A decisão da OTAN de elevar os gastos militares para 5% do PIB até 2035 representa uma virada histórica na política de defesa dos países membros. Embora justificada por tensões geopolíticas neo-imperiais e conflitos ativos, essa militarização orçamentária acarreta riscos profundos para regiões periféricas como a Galiza e, em especial, Ferrol.
A botadura da F-111 “Bonifaz” em Ferrol foi apresentada como síntese virtuosa de tecnologia, orgulho e emprego. Houve madrinha borbónica, discurso de Pedro Sánchez e uma cifra talismã que se repete: 5.700 postos associados ao programa F-110 (contrato de 4,9 mil M€ por cinco fragatas). É o enredo que permite converter aço em coesão simbólica e orçamentária.
Do lado de fora, protestos e reivindicações laborais lembraram que a “doca” também é praça pública. Nada disso é anedótico: é o método polo qual o centro produz consentimento na periferia interna, sacrificada há moito tempo. Ferrolterra, com seu histórico naval e industrial, é apresentada como beneficiária de programas como o das fragatas F-110. No entanto, essa dependência produtiva esconde uma realidade complexa: a soberania decisional e tecnológica permanece centralizada em Madrid, Bruxelas e Washington. A comarca executa tarefas industriais, mas não define os fins estratégicos nem detém os nós críticos da tecnologia, como o sistema Aegis ou o radar AN/SPY-7 (ambos os dos desenvolvidos e controlados principalmente pela empresa Lockheed Martin, uma das maiores contratistas de defesa dos Estados Unidos).
A dependência industrial ocorre quando um território participa de cadeias produtivas sem controlar os fins estratégicos, os meios tecnológicos ou a captura de valor. No caso da Galiza, isso se manifesta na indústria naval e de defesa, especialmente com o programa das fragatas F-110.
O militarismo e o autoritarismo nos EUA, na Espanha e na UE não são apenas uma questão de política externa — estão entranhados em projetos internos de poder imperial (agora também internamente virado para um regime autoritário legalizado sob Trump). O aumento do gasto militar da OTAN em 2025 representa uma mudança histórica e ambiciosa na política de defesa dos países membros, com implicações profundas para a economia, a geopolítica e a soberania nacional. Em junho de 2025, os 32 países da OTAN aprovaram um plano para elevar os gastos com defesa para 5% do PIB até 2035.Essa meta inclui 3,5% em gastos militares diretos (salários, operações, equipamentos) e 1,5% em investimentos estratégicos (infraestrutura, inovação, proteção de fronteiras). Isso tem implicações diretas para a governança global, a soberania dos países periféricos, a legitimidade das alianças militares e comerciais. Conflitos ativos (Ucrânia, Israel-Irã, e tensões com a Rússia, o Irã e resposta à “ameaça aérea” russa foram citados como justificativas dos investimentos quintuplicadosem defesa aérea. Espanha negociou flexibilidade para limitar seu gasto a 2,1% do PIB, alegando risco ao modelo social e aumento de impostos.
Se seguimos Ruy Mauro Marini, a dependência não desaparece quando um território “sobe” na cadeia de valor; ela pode reproduzir-se “no alto” por duas vias: (i) superexploração do trabalho nas bases locais e (ii) subimperialismo — isto é, a projeção de poder de um Estado intermédio em alinhamento com centros hegemônicos, sem ruptura das assimetrias. Traduzido para Ferrolterra: a comarca participa de uma cadeia “alta” (fragatas multi-missão), mas a decisão estratégica (o para quê) e nós tecnológicos críticos (o como) residem fora. O resultado é emprego-âncora: fixa o território a um programa decidido no centro (Madrid/Bruxelas/OTAN), enquanto a captura de valor e comando se mantém polarizada.
