A preocupação com “nuvens de guerra” sobre a Europa é compreensível. Mas a forma como esse alarme é moitas vezes construído — repetindo, sem prova robusta, que Moscovo “inevitavelmente” atacará a Europa — tende a produzir mais medo do que clareza estratégica. O risco é duplo ao alimentar uma espiral de escalada e, ao mesmo tempo, tornar politicamente impossível uma saída negociada na Ucrânia. O problema não é apresentar a perspetiva liberal dominante na Europa Ocidental. O problema é apresentá-la como se fosse a única leitura “realista” dos factos. Se o objetivo declarado é a paz, então é obrigatório incluir: a perceção russa de ameaça; a crítica ocidental autorizada a essa narrativa europeia; e o contexto histórico em que a atual guerra se tornou provável.

Um ponto-chave é reconhecer que, para Moscovo, a questão ucraniana não é apenas territorial mas, sobretodo, uma questão de arquitetura de segurança e fronteiras estratégicas. Isto não “justifica” a invasão; explica por que motivo, do lado russo, ela foi apresentada como resposta a um cerco. Do lado ocidental, há documentos que ajudam a entender por que Moscovo viu, durante anos, uma trajetória perigosa. Na Declaração da Cimeira de Bucarest (2008), a NATO afirma que a Ucrânia e a Geórgia “tornarão-se membros” da Aliança. Para a Rússia, esta frase cristaliza no pior cenário duma Ucrânia integrada numa aliança militar liderada polos EUA. É aqui que entra também a literatura estratégica americana dos anos 1990. Em The Grand Chessboard (1997), Zbigniew Brzezinski descreve a Ucrânia como um “pivô geopolítico” no tabuleiro eurasiático — ideia frequentemente citada para sustentar que Washington via (e vê) a Ucrânia como peça central na contenção da Rússia. (A citação circula amplamente; o essencial, porém, é a lógica: Ucrânia como espaço decisivo na configuração do poder russo no espaço eurasiático.)
Macron, Merz e von der Leyen têm usado repetidamente a ideia de que a Rússia “acabará por atacar a Europa”. Mesmo que o risco de confrontos indiretos e incidentes híbridos seja real, a forma como isto é por vezes comunicado serve ao objetivo político de manter os Estados Unidos comprometidos com a “defesa” europeia. John Mearsheimer e outros realistas insistem em que a narrativa do “ataque inevitável” ajuda a cimentar a dependência estratégica da Europa e a legitimar políticas de securitização — ao preço de demonização e medo social (Mearsheimer, 2014/2022).
Jan-Jan Joubert, jornalista e historiador, tem razão ao alertar para as nuvens de guerra que se acumulam sobre a Europa. O problema não está no alarme em si, mas nas premissas com que ele o constrói — demasiado alinhadas com a leitura dominante de moitos meios liberais da Europa Ocidental e com a retórica de líderes como Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Ursula von der Leyen. Apresentar essa perspetiva é legítimo. Mas quem realmente deseja a paz na Ucrânia precisa, no mínimo, considerar também a perceção russa do conflito e ouvir críticos ocidentais credenciados que apontam falhas estruturais na estratégia euro-atlântica das últimas décadas. É difícil entender o comportamento da Rússia sob Vladimir Putin sem olhar para o período que vai do colapso da URSS, em 1991, até ao fim de 2024. Jeffrey Sachs, economista e académico da Universidade de Columbia com longa experiência como conselheiro de governos (incluindo na região pós-soviética), sintetizou recentemente que o argumento central do conflito não “apareceu do nada”, e o Ocidente — liderado polos Estados Unidos — contribuiu para a escalada ao longo de décadas (Sachs, 2025). O núcleo dessa leitura é conhecido: apesar de o Pacto de Varsóvia ter sido dissolvido em 1991, a OTAN avançou para leste em sucessivas ondas. Para moitos países do Leste europeu, isso significou proteção e soberania. Para Moscovo, significou cerco estratégico.
Em 1997, Zbigniew Brzezinski — figura central do pensamento estratégico norte-americano — descreveu explicitamente o valor geopolítico de uma Ucrânia alinhada com o Ocidente, precisamente por retirar à Rússia a profundidade estratégica e a condição de potência euroasiática (Brzezinski, 1997). Isto não prova, por si só, uma “conspiração” contínua; mas mostra que o tabuleiro ucraniano sempre foi pensado, em Washington, como peça de balança de poder pós-imperial. Joubert, ao que parece, repete a ideia de que o Ocidente apenas “assistiu” aos eventos ucranianos. Mas a própria história recente é controversa. Enquanto a Revolução Laranja (2004–2005) e o Maidan (2013–2014) são, para uns, revoltas populares legítimas; para outros, processos em que potências externas tiveram influência determinante. Ainda nesse registo, o Ocidente teria apoiado e operado uma mudança de regime na Ucrânia em 2014 com protagonismo de milícias “neonazis”, e que a guerra no Donbass teria sido “censurada” no debate ocidental. Sachs caracteriza o Maidan como “golpe” com base no envolvimento declarado de figuras como Victoria Nuland e na dinâmica política que se seguiu à queda do governo de Viktor Yanukovych (Sachs, 2025).
