O militante internacionalista ferrolano foi chamado a declarar por oito mensagens contra o Estado de Israel publicadas nas redes sociais. À porta dos julgados, cerca de 150 pessoas lembraram que criticar o sionismo não equivale a atacar o povo judeu. Para Lopes, a investigação procura transformar a solidariedade com a Palestina num problema policial.
Quando Bruno Lopes Teixeiro saiu dos julgados de Ferrol, na manhã de 31 de julho, não falou primeiro do medo, da incerteza ou dos meses de processo. Falou das pessoas que o esperavam na rua.
«Emociona», reconheceu. Diante do edifício judicial tinham-se concentrado cerca de 150 pessoas, convocadas polo Comité Galego de Solidariedade Internacionalista Mar de Lumes. Havia companheiros de militância, sindicalistas, activistas culturais, representantes políticos e pessoas que simplesmente não aceitavam que a denúncia da destruição de Gaza pudesse acabar convertida numa investigação por delito de ódio.
Lopes agradeceu o apoio e afirmou que aquela solidariedade lhe confirmava que se encontrava no «lado correcto da história». Não era uma proclamação de inocência abstracta. Era a reivindicação da causa que o levou ao julgado: a defesa do povo palestino, a denúncia da política israelita e a oposição ao sionismo como projecto colonial e estatal.
O activista ferrolano não chegou ao julgado por ter ameaçado uma pessoa judia, atacado uma sinagoga ou promovido a discriminação religiosa. A investigação nasceu de um relatório elaborado de ofício pola Brigada de Informação da Guardia Civil sobre oito mensagens publicadas nas suas redes sociais em 2024, durante os ataques israelitas contra Gaza.
Nessas publicações, Lopes denunciava a actuação do Governo de Benjamin Netanyahu, a destruição da Faixa de Gaza e a cumplicidade dos governos ocidentais. Numa delas escrevia que não passava um dia sem desejar a destruição do «Estado sionista». A Guardia Civil interpretou estas expressões como manifestações de anti-semitismo e viu nelas indícios de um possível delito de ódio. Bruno Lopes sustenta exactamente o contrário: as suas palavras dirigiam-se contra um Estado e uma ideologia política, nunca contra a religião judaica ou contra as pessoas judias.
Essa diferença não foi inventada pola defesa depois de aberta a investigação. Já fora reconhecida polo próprio Julgado de Instrução número 1 de Ferrol, que decidiu inicialmente arquivar a causa em maio de 2025. O juiz considerou que não existia delito e que o relatório policial confundia indevidamente a religião judaica com o sionismo.
Segundo Lopes, o auto judicial assinalava que as suas mensagens criticavam o Estado de Israel e não continham referências hostis ao povo judeu ou à sua religião. Também questionava o carácter subjectivo de algumas das apreciações incluídas no relatório policial.
A Fiscalía, porém, recorreu do arquivamento. A Audiencia Provincial da Corunha ordenou reabrir as diligências e continuar a investigação. Bruno Lopes, que devia ter declarado em março de 2026, compareceu finalmente perante o juiz em 31 de julho. A Fiscalía, precisamente a instituição que impulsionara a reabertura da causa, não esteve presente no interrogatório.
«As minhas expressões foram sempre antissionistas»
À saída do julgado, Lopes mostrou-se satisfeito. A declaração permitira-lhe explicar novamente uma distinção elementar, mas cada vez mais disputada no debate público: o judaísmo é uma religião e uma tradição cultural plural; o povo judeu não constitui um bloco político homogéneo; Israel é um Estado; e o sionismo, nas suas diferentes variantes históricas, é uma ideologia política.
«As minhas expressões nas redes sociais em todo momento foram antissionistas», explicou. O activista não procura suavizar retrospectivamente as suas mensagens. Não renega a sua oposição ao Estado israelita nem a sua defesa da Palestina. O que rejeita é que essa posição seja transformada numa manifestação de ódio contra uma comunidade humana.
Também o Tribunal Supremo espanhol estabeleceu, num caso relacionado com as declarações de Ione Belarra sobre Gaza, que as críticas à acção militar israelita não podem ser qualificadas automaticamente como anti-semitas simplesmente porque se dirigem contra o Governo de Israel. O tribunal arquivou as denúncias ao considerar as declarações protegidas pola liberdade de expressão. No caso de Lopes, a questão é especialmente significativa porque a investigação não nasceu de uma denúncia apresentada por uma pessoa judia que se tivesse sentido ameaçada ou discriminada. Foi a Brigada de Informação que monitorizou a actividade pública do militante, seleccionou as mensagens e promoveu de ofício a denúncia.
É precisamente essa vigilância que preocupa Mar de Lumes e as organizações que apoiam o activista. Não vêem o processo como um simples desacordo sobre a interpretação de algumas palavras, mas como parte de uma tentativa mais ampla de disciplinar a solidariedade com a Palestina.
Uma causa que ultrapassa uma pessoa
O lema escolhido para a concentração diante dos julgados —«Antissionismo não é anti-semitismo»— colocava o conteúdo político da mobilização acima da situação individual de Bruno Lopes.
