Ceuta não se explica apenas pola desigualdade entre quem possui passaporte europeu e quem é obrigado a arriscar a vida para atravessar uma fronteira. Explica-se também polo triângulo formado por Espanha, Marrocos e Argélia e por uma descolonização que o Estado espanhol deixou inconclusa há meio século: a do Saara Ocidental.
A crise fronteiriça de 2021 começou depois de Espanha ter autorizado a entrada no país de Brahim Ghali, secretário-geral da Frente Polisário, para receber tratamento médico. Rabat respondeu relaxando os controlos sobre Ceuta e permitindo a entrada de milhares de pessoas. A crise terminou em 2022, quando o Governo de Pedro Sánchez abandonou a posição tradicional espanhola e passou a qualificar o plano marroquino de autonomia para o Saara Ocidental como a proposta «mais séria, credível e realista». Em troca, Madrid esperava estabilidade diplomática, control dos fluxos migratórios e normalização das relações económicas com Marrocos.
A mudança provocou uma ruptura com a Argélia, principal apoio regional da Frente Polisário e país que acolhe os campos de refugiados saarauís de Tinduf. Argel retirou temporariamente o seu embaixador, suspendeu o tratado de amizade com Espanha e restringiu as relações comerciais. A fronteira, o gás e o Saara passaram a fazer parte do mesmo campo de negociação.
Em 20 de julho de 2026, apenas dez dias antes da entrada maciça em Ceuta, Sánchez viajou a Argel para inaugurar uma «nova etapa» nas relações bilaterais. Espanha e Argélia anunciaram uma futura reunião de alto nível e o reforço da cooperação económica, energética, política e migratória. O Governo espanhol apresentou o encontro como uma reconciliação com um parceiro estratégico; para Marrocos, porém, qualquer aproximação entre Madrid e o seu principal rival magrebino é observada através da disputa polo Saara Ocidental.
Não há, até agora, prova pública suficiente para afirmar que Rabat ordenou abrir a fronteira como represália pola visita de Sánchez à Argélia. As causas imediatas continuam sob investigação e também circularam rumores, informação falsa e mensagens de traficantes sobre a impossibilidade de devolver quem chegasse a nado. Mas as autoridades e os serviços espanhóis reconhecem que uma entrada de tal dimensão teria sido impossível sem a passividade inicial das forças marroquinas. Durante várias horas, os controlos desapareceram ou deixaram de actuar; quando Rabat decidiu intervir, o fluxo foi novamente interrompido. Marrocos não necessitam de ordenar a dezenas de milhares de pessoas que atravessem. Basta-lhe decidir quando deixa de impedir que o façam (Espanha, também). Esta é a forma contemporânea de instrumentalização da mobilidade: não fabricar o desejo de fugir, que já existe, mas abrir e fechar a passagem segundo as necessidades diplomáticas do momento.
Reconhecer essa instrumentalização não significa retirar agência às pessoas migrantes nem convertê-las em simples peões do rei de Marrocos. Polo contrário, significa observar como os Estados exploram uma aspiração real —trabalhar, viajar, estudar ou escapar da pobreza— e a transformam numa arma de negociação. Os moços que atravessaram não eram enviados de Rabat; mas a sua possibilidade de passagem dependia de decisões tomadas em Rabat, Madrid e Bruxelas.
Espanha colocou uma parte substancial do control da sua fronteira sul nas mãos de Marrocos. Quando os gendarmes marroquinos impedem as saídas, Madrid fala de «cooperação exemplar». Quando deixam de fazê-lo, denuncia as máfias, mobiliza o exército e invoca a integridade territorial. A soberania espanhola depende, assim, do trabalho policial de um Estado ao qual paga, equipa e reconhece capacidade para decidir quem chega à fronteira europeia.
O preço dessa dependência tem sido, entre outros, o progressivo abandono da causa saarauí. O Saara Ocidental continua inscrito polas Nações Unidas como território não autónomo pendente de descolonização. O Tribunal de Justiça da União Europeia confirmou em 2024 que os acordos entre a União Europeia e Marrocos não podem ser aplicados ao território saarauí sem o consentimento do seu povo. Portanto, não se trata de uma província marroquina cuja administração Madrid possa aceitar em troca de colaboração migratória, mas de um território separado, titular de um direito à autodeterminação ainda não exercido.