Esta interpretação é disputada — e deve ser discutida com rigor, distinguindo prova documental, influência diplomática e agência interna ucraniana. Mas ignorá-la não ajuda a compreender por que razão Moscovo passou a ver 2014 como ponto de rutura. Também é frequentemente mal descrita a questão linguística. Não é preciso exagerar para reconhecer que a política de língua e identidade se tornou um elemento inflamável do pós-2014. Porém, afirmar uma “proibição imediata do russo” como facto simples tende a simplificar processos legislativos e políticos mais complexos. Ainda assim, do ponto de vista de moitos russófonos do leste, a perceção de hostilidade identitária existiu — e percepções, em conflitos, contam. Como bem sabemos, quem moramos sob o projeto borbônico pós-imperial restaurativo do Reino de Espanha.
O antropólogo, historiador e especialista em geopolítica Emmanuel Todd escreve o seguinte sobre a russofobia europeia contemporânea: «A construção de uma Europa pós-nacional é um projeto delirante quando se considera a diversidade do continente. Isso levou à expansão improvisada e instável da União Europeia no antigo espaço soviético. A UE é agora russofóbica e beligerante, com a sua agressividade renovada pola derrota económica nas mãos da Rússia [devido aos custos das sanções europeias contra a Rússia – Johann Rossouw]. A UE está a tentar arrastar os britânicos, franceses, alemães e moitos outros povos para uma guerra real. Mas que guerra estranha seria essa, na qual as elites ocidentais teriam adotado o sonho de Hitler de destruir a Rússia!»
Outra peça essencial é não esquecer que o conflito no Donbass antecede a invasão em larga escala de 2022. Houve anos de guerra de baixa intensidade, sofrimento civil e militarização recíproca. A partir daí, os Acordos de Minsk surgiram como tentativa de travar a espiral, prevendo um enquadramento político para o leste ucraniano. Na prática, o processo fracassou. O argumento crítico aqui não precisa de romantizar Moscovo. Abonda reconhecer que, quando se instala uma guerra congelada com garantias externas pouco eficazes, cria-se uma máquina de frustração e radicalização — que depois explode. Quanto à Crimeia, lembremos que o território foi parte do Império Russo desde o século XVIII e transferido administrativamente para a República Socialista Soviética da Ucrânia em 1954. Os Acordos de Minsk (e, em particular, o “Package of Measures” de fevereiro de 2015) são frequentemente invocados para mostrar que existia um caminho de desescalada — e que ele falhou. Sem reescrever toda a história, quando compromissos diplomáticos não são implementados, cada parte passa a concluir que o outro só entende linguagem de força. E isso envenena qualquer negociação futura. Para a Rússia, a anexação de 2014 é apresentada como “correção histórica” e resposta estratégica; para o direito internacional e para grande parte do Ocidente, foi violação da soberania ucraniana. A discordância é estrutural — e é precisamente por isso que o contexto histórico não pode ser omitido.
René Girard, ao analisar rivalidades europeias, descreve o mecanismo recorrente de rivalidades intensas, cada parte passa a ver a outra como agressora e a si própria como defensora. Isso ajuda a explicar o período 2014–2022, com rearmamento e acusações mútuas de preparação ofensiva (Girard, 2007). Segundo Beom-sik Shin, do ponto de vista russo, a “faísca final” teria sido a concentração de forças ucranianas no Donbass antes do reconhecimento das repúblicas separatistas e da invasão. Mesmo que esta leitura seja debatida (e exija verificação empírica robusta), ela ilustra que em dilemas de segurança, a mesma movimentação é lida como “defesa” por um lado e “ameaça” polo outro. Mesmo quando ambos os lados se consideram defensivos, a dinâmica pode tornar-se explosiva. Aqui, a lente de René Girard é útil uma vez que a rivalidade tende a intensificar-se por imitação, numa escalada em que cada parte interpreta as ações da outra como prova de agressão. Girard regressa a Clausewitz para pensar precisamente o modo como a violência moderna pode ganhar autonomia e arrastar sociedades para conflitos que ninguém “queria” à partidaplicado ao caso ucraniano ( entre 2014 e 2022, foi-se consolidando uma “dupla leitura” de ameaça). Em Moscovo, a expansão política e militar ocidental aparece como cerco; em capitais europeias, a Rússia aparece como potência revisionista irresistível. A consequência é uma corrida de decisões “preventivas” — e a prevenção, paradoxalmente, torna-se o motor da guerra.
