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Movementos sociais, Politica espanhola — 26 Febreiro, 2026 at 9:06 a.m.

23F: As sombras que persistem — o que os documentos desclassificados revelam, ocultam e reabrem na história da Transição

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O estado de classificação dos papéis do 23‑F é caótico, incompleto e seletivo e confirmam a versão oficial. Após 45 anos, o que se divulga são documentos irrelevantes, manipulados ou “tratados” para proteger figuras poderosas, sobretudo o rei Juan Carlos I Alguém espera encontrar informação relevante entre estes documentos desclassificados? Os relatórios  mostram que, apenas treze dias antes do golpe, setores militares elaboraram análises alarmistas sobre o “separatismo violento galego”.

Cinco décadas depois do 23F, a Espanha continua a regressar, ciclicamente, a esse ponto de fuga mais do que fratura. O golpe de Estado de 1981 é um daqueles acontecimentos que não se encerram: regressa sempre que o estado espanhol tenta revisitar a sua própria história, sempre que a memória da “Transição” é posta em causa, sempre que se abre uma caixa de documentos que, durante décadas, permaneceu fechada. Para confirmarem, seica, a narrativa que jà nos deram a saber. A recente desclassificação parcial de milhares de páginas — relatórios militares, notas policiais, comunicações internas e análises políticas — reacendeu um debate que nunca deixou de existir, mas que agora regressa com mais perguntas do que respostas.E, então, reabre-se o 23-F por interesse histórico  ou também há um interesse político? Estamos revisando o passado ou estamos, simplesmente,  tentando gestionar assuntos do presente? Por que agora? Por que neste momento? E, claro, devemos pensar que, se isso é feito polo presidente do governo espanhol, é feito este governo em algumas condições determinadas, terá algum objetivo político que cumprir. Segunda questão fundamental. Devemos pensar que, no S-23F, havia um contexto histórico muito preciso, determinado por três elementos fundamentais, talvez quatro. O primeiro elemento é uma crise econômica e social profunda, muito séria. Em segundo lugar, uma força, eu diria que enorme, do terrorismo e, sobretudo, sua capacidade de matar militares, membros da segurança e, sobretudo, o generalato militar. Isso era muito importante. E, em terceiro lugar, havia uma crise do partido que fez a transição democrática, ou seja, da UECD, e um diferendo cada vez mais forte entre o rei e Adolfo Suárez.Em uma operação política de longo prazo, que vinha liquidar Suárez e a UECD. Isso tem muita importância, porque, além de ruxe-ruxe, há um golpe que sim funcionou. O golpe que funcionou foi o golpe contra Adolfo Suárez. E, atrás disso, estava claramente o rei. Estava nessa operação.Suárez acreditou no papel que cumpria, acreditou que quem mandava era ele, acreditou que o que dizia a Constituição era verdade, enquanto para o rei, não só não era verdade, mas era um grave problema. O rei não estava disposto a aceitar o papel que Adolfo Suárez tinha como objetivo, como papel histórico dele, que era guiar a transição e a primeira etapa da política espanhola. Isso significou um diferendo profundo, uma diferença séria com os norte-americanos, um intento de uma política internacional ao redor da OTAN, ainda admitindo as bases norte-americanas, mas ao redor da OTAN, e uma posição, por dizer assim, mais autônoma de Espanha na relação internacional. E, no aspecto interno, aí era mais complexa a sua posição, mas não se esqueça que uma parte do que terminou no Partido Popular e outra parte do que foi a UCD, terminou no Partido Socialista. Houve uma operação política que tinha como objetivo expulsar do governo, tirar do governo Adolfo Suárez, e esse foi o primeiro golpe. A dúvida que temos, um golpe, além de triunfador, e a dúvida que temos agora era sobre os outros dois golpes.Quer dizer, o golpe que encabeçou Tejero e, atrás de dele, a mão do general Armada e, depois, o último golpe previsto, que era o que se chamou naquela época e agora também, o dos coronéis. Havia três golpes de alguma maneira em paralelo. E o da posição Armada, o problema que temos é que ele armou uma estratégia, armou um dispositivo e uma política de aliança, e a relação entre o rei e ele fica no personal. Quer dizer, nunca se enumerou alguma cousa de suas relações com o rei e este desvinculou-se obviamente de Armada. Esse é o problema que, de alguma maneira, está pendente. Se Armada atuou por sua conta e risco, ou se Armada tinha o apoio do rei jogando-se.

