria preguiçoso imaginar que a espetacularização começou com as redes sociais. As crónicas oitocentistas mostram multidões à procura de bons pontos de observação e uma vontade de estar presente que antecede largamente o turismo de plataformas. O que pertence mais especificamente ao presente é a capacidade de antecipar essa procura durante meses e fazê-la convergir sobre coordenadas calculadas ao segundo.

A minha avó tinha seis anos quando passou o eclipse de 1912 e vivia na Cedeira labrega e, ainda, marinheira, do Barral e do Cubilote. Moitos anos depois, aquilo que continuava a contar não era uma descrição do disco solar nem uma história de prodígios, mas o comportamento das cousas próximas. Quando a luz desapareceu os pássaros emudeceram, o galo cantou e as pitas foram para o poleiro. A memória conservou a pequena desordem do quotidiano, o momento em que o calendário dizia que ainda era dia enquanto os animais, obedecendo à luz, tinham decidido que chegara a noite.

Na altura, Ramón María Aller Ulloa acompanhou em Narom a expedição de Ubaldo Aspiazu para estudar o eclipse de 1905 e, em 1911, preparara observações do cometa de Johannesburgo que apareceriam no Anuario do Observatorio de Madrid correspondente a 1912. A minha avó e Aller estavam debaixo do mesmo céu e no mesmo tempo histórico. Para um, o fenómeno podia tornar-se cálculo e série científica; para uma criança, podia fixar-se numa imagem doméstica de uma criança capaz de atravessar mais de um século.  A diferença entre 1912 e 2026 não está, portanto, entre inocência e conhecimento ou entre experiência pura e mediação técnica. Mudou sobretodo a direção do movimento. À minha avó o eclipse aconteceu-lhe no lugar onde vivia. Nós conhecemos antecipadamente o caminho da sombra e pomos em movimento uma parte considerável do nosso mundo para conseguir que o eclipse nos aconteça no lugar escolhido. 

Na Galiza, a faixa de totalidade atravessa 143 concelhos, desde Estaca de Bares até Valdeorras. Na Corunha, a totalidade durará 76 segundos; em vários pontos do norte galego ultrapassará um minuto e meio. Durante meses, esses poucos segundos adquiriram uma massa social desproporcionada. Reservaram-se alojamentos, estudaram-se horizontes, multiplicaram-se previsões meteorológicas e prepararam-se dispositivos de trânsito e proteção civil. O eclipse oferece uma caricatura quase perfeita dessa cinética. Para que uma sombra que não precisa de nós atravesse o território durante menos de dous minutos, ativamos carros, hotéis, aplicações, administrações, telescópios, telemóveis e milhares de corpos humanos. Essa mobilização altera temporariamente a geografia do desejo. 

Lugares normalmente descritos a partir da distância tornam-se subitamente próximos, não porque alguém tenha encurtado as estradas, mas porque mudou o que existe no final delas. A Marinha, Ortegal e outras comarcas, seica afastadas das grandes centralidades deixam de ser territórios aos quais custa chegar e tornam-se lugares aos quais moita gente considera necessário chegar. Nenhuma estrutura que os torna periféricos desaparece. O que muda durante algumas horas é a direção do interesse, e isso basta para mostrar que a distância nunca foi apenas uma quantidade expressa em quilómetros.

Pode chamar-se a isto colonização episódica dos territórios periféricos pola economia da experiência. Lugares habitualmente secundarizados adquirem uma intensidade de atenção tão extraordinária quanto efémera quando oferecem ao exterior uma experiência que não pode ser deslocada. A periferia converte-se numa reserva de singularidade para sociedades centrais saturadas de reprodução, um território onde se procuram horizonte, céu escuro, silêncio, paisagem e acontecimentos que ainda exigem presença corporal.

O eclipse radicaliza temporariamente essa lógica porque o território nem sequer produz o recurso que o valoriza. Quem puder fabricar a sombra da Lua!. Basta-lhes estar na posição adequada para que uma contingência astronómica transforme durante algumas horas uma coordenada em bem escasso. Em Ribadeo, um apartamento anunciado por 1.455 euros para a noite do eclipse baixava para 189 no dia seguinte. O colchão não adquire qualidades astrofísicas durante vinte e quatro horas. O que se paga é a possibilidade de ocupar um ponto do planeta no instante em que o céu o torna excepcional.