Joubert recupera o paralelismo típico de que “ceder a Putin” seria repetir a apaziguação de 1938 face a Hitler. Só que analogias históricas são perigosas quando substituem análise por reflexo moral.Hitler tinha um projeto ideológico expansionista articulado (Lebensraum, hierarquia racial, reorganização do continente). Já a Rússia de Putin, goste-se ou não, opera sobretudo com um léxico de segurança, influência regional e “zonas tampão”, combinando isso com ambições imperiais e revisionismo. As diferenças importam. Mais ainda, atribuir a uma futura ofensiva russa contra a Europa uma motivação de “minerais e ativos” soa frágil, dado o perfil de recursos russos. Se há risco para a Europa, ele parece residir menos num “saque por escassez” e mais numa escalada inadvertida, em erros de cálculo e em arquiteturas de alianças que reduzem espaço de manobra — um cenário mais parecido com 1914 do que com 1938. Pierre Lellouche, por exemplo, alerta precisamente para o perigo de uma escalada acidental em contexto de alianças rígidas e prolongamento do conflito (Lellouche, s.d.). E há um dado óbvio que raramente entra na retórica.Se a Rússia ainda não atingiu plenamente os seus objetivos militares na Ucrânia após anos de guerra, com custos humanos e materiais elevadíssimos, que racionalidade estratégica sustentaria uma guerra direta contra a Europa?
Existe uma tradição — minoritária no mainstream europeu, mas real — que lê a hostilidade Ocidente–Rússia como continuidade de longo prazo, desde a revolução russa e a Primeira Guerra Mundial, passando polo entre-guerras, pola Guerra Fria e polo pós-1991.Um ponto de apoio académico para esta leitura é o trabalho do historiador canadiano Michael Jabara Carley, professor da Universidade de Montréal, especializado nas relações entre a Rússia soviética/URSS e as potências ocidentais (1917–1945), incluindo política de appeasement e origens da Segunda Guerra Mundial. Carley é também associado ao argumento de que, em 1939, a falha (ou recusa) das potências ocidentais em consolidarem uma aliança efetiva com a URSS contra a Alemanha nazi teve consequências catastróficas — uma leitura que desloca o foco do “destino inevitável” para escolhas políticas concretas e para a desconfiança ideológica. Quando esta grelha é aplicada ao presente, a ideia não é “absolver” Moscovo; é denunciar a amnésia seletiva: uma Europa que se pensa como pura vítima de agressões externas pode acabar incapaz de reconhecer os seus próprios atos de escalada — e, por isso, repetir padrões que já foram fatais no século XX. Esta linha aparece também em análises e programas mediáticos alternativos, como o episódio divulgado sob o título (em francês) “Um século de ofensiva ocidental contra a Rússia”. Mesmo que não se aceite a tese total, ela força a pergunta saudável de se a atual guerra for também o produto de décadas de decisões cumulativas — e não apenas a irrupção súbita de um “novo Hitler”. A analogia com 1938 (Munique) tem força moral, mas também um efeito colateral que torna qualquer concessão diplomática uma vergonha histórica. Em política externa, isso é veneno. Se o enquadramento for “apaziguar um novo Hitler”, então negociar torna-se traição, e a guerra passa a ser a única prova de virtude. O problema é que analogias não são argumentos; são atalhos emocionais. E, como Girard sugere ao discutir a aceleração da violência moderna, estes atalhos podem empurrar sociedades para lógicas de escalada que se autojustificam.
Uma crítica recorrente na escola realista é que o discurso do “ataque inevitável” serve o objetivo político imediato de manter os EUA comprometidos com a defesa europeia — mesmo quando Washington oscila, por razões internas, entre presença e retração. Em entrevistas e debates recentes, John J. Mearsheimer insiste que o Ocidente subestimou os interesses vitais russos e alimentou uma dinâmica de confronto que agora se volta contra a própria Europa. Isto não significa que a Rússia seja inofensiva; significa que transformar o medo em dogma impede a Europa de construir uma arquitetura de segurança que reduza incentivos à escalada
Sahra Wagenknecht levantou o ponto incômodo de que a russofobia institucionalizada na Europa pode contribuir para que a Rússia seja, no futuro, liderada por alguém ainda mais hostil e decida romper qualquer horizonte europeu, alinhando-se de forma mais total com a China. Pode-se discordar do tom ou da agenda de Wagenknecht, mas a hipótese estratégica é séria. Quanto mais a Europa fecha portas, mais reduz as alternativas de Moscovo — e mais reforça o eixo chino-russo.
No final, a guerra na Ucrânia ilustra o padrão clássico de uma grande potência (EUA) disputa a ordem europeia com outra grande potência (Rússia), e um Estado mais frágil (Ucrânia) paga o preço. Isto não absolve decisões russas, nem diminui o direito ucraniano à soberania. Porém, a Rússia não entrou em guerra “porque quer invadir a Ucrânia”, mas porque teria sido “encurralada” pola expansão e aproximação da OTAN, algo que, na nossa visão , tornaria a segurança russa “inviável”, consequência de dinâmica de cerco/segurança (OTAN-Rússia) e como sintoma da transição de poder global. Rússia e China não operariam necessariamente segundo uma lógica “imperial” moderna/europeia, o que abriria espaço para imaginar um “outro” arranjo mundial (mais multipolar). Apenas recusamos a narrativa infantil de um conflito sem história e sem estrutura ainda a risco de debruzarmos no campismo da velha esquerda, como “anti-imperialismo unidirecional” ou de reproduzirmos enquadramentos compatíveis com propaganda russa (p.ex., “guerra fabricada” polos EUA, etc.) o que, por outra parte, não justifica a recusa de solidariedade com a resistência ucraniana frente a uma invasão.
Anatol Lieven tem argumentado que uma janela de negociação pode ser a melhor oportunidade para a Ucrânia preservar soberania relativa com garantias de segurança razoáveis, em vez de prolongar uma guerra de desgaste de desfecho cada vez mais destrutivo (Lieven, 2024/2025). Se essa oportunidade falhar, é previsível que a Ucrânia piore — e que nuvens de guerra, evitáveis, continuem a acumular-se sobre a Europa. Não porque “Putin quer os minerais europeus”, mas porque a chamada arquitetura de segurança euroepia está a ser conduzida por medo, propaganda e apostas máximas num jogo em que a escalada pode escapar ao controlo. Se queremos evitar que as “nuvens” se tornem tempestade, há três obrigações mínimas: reintroduzir a história na análise — incluindo o pós-1991 e as decisões cumulativas sobre segurança europeia; recusar analogias que proíbem a diplomacia (Munique como chantagem moral permanente); construir garantias reais que desincentivem futuras agressões — e que, simultaneamente, reduzam o incentivo russo para continuar a guerra. A alternativa é conhecida.Mais militarização, mais propaganda, mais medo — e um continente a caminhar sonâmbulo para uma escalada que ninguém conseguirá controlar, obviando o longo periodo de “fabricaçao” polos EUA/OTAN. Uma estratégia de longo prazo que provoca a Rússia e subordina a Europa a Washington.
Brzezinski, Z. (1997). The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives. Basic Books. https://www.basicbooks.com/titles/zbigniew-brzezinski/the-grand-chessboard/9780465094356/
Carley, M. J. (n.d.). Michael Jabara CARLEY – Département d’histoire. Université de Montréal. https://histoire.umontreal.ca/repertoire-departement/corps-professoral/professeur/in/in14958/sg/Michael%20Jabara%20Carley/
Girard, R., & Chantre, B. (2022, 2 novembre). Achever Clausewitz: Entretiens avec Benoît Chantre (Édition revue et augmentée). Grasset. https://www.grasset.fr/livre/achever-clausewitz-9782246829614/
Rognon, F. (2008). René Girard, Achever Clausewitz. Entretiens avec Benoît Chantre, Paris, Carnets Nord, 2007 [Compte-rendu]. Revue d’histoire et de philosophie religieuses, 88(2), 207–208. https://www.persee.fr/doc/rhpr_0035-2403_2008_num_88_2_1336_t7_0207_0000_2
Lieven, A. (2024/2025). Textos e análises sobre Ucrânia e negociações de paz (compilação de artigos). Responsible Statecraft (Quincy Institute). https://responsiblestatecraft.org/author/anatol-lieven/
Mearsheimer, J. J. (2014/2022). Conferências e textos sobre Ucrânia, OTAN e realismo ofensivo. University of Chicago – John J. Mearsheimer (página profissional). https://www.johnmearsheimer.com/
Sachs, J. D. (2025, February 19). *Speech at the EU Parliament* [Edited transcript]. Jeffrey D. Sachs. https://www.jeffsachs.org/recorded-lectures/shw6yhjhpnbf8dpfnazyjywjwdjy5l
Wagenknecht, S. (2024/2025). Entrevistas e declarações sobre política europeia, Rússia e risco de escalada. Bundestag (materiais e links). https://sahra-wagenknecht.de
















