Felipe VI, futebol e pós-imperialidade na fabricação audiovisual de Espanha.
O vídeo com que a Real Federación Española de Fútbol apresentou a convocatória de Espanha para o Mundial de 2026 deve ser lido para lá da sua função informativa. A sua superfície é simples: anunciar vinte e seis jogadores. A sua operação profunda consiste em produzir uma imagem de Espanha, fazê-la circular como evidência afetiva e organizar nela uma posição determinada para os territórios, os corpos populares, os ofícios, as línguas silenciadas e as diferenças nacionais que a compõem. O vídeo não representa uma Espanha plural; administra audiovisualmente a impossibilidade de constituí-la como pluralidade soberana.
O futebol de seleções já é, por definição, uma tecnologia política. Não começa a sê-lo quando aparece uma bandeira, uma monarquia ou um hino; já o é no momento em que transforma uma federação desportiva em representação nacional. A questão decisiva, portanto, não está em saber se o vídeo politiza o futebol. Está em saber que forma de “nação” constrói, que conflitos suspende, que sujeitos convoca e em que condições os deixa aparecer.
A fórmula escolhida pela RFEF é reveladora: a lista não seria apenas de um selecionador, nem sequer de uma instituição desportiva, mas de “todo um país”. O deslocamento é essencial. A convocatória abandona o plano técnico e passa para o plano da interpelação nacional. Quem pronuncia os nomes dos jogadores não é apenas o aparelho federativo; são padeiros, peregrinas, taxistas, marinheiros, professoras, magistradas, cozinheiros, cientistas, trabalhadores anónimos, figuras comuns de uma vida social fragmentada que o vídeo recompõe como se já partilhasse uma mesma respiração política.
O gesto parece democrático. A autoridade desce ao povo, a lista deixa de pertencer ao rei ou ao selecionador e passa a pertencer a todos. Mas essa transferência é ambígua, porque o “todos” já chega organizado por uma voz exterior. A pluralidade não se constitui por si mesma; é montada. Os corpos populares não falam desde uma posição própria; são inscritos numa sequência cujo sentido final está previamente determinado. O vídeo produz, assim, uma forma precisa de subjetividade nacional: o sujeito é chamado a reconhecer-se na seleção dos espanhois e, ao responder afetivamente a esse chamamento, confirma a unidade que o precede.
A força do dispositivo está na sua banalidade. Não se proclama uma doutrina nacional em linguagem enfática. Mostra-se uma rua, um forno, uma embarcação, uma mão que trabalha, uma paisagem reconhecível, um rosto comum que pronuncia um nome. A nação aparece como gramática quotidiana, como atmosfera, como evidência antes da argumentação. A política entra pela via da normalidade, e precisamente por isso se torna mais difícil de discutir. A unidade não se demonstra; sente-se.
A presença de Felipe VI é o operador que impede que essa pluralidade se disperse. A imagem do Borbón atravessando sozinho um campo vazio condensa a lógica do vídeo. O relvado, espaço próprio do jogo, da disputa, da equipa e da incerteza, aparece depurado para receber uma figura institucional. Antes da bola, antes dos jogadores, antes da multidão e antes da lista, há um corpo que representa a continuidade do Estado. O campo deixa de ser apenas campo e converte-se em território simbolicamente pacificado que antecede, não por acaso, a parada militar de Vigo.
Essa cena traduz em imagem a arquitetura constitucional espanhola. A Coroa aparece como símbolo da unidade e permanência; a pluralidade, quando chega, já o faz depois dessa garantia. A sequência não é inocente. Primeiro surge a instância de síntese; depois vêm os fragmentos sociais e territoriais. Primeiro a unidade; depois a diversidade. Primeiro a permanência; depois a convocatória. O vídeo apresenta, por via estética, uma tese política: as diferenças podem existir, desde que uma forma superior as anteceda, as ordene e as devolva como partes de uma totalidade estatal.
A monarquia funciona aqui como semiótica da substituição, mas também como técnica de desativação do seu próprio questionamento. Onde poderia aparecer uma pluralidade constituinte, aparece a Coroa. Onde poderia haver conflito sobre a forma de Estado, aparece uma montagem afetiva. Onde poderia emergir uma deliberação sobre república, monarquia, nacionalidades, línguas, memórias e representações próprias, aparece a seleção esoanhola como idioma comum. O rei não intervém apenas como figura honorífica; opera como garantia visual de que a unidade precede qualquer diferença e de que essa unidade já tem uma forma institucional dada. A questão monárquica fica assim deslocada: deixa de ser problema político e converte-se em atmosfera de continuidade.