Além disso, é preciso entender  o momento histórico do qual estamos falando. Quer dizer, há um momento interno, também há um momento internacional, que é importante e que às vezes não se tem em conta. Quando se fala da transição espanhola, muitas vezes se coloca como modelo, mas se coloca como modelo em um contexto determinado, onde também havia ocorrido uma transição em Portugal muito diferente, onde havia também um contexto internacional, ainda, de Guerra Fria, mesmo que já fosse no final. Mas, sobretudo, além dos que poderiam ser esses mudanças políticas importantes, estamos ante a doma da revolução portuguesa, depois das sucessivas purgas que há havido sobre os setores mais radicales e esquerdistas do exército, dos capitães ascendidos em Portugal. Acredito que há outros elementos que são mais generais. Estamos no início de um cambio de ciclo que começaram a se observar, do ponto de vista econômico, nas crises de 1973 e de 1979, as crises econômicas, que batem, evidentemente, a dinâmica da transição espanhola de uma forma duríssima, mas que tem que ser explicada como uma crise de ciclo de mudança que vai abrir para a etapa que conhecemos como a globalização, em um momento em que a esquerda europeia carece dos recursos indispensáveis para compreender o que está acontecendo e, sobretudo, o que vai acontecer a partir dos anos 80, que vai ser o desplazamento para um modelo de organização social que vai fazer entrar em crise o estado de bem-estar, mas vai fazer entrar em crise, sobretudo, as organizações da esquerda que se basaram nesse tipo de sociedade dos 30 gloriosos.

Suárez tinha esquecido quem o tinha colocado ali e quem estava em condições de mantê-lo ou quais eram as condições para mantê-lo, mas há outro elemento, que é a destruição do Partido Comunista de Espanha, como organização realmente operativa superada a etapa constituiente, todas as contradições que supuxo a etapa constituiente para o PC vai-se encontrar também com uma crise econômica que, golpeando as susas bases e do Sindicato Comissões Obreras, vai provocar a quebra de uma coluna que talvez eleitoralmente não fosse tão importante, mas que desde o ponto de vista do peso político da autoridade política do PC, da influência no sindicalismo, no municipalismo, essa quebra, tem que situá-lo também na cancelação, no fechamento da etapa constituinte e, portanto, na perda estranha de valor de mudança e de valor nesse ciclo. Além disso,  o exército espanhol tem três setores ideológicos difenciados. Um setor ultra potente, nada residual, e, sobretudo, encabeçado tanto polos generais que, nesse momento, ocupam, desempenham todos os comandos superiores da defesa, não só do ponto de vista operativo, que é importante peoo control da força, mas também do ponto de vista político. E, além disso, têm uma segunda geração, o perfil de coronel, moitos desses serviços de inteligência que existiam então, que têm um papel  importante no 23-F, esse golpe que, como se indica na panorâmica das operações em marcha dos coronéis, que estão conectando com outros golpes internacionais. Por exemplo, dous protagonistas do 23-F, como é o coronel San Martín e o comandante Ricardo Pardo Zancada, que estão nos serviços de informação e são muito ativos do ponto de vista ideológico, voluntariamente se transladam-se expressamente para a divisão armada Brunete e depois têm um papel interessante. Primeiro, nos acontecimentos que ocorrem antes no ano 80, final do ano 79-80, com o general Torres Rojas e depois já diretamente no 23-F. Bem, esses setores, além de uma massa, digamos, de tipo conservador e reaccionario, mas com uma cultura franquista moito clara de seguimento desses setores ultras, há um pequeno setor progressista, que seria o que representa a União Militar Democrática, mas que, na altura do 23-F, fai moito tempo que foi completamente desativado. mas foram uma consequência da Revolução dos Cravos, obviamente, isso é claríssimo, e se organizam em uma reunião de 12 oficiais do Exército de Terra, em Barcelona, em torno ao comandante Júlio Busquês, que é a figura principal, o ideólogo militar, mas com um perfil acadêmico importante. No mes de julho,  dictam-se  10 ordens de detenção, depois de gravá-los em uma série de reuniões, etc., e, a partir daí, lógicamente, não sabemos, moito bem, se tivessem tido mais tempo, que força teria podido tomar.

Os documentos divulgados polo governo espanhol incluem:

  • Relatórios do CESID (serviços secretos) — alguns já eram conhecidos por terem sido publicados em livros nos anos 80 e 90.
  • Notas internas militares e policiais — moitas sem data, sem assinatura e misturadas com documentos de épocas diferentes.
  • Registos de comunicações e análises internas — mas não as mais sensíveis, especialmente as que envolvem a Casa Real.

