Há imagens que, colocadas lado a lado, revelam melhor um regime político do que qualquer declaração institucional. Em Ferrol, Bruno Lopes comparece perante um juiz porque a Brigada de Informação da Guardia Civil encontrou indícios de delito de ódio em mensagens contra o sionismo e o Estado de Israel. Em Ceuta, dezenas de milhares de pessoas atravessam uma fronteira, algumas a nado, enquanto polícias e militares se organizam para as conter e devolver a Marrocos.
Uns são vigiados por praticarem a solidariedade internacionalista. Os outros, perseguidos por tentarem exercer uma liberdade de movimento reservada a quem possui o passaporte adequado. Não são episódios desligados. Pertencem à mesma distribuição política da humanidade: decide-se quem pode falar, quem pode circular, quem deve ser protegido pola lei e quem pode ser convertido em ameaça.
Bruno Lopes não chegou ao julgado por ameaçar uma pessoa judia ou promover a discriminação religiosa. A investigação nasceu de ofício, a partir da monitorização policial das suas publicações sobre a Palestina. O Julgado de Instrução número 1 de Ferrol arquivou inicialmente a causa por entender que o relatório policial confundia indevidamente a religião judaica com o sionismo. A Fiscalía recorreu e a Audiencia Provincial revogou o arquivo. Em 31 de julho de 2026, Lopes teve de voltar a declarar; a própria Fiscalía, que impulsionara a continuação do procedimento, não compareceu ao interrogatório.
O processo diz moito sobre as prioridades do aparelho de Estado. A Brigada de Informação dedica tempo e recursos a vigiar um militante internacionalista que denuncia a destruição de Gaza. Entretanto, expressões como «invasão», «reemigração» ou «prioridade nacional» circulam nos parlamentos, nas televisões, nas redes sociais e nas primeiras páginas dos jornais.
O próprio Lopes assinalou esta assimetria depois de declarar: aquilo que poderia ser considerado discurso de ódio polo seu claro conteúdo xenófobo é normalizado, enquanto a crítica radical ao Estado de Israel é submetida à suspeita policial. Não se trata de uma manobra para fugir ao conteúdo das suas palavras, mas de uma pergunta sobre a selectividade do poder penal: quem é vigiado, que discursos são investigados e que formas de hostilidade recebem autorização para se apresentar como opinião legítima?
A resposta apareceu, nesse mesmo dia, nas capas de vários jornais espanhóis. La Razón falou da «invasão» de Ceuta; ABC, de uma cidade «invadida»; El Mundo, do maior «assalto» à fronteira. Não estavam apenas a descrever um acontecimento. Estavam a escolher os seus protagonistas e a distribuir os papéis: de um lado, uma Espanha sitiada; do outro, uma massa estrangeira transformada em exército inimigo.
O léxico militar não é inocente. Antes de uma pessoa poder ser repelida, internada ou expulsa sem provocar demasiada inquietação moral, deve ser previamente desumanizada. Chamar-lhe invasora permite tratar a fronteira como uma frente de guerra. Chamar «assalto» à sua tentativa de chegar converte a polícia em defesa nacional. Falar de «avalanche» transforma seres humanos numa catástrofe natural.
A palavra prepara o dispositivo e o dispositivo confirma a palavra. A prova mais brutal dessa operação não está apenas no que aqueles jornais disseram, mas no que omitiram: as pessoas que morreram ao tentar chegar a Ceuta desapareceram das suas primeiras páginas. Os mortos não cabiam na narrativa da invasão porque obrigavam a reconhecer que os supostos soldados eram, na realidade, pessoas afogadas numa tentativa desesperada de atravessar uma fronteira.
Segundo os dados divulgados polo Ministério do Interior espanhol , mais de 50.000 pessoas entraram em Ceuta entre 30 e 31 de julho. O Governo autónomo elevou a estimativa para 60.000. Cerca de 53.000 regressaram posteriormente a Marrocos, depois do acordo de repatriação entre os dois Estados, da pressão policial e militar e de horas passadas sem alojamento, alimento ou água suficientes. polo menos 57 pessoas morreram no mar.
As dimensões extraordinárias da entrada não devem ser minimizadas. Ceuta é uma cidade pequena, com recursos limitados, e os seus serviços sanitários e de acolhimento ficaram desbordados. Centenas de pessoas chegaram com hipotermia, feridas ou desidratação. Houve tensão, medo e incapacidade material para responder a todas as necessidades. Reconhecer essa realidade, porém, não obriga a aceitar a narrativa de uma ofensiva militar.
Uma emergência humanitária não se transforma em invasão por ser numerosa. Uma pessoa não se torna soldado porque cruza uma fronteira juntamente com milhares de outras.