É precisamente este o efeito mais eficaz do vídeo. Felipe VI não aparece como chefe de uma instituição corrupta e historicamente contestável, vinculada à restauração borbónica, ao regime de 1978, à inviolabilidade constitucional e à função de símbolo da unidade estatal sob a bota militar, o art.155 e o lawfare. Aparece como voz familiar, como mediador aparentemente desinteressado, como presença que devolve ao povo aquilo que previamente enquadra. A Coroa deixa de ser objeto de pergunta e passa a funcionar como condição da própria cena. O espectador é convidado a aceitar a monarquia não por adesão explícita, mas por reconhecimento afetivo: antes de discutir se deve haver rei, já o encontrou atravessando o campo como se a sua presença fosse parte natural da paisagem estatal.
Essa naturalização é politicamente decisiva. A monarquia espanhola sobrevive menos pela força de uma convicção monárquica socialmente intensa do que pela sua capacidade de se apresentar como forma neutra de continuidade, como instância arcangélica acima dos conflitos e como idioma simbólico de uma unidade que não se quer discutir. O vídeo participa dessa operação. Ao fazer do Borbón a voz que convoca “todos”, transforma uma instituição particular, hereditária e juridicamente blindada em operador “universal” de pertencimento. A crítica republicana, a memória da restauração, os escândalos da Casa Real, a questão da inviolabilidade e a própria pergunta democrática sobre a chefia do Estado ficam fora de campo. A seleção dos espanhois absorve a monarquia como se absorve um fundo musical: não se argumenta, interioriza-se.
É neste ponto que a noção de pós-imperialidade se torna mais útil do que uma aplicação mecânica de categorias coloniais. A Galiza não é uma colónia no sentido clássico das colónias racializadas do império moderno. Afirmá-lo sem mediação empobreceria a análise e tornaria a crítica vulnerável. O que a história espanhola produziu, contudo, são efeitos internos de colonialidade: hierarquização de línguas, subordinação territorial, captura de símbolos periféricos, administração de elites locais, bloqueio de representações próprias e conversão da diferença em ornamento da unidade estatal.
Tornemos mais precisa a natureza desta operação. O vídeo da seleção da RFEF não deve ser lido apenas como nacionalismo de Estado, borbónico e restaurado em forma audiovisual, nem como simples utilização decorativa das periferias. A sua lógica pertence antes a uma formação pós-imperial que já não consegue apresentar a Espanha como totalidade evidente por via puramente histórica, jurídica ou militar, e por isso precisa recompô-la culturalmente através de imagens, afetos, diversidade administrada e consumo global. A Espanha que aparece no vídeo não é a do velho centralismo nu, mas uma Espanha capaz de incorporar aquilo que poderia desmenti-la para devolvê-lo como suposta prova da sua própria elasticidade integradora.
Esta é uma das intuições que lançamos: o problema espanhol não se resolve tomando “Espanha” como sujeito natural a completar, reconciliar ou modernizar, porque esse gesto repete a própria armadilha do nacionalismo espanhol. O Estado deve ser pensado como formação geopolítica pós-imperial, isto é, como estrutura que perdeu o império exterior, mas conserva uma gramática interna de hierarquização, absorção e gestão das diferenças. A sua crise não nasce apenas da existência de nacionalismos periféricos, mas da incapacidade de reconhecer que a própria Espanha funciona como campo de poder historicamente produzido, e não como recipiente neutro onde as diferenças simplesmente coexistem.
O vídeo da RFEF é uma miniatura dessa forma política. Não precisa dizer que Espanha é una e centralizada. Diz algo mais eficaz: Espanha é diversa, e precisamente por isso todos pertencem à mesma seleção. A diferença deixa de ser negada e passa a ser gerida. A pluralidade não desaparece; é convertida em prova sensível da unidade. A heterogeneidade histórica é recolhida como material de uma totalidade que ela própria não pode constituir. O problema não é que a Galiza apareça pouco (de facto, hiperepresentada), mas que apareça sob condições que impedem a sua significação autónoma. A sua presença é real; o seu poder de enunciação, nulo.
