off
Obituário — 20 Xullo, 2026 at 9:02 a.m.

Antón Martínez Aneiros: da resistência antifranquista à construção democrática de Narom

by

Primeiro alcalde naronês após a ditadura, deputado do PSG-EG e integrante do cristianismo de base, a sua trajetória uniu a resistência operária, o galeguismo e a construção das instituições locais

Antón Martínez Aneiros, primeiro alcalde de Narom na atual etapa democrática, faleceu este domingo, 19 de julho, aos 93 anos, na paróquia do Val, onde nascera e residia. Com a sua morte desaparece uma das figuras que melhor representam a passagem entre a resistência social ao franquismo e a construção, tantas vezes precária e contraditória, das instituições democráticas galegas.

Aneiros não chegou à política através dos aparelhos partidários nem fez dela uma profissão separada da sociedade. Antes de entrar no Concelho de Narom, fora sacerdote, militante do cristianismo de base, responsável de Cáritas e companheiro de caminho de trabalhadores, associações vicinais e opositores à ditadura. A sua biografia pertence a uma geração para a qual a democracia não começou com uma disposição oficial nem com a aprovação da Constituição de 1978: começou muito antes, nas greves, nas paróquias operárias, nas reuniões clandestinas e na solidariedade com as famílias represaliadas.

Nascido no Val em 1933, Martínez Aneiros formou-se no interior de uma Igreja marcada polo nacional-catolicismo, mas integrou o grupo de sacerdotes que, durante os últimos anos da ditadura, protagonizou uma profunda mudança na Igreja de Ferrol. Eram os chamados «curas vermelhos»: cregos que celebravam em galego, apoiavam greves, recolhiam dinheiro para as famílias dos trabalhadores e cediam locais paroquiais para reuniões operárias e antifranquistas. Foram vigiados, interrogados e denunciados pola Brigada Político-Social, precisamente porque a sua condição eclesiástica lhes permitia abrir espaços de organização que o regime pretendia manter fechados.

Desde 1969, Aneiros era delegado de Cáritas diocesana e pároco de São Paulo, um bairro operário de Ferrol. À sua volta reuniu-se um grupo de jovens trabalhadores com sensibilidades políticas diversas. A Cáritas que procurava construir não era uma instituição dedicada apenas à beneficência: pretendia enfrentar as causas sociais da pobreza e acompanhar as pessoas submetidas à exploração laboral, à repressão e à exclusão. Essa transformação da caridade em consciência política ajuda a compreender a coerência da sua trajetória posterior.

Março de 1972: ajoelhar-se perante os mártires

O momento decisivo da sua vida pública chegou em março de 1972. No dia 10, a polícia franquista abriu fogo contra uma manifestação de trabalhadores da empresa Bazán, assassinando Amador Rei e Daniel Niebla e ferindo dezenas de pessoas. A repressão pretendia não apenas desarticular a mobilização operária, mas impor o silêncio sobre os mortos.

Martínez Aneiros recusou esse silêncio. Acompanhou durante a noite a família e os companheiros de Amador e, no dia seguinte, oficiou os funerais e enterros dos dois trabalhadores: o de Amador pola manhã e o de Daniel pola tarde. No cemitério de Catabois mandou ajoelhar os presentes, incluindo os polícias, perante aqueles que considerava mártires da luta pola dignidade. A ditadura respondeu com interrogatórios, prisão e afastamento: permaneceu encarcerado até 30 de março e foi posteriormente enviado para Sobrado.

Aquele gesto permite compreender toda a sua vida posterior. Aneiros não entendia a fé como obediência à autoridade, mas como compromisso com os perseguidos. Também não separava a democracia da justiça social. Para ele, a liberdade política não podia consistir simplesmente na substituição de umas elites por outras: devia significar que os trabalhadores, as paróquias rurais e os bairros populares passassem a ser sujeitos das decisões coletivas.

Abandonou mais tarde o sacerdócio, mas não rompeu com o cristianismo social. Continuou ligado às comunidades cristãs de base e chegou a coordenar o movimento Somos Igreja, defensor de uma Igreja mais democrática, igualitária e comprometida com a sociedade.

Construir um concelho onde quase tudo estava por fazer

Nas primeiras eleições municipais após a ditadura, celebradas em 1979, Antón Aneiros foi eleito alcalde de Narom pola coligação Unidade Galega. A dissolução daquela experiência unitária do nacionalismo e da esquerda não interrompeu o projeto municipal: em 1983 voltou a ser eleito através da Agrupação Nacionalista Galega de Narom, formação local que posteriormente se integrou no Partido Socialista Galego-Esquerda Galega. Governou o concelho entre 19 de abril de 1979 e 13 de dezembro de 1985.

A primeira corporação democrática recebeu um Narom territorialmente disperso, com importantes carências de serviços e submetido às transformações aceleradas de uma comarca industrial. Não se tratava apenas de administrar uma instituição herdada: era necessário construir uma administração municipal, ordenar o território e dotar de equipamentos públicos as paróquias e os novos núcleos urbanos.