O coração do argumento está no miolo tecnológico. A classe F-110 integra o AN/SPY-7 (S-band) e a cadeia tática Aegis, com ensaios e marcos de integração realizados na Lockheed Martin/ASIC em Moorestown (NJ); a transferência existe, mas é parcial e condicionada, e o controlo de know-how e propriedade intelectual permanece extraterritorial. Mesmo com o SCOMBA e sensores nacionais, parte decisiva do valor acrescentado e da governança técnica escapa à periferia interna galega — uma radiografia perfeita da “alta cadeia dependente” de Marini.
O programa F-110 tem impacto relevante em Ferrol, mas o seu multiplicador de emprego é inferior ao de setores como saúde ou educação. Além disso, a retenção de valor e soberania tecnológica é limitada, o que reforça a tese da “cadeia alta dependente”. Para uma reindustrialização com justiça social, seria estratégico exigir contrapartidas locais e diversificação produtiva.Embora haja participação local (Navantia, universidades, centros de I+D), os nós críticos da tecnologia — como: radar AN/SPY-7, sistema de combate Aegis, propriedade intelectual dos subsistemas são controlados por atores externos. A transferência de tecnologia é parcial e condicionada, o que limita a capacidade local de reutilizar o conhecimento em outros setores, desenvolver autonomia técnica e criar inovação endógena.
O subimperialismo aparece quando olhamos o “fora”. A Espanha projeta presença na arquitetura europeia — EUNAVFOR ASPIDES, prorrogada até 28/02/2026 para proteger rotas comerciais no Mar Vermelho — e consolida exportações navais como as corvetas para a Arábia Saudita (segundo lote em curso). É ascensão intermédia com assimetria preservada: poder de projeção “por tabela”, atado a cadeias tecnológicas e interesses geoestratégicos dos centros. Para Ferrolterra, isso significa encomendas com baixa soberania finalística local.
A moldura UE consolida a hierarquia. A EDIS/EDIP formaliza uma política industrial de defesa de longo curso (visão até 2035), com metas de procurement colaborativo e aceleração de produção. Isso centraliza prioridades (capabilidades, prazos, fornecedores-chave) e obriga as periferias internas a disputar migalhas distributivas — subcontratações, spillovers de emprego, formação — sem alterar quem define fins e tecnologias-núcleo. O verniz “europeu” não dissolve a relação centro-periferia; institucionaliza-a acrescentando a vulnerabilidade geopolítica (mudanças nas alianças ou prioridades da OTAN podem afetar diretamente a economia galega), baixa retenção de valor (grande parte do valor gerado é capturado fora da Galiz); desvio de recursos públicos (a militarização orçamentária consome fundos que poderiam ser investidos em setores com maior impacto social (educação, pesca e industrias associadas, saúde, energia limpa); e reforça assimetrias: (a Galiza permanece como periferia interna, executando tarefas sem poder decisório.
Para além das implicaçoes políticas e éticas na geopolítica global imperial militarizada, a promessa de milhares de postos de trabalho serve para legitimar o modelo de dependência, mas não garante autonomia nem estabilidade.
A tese do colonialismo interno descreve periferias intra-estatais, cujos excedentes e destinos produtivos são decididos no centro; a Galiza naval (militar) é um caso escolar: especialização induzida, comando externo e sociologia local tutelada por consensos construídos a partir do argumento do emprego. Galiza, pois, periferia interna de um Estado composto, ancorada a uma estratégia militar-industrial que ela não escolheu, embora a legitime no cotidiano pelo trabalho, desleixando assim que a militarização da política pública extrai recursos que poderiam ir para saúde, educação ou transição ecológica são redirecionados para defesa, reforçando de estruturas autoritárias ja que o aumento de gastos militares pode fortalecer governos com tendências centralizadoras e repressivas.Afinal, como a redução da soberania orçamentária os países periféricos da OTAN ficam obrigados a seguir metas impostas pelo centro geopolítico (EUA) e viisa a normalização da guerra como horizonte estratégico. A OTAN s prepara-se para cenários de conflito prolongado, em vez de buscar desescalada.