A Galiza surge nesse dispositivo com uma densidade particular. O Obradoiro, o mundo rural, o mar, os ofícios, a gandeira, o marinheiro, a materialidade do trabalho e a espessura simbólica do território compõem uma espécie de reserva moral da Espanha. A Galiza oferece profundidade histórica, autenticidade popular e textura atlântica a uma narrativa estatal que necessita desses signos para não aparecer como pura abstração institucional. Mas esses signos chegam separados das relações que lhes dariam força política.
Vê-se a Catedral de peregrinaçoes, mas não a longa história de apropriação de Santiago pela imaginação espanhola. Vê-se a ruralidade, mas não a estrutura económica do mundo agrário galego e sua expulsão migratória. Vê-se o marinheiro, mas não a conflitualidade material do mar, da pesca, dos portos, das cadeias de valor, da precariedade ou da dependência. Vê-se a Galiza dentro da seleção espanhola, mas não se vê a possibilidade de uma seleção galega falar ao mundo em nome próprio. A imagem mostra precisamente para impedir que aquilo que mostra poda falar.
A invisibilização contemporânea raramente consiste em retirar um território do ecrã. Muitas vezes consiste em mostrá-lo de tal modo que a sua densidade histórica, linguística e política fique neutralizada no próprio ato de aparecer. A Galiza não é simplesmente apagada; é visibilizada como imagem muda. E uma imagem muda é mais útil ao Estado do que uma ausência. A ausência poderia denunciar exclusão; a presença controlada permite fabricar inclusão.
O regime de visibilidade é, portanto, o problema central. O vídeo determina o que pode ser visto, como deve ser visto e que forma de subjetividade fica excluída do campo do visível. A Galiza pode aparecer como paisagem, monumento, ofício, autenticidade, sotaque ou emoção, mas não como conflito político. Pode figurar como parte da Espanha, mas não como sujeito que interrogue essa pertença. Pode fornecer aura, mas não decisão. Pode ser incorporada como signo, mas não produzir frase própria.
A fórmula histórica “Santiago y cierra España” ajuda a compreender esta gramática, desde que não seja tratada como transparência medieval nem como simples resíduo folclórico. O vídeo não a invoca explicitamente porque já opera sobre uma tradição que deslocou Santiago de Compostela para o imaginário nacional espanhol. O signo galego foi convertido durante séculos em operador de mobilização de Espanha. A convocatória futebolística substitui o brado militar; o relvado substitui o campo de batalha; a seleção dis espanhois substitui a hoste; o Borbón substitui o cavaleiro; a emoção nacional substitui a guerra religiosa. A diferença histórica é de estilo, não de estrutura.
O que permanece é a capacidade de organizar signos territoriais para que fechem fileiras em torno de Espanha. A Compostela do vídeo já não precisa aparecer como Santiago guerreiro; pode aparecer como monumentalidade espiritual higienizada, como profundidade histórica disponível para uma narrativa nacional sem conflito. O signo galego continua a funcionar como recurso de legitimação, agora sob a forma branda do nacionalismo banal. O brado desaparece; a estrutura de apropriação permanece.
A distribuição dos papéis dentro do vídeo confirma essa hierarquia. Catalunha e País Basco entram sobretudo pela via do rendimento desportivo, através da presença de jogadores e ecossistemas futebolísticos fortes. A Galiza entra pela via da aura. Madrid, por sua vez, aparece como código institucional. A ausência de jogadores do Real Madrid na lista não elimina a centralidade madrilenha, porque essa centralidade não depende apenas do clube. Madrid aparece como sede, federação, Gran Vía, patrocinadores, Casa Real, Ciudad del Fútbol, aparato mediático e voz régia. O clube pode faltar; o Estado permanece.
A equação semiótica é clara. O Barça e o futebol basco-navarro fornecem rendimento competitivo. A Galiza fornece espessura simbólica. Madrid fornece o código institucional. A lista parece desportiva, mas a montagem recompõe politicamente aquilo que a lista poderia desorganizar. A ausência do Real Madrid como corpo futebolístico é compensada pela presença de Madrid como aparelho de Estado. A presença limitada da Galiza como potência competitiva é compensada pela sua sobre-exposição como paisagem moral. A pluralidade desportiva é absorvida como unidade simbólica.