A  maior parte do que aparece já tinha sido revelado por jornalistas como Pepe Oneto décadas atrás. Porém, há ausências criticas: as comunicações entre Zarzuela e as capitanias gerais durante as mais de seis horas entre o “¡Todo el mundo al suelo!” e o discurso televisivo de Juan Carlos I; documentos que esclareçam o papel real dos capitães-generais, que segundo o próprio rei, nas suas memórias, “estavam maioritariamente a favor do golpe”; papéis que clarifiquem a atuação do CESID, já que vários dos seus agentes (Cortina, García Almenta, Sánchez Valiente) aparecem implicados nos documentos agora divulgados, mas nunca foram julgados.

A desclassificação, apresentada como gesto de transparência, revela-se afinal um exercício de gestão da memória — uma memória cuidadosamente aparada, higienizada, calibrada para não abalar os pilares simbólicos da Transição.

A primeira impressão, ao folhear o que foi tornado público, é a de uma ausência. Não se trata apenas de lacunas pontuais, mas de um vazio estrutural: faltam documentos essenciais, precisamente aqueles que poderiam esclarecer o papel da Casa Real, as articulações entre altos comandos militares e dirigentes políticos, ou as conversas discretas que antecederam o golpe.

O governo deitou os documentos com um desordenamento considerável: papéis sem data e sem assinatura; mistura de conspirações anteriores ao 23‑F com outras posteriores, como o chamado “golpe do 27‑O” (planeado após a vitória socialista de 1982); falta de critérios de organização, dificultando qualquer reconstrução rigorosa dos acontecimentos.

A sensação é inequívoca: não estão todos os papéis que deveriam estar, mas estão todos os que convém que estejam. A desclassificação, apresentada como gesto de transparência, revela-se afinal um exercício de gestão da memória — uma memória cuidadosamente aparada, higienizada, calibrada para não abalar os pilares simbólicos da Transição.

A sensação é inequívoca: não estão todos os papéis que deveriam estar, mas estão todos os que convém que estejam.

Entre os documentos disponíveis, porém, há material suficiente para reabrir fissuras antigas. Os relatórios analisados polo eldiario.es mostram um rei Juan Carlos muito mais envolvido no clima pré-golpista do que a narrativa oficial admitiu durante décadas. O monarca surge em conversas frequentes com comandantes que, semanas depois, participariam no golpe; recebe advertências sobre o “clima insustentável” no exército; escuta propostas de “correção de rumo” político; e mantém canais abertos com setores militares que viam a jovem democracia como um desvio perigoso. Nada disto prova cumplicidade, mas desmonta a imagem de um rei isolado, surpreendido, heroicamente interventivo. A fronteira entre mediação e ambiguidade torna-se difusa — e a ausência dos documentos mais sensíveis impede que essa fronteira seja traçada com nitidez.

O 23F continua a ser um território simbólico onde se joga não apenas a interpretação do passado, mas também a legitimidade do Regime do 78 e o seu projeto pós-imperial restaurador borbónico.

Iñaki Anasagasti, recorda reuniões secretas no Congresso onde, apesar de haver muitas pastas, não se encontrava informação útil. Cita Joaquín Almunia, que descobriu documentos do CESID com vigilância racista ao presidente Obiang, e critica a desclassificação atual como uma farsa controlada por uma lei franquista de 1968.

Ele menciona uma entrevista do ex-diretor do CESID, Alberto Saiz, que admitiu que tudo sobre o 23F foi “devidamente tratado”, ou seja, “limpo” ou “apagado”. Para Anasagasti, a narrativa oficial — que apresenta o rei como salvador — é falsa e construída para proteger a monarquia e a Transição.O rei Juan Carlos teria incentivado o general Armada e o ambiente que levou ao golpe. Políticos como Felipe González e empresários influentes também teriam tido papéis relevantes. Houvo tentativas de formar um governo de “concentração” presidido por um militar, excluindo PNV e CiU e testemunhos de figuras como Antonio Carro, Rojas Marcos, Arzalluz e até gravações de Bárbara Rey apontariam para a implicação do rei.

Segundo Anasagasti, o golpe não foi contra o rei, mas em nome do rei.A consequência prática do 23F, afirma, foi a aprovação da LOAPA, que limitou o desenvolvimento autonómico e ainda hoje afeta o Estatuto basco. Remata perguntando por que razão os meios de comunicação bascos não revisitam o 23F desde a perspetiva de Euskadi, dando voz a quem viveu os acontecimentos.

A imprensa espanhola reagiu à desclassificação como quem observa um espelho rachado. As manchetes dos grandes jornais revelam uma batalha narrativa: uns reforçam a figura do rei como salvador da democracia; outros sublinham as contradições internas dos relatórios; alguns insistem nas omissões gritantes. A operação, longe de pacificar o debate, reacendeu a disputa polo controlo do relato histórico. O 23F continua a ser um território simbólico onde se joga não apenas a interpretação do passado, mas também a legitimidade do Regime do 78 e o seu projeto pós-imperial restaurador borbónico.