Mas o emprego não conta? Conta — precisamente por isso é chave de legitimação. Só que “quantos” não diz “quais” (qualidade contratual, estabilidade, saúde laboral, poder negocial na auxiliar) nem “para quê” (fins social e éticamente desejáveis). A literatura de multiplicadores de emprego é estável há anos: cada euro em defesa tende a criar menos postos do que montantes equivalentes em saúde, educação ou energia limpa. Em Ferrol, a promessa agregada de 5.700 funciona como cimento retórico; medir entregas reais por segmento e qualidade do trabalho é o antídoto contra o fetiche.
No plano macro, a maré joga a favor da normalização bélica: gasto militar mundial atingiu 2,718 biliões USD em 2024 (+9,4%), a maior alta anual desde o fim da Guerra Fria; mais de uma década de crescimento contínuo indica deslocamento de prioridades.Segundo o Global Risks Report 2025 do Fórum Econômico Mundial o conflito armado entre Estados é o risco mais urgente do ano. A fragmentação geopolítica, a desinformação e a polarização social agravam o cenário e a confiança nas instituições internacionais está em queda, dificultando respostas coordenadas.De acordo com a ONU os gastos militares globais atingiram 2,7 trilhões de dólares em 2024. Apenas 4% desse valor seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Cada trilhão investido em defesa gera ~11 mil empregos, enquanto o mesmo valor em educação gera ~27 mil, em saúde ~17 mil e em energia limpa ~17 mil. O secretário-geral António Guterres alerta: “gastos excessivos não garantem a paz” e desviam recursos de áreas vitais.
O militarismo em 2025 está profundamente marcado por conflitos simultâneos em várias regiões do mundo, num clima de incerteza militar: EUA e China: tensões no Indo-Pacífico e guerra comercial, risco de escalada nuclear na Caxemira; Rússia e Ucrânia e o uso intensivo de drones e mísseis hipersônicos; Sudão (mais de 150 mil mortos e 13 milhões de deslocados). A crise humanitária é uma das piores do mundo. Sahel (Mali, Burkina Faso, Níger): conflitos com insurgências islâmicas, golpes militares e colapso estatal. A região vive uma militarização crescente sem soluções políticas duradouras: Os conflitos persistentes na região de Tigré (Etiópia) e na República Democrática do Congo, com graves violações de direitos humanos, com milhares de mortos e deslocados. Este pano de fundo empurra contratos e cadeias como a F-110, mas não responde às perguntas: quem decide para quê, quem captura o valor e como se disciplina o trabalho. O emprego gerado é real, mas depende de decisões centrais espanholas; é vulnerável a mudanças geopolíticas e pode ser precário ou instável nas empresas auxiliares. Além disso, o foco em defesa militar pode desviar recursos de setores com maior impacto social (saúde, educação, energia limpa). Ferrol e Galiza ficam ancoradas a uma cadeia produtiva que não controla, mas acrescenta a dependência estrutural.
O que fazer, então, desde Ferrolterra? Sugeriria três tarefas: (1) auditar “emprego prometido vs. entregue” por Navantia/auxiliar, com dados de qualidade (tipos de contrato, salários, saúde laboral) e percentagem de conteúdo local; (2) mapear a origem dos subsistemas críticos (radar, loop de tiro, EW, CMS) e da PI para estimar retenção de valor; (3) construir contrapartidas (cláusulas de trabalho digno, spillovers tecnológicos comprováveis e metas de reconversão civil — e.g., offshore e cadeia de cuidados) como condição para novos marcos do programa.
Sem isso, o que se chama “reindustrialização” arrisca ser apenas a forma contemporânea de uma velha história: periferias que integram cadeias altas, permanecendo dependentes do centro — e celebrando, entre champanhe e bandeiras, aquilo que não controlam. Para quando exigir contrapartidas sociais e tecnológicas em contratos públicos. Para quando auditar o conteúdo local real dos programas militares.Para quando diversificar a base produtiva com foco em setores sustentáveis e de alto valor agