off
Editorial — 24 Abril, 2026 at 2:37 p.m.

Animalinhos!

by

A polémica das gárgulas do Hostal dos Reis Católicos não deve ser lida apenas como uma má solução técnica ou estética. O conflito revela a questão de quem tem autoridade para intervir num monumento carregado de memória histórica galega, religiosa, hospitalar, imperial e turística, e segundo que lógica se decide o que é aceitável.

O Hostal dos Reis Católicos não é um edifício neutro. Trata-se de um antigo Hospital Real fundado polos Reis Católicos para acolher peregrinos, hoje convertido num hotel de luxo situado na Praza do Obradoiro a carão da Catedral e do Panteão R Galiza. Portanto, o lugar condensa uma tensão moi própria da historia da Galiza que atinge o contemporâneo. Um património nacional, historicamente denso, é administrado, mercantilizado e representado dentro de uma economia estatal do turismo monumental (TurEspaña) que se deriva da lógica imperial com que foi construído na capital do Reino da Galiza.

A intervenção nas gárgulas torna essa tensão quase literal. A justificação técnica é simples, melhorar a evacuação da água da chuva para proteger a fachada. Mas a forma escolhida — tubos metálicos visíveis, acoplados às figuras escultóricas — transforma um elemento patrimonial em suporte de uma prótese funcional. O problema não é a necessidade de conservação, mas a pobreza simbólica da solução. A gárgula deixa de ser tratada como figura, como vestígio, como linguagem material do edifício, e passa a ser tratada como um dispositivo hidráulico defeituoso.

Aqui a leitura descolonial é útil porque desloca a pergunta. Não se trata apenas de saber se a intervenção foi legalmente autorizada, mas de perguntar que regime de saber e de poder autorizou essa intervenção. A colonialidade não funciona apenas como domínio externo clássico; também pode operar como separação entre território e decisão, entre memória local e administração técnica, entre comunidade e património convertido em ativo turístico. Neste caso, a decisão patrimonial parece surgir de uma racionalidade administrativa e funcional que não escuta suficientemente a densidade histórica e social do lugar.

Isto não significa opor ingenuamente “povo” e “técnicos”. A conservação patrimonial exige conhecimento especializado. Mas também é preciso que conhecimentos são reconhecidos como legítimos? A reação de vizinhos, associações patrimoniais e opinião pública não deve ser reduzida a gosto estético ou escândalo mediático. Ela expressa uma percepção situada: a de que uma intervenção tecnicamente autorizada pode, ainda assim, violentar a leitura simbólica do monumento.

A questão torna-se ainda mais sensível porque o Hostal nao está apenas no sanctasanctórum compostelá, no miolo do dispositivo Santiago–Caminho–Obradoiro. O edifício nasceu vinculado à hospitalidade dos peregrinos, mas hoje participa de uma economia patrimonial fortemente turistificada. Aí surge uma forma de colonialidade interna: o património galego é mobilizado como recurso de prestígio, de marca e de rendimento, enquanto a comunidade local aparece frequentemente como espectadora das decisões que transformam o seu próprio espaço histórico.

A Carta de Veneza estabelece que a restauração deve salvaguardar tanto a obra de arte como o testemunho histórico, e que as técnicas modernas só são aceitáveis quando respeitam o valor do monumento. A partir daí, a crítica às gárgulas “intubadas” não é uma defesa conservadora da intocabilidade da pedra. Polo contrário, é uma exigência de maior inteligência patrimonial. Intervir é necessário; fazê-lo sem empobrecer o sentido do monumento é obrigatório.

Por isso, a resposta  não deveria limitar-se a pedir a retirada dos tubos. Deveria exigir três cousas: uma solução técnica menos invasiva e mais integrada; uma auditoria transparente sobre o processo de autorização; e uma participação efetiva de entidades patrimoniais, instituições locais e comunidade na definição das intervenções sobre monumentos de alta carga simbólica. O património não é apenas matéria conservada: é uma relação social com o passado.

Em síntese, a polémica das gárgulas revela uma colonialidade patrimonial de baixa intensidade, mas muito expressiva. Não porque o Hostal seja simplesmente um monumento colonial do Reino de Espanha no Reino da Galiza, mas porque a intervenção mostra como o património galego pode ser tratado antes como infraestrutura turística e administrativa do que como memória viva de um território. Descolonizar, neste caso, não significa rejeitar a técnica; significa submetê-la a outra pergunta: que cuidado merece um monumento quando deixa de ser apenas recurso turistificado e volta a ser lugar?

Grazas por leres e colaborares no Ollaparo !

Este sitio usa Akismet para reducir o spam. Aprende como se procesan os datos dos teus comentarios.

off