A Real Academia Galega (RAG) dedicou a jornada à escritora e jornalista Begoña Caamaño, destacando a atualidade do seu legado, considerado “brilhante no plano literário, desafiante no intelectual e no ético, e sempre em galego”. Durante a sessão extraordinária, várias intervenções sublinharam o seu compromisso feminista, o seu contributo para a reinterpretação de mitos da cultura ocidental e o seu papel relevante no jornalismo crítico e na defesa do conhecimento.
Em paralelo, milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas de Santiago de Compostela, convocadas pela plataforma Queremos Galego, sob o lema “O galego, língua vital”. A mobilização reclamou medidas urgentes para enfrentar a atual “emergência linguística” e defendeu a utilização do galego em todos os domínios da vida pública. Os organizadores apelaram à unidade da sociedade e à adopção de ações concretas para assegurar a sobrevivência e o desenvolvimento da língua.
Neste contexto, a associação Axuntar apresentou a campanha “Cem rúbricas”, destinada a promover a defesa e normalização do galego nas Astúrias. A iniciativa incentiva a participação cidadã e pretende garantir que a língua continue a florescer no futuro, reforçando o seu reconhecimento como língua comum.
A situação do galego marcou igualmente o debate político, expondo de forma nítida o afastamento entre a retórica institucional e a realidade sociolinguística. O presidente da Xunta, Alfonso Rueda, voltou a defender a necessidade de um pacto pela língua “realista e consensual”, baseado “na liberdade e sem imposições”.
O que está em causa não é uma “imposição”, mas a implementação de políticas públicas destinadas a garantir direitos linguísticos básicos e a corrigir desequilíbrios histórico
Contudo, esta posição é amplamente criticada por reproduzir um discurso que, longe de ser neutro, ignora deliberadamente as condições de desigualdade estrutural em que o galego se encontra. Em contextos de minorização linguística, a invocação da “liberdade” não constitui um princípio equilibrado, mas sim um mecanismo que favorece sistematicamente a língua dominante. Apresentar esta abordagem como moderada ou equidistante é, na prática, legitimar a continuidade de um processo de substituição linguística já amplamente documentado.
Particularmente problemática é a insistência no termo “imposição”, utilizado mais uma vez por Alfonso Rueda, presidente da Junta, para desqualificar políticas de normalização. Esta retórica simplifica e distorce o debate, convertendo medidas de proteção linguística — comuns em múltiplos contextos europeus — numa suposta ameaça às liberdades individuais. Na realidade, o que está em causa não é uma “imposição”, mas a implementação de políticas públicas destinadas a garantir direitos linguísticos básicos e a corrigir desequilíbrios históricos. Ao recusar este enquadramento, o discurso oficial contribui para deslegitimar qualquer intervenção eficaz.
Deste modo, a defesa de políticas baseadas exclusivamente na voluntariedade e no consenso funciona, na prática, como uma estratégia de inação. Ao evitarem decisões estruturais nos domínios chave — educação, administração, meios de comunicação ou economia — estas políticas não apenas falham em travar o declínio do galego, como contribuem para a sua aceleração. A ausência de medidas firmes não é neutral: é uma escolha política que favorece a hegemonia do castelhano.
Neste contexto, torna-se evidente a contradição entre o discurso institucional e a mobilização social crescente, que denuncia uma situação de emergência linguística e exige respostas concretas. A tensão não reside apenas na divergência de posições, mas numa questão fundamental: se a política linguística deve limitar-se a acompanhar passivamente a substituição em curso ou assumir a responsabilidade de intervir para garantir a sobrevivência efetiva da língua.
Perante este cenário, a retórica da “não imposição” revela-se não como um princípio de equilíbrio, mas como um álibi político que permite evitar medidas potencialmente eficazes. Em termos sociolinguísticos, tal opção não é neutra nem inocua: constitui um fator ativo na fragilização do galego e na sua progressiva marginalização social.
Por seu lado, a oposição, representada por Ana Pontón (BNG) e José Ramón Gómez Besteiro (PSdeG), exigiu mudanças significativas na política linguística e um maior investimento público, alertando para o contexto de emergência que a língua enfrenta.
O Dia das Letras Galegas de 2026 evidenciou, assim, um cenário em que cultura, mobilização social e debate político convergem no objetivo comum garantir o futuro do galego como língua viva e essencial da sociedade galega perante indicadores de regressão no uso intergeracional do galego, que levam a falar numa “emergência linguística”. Neste contexto, as abordagens baseadas exclusivamente na voluntariedade tem adoitam ser ineficazes para inverter as tendências de substituição.
















