Sob chuva miúda mas persistente, milhares de pessoas encheram as ruas de Compostela ao meio-dia deste domingo para exigir um “monte galego con futuro” e responsabilizar a Xunta pola gestão da vaga de incêndios de agosto, especialmente devastadora em Ourense. A marcha saiu da Alameda e rematou na Praza da Quintana, onde se leu o manifesto da plataforma convocante, Por un Monte Galego con Futuro, que reúne mais de cinquenta entidades sociais, sindicais e ambientalistas. Grande presença do soberanismo galego, com Ana Pontón BNG) na linha da frente e a surpreendente ausência de Besteiro (PSG-PSOE).

Segundo a Policía Local de Santiago, cerca de 20.000 pessoas concentraram-se na Quintana, dado citado pola edição galega do elDiario.es. Outros meios de âmbito estatal falaram em “vários milhares”. Entre as palavras de ordem mais ouvidas, “Lumes nunca máis” e pedidos de demissão de Alfonso Rueda, presidente da Xunta.
No palco final, o escritor Suso de Toro abriu a leitura do manifesto, seguido por Rosa Rivas (bombeira florestal de Verín), Juanjo Lorenzo (voluntário em Pena Trevinca), Cecilia Fernández (viticultora de Quiroga) e Agripina Martínez (apicultora de Valdeorras). O texto associa a catástrofe a causas estruturais: abandono do rural, políticas agrárias “nefastas” e o monocultivo de espécies pirófilas de crescimento rápido, com destaque para o eucalipto.
Entre as palavras mais ouvidas, “Lumes nunca máis” e pedidos de demissão de Alfonso Rueda, presidente da Xunta.
A plataforma reclamou um plano de choque para as zonas atingidas; um cambio radical nas políticas florestais, agrárias e ambientais; e a criação de um único serviço público, profissional e permanente, que una prevenção durante todo o ano e combate a incêndios no verão, evitando privatizações. O BNG apoiou a marcha; o PSdeG marcou presença no território afetado em Ourense.
O contexto é o pior verão em décadas na Galiza: entre 120.000 e 143.000 hectares ardidos, conforme contagens da Xunta e do Governo central citadas por RTVE e El País — com Ourense como “zona zero”. No Parlamento, Rueda prometeu agora aplicar com rigor a lei galega de 2007 que aposta na prevenção (duplicar inspetores, facilitar desbastes e queimas técnicas), enquanto BNG e PSdeG lhe imputam falta de prevenção e execução orçamental.
«Eucalipto plantado, país devastado», «Partido Popular, inimigo do rural» ou «Galiza arde, Rueda responsável» foram alguns dos slogans que se ouviram na marcha.
No papel, a Lei 3/2007 define prevenção como eixo central (faixas secundárias de 50 m, planos municipais, PLADIGA). A promessa de “aplicar com rigor” essa lei é coerente com o que já está escrito. Rueda detalhou no Parlamento duplicar inspetores das faixas secundárias, simplificar desbastes e permitir queimas técnicas (inclusive em áreas Rede Natura, entre abril–junho, com supervisão). É plausível juridicamente (queimas prescritas já existem), mas exige regulação fina e janelas de risco baixo. Há capacidade municipal e conveniada e cobertura relevante via Xunta–FEGAMP–SEAGA (12,25 M€ em 2025), 280 concellos aderidos, 266 planos municipais atualizados e 2,5 M de parcelas inspecionadas — isto favorece a execução “com rigor” se houver fiscalização continuada.
Porém, nula credibilidade do governo Rueda perante o risco de uma “promessa sem músculo” (pessoal/execução) após 35 anos de política forestal do PP. Sindicatos e brigadistas denunciam falta de cobertura de ~300 vagas e equilíbrios precários do operativo; sem concursos e contratos, “dobrar inspetores” pode não sair do papel a tempo.
O PP votou contra a Lei 3/2007 em 2007 e agora promete aplicá-la “com rigor”.
É possível — mas exige mudança real em fiscalização e prevenção, não só propaganda Há registos de baixa execução em programas ambientais (2023) e críticas por verbas de prevenção não executadas; isto mina a credibilidade até que se vejam atos administrativos (reforço de quadro, editais, autos e sanções).