Mas talvez os documentos mais surpreendentes não estejam em Madrid, e sim na Galiza. Os relatórios analisados por Praza.gal mostram que, apenas treze dias antes do golpe, setores militares elaboraram análises alarmistas sobre o “separatismo violento galego”. A Galiza, tradicionalmente ausente do imaginário securitário espanhol, surge nesses textos como um “risco potencial a longo prazo”, com grupos clandestinos imaginários e uma ameaça territorial que nunca existiu. A construção deste fantasma servia ao propósito claro de justificar a necessidade de uma intervenção militar corretiva, reforçar a ideia de que a integridade de Espanha estava ameaçada em múltiplas frentes e alimentar um clima de urgência que tornasse o golpe mais plausível.

Mas talvez os documentos mais surpreendentes não estejam em Madrid, e sim na Galiza. Os relatórios  mostram que, apenas treze dias antes do golpe, setores militares elaboraram análises alarmistas sobre o “separatismo violento galego”.

Se a visão militar sobre a Galiza era fantasiosa, a resposta galega ao golpe foi tudo menos isso. Outro conjunto de documentos, também analisado por Praza.gal, mostra que o território reagiu de forma rápida, massiva e organizada. Estaleiros como Astano, Bazán, Barreras e Vulcano pararam quase de imediato; estudantes ocuparam faculdades em Santiago; a polícia desalojou manifestantes em Filologia, Ciências da Educação e História; e cidades como Vigo, Ferrol e A Corunha registaram protestos espontâneos. A imagem de uma Galiza politicamente passiva, tantas vezes repetida, desfaz-se diante da evidência documental o território esteve mobilizado, atento e claramente alinhado com a defesa da democracia e de bases constitucionais pròprias.

Mas a desclassificação traz ainda  o nome de Manuel Fraga. O artigo de Nós Diario revela que vários documentos mencionam o líder da Aliança Popular em relação a “operações” e contactos prévios ao golpe. Os relatórios não o colocam como conspirador direto, mas sugerem que setores militares interpretavam os seus movimentos políticos como sinais de apoio a uma mudança de rumo. A versão oficial posterior omitiu estas ligações, mas a documentação agora disponível mostra que os golpistas tinham uma leitura política que incluía Fraga como possível beneficiário de um novo cenário. A política espanhola do início dos anos 80 era um tabuleiro instável, onde as fronteiras entre legalidade, ambição e oportunismo eram mais porosas do que a memória coletiva costuma admitir.

A desclassificação traz ainda  o nome de Manuel Fraga: os papeis sugerem que setores militares interpretavam os seus movimentos políticos como sinais de apoio a uma mudança de rumo.

Os documentos também expõem as fragilidades internas do golpe. As falhas de comunicação, ausência de um plano unificado, expectativas divergentes sobre o papel da Casa Real de Bourbon . O 23F “fracassou” tanto pola resistência institucional e social como pola sua própria desorganização. E, no entanto, nove meses depois do golpe persistia no exército um “renascimento do clima” que o motivara. A nostalgia autoritária não desapareceu com a rendição de Tejero; continuou a circular nos quartéis, alimentada por ressentimentos, frustrações e uma perceção de que a democracia era frágil, reversível, quase acidental.

A leitura conjunta de todos estes documentos — os que foram divulgados e, sobretudo, os que continuam ocultos — revela uma verdade desconfortável: o 23F não foi um episódio isolado, mas o ponto mais visível de uma crise prolongada na consolidaçao do Regime do 78 comandado polo franquismo. A Transição, tantas vezes apresentada como um processo linear, consensual e exemplar, aparece agora como um terreno muito mais instável, cheio de tensões subterrâneas, ambiguidades estratégicas e equilíbrios precários.

A desclassificação parcial não encerra o debate; amplia-o. Mostra que a história oficial é apenas uma das versões possíveis — e talvez não a mais completa. Mostra que a democracia espanhola nasceu rodeada de sombras, algumas das quais continuam a projetar-se sobre o presente. E mostra, acima de tudo, que o país ainda não decidiu se quer realmente conhecer toda a verdade sobre o 23F, ou se prefere continuar a viver com uma versão confortável, mas incompleta.

A pergunta que permanece, depois de ler tudo o que foi tornado público, não é o que os documentos revelam. É o que continuam a esconder. E se a Espanha do Regime do 78 está preparada — ou disposta — a enfrentar o que poderá surgir quando o seu segredo fundacionalf fosse finalmente conhecido.

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