O FOMO acelera esse movimento, mas explica apenas uma parte. No eclipse, o medo de ficar de fora encontra uma matéria-prima eficaz porque a escassez é verdadeira. A Lua estará numa posição determinada durante um intervalo irrepetível. A economia da experiência não cria essa raridade, transforma-a em urgência do extraordinário. Seria, contodo, pobre reduzir todo a compulsão. Turismo e redes podem intensificar um desejo, mas não explicam por que tanta gente aceita percorrer quilómetros por pouco mais de um minuto de especial escuridão.

Para Schiller, a experiência do belo aproxima dimensões que a vida moderna tende a separar. O impulso sensível liga-nos ao corpo, ao tempo e à mudança; o impulso formal procura permanência, razão e liberdade. No Spieltrieb, o impulso lúdico ou teatral, ambos entram momentaneamente em equilíbrio. O eclipse oferece uma versão natural dessa suspensão. As implicações  tornam-se evidentes quando aplicadas ao presente. Um sistema educativo que depende apenas da transmissão de dados treina o instinto de forma e permite que o impulso material atrofie. Uma cultura de entretenimento que apenas fornece estímulos serve o instinto material e contorna o instinto da forma. Ambos sentem falta da pessoa como um todo. Sem a mediação da beleza, di-nos Schiller, o homem permanece ou cru ou abstrato. Passamos meses a aproximar-nos dele por meios inteiramente instrumentais, calculando, reservando e prevendo, para chegar a um instante em que essa racionalidade perde provisoriamente a primazia. Quando a totalidade começa, já não há nada a otimizar. Resta permanecer debaixo da sombra. Talvez por isso o eclipse pertence menos à serenidade do belo do que à tradição do sublime.

Burke percebeu que aquilo que produziria terror sob ameaça real pode gerar um prazer inquieto quando contemplado em segurança. Vemos o Sol desaparecer, sabendo que regressará. A mesma alteração que noutros regimes culturais pôde ser recebida como ameaça cósmica torna-se, sob a segurança do conhecimento astronómico, uma perturbação procurada. Kant acrescentava que, no sublime, a imaginação encontra algo cuja vastidão ou potência excede a sua apreensão ordinária. Um eclipse pode estar previsto ao segundo e continuar a fazer-nos sentir pequenos, porque conhecer a mecânica orbital não equivale a experimentar corporalmente a escala do sistema em que estamos inseridos. Rilke aproxima ainda beleza e perturbação, como se a intensidade estética tocasse sempre alguma cousa que nos ultrapassa. As Elegias de Duíno, iniciadas precisamente em 1912, fazem da proximidade entre o belo e o terrível uma das suas tensões fundamentais.

O eclipse participa dessa ambivalência sem que exista ameaça verdadeira. A ciência não suprimiu o estremecimento; tornou-o habitável. Sabemos que a luz regressará e precisamente por isso podemos desejar que desapareça durante alguns segundos. A mudança climática destrói precisamente essa garantia, porque já não oferece uma perturbação breve dentro de uma ordem estável, mas a alteração progressiva dessa própria ordem. O que diante do eclipse pode ser assombro, diante do aquecimento global corre o risco de transformar-se em estetização do desastre. 

Esta dimensão impede que a crítica da economia da experiência se transforme numa sociologia demasiado satisfeita consigo mesma. O mercado pode organizar a deslocação e as redes alimentar o medo de perder o acontecimento, mas nenhum deles inventou a disposição humana para procurar beleza, assombro ou uma suspensão temporária da função. Apropriam-se de algo anterior.A modernidade técnica mobiliza meios para alcançar situações em que esperamos libertar-nos por instantes da obrigação de converter todo em meio para outra cousa. Se o objetivo fosse apenas ver o eclipse com maior nitidez, seria mais racional ficar na casa diante de uma transmissão profissional. Quem se desloca procura também a alteração da luz, a temperatura, os animais, a reação das pessoas e a sensação de estar dentro da sombra. 