A figura de Rafael Louzán torna essa engrenagem ainda mais reveladora, sem que seja necessário reduzir a análise à sua biografia. Um dirigente galego pode ascender da federação territorial à federação estatal; a Galiza, enquanto tal, não pode ascender da representação autonómica à representação internacional plena. A periferia pode fornecer quadros ao centro, pode administrar a engrenagem e até presidi-la, mas não pode transformar a sua energia social, desportiva e territorial em sujeito próprio diante do mundo. Esta é uma forma sofisticada de integração subordinada: a circulação de elites não equivale à soberania do território de onde procedem.
A comparação com o Reino Unido permite ver a especificidade espanhola sem idealizar o modelo britânico. Também aí há história imperial, hierarquias internas e conflitos nacionais. Mas o futebol conservou uma pluralidade representativa formal: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte aparecem com federações e seleções próprias no plano internacional, e as associações britânicas mantêm uma posição institucional específica no governo das leis do jogo. Espanha opta por outra solução: descentralização administrativa suficiente para integrar territórios, centralização simbólica suficiente para impedir que essa pluralidade se converta em representação internacional autónoma.
A questão, contudo, não passa por negar que pessoas galegas, catalãs ou bascas podam sentir a seleção espanhola como sua. Podem. A emoção individual não é o problema principal. O problema está na organização política dessa emoção. Quem decide o sentido das imagens? Quem convoca e quem é convocado? Quem atravessa o campo e quem fica convertido em paisagem? Quem fala e quem é apenas mostrado? A emoção não aparece como efeito secundário, mas como tecnologia política central. O vídeo não procura apenas convencer; procura ajustar afetivamente o espectador a uma determinada evidência de Espanha.
O espectador completa o dispositivo. A unidade nacional não está apenas no ecrã; realiza-se no ato de olhar. Quando a montagem é aceite como natural, o sujeito reconhece-se como parte de um “todos” que já foi politicamente definido. A identificação precede a reflexão, e essa anterioridade afetiva bloqueia a pergunta crítica. Antes que alguém poda interrogar a Coroa, a seleção, a representação da Galiza ou a ausência de uma voz própria, já foi convidado a sentir que tudo aquilo lhe pertence. Por isso o vídeo não apenas representa a monarquia; protege-a do pensamento. A identificação futebolística antecipa a interrogação política. Quando o espectador entra no “todos” da convocatória, a presença do rei já foi integrada como mediação natural dessa comunidade. O que poderia ser discutido — por que uma chefia de Estado hereditária fala em nome de uma sociedade plural; por que a unidade territorial deve aparecer encarnada numa dinastia; por que a forma monárquica continua a organizar simbolicamente a imaginação espanhola — fica absorvido pela emoção do anúncio. A Coroa torna-se mais eficaz precisamente quando parece menos política.
A pós-imperialidade espanhola contemporânea precisa precisamente dessa anterioridade afetiva. A Coroa, a bandeira e Santiago já não bastam por si mesmos. O dispositivo necessita de modernidade estética, diversidade racializada, juventude global, cultura popular, crítica domesticada e prestígio internacional. Figuras como Lamine Yamal, Rosalía, Bardem ou Sorogoyen podem operar, em diferentes registos, como excedentes simbólicos reconduzíveis à narrativa de uma Espanha plural, moderna e democraticamente madura. O sistema não exige que essas figuras sejam obedientes em sentido literal. Basta que o seu excedente poda ser reincorporado como prova de vitalidade da totalidade espanhola.
O vídeo atua, assim, em vários níveis simultâneos. Como anúncio, convoca jogadores. Como peça afetiva, convoca o povo. Como ritual monárquico, convoca a unidade. Como dispositivo territorial, convoca as periferias. Como operação semiótica, transforma sujeitos em signos. Como máquina pós-imperial, recolhe aquilo que poderia desmentir a Espanha e devolve-o como prova de que Espanha existe precisamente porque consegue absorver o seu próprio desmentido.