Só haverá “mudança de política florestal” se a Xunta transformar 3 coisas de forma verificável — (1) conter e reduzir a superfície de eucalipto (não apenas anunciar), (2) virar orçamento e pessoal para prevenção todo o ano (com fiscalização real da Lei 3/2007) e (3) resolver o défice crónico de efetivos no operativo. Hoje, os sinais são mistos. Há promessas e alguns ajustes operacionais, mas também moratórias por decidir, metas brandas e falta de pessoal. O Plano Florestal 2021-2040 fala em reduzir ~5% (-20.000 ha) até 2040 e a moratória às novas plantações (desde 2021) caduca a 31/12/2025 — sem decisão pública sobre prorrogar.
ONG e setores pedem estender até 2030; alertam que a área ainda cresceu em anos recentes. Se a moratória cair, é continuidade, não mudança. Inventários recentes situam o eucalipto ~409 mil ha (2023), com aumento face a 2011; frondosas também cresceram. Sem travão efetivo, a inércia do modelo mantém-se. Com ~97% do monte privado e ~650 mil ha em montes vizinhais (3.000 comunidades), o monte impõe custos de coordenação e fiscalização elevados — se a Xunta não cofinanciar e fiscalizar, a lei não sai do papel. Sindicatos e meios reportaram convocatórias urgentes e centenas de baixas/vagas no pico do verão — indicador de subdimensionamento estrutural. Sem estabilizar quadros e calendários, não há mudança sustentável
O PP governou 1990–2005 e 2009–2025 (com 2005–2009 para o bipartito PSdeG-BNG). O o que conta é que a maior parte do período foi sua. A Lei 3/2007 — base da prevenção — nem sequer é do PP (foi aprovada polo bipartito), e a revisão do Plano Florestal em 2021 fixou metas modestas para o eucalipto. Sem prorrogar e fazer cumprir a moratória, reforçar inspetores de facto e publicar resultados mensais (faixas limpas, autos e sanções, hectares de queimas prescritas), a “mudança” tenderá a ser retórica. De facto, mais de 10 MILHÕES DE EUROS em medidas orçamentadas de prevenção de incêndios não foram executadas.
Como noticiaram até agora a imprensa espanhola, basca e catalã
Imprensa espanhola (âmbito estatal e galego):
elDiario.es (Galicia) deu número oficial de 20.000 (Policía Local), descreveu o percurso Alameda-Quintana e destacou os lemas e a exigência de demissão.
RTVE/EFE falaram em “vários milhares” e contextualizaram com as discrepâncias 120k vs. 143k hectares e acusações de “minimização” por parte da Xunta.
El Salto, confirma a asistencia de milleiros de persoas e a Quintana chea, co lema “Lumes nunca máis”; a marcha comezou sobre as 12:00 na Alameda e concluíu coa lectura dun manifesto contra a política forestal da Xunta e a falta de medidas fronte ao cambio climático.Recolle a intervención de Belén Rodríguez (Por un Monte Galego con Futuro), que defende un monte “vivo e sustentable” e políticas públicas serias para afrontar a crise climática. Salienta as consignas: “Rueda, dimisión” e “A culpa de quen é? Dos que votan ao PP”, subliñando o ton político da protesta.
La Voz de Galicia publicou peça de balanço com estimativa inferior (“cerca de 5.000”), ilustrando a diversidade de contagens mediáticas.
Imprensa basca:
Não se identificou, até ao fecho deste texto, cobertura específica da manifestação de hoje nas páginas principais de Berria, EITB ou Naiz; estes meios centraram-se nas peças de fundo sobre a vaga de incêndios (dados, demografia dos concelhos afetados, cronologias) e no seguimento geral da crise no Estado. É o caso de Naiz (análise “Datos y desinformación…”) e do portal Orain, que acompanhou a evolução dos fogos em agosto.
Imprensa catalã:
Meios como VilaWeb e NacióDigital cobriram intensamente os incêndios na Península (com várias peças sobre Galiza e Leao), mas não publicaram — até agora — relatos próprios da manifestação de hoje em Compostela, num fim de semana ainda marcado polo arrasto informativo da Diada.
Em La Vanguardia agora à tarde ainda não há peça própria sobre a manifestação de Santiago publicada hoje—nem em destaque na home, nem via buscas internas recentes. O jornal tem cobertura histórica de mobilizações “Lumes Nunca Máis” (2017), mas nada específico de 2025 sobre o ato deste domingo. Isso reforça o quadro de que a cobertura catalã mainstream foi irregular no dia do protesto, com prioridade para outras agendas.
Entre a imprensa galega, Nós Diario e Praza Pública entregaram as coberturas mais completas para quem quer entender o que aconteceu nas ruas e porquê.