Também é insuficiente apresentar todos aqueles jovens como simples instrumentos do Governo marroquino. Não há dúvida de que os Estados utilizam os movimentos migratórios nas suas disputas diplomáticas. Mas reduzir cada migrante a instrumento de Rabat produz uma segunda desumanização: primeiro é invasor; depois, peão. Em nenhuma das duas versões aparece como sujeito.
A Europa prefere esquecer que a fronteira não separa apenas dous territórios. Distribui privilégios. Uma pessoa com passaporte espanhol pode viajar para Marrocos, entrar e sair, passar um fim de semana em Tânger ou Marráquexe e regressar sem considerar essa mobilidade um luxo político. Um jovem marroquino enfrenta vistos, justificações económicas, convites e negativas. Talvez não deseje abandonar definitivamente o seu país. Pode desejar apenas aquilo que os europeus consideram natural: ver mundo, estudar, trabalhar, escolher onde viver ou simplesmente poder ir e voltar.
O privilégio do passaporte é tão eficaz porque se apresenta como se não fosse privilégio. O europeu chama liberdade à sua mobilidade e ilegalidade à mobilidade dos outros. Viaja por prazer através de territórios cujos habitantes não podem percorrer no sentido contrário. Depois, quando esses habitantes tentam aproximar-se da mesma liberdade, pergunta por que razão estão obcecados com a fronteira. A fronteira, porém, já estava dentro das suas vidas moito antes de ser atravessada. Estava no visto recusado, na fila diferenciada, no olhar policial e na comparação diária entre aqueles para quem o mundo está aberto e aqueles que precisam de pedir autorização para respirar do outro lado. O que muda com um passaporte não é a pessoa, mas a forma como o poder olha para ela.
De Ceuta para a internacional reaccionária
A crise não permaneceu durante moito tempo circunscrita à fronteira entre o Estado espanhol e Marrocos. Em poucas horas, Ceuta foi transformada numa causa comum da extrema-direita internacional. Nigel Farage apresentou as imagens como uma «batalha polo futuro da nossa civilização» e relacionou-as com a regularização de pessoas migrantes promovida polo Governo espanhol. Santiago Abascal exigiu a expulsão de todos, «com os meios que forem necessários», e acrescentou que, se o Governo não o fizesse, poderiam fazê-lo os próprios espanhóis. Donald Trump utilizou Ceuta para ameaçar os Estados Unidos com um futuro semelhante caso os democratas regressassem ao poder. A Casa Branca atribuiu a situação às políticas «globalistas» espanholas. Jordan Bardella, Giorgia Meloni e Matteo Salvini converteram igualmente a crise num argumento contra a regularização, a integração e a liberdade de circulação dentro da Europa.
Elon Musk foi ainda mais transparente. Acompanhou as imagens da fronteira com uma cena de Guerra Mundial Z em que uma massa de zombis tenta ultrapassar uma muralha. A metáfora torna explícito o que o vocabulário da invasão apenas insinua: já não estamos perante pessoas empobrecidas, jovens sem perspectivas ou famílias inteiras, mas diante de uma horda biologicamente ameaçadora, indistinta e sem humanidade.
Ceuta deixou assim de ser uma crise concreta, produzida por relações diplomáticas, desigualdades económicas, regimes de vistos e décadas de política fronteiriça. Tornou-se uma imagem portátil. Cada dirigente reaccionário pôde inseri-la no seu próprio relato nacional: Farage contra a imigração britânica; Trump contra os democratas; Bardella contra Schengen; Meloni e Salvini contra a acolhida; Abascal contra o Governo espanhol.
A internacional reaccionária não necessita de uma organização centralizada. Funciona por sincronização. Uma imagem viral aparece, os mesmos conceitos começam a circular e diferentes dirigentes extraem dela uma conclusão idêntica: a população migrante ameaça a sobrevivência da civilização europeia. A divisão do trabalho é eficaz. Há quem produz a narrativa da ameaça. As plataformas digitais aceleram-na e recompensam as formulações mais extremas. Uma parte da imprensa converte esse vocabulário em manchete. Finalmente, os Estados apresentam a militarização, a expulsão e o encerramento das fronteiras como respostas técnicas a uma realidade que aquele mesmo discurso ajudou a fabricar.
Não é necessário que todos pertençam ao mesmo partido. Basta que compartilhem o mesmo inimigo. A expressão «guerra de civilizações» cumpre aqui uma função específica. Transforma uma desigualdade histórica entre Norte e Sul numa luta existencial entre culturas incompatíveis. Apaga o colonialismo externo e interno, a exploração económica, as intervenções militares, os acordos comerciais e a distribuição desigual da mobilidade. No lugar dessas relações materiais coloca identidades eternas: Europa contra África, cristianismo contra Islão, civilização contra barbárie.