A eficácia da peça depende da sobreposição dos códigos. O código desportivo informa a lista. O código afetivo diz que todos jogam. O código territorial afirma que todos os cantos do país estão presentes. O código monárquico estabelece que a unidade precede a pluralidade. O código pós-imperial sugere que aquilo que não pôde ser constituído hegemonicamente como nação inclusiva pode ser reencenado como emoção comum. O código semiótico fixa a posição da Galiza: aparece, mas não significa por si; significa dentro da frase de Espanha.
Uma Espanha verdadeiramente inclusiva exigiria outro regime de aparição. Exigiria que Galiza, Catalunha ou País Basco pudessem aparecer como sujeitos de historicidade, língua, conflito e representação. Também de representação desportiva. O vídeo oferece outra coisa: uma Espanha reconciliada por montagem. A reconciliação audiovisual substitui o poder constituinte. A seleção substitui a política. A emoção substitui a hegemonia. A Coroa substitui o povo constituinte. A Galiza substitui-se a si mesma como imagem de Espanha.
A fórmula final é simples, mas severa: a Galiza é admitida enquanto matéria expressiva da Espanha, desde que a sua presença não se converta em capacidade própria de enunciação. Pode entrar como monumento, como paisagem, como ofício, como sotaque, como rosto popular ou como exceção individual no campo desportivo; o que lhe é retirado é a possibilidade de organizar esses mesmos signos a partir de uma soberania própria. A Catedral comparece como profundidade histórica disponível para a narrativa espanhola, enquanto a hipótese de uma seleção galega permanece fora do campo do visível. O marinheiro é incorporado como figura moral do trabalho, já separado do conflito material do mar. A gandeira funciona como emblema de autenticidade rural, desligada da estrutura económica que condiciona o mundo agrário galego. O jogador galego pode ser celebrado como trajetória pessoal, mas a Galiza, enquanto sujeito desportivo, linguístico e político, fica excluída da representação plena. A diferença é aceite como ornamento de uma totalidade alheia; a soberania semiótica dessa diferença é precisamente aquilo que o dispositivo impede.
É nesta presença sem soberania que a operação se torna mais legível. A Galiza tem lugar na Espanha contemporânea, mas esse lugar é muitas vezes o da imagem que impede outra existência política. A sua incorporação não resolve a subordinação; reorganiza-a. O Estado mostra a Galiza para poder administrá-la como signo, convoca-a para impedir que convoque, reconhece-a emocionalmente para continuar a não a admitir como sujeito pleno de representação.
A pós-imperialidade opera precisamente nesse deslocamento. A diferença galega deixa de ser perigo quando é retirada do campo da enunciação e transferida para o campo da imagem. Enquanto língua, soberania, conflito histórico ou representação desportiva própria, interromperia a unidade. Enquanto monumento, paisagem, trabalho, sotaque, jogador individual ou reserva moral de autenticidade popular, passa a reforçá-la. O dispositivo não suprime a diferença; altera a sua função.
Deste modo, o vídeo não representa uma Espanha plural. Administra audiovisualmente a impossibilidade de constituí-la como pluralidade soberana. A sua eficácia reside em converter o que poderia abrir conflito em material de reconciliação estética. A classe torna-se autenticidade; a periferia, paisagem; a monarquia, operador de síntese; a seleção, metáfora de uma comunidade que só pode parecer reconciliada porque o conflito foi editado antes de aparecer.
Por isso a crítica não deve deter-se na invisibilização. O mecanismo é mais sofisticado: produz imagens úteis. A Galiza rural, marítima, trabalhadora, compostelana e emocional pode circular no dispositivo; a Galiza linguística, nacional, desportiva, conflitual e soberana fica fora da cena. A imagem galega não é exterior à dominação simbólica; é uma das suas matérias-primas. A Galiza aparece dentro da frase de Espanha, e essa inclusão impede que apareça como sujeito gramatical da sua própria história.
O vídeo da seleção torna-se, assim, um pequeno laboratório do Estado espanhol em globalização. Mostra como uma formação pós-imperial tenta resolver por desporto aquilo que não resolveu por constituição material; como substitui a hegemonia impossível por montagem afetiva; como converte povo em público, diferença em ornamento, território em signo e Coroa em garantia visual de uma unidade precária. A Galiza não desaparece da Espanha contemporânea. Aparece nela de forma cada vez mais sofisticada, precisamente para ser impedida de aparecer fora dela.