Em dezembro de 2020, nos últimos dias do seu primeiro mandato, Trump reconheceu formalmente a soberania marroquina sobre todo o Saara Ocidental. A proclamação presidencial descartava a independência saarauí como uma opção realista e apresentava a autonomia sob soberania de Marrocos como a única solução possível. A decisão fazia parte do acordo polo qual Rabat normalizou as relações com Israel, dentro da arquitectura regional dos chamados Acordos de Abraão. Em troca de uma vitória diplomática para Israel, Marrocos recebeu de Washington o reconhecimento da anexação do território saarauí, aquilo que perseguia havia décadas.
A segunda Administração Trump não corrigiu essa ruptura com o marco anterior das Nações Unidas. Em abril de 2025, o secretário de Estado, Marco Rubio, reiterou perante o ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino, Nasser Bourita, que os Estados Unidos reconheciam a soberania de Marrocos e consideravam o plano de autonomia a única base para uma solução. Washington deixou assim de actuar apenas como mediador interessado e passou a definir de antemão o resultado admissível da negociação.
O Governo espanhol não chegou tão longe juridicamente. Madrid não reconheceu formalmente a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental. Mas, em 2022, adoptou uma fórmula moi próxima da utilizada por Trump e por Rabat quando qualificou a proposta de autonomia marroquina como a base «mais séria, credível e realista» para resolver o conflito. A diferença entre ambas as posições existe —Washington reconhece soberania; Madrid apoia uma solução de autonomia—, mas a convergência política é evidente: tanto os Estados Unidos como Espanha abandonaram a possibilidade efectiva de um Estado saarauí e deslocaram o centro da negociação para uma autonomia concedida por Marrocos. Todo moi alinhado com o que o estado espanhol fai de portas para adentro.
A contradição espanhola é especialmente reveladora. O Governo invoca a integridade territorial para defender Ceuta e Melilha, mas apoia a proposta da potência que ocupa a maior parte do Saara Ocidental. Reivindica a inviolabilidade das suas fronteiras africanas enquanto relega o direito de autodeterminação da antiga colónia que abandonou em 1975. Exige a Marrocos que respeite a soberania espanhola, mas aceita que a soberania saarauí seja substituída por uma autonomia concedida por Rabat.
Ceuta, Melilha e o Saara não são dossiês independentes. Marrocos relaciona historicamente a sua reivindicação sobre as duas cidades com a consolidação do seu domínio sobre o território saarauí. A Argélia, por sua vez, apoia a Polisário e disputa com Rabat a hegemonia regional. Espanha tenta simultaneamente garantir o gás argelino, a colaboração policial marroquina e o silêncio sobre a sua responsabilidade colonial.
Essa triangulação ajuda a compreender por que motivo a fronteira se abre e se fecha de forma aparentemente inexplicável. O control migratório não é apenas uma política de segurança. É uma mercadoria diplomática. Marrocos oferece contenção em troca de reconhecimento político; Espanha oferece apoio sobre o Saara em troca de estabilidade fronteiriça; a Argélia utiliza o peso energético e diplomático para impedir que a anexação marroquina seja definitivamente normalizada.
No meio ficam as pessoas. Os saarauís que aguardam há décadas um referendo. Os refugiados nos campos de Tinduf. Os jovens marroquinos que olham Ceuta a poucos quilómetros de distância. Os migrantes subsaarianos reprimidos antes de alcançarem a vedação. Todos transformados em variáveis de uma negociação entre Estados.
Por isso, falar apenas de «invasão» oculta duas histórias coloniais. A primeira é a presença espanhola em Ceuta e Melilha e a desigualdade que converte essas cidades em portas europeias dentro de África. A segunda é o abandono do Saara Ocidental, cuja população continua pagando o preço da aproximação entre Madrid e Rabat.
A extrema-direita apresenta Ceuta como o lugar onde a Europa defende a sua civilização. Mas o verdadeiro mapa é menos épico e mais indecente: uma antiga potência colonial, uma monarquia expansionista e duas potências magrebinas disputam influência enquanto utilizam fronteiras, gás, passaportes e seres humanos como instrumentos de pressão. O mesmo que fai a UE.

