A operação é tão velha como eficaz: quem controla a fronteira apresenta-se como vítima; quem morre diante dela aparece como agressor. Farage, Abascal, Trump ou Meloni não ignoram que aquelas pessoas carecem de exército, armas e poder político. Precisamente por isso necessitam da metáfora militar. Só convertendo a vulnerabilidade em ameaça podem apresentar a crueldade como legítima defesa.
O Estado executa o que a extrema-direita imagina
Seria cómodo atribuir toda a responsabilidade à extrema-direita. Permitiria ao centro político apresentar-se como alternativa humanitária enquanto conserva intacta a arquitectura da fronteira.
Mas a extrema-direita não construiu sozinha os centros de internamento, as ordens de expulsão, os obstáculos à regularização nem os acordos de devolução. Pode radicalizar o vocabulário, exigir mais violência e converter o racismo em espectáculo eleitoral. Porém, trabalha sobre instituições previamente existentes.
Em junho de 2026, o Defensor del Pueblo teve de recomendar à Dirección General de la Policía que evitasse expulsar pessoas estrangeiras que já tinham iniciado um processo de regularização. O Estado exige que a pessoa migrante regularize a sua situação, mas pode tentar expulsá-la enquanto ela procura cumprir esse mesmo requisito.
Exige integração, mas conserva a precariedade documental como mecanismo de disciplina. Exige respeito pola legalidade, mas desenha uma legalidade que pode transformar uma irregularidade administrativa numa vida permanentemente deportável.
É neste contexto que o caso de Bruno Lopes deixa de ser uma anomalia judicial. O Estado que vigia o internacionalismo solidário é o mesmo que administra ordens de expulsão e fronteiras militarizadas. A solidariedade incomoda porque rompe a separação entre vidas protegidas e vidas descartáveis. Afirma que a criança de Gaza, o jovem de Nador e o trabalhador sem papéis não são ameaças externas, mas sujeitos de direitos. E isso desafia uma ordem que necessita de os manter à distância geográfica, jurídica e moral.
O delito de ódio deveria proteger pessoas e comunidades vulneráveis diante da incitação à violência e à discriminação. O artigo 510 do Código Penal refere-se precisamente à promoção pública do ódio, da hostilidade, da discriminação ou da violência contra pessoas ou grupos protegidos.
A sua função torna-se perversa quando o instrumento começa a ser mobilizado para proteger um Estado, um Governo ou uma ideologia política contra a crítica. Israel não é uma minoria vulnerável. O sionismo não é uma religião. Identificar as pessoas judias com todas as decisões do Estado israelita não combate o antissemitismo: apaga a pluralidade judaica e instrumentaliza-a para blindar um poder estatal.
Enquanto isso, o discurso que apresenta migrantes como invasores não necessita de disfarce. Ocupa capas, tribunas, redes e horários nobres. Os mesmos sectores que pedem limites rigorosos para a crítica a Israel reclamam liberdade quase absoluta para propagar a suspeita contra pessoas pobres, racializadas e estrangeiras.A sensibilidade diante do ódio começa e termina segundo a utilidade política do grupo supostamente protegido.
A sensibilidade diante do ódio começa e termina segundo a utilidade política do grupo supostamente protegido.
Não estamos perante uma simples incoerência. Estamos perante uma hierarquia. A crítica dirigida para cima, contra Estados, exércitos e projectos coloniais, é apresentada como extremismo. A hostilidade dirigida para baixo, contra quem não possui cidadania, documentos ou poder, é apresentada como realismo, segurança ou defesa da civilização.
Por isso, defender Bruno Lopes não consiste apenas em defender a liberdade individual de publicar mensagens políticas. Significa defender o direito colectivo de denunciar a destruição de Gaza, combater o colonialismo e praticar uma solidariedade que não peça autorização ao Estado.
E defender as pessoas que atravessaram Ceuta não significa negar a dimensão excepcional da entrada, a actuação do Governo marroquino ou as dificuldades materiais da acolhida. Significa recusar que essas dificuldades sejam resolvidas convertendo seres humanos em tropas inimigas.
Contra quem decidiram actuar como se estivessem em guerra? Contra o militante que denuncia Gaza. Contra o jovem que nada até uma praia. Contra a pessoa sem papéis que tenta regularizar a sua vida.
Perseguem o internacionalismo solidário enquanto expulsam migrantes. Criminalizam quem denuncia a violência e chamam legalidade à violência da fronteira. A extrema-direita chama-lhe batalha pola civilização. Os governos democráticos chamam-lhe gestão migratória. Para aqueles que ficam diante das vedações, sob investigação ou no fundo do mar, a diferença pode ser bastante menor do que gostaríamos de admitir.
