
Sob o lema “Por as que somos e as que virán”, a marcha partiu da Alameda e terminou na emblemática Praça do Obradoiro, onde foi lido um manifesto coletivo. Os organizadores alertaram para os impactos ambientais do projeto, incluindo a captação massiva de água do rio Ulla, a ameaça à biodiversidade e os riscos para a ría de Arousa, uma das principais zonas marisqueiras da Galícia.
Esta mobilização não é a primeira: desde que o projeto foi anunciado, têm ocorrido protestos em diferentes localidades galegas, incluindo concentrações em Palas de Rei e outras cidades, mostrando uma oposição social persistente e crescente.
A manifestação contou com forte apoio social e político: participaram representantes de sindicatos, associações ecológicas e partidos como BNG e PSdeG, que acusaram a Xunta de atuar como “comercial” da empresa e ignorar o clamor popular. A líder do BNG, Ana Pontón, pediu ao presidente Alfonso Rueda que “escute a Galícia” e bloqueie o projeto, enquanto o PSdeG destacou que esta é uma “defesa da dignidade coletiva”.
Dados do projeto Altri – “GAMA”
- Investimento de cerca de 1 000 milhões de euros, financiados com cerca de 220 M€ em capital da empresa, 500 M€ em dívidas e cerca de 280 M€ de fundos europeus — embora estes ainda estejam por confirmar.
- Implantado pela joint venture Greenfiber (75 % Altri, 25 % Greenalia).
- Área total de 366 hectares, sendo 112 ha reservados à instalação industrial e o restante (cerca de 70 %) preservado como zonas verdes.
- Capacidade de produção anual:
- 400.000 t de celulosa solúvel;
- 200.000 t de fibras têxteis (lyocell).
- Consumo de matéria-prima: cerca de 1,2 milhões de toneladas de madeira por ano, muito abaixo das grandes fábricas globais, mas significativo para a região.
- Uso de água: captação de até 46.000 m³ por dia (46 milhões de litros), equivalente ao consumo de toda a província de Lugo; devolução de aproximadamente 30.000 m³/dia de água tratada ao rio Ulla.
- Consumo de energia: cerca de 110 MW, com linha dedicada de 9 km, incluindo uso de biomassa e licor negro para produção energética.
- Infraestrutura adicional: uma chaminé de 75 metros, estações de uso industrial e sanitário de tratamento de águas residuais (ETARI com 30.000 m³/dia e EDAR de 50 m³/dia), e estações de monitoramento ambiental.
Tensão ambiental e social
Os opositores denunciam grande impacto hídrico, com consumos equivalentes à totalidade da província, e risco de aquecimento e alteração dos caudais do Ulla, afetando a marisqueira ría de Arousa. Preocupações sobre monocultivo de eucaliptos, aumento do risco de incêndios e perda de biodiversidade. Organizações como Greenpeace classificam-no como o maior “atentado ambiental” da história da Galícia.
Situação administrativa
A Xunta de Galicia concedeu a Declaração de Impacto Ambiental em março de 2025, mas manteve condicionantes rigorosos: captação, emissões, tratamento de águas e controlo ambiental contínuo. A Autorização Ambiental Integrada ainda está pendente, com atraso após o planeado verão de 2025. A empresa enfrenta dificuldades em assegurar fundos europeus e ligação à rede elétrica, com apoio condicionado à obtenção dessas autorizaçõe
Cronologia dos protestos anteriores
- 15 de dezembro de 2024 (Santiago de Compostela): A primeira grande marcha reuniu entre 40.000 e 100.000 pessoas na Praça do Obradoiro. Foi classificada como “mobilização histórica”, simbolizando um “río simbólico” de papel que atravessou a cidade.
- 26 de maio de 2024 (Palas de Rei): Cerca de 20.000 pessoas participaram numa concentração local, com o lema “Nin Altri nin Mina”, manifestando apoio à comunidade da Ulloa.
- 22 de março de 2025 (A Pobra do Caramiñal): Uma manifestação terrestre e marítima levou milhares de pessoas e embarcações ao porto local, unindo vozes contra Altri e o projeto de reapertura da mina de Touro-O Pino.
- 1 de junho de 2025 (Pontevedra/Marín): Outra grande mobilização uniu setores de Pontevedra e Marín, com o lema “Nin Ence na ría, nin Altri na Ulloa”, exigindo um modelo sustentável para a Galícia.
Motivações das mobilizações
Os protestos têm como eixo central os riscos ambientais atribuídos ao projeto da Altri:
- Captação de até 46 milhões de litros por dia do rio Ulla e devolução de água aquecida, colocando em perigo a biodiversidade e a ría de Arousa — área vital para o marisqueo.
- Substituição de bosques autóctones por plantações de eucalipto, consideradas ecologicamente degradantes.
Contexto atual da mobilização
A manifestação deste domingo reafirmou o “não social” ao projeto, coincidindo com os obstáculos administrativos enfrentados pela Altri — como a falha em obter fundos europeus e a falta de subestação elétrica. Representantes da Xunta ainda não autorizaram oficialmente a macroplanta, mas a empresa mantém o projeto em trâmite.
Esta cronologia evidencia uma oposição contínua e crescente desde 2024, unindo Galícia em defesa de modelo territorial sustentável e contra a instalação da macroplanta de celulose da Altri
No encerramento, os manifestantes recriaram simbolicamente um bosque autóctone com guarda-chuvas decorados com folhas de carvalho e castanheiro, em oposição ao eucalipto que abasteceria a fábrica. O manifesto final exigiu que a Xunta negue a autorização ambiental integrada à Altri.
Apesar da pressão social, a decisão oficial ainda não foi tomada. A empresa defende que o projeto segue os trâmites legais e promete cumprir normas ambientais, mas os opositores consideram que se trata de um modelo industrial “contaminante e empobrecedor do território”.