Durante os seus seis anos na Alcaldia foram impulsionados o Plano Geral de Urbanismo de 1985, a criação do Colégio Rural Agrupado e o início da urbanização do polígono industrial do Rio do Poço. Essas atuações ajudaram a definir a estrutura do Narom contemporâneo e mostram que o seu galeguismo não se limitava à afirmação simbólica da identidade: exprimia-se através da escola pública, do planeamento urbano, dos serviços comunitários e da procura de uma base económica para o concelho.

A política municipal de Aneiros alimentava-se do associacionismo vicinal, do sindicalismo e da cultura democrática surgida na clandestinidade. Ao contrário de uma conceção vertical do poder local, o novo concelho procurava reconhecer as paróquias e os bairros como espaços de participação. Narom começava a adquirir entidade própria, deixando de ser percebido como uma periferia desordenada de Ferrol.

Quando, muitos anos depois, recebeu uma homenagem institucional, Aneiros insistiu em que o reconhecimento não devia ficar reduzido à sua pessoa, mas devia ser entendido como homenagem ao conjunto de Narom. A frase condensava a sua conceção da política: nenhuma transformação democrática é obra individual, mesmo quando a memória acaba por lhe atribuir um rosto.

Do municipalismo ao Parlamento galego

Em 1985, a Agrupação Nacionalista Galega de Narom integrou-se no PSG-EG. Martínez Aneiros encabeçou a candidatura pola circunscrição da Corunha e foi eleito deputado do Parlamento galego, onde permaneceu durante toda a legislatura, até 1989. A sua passagem à política autonómica não significou um abandono do municipalismo. Representava antes a continuidade de um projeto que vinculava a transformação local à construção política da Galiza. O nacionalismo que Aneiros encarnou estava profundamente relacionado com o mundo do trabalho, a organização comunitária e a democratização das instituições. Não era uma identidade decorativa nem uma simples reivindicação cultural, mas uma tentativa de dotar o país de instrumentos políticos próprios ao serviço das maiorias sociais.

A sua trajetória atravessou, portanto, três espaços que frequentemente são apresentados como separados: o cristianismo de base, a esquerda social e o nacionalismo galego. Em Aneiros, essas três tradições convergiam numa ética comum: acompanhar os de baixo, defender a língua e o país e transformar as instituições herdadas da ditadura.

Uma democracia que não saiu de balde

Em 2016, quando Narom deu o seu nome a uma rua e ao complexo social do Val —formado polo local social, a escola, a pista desportiva e o centro de saúde—, Aneiros recordou que passar da ditadura à democracia «não resultou barato». No seu caso, esse preço incluíra a prisão. Advertiu também que a democracia continuava a ser descuidada pola sociedade, uma observação que hoje adquire uma inquietante atualidade.

A homenagem tinha sido promovida pola Associação Vicinal Os Irmandinhos, com o apoio da Fundação Terra de Trasancos e da Sociedade Desportiva do Val. O facto de o reconhecimento partir das entidades da sua própria paróquia era especialmente significativo para ele. Antes do político institucional permanecia o vizinho; antes do deputado, o homem ligado às comunidades que tinham sustentado a resistência social.

Naquele mesmo ato, o então alcalde José Manuel Blanco recordou que o primeiro livro proibido que lera, A mãe, de Máximo Gorki, lhe fora emprestado por Aneiros. A pequena história revela uma dimensão menos visível da militância antifranquista: além de organizar, acompanhar e protestar, era necessário fazer circular livros, ideias e palavras que a ditadura pretendia sequestrar.

As reações à sua morte sublinharam o caráter transversal desse legado. A atual alcaldesa, Marián Ferreiro, definiu-o como um dirigente comprometido e uma referência para as gerações posteriores. O BNG de Narom lembrou tanto o primeiro alcalde democrático como um dos «curas vermelhos» que lutaram contra o franquismo.

Mas talvez a melhor maneira de lembrar Antón Martínez Aneiros seja evitar transformá-lo numa figura inofensiva do passado. A sua vida não foi a de um moderado que aguardou pacientemente a chegada da democracia. Foi preso porque tomou partido; acompanhou os trabalhadores quando fazê-lo tinha consequências; converteu o púlpito num espaço de denúncia; e chegou ao governo municipal com a consciência de que as instituições só merecem ser chamadas democráticas quando alteram materialmente a vida das pessoas.

A democracia de Aneiros não começou numa urna, embora também passasse por ela. Começou quando se recusou a abandonar os perseguidos, quando abriu as portas da Igreja aos trabalhadores e quando obrigou os representantes da ditadura a ajoelharem-se perante os mortos de março de 1972.

Depois vieram a Alcaldia, o Parlamento, as ruas, as escolas e os polígonos industriais. Mas antes de tudo isso houve uma decisão moral e política: não permanecer em silêncio.

Narom perde o seu primeiro alcalde da democracia. A Galiza perde um dos homens que contribuíram para conquistá-la

Grazas por leres e colaborares no Ollaparo !

Este sitio usa Akismet para reducir o spam. Aprende como se procesan os datos dos teus comentarios.

off