A designaçom do autor de Memorias dum neno labrego permite celebrar nom só umha figura central da literatura galega contemporánea, mas também umha maneira de entender a cultura como compromisso com a língua, com a memória popular, com a emigraçom, com o tecido associativo do país e com as luitas de emancipaçom dos povos.
A decisom da Real Academia Galega de dedicar o Dia das Letras Galegas 2027 a Xosé Neira Vilas constitui um reconhecimento necessário a umha das trajetórias mais sólidas, populares e comprometidas da nossa literatura contemporánea. Autor de Memorias dum neno labrego, Neira Vilas fijo da voz de Balbino umha das grandes imagens morais da Galiza do século XX: a dum rapaz pobre da aldeia que, desde a sua aparente insignificáncia social, acabou falando por geraçons inteiras de crianças, labregos, emigrantes e pessoas humildes silenciadas pola história oficial.
A homenagem institucional da RAG deve ser lida, portanto, como algo mais do que a consagraçom dum clássico escolar. Neira Vilas nom foi unicamente o criador dum personagem inesquecível. Foi também narrador, poeta, ensaísta, investigador, editor, jornalista, divulgador e ativista cultural. A sua obra percorre a infáncia, o mundo rural, a emigraçom galega na América, a memória da diáspora e a defesa dumha língua popular elevada à máxima dignidade literária.
Desde Buenos Aires, desde Cuba e desde Gres, Neira Vilas entendeu a cultura galega como umha tarefa coletiva. A sua vida demonstra que a literatura nom nasce só nos grandes centros de poder cultural, mas também nas aldeias, nas associaçons, nas bibliotecas, nas publicaçons locais, nas escolas e nas comunidades emigradas que sustentárom a língua quando na Galiza era perseguida ou marginalizada.
Neste sentido, resulta especialmente significativo lembrar a carta que Neira Vilas enviou em 1986 à Sociedade Cultural Chirlateira de Cedeira, publicada no número 6 de Olláparo. Naquele texto, o escritor afirmava que o país avançaria para um progresso verdadeiro o dia em que cada vila contasse com umha associaçom ou centro cultural e com umha publicaçom periódica em galego capaz de recolher as inquietudes da comunidade, promover o interesse pola cultura própria e analisar criticamente aquilo que devia melhorar-se no plano social, institucional e político.
Aquela carta conserva hoje umha força extraordinária. Neira Vilas unia nela o eixo nacional e o eixo social: a afirmaçom da identidade galega devia ir acompanhada da defesa dumha vida digna para o povo, com trabalho, educaçom, assistência sanitária e direitos elementares. A sua ideia da cultura nom era ornamental nem folclórica. Era umha cultura para organizar comunidade, fazer país e dignificar as condiçons materiais da vida.
A este compromisso cómpre acrescentar umha dimensom muitas vezes secundarizada nas leituras mais escolares da sua figura: a sua experiência cubana e internacionalista. Neira Vilas viveu em Cuba durante décadas, trabalhou no ámbito institucional e cultural da Revoluçom e manteve umha relaçom ativa com a memória galega na ilha. O testemunho recolhido por Lois Pérez Leira, publicado após a sua morte, lembra que estava previsto filmá-lo para recolher a sua experiência de trabalho no Ministério de Indústria, sob a responsabilidade do Che Guevara. Essa memória nom é um detalhe biográfico menor: situa Neira Vilas numha tradiçom de galeguismo popular, emigrante e anti-imperialista, atento às luitas descoloniais de libertaçom dos povos e à dignidade das classes trabalhadoras.
Assim, Balbino, a emigraçom, Cuba e Gres nom som capítulos separados, mas partes dumha mesma trajetória. O rapaz labrego que denuncia a pobreza e a injustiça, o emigrante que organiza cultura galega em Buenos Aires, o intelectual que trabalha em Cuba e o retornado que cria em Gres um espaço de memória e transmissom cultural respondem a umha mesma ética: pôr a palavra ao serviço dos humildes, da língua e da comunidade.
Por isso, as Letras Galegas 2027 oferecem umha oportunidade para reler Neira Vilas desde umha perspetiva ampla. A celebraçom deve reivindicar Memorias dum neno labrego, mas também o conjunto dumha obra que abrange narrativa, literatura infantil e juvenil, poesia, ensaio, investigaçom histórica, jornalismo e memória da emigraçom. Deve lembrar a sua relaçom inseparável com Anisia Miranda, companheira de vida e de projeto cultural. E deve reconhecer o papel da Fundaçom Xosé Neira Vilas, na Casa do Romano de Gres, como espaço de conservaçom, biblioteca, memória rural e transmissom cultural.
A figura de Neira Vilas permite falar às novas geraçons dumha Galiza aberta ao mundo, mas fiel às suas raízes; dumha língua viva, popular e literariamente poderosa; dumha cultura feita desde baixo, com humildade, constáncia e compromisso. A melhor homenagem que se lhe pode render em 2027 será evitar convertê-lo num símbolo domesticado e recuperar, polo contrário, toda a sua potência: a do escritor que deu voz aos “ninguém”, a do emigrante que nunca deixou de pensar Galiza, a do ativista que confiava nas associaçons locais, nas revistas, nas bibliotecas e na mocidade como instrumentos reais de transformaçom coletiva, e a do intelectual que vinculou a memória galega às luitas universais pola emancipaçom.
As Letras Galegas 2027 serám, assim, umha ocasiom para celebrar Neira Vilas como património literário, mas também como exemplo dumha cultura galega entendida como responsabilidade comum. Porque Balbino nom foi só um personagem. Foi umha maneira de dizer que a gente humilde também tem direito à palavra, à memória e ao futuro.

















