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Editorial, Galiza, Língua, Normalização linguística, Portugal — 5 Maio, 2026 at 10:00 a.m.

5 de maio – Día mundial da lingua portuguesa. O galego não está só

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A Galiza não precisa de autorização para voltar à sua língua. O galego e o português não são línguas estrangeiras entre si: são duas trajetórias políticas de uma mesma matriz histórica, amputada na Galiza por séculos de castelhanização, desprestígio imposto pela violência social, cultural, econômica e simbólica.

O Dia Mundial da Língua Portuguesa, para nós, não pode ser reduzido a uma cerimónia diplomática nem a um gesto folclórico. Tem de ser lido como uma interpelação radical: por que razão a Galiza continua a tratar como “externo” aquilo que lhe pertence historicamente? Por que razão se insiste em separar, por decreto e por hábito colonial, aquilo que a história linguística mantém ligado?

Castelao percebeu isto com clareza. Quando afirmou que a língua galega “vive e floresce em Portugal”, estava a denunciar a mutilação sofrida na Galiza e a lembrar que a nossa língua não morreu: foi empurrada para a margem, domesticada, envergonhada e administrada como problema. A sua visão era nacional, sim, mas também anti-subalterna: uma Galiza digna não pode aceitar a sua língua como relíquia regional de segunda ordem.

Xohán Vicente Viqueira levou essa consciência ainda mais longe. A sua defesa da galeguização do ensino, da dignidade da língua própria e da aproximação ao espaço lusófono não era um capricho erudito: era um programa de libertação cultural. Viqueira entendia que uma língua só vive plenamente quando pode escrever ciência, pensamento, escola, administração e futuro. Tudo o resto é folclore de contenção.

Na Galiza, o galego continua tratado como língua dominada. E quando uma língua é dominada, o que se destrói não é apenas o vocabulário ou a ortografia: destrói-se o mundo que ela organiza, a memória que transporta, a legitimidade de quem a fala. Isso chama-se colonialidade linguística. E quando uma comunidade deixa de se reconhecer plenamente na sua própria língua porque foi ensinada a desconfiar dela, isso chama-se epistemicídio.

Fernando Venâncio ajuda a desmontar a mentira oficial: o português não nasce contra o galego, nasce dele e com ele. A separação posterior não é prova de diferença essencial; é prova de poder. Portugal consolidou a sua norma estatal; a Galiza foi submetida a outra soberania e obrigada a viver a sua língua sob tutela alheia. O resultado está à vista: de um lado, expansão, prestígio e projeção global; do outro, insegurança, fragmentação e uma luta permanente pela sobrevivência.

Por isso, defender hoje o reintegracionismo não é uma excentricidade filológica. É uma posição política de primeira ordem. Significa recusar a prisão provincial do galego e reinscrevê-lo no seu espaço natural: a comunidade histórica e viva da língua portuguesa. Significa deixar de pedir licença ao poder central para existir linguisticamente. Significa compreender que a Galiza não é um apêndice castelhano com sotaque próprio, mas uma nação linguística amputada que ainda pode recuperar a sua continuidade.

A CIG-Ensino, ao somar-se à celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, aponta precisamente nessa direção: a necessidade de superar a leitura restritiva e institucionalizada da língua para situá-la no terreno da história e do conflito. O seu posicionamento não é neutro nem protocolar; inscreve-se numa tradição de defesa ativa da língua galega como ferramenta de conhecimento, de ensino e de construção coletiva. Ao reivindicar a ligação com o espaço lusófono, está implicitamente a questionar o modelo educativo e cultural que continua a operar sobre a base da separação artificial entre galego e português.

Para além do âmbito filológico, o gesto não é menor. Num contexto em que o ensino continua a reproduzir a hierarquia linguística herdada, afirmar a pertença do galego ao sistema linguístico português implica deslocar o eixo da legitimidade. Já não se trata de proteger uma “língua própria” dentro dos limites administrativos da Galiza, mas de reconhecer uma língua com continuidade histórica e com projeção internacional. Isto altera o horizonte, o galego deixa de ser tolerado como exceção local e passa a ser afirmado como parte de uma comunidade linguística global.

Essa mudança de perspetiva tem consequências materiais. Afeta a forma como se ensina, como se escreve, como se produz conhecimento e como se imagina o futuro. Uma língua encerrada na sua versão subordinada tende a limitar as possibilidades de quem a usa; uma língua reinscrita no seu sistema histórico amplia-as. É aqui que a proposta ganha densidade política pois não se trata apenas de ortografia ou de filologia, mas de condições de possibilidade para uma cultura que se recuse a ocupar um lugar subalterno.

Por isso, o que está em jogo no 5 de maio não é uma adesão simbólica a uma efeméride internacional, mas a afirmação de um conflito ainda aberto. A Galiza pode continuar a gerir a sua língua como exceção tutelada ou pode reconhecê-la como parte de uma continuidade histórica interrompida. A primeira opção prolonga a dependência; a segunda abre um processo de recomposição. Nesse sentido, a posição assumida pela CIG-Ensino  desloca o debate. Obriga a perguntar que modelo de língua, de ensino e de sociedade se quer sustentar. E obriga também a reconhecer que a questão linguística, longe de ser um detalhe cultural, continua a ser um dos lugares centrais onde se decide a possibilidade de uma Galiza que não aceite ser apenas o que lhe foi permitido ser.

Celebrar o 5 de maio desde a Galiza é, então, um ato de insurgência menor. Não se trata apenas de homenagear a língua portuguesa; trata-se de afirmar que o galego não é um resíduo local, nem uma variante menor, nem um objeto de museu. É uma língua plena, histórica, transnacional e capaz de futuro. E quanto mais a Galiza adiar esse reconhecimento, mais prolonga a própria subalternidade.

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