Um estudo sobre o eclipse norte-americano de 2017, baseado em quase 2,9 milhões de utilizadores do Twitter, encontrou entre aqueles situados na trajetória da sombra mais sinais linguísticos de assombro e uma expressão menos centrada no eu e mais orientada para os outros e para o coletivo. Os autores relacionam esse efeito com aquilo que a psicologia do awe chama small self diante de algo percebido como vasto e capaz de ultrapassar os nossos esquemas habituais, a importância relativa do próprio eu diminui por instantes e aumenta a sensação de pertencer a um quadro mais amplo. O eclipse acrescenta a isso uma redução de escala que não acontece em soidade, mas diante de milhares de pessoas submetidas simultaneamente à mesma alteração da luz. Talvez seja essa combinação entre assombro e atenção compartilhada que explique por que nem sempre empobrece a experiência e pode, pelo contrário, convertê-la momentaneamente numa forma de comunhão. É mágoa que não haja um eclipse por ano em todo o lado!. Mas como bem sabemos, nem todo assombro em sentir-se pequeno produz prosocialidade.

Não há aqui uma derrota simples da autenticidade perante o espetáculo. A experiência pode ser genuína e comercialmente organizada, pode comover e converter-se imediatamente em fotografia. É neste ponto que a antiga memória das pitas no poleiro recupera a sua espessura. Hoje podemos registar os animais e medir até a frequência cardíaca dos espectadores, mas nada garante que a multiplicação do arquivo produza uma memória mais duradoura. O eclipse funciona então como metáfora não porque a escuridão represente uma sociedade incapaz de ver, mas porque altera brevemente as relações de visibilidade. Ao ocultar aquilo que normalmente domina o campo, deixa aparecer outras cousas. A própria coroa solar torna-se visível quando o brilho do disco é encoberto. Territórios dos quais durante décadas se saiu podem tornar-se, durante algumas horas, nós privilegiados de uma rede mundial de atenção, precisamente porque oferecem uma experiência cuja imagem é hoje infinitamente transmissível, mas cuja presença incardinada continua a não poder ser descarregada. A modernidade contemporânea é uma combinação de hipermobilidade informacional e necessidade residual — talvez crescente — de presença física. A informação pode circular; a imagem pode circular; como em Ceuta os corpos e a experiência corporal da totalidade, não. O acontecimento é global enquanto representação e radicalmente localizado enquanto experiência. 

Hoje a sombra atravessará a Galiza obedecendo apenas à mecânica orbital, indiferente ao preço dos apartamentos, às fileiras de automóveis e à ansiedade de quem consulta pola vigésima vez a previsão das nuvens na Frouxeira. Porém, a sombra também atravessará a Galiza atendendo ao mercado global do gozo. Depois de mobilizarmos uma parte do nosso mundo para estar no lugar certo, encontraremos um acontecimento que não se deixa acelerar, atrasar ou prolongar. A minha avó não precisou de viajar para entrar nessa geometria. Em 1912, o extraordinário atravessou o espaço quotidiano de uma criança assombrada e ficou ligado para sempre a um galo que cantou e a umas pitas que foram para o poleiro.

Cento e catorze anos depois, fazemos o percurso inverso e atravessamos o território para procurar deliberadamente a sombra, esperando que, apesar de todo o que calculamos, alguma cousa consiga ainda surpreender-nos. Talvez ainda haja hoje, nalgures, uma criança de seis anos que veja os pássaros emudecer, ouça cantar um galo fora de hora e observe as pitas regressarem ao poleiro. Poderá experimentar algo corporalmente próximo do que ficou na memória da minha avó. Não perdemos necessariamente a capacidade de assombro; mudaram as condições em que o assombro tem de abrir caminho. Se calhar não estejamos apenas a consumir uma experiência; talvez estejamos também à procura, sem necessariamente o saber, de uma forma de comunhão que a vida quotidiana individualizada oferece cada vez menos.

Quando a luz voltar, os cabos e as vilas continuarão onde estavam e as distâncias recuperarão o significado habitual. Por acaso, seja essa transitoriedade que torne o eclipse uma metáfora tão precisa. Nada muda de tamanho e nenhuma estrutura desaparece, mas um alinhamento passageiro modifica a percepção daquilo que ocupa o primeiro plano. Durante pouco menos de dous minutos, a geometria celeste terá reorganizado a geografia do desejo e mostrado que a centralidade, como o tamanho aparente dos astros, depende também do lugar a partir do qual olhamos. 

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