Morreu em Lisboa, cidade onde nasceu em 1942. A notícia foi divulgada na manhã de 5 de março de 2026 e confirmada pela editora Dom Quixote e por vários órgãos de comunicação. O escritor lutava contra um cancro. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou que lhe será atribuído postumamente o Grande-Colar da Ordem de Camões
É considerado um dos maiores escritores portugueses contemporâneos, autor de mais de 40 livros. A sua escrita, marcada pela experiência na Guerra Colonial e pela prática da psiquiatria, influenciou profundamente a literatura portuguesa. Foi durante décadas apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.
A carreira de António Lobo Antunes forma um arco raro na literatura portuguesa: médico psiquiatra, oficial destacado na Guerra Colonial, cronista feroz do império em declínio e romancista que transformou trauma histórico em linguagem literária. Formou‑se em Medicina e especializou‑se em Psiquiatria, profissão que exerceu antes e depois da guerra.Porém, foi um autor prolífico, durante décadas publicou quase um romance por ano. Mais de três dezenas de romances, muitos deles considerados dos mais inovadores da literatura lusófona contemporânea.
A crítica internacional destacou a sua escrita densa, visceral e inovadora. A sua escrita mistura monólogo interior, fragmentação temporal e uma densidade emocional que o tornou um dos autores portugueses mais traduzidos e estudados. É frequentemente colocado ao lado de nomes como Pessoa, Saramago, Cardoso Pires e Sophia de Mello Breyner como uma das grandes vozes portuguesas do século XX e das poucas que mergulhou sua literária dos traumas da história portuguesa, especialmente da Guerra Colonial.
A experiência como médico militar em Angola foi decisiva e atravessa toda a sua literatura.Serviu como tenente durante a Guerra Colonial portuguesa.A guerra marcou “de maneira decisiva” a sua obra, segundo várias fontes. A TSF recorda que, ainda jovem médico, “observava tudo como matéria de literatura”, transformando o trauma colonial em narrativa.Temas recorrentes: violência, culpa, desagregação psicológica, memória, colonialismo e o fim do império.Romances como Os Cus de Judas e Fado Alexandrino são considerados dos mais importantes testemunhos literários sobre a guerra e o colapso imperial português. A guerra não aparece apenas como cenário: é uma ferida estrutural que molda a linguagem, a visão do mundo e a crítica ao autoritarismo e ao colonialismo.
A sua obra é também uma leitura crítica do Portugal do século XX. Cresceu durante a ditadura de Salazar, contexto referido em várias biografias. Os seus romances exploram as contradições do país pós‑Revolução dos Cravos, incluindo o peso do colonialismo na identidade portuguesa. A crítica ao imperialismo é psicológica, íntima, feita através de personagens quebradas, memórias fragmentadas e vozes que se sobrepõem. A reflexão sobre identidade, língua e memória histórica aproxima-o de debates galegos sobre pós‑imperialismo ibérico e relações com Portugal. A sua obra circula amplamente em universidades galegas onde é estudado como figura central da literatura lusófona contemporânea.
O Governo de Portugal aprovou um decreto estabelecendo um dia de luto nacional, a cumprir a 7 de março de 2026. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou que lhe será atribuído postumamente o Grande-Colar da Ordem de Camões