Mar de Lumes, a CIG e a Associação Cultural Artábria consideram que a investigação procura confundir deliberadamente a crítica ao sionismo com o ódio contra as pessoas judias. A central sindical reclamou o arquivamento imediato de uma acusação que qualificou de infundada e inseriu o processo numa ofensiva contra o activismo internacionalista, antifascista e defensor da soberania dos povos.
Artábria advertiu, por seu lado, para uma dinâmica de criminalização das pessoas e movimentos que denunciam a destruição de Gaza e apoiam a resistência palestina. Já em janeiro, centenas de pessoas se tinham manifestado em Ferrol em solidariedade com Lopes. A concentração de julho mostrou que o tempo transcorrido e a continuação da investigação não conseguiram isolá-lo.
Entre as pessoas presentes encontrava-se o deputado do BNG no Congresso Néstor Rego, junto de representantes sindicais, activistas e militantes de diferentes organizações. Mas o que dava força à concentração não era apenas a presença de nomes conhecidos. Era a imagem de uma comunidade política que se recusava a abandonar um dos seus membros perante um processo que entende dirigido contra uma causa colectiva.
Lopes não se apresentou como vítima passiva. Falou como militante. Definiu o relatório policial como uma tentativa de misturar a comunidade judaica com uma ideologia que considera colonial, racista e supremacista. E denunciou o que entende como uma inversão moral: enquanto se investigam as contas de pessoas que se mobilizam contra a guerra, permanecem nas redes mensagens que celebram a morte de civis palestinos ou justificam a expulsão da população de Gaza.
Quem vigia os discursos de ódio?
Para Bruno Lopes, o contraste é evidente. A Brigada de Informação dedica recursos a acompanhar as redes sociais de militantes internacionalistas, enquanto dirigentes do Partido Popular e de Vox utilizam publicamente expressões como «invasão», «reemigração» ou «prioridade nacional» para se referirem às pessoas migrantes.
«Os que poderíamos considerar delitos de ódio por claro componente xenófobo obviam-se, e persegue-se qualquer crítica ao Estado sionista de Israel», declarou depois da comparência.
A sua denúncia não se limita, portanto, a exigir o arquivamento. Questiona os critérios com que se decide quais discursos devem ser monitorizados, quais mensagens merecem uma investigação policial e quais formas de hostilidade são normalizadas nos grandes meios de comunicação.
O delito de ódio foi incorporado no ordenamento jurídico para proteger pessoas e comunidades vulneráveis diante da incitação à violência, à discriminação ou à hostilidade. No entanto, quando se utiliza para investigar a crítica a um Estado, corre o risco de mudar de função: em vez de proteger uma minoria, pode acabar protegendo um poder político contra o escrutínio público. Israel não é uma pessoa vulnerável. Um Governo não é uma comunidade religiosa. O sionismo não é sinónimo de judaísmo. E atribuir anti-semitismo a toda crítica radical contra o Estado israelita não protege as pessoas judias: instrumentaliza-as, apaga a pluralidade existente dentro das comunidades judaicas e identifica-as colectivamente com as decisões de um aparelho estatal.
O processo como advertência
Ainda que a causa seja novamente arquivada, o processo já produziu efeitos. Durante mais de um ano, Bruno Lopes teve de responder a uma investigação policial e judicial, preparar a sua defesa e comparecer perante um juiz por mensagens políticas publicadas nas redes sociais.
Esta é uma das dimensões menos visíveis da criminalização. Não é necessária uma condenação para gerar medo, desgaste ou autocensura. A simples possibilidade de que uma denúncia contra Israel seja reinterpretada como delito de ódio pode levar outras pessoas a moderar as suas palavras, apagar mensagens ou afastar-se da mobilização.
Por isso, a concentração diante dos julgados não pretendia apenas acompanhar um companheiro. Pretendia impedir que Bruno Lopes ficasse reduzido à condição solitária de investigado. Queria mostrar que, por trás das oito mensagens examinadas pola Guardia Civil, havia uma causa política partilhada e um movimento que não reconhece como delituosa a solidariedade com um povo ocupado.
A defesa solicitará agora um novo arquivamento. Bruno Lopes confia em que, numa situação de «normalidade democrática», esse seria o desfecho lógico. O primeiro auto do juiz já distinguira o antissionismo do anti-semitismo. A declaração de julho permitiu reiterar essa posição. A decisão judicial continua pendente. Mas, fora do julgado, a resposta política já foi formulada: defender a Palestina não é um delito; denunciar o Estado de Israel não equivale a odiar o povo judeu; e a liberdade de expressão perde o seu sentido quando apenas protege opiniões inofensivas.
Bruno Lopes entrou no julgado como investigado. Saiu acompanhado por cerca de 150 pessoas. Essa diferença talvez explique o essencial do caso: o que começou como a monitorização policial das redes de um militante converteu-se numa causa colectiva contra a tentativa de silenciar a solidariedade internacionalista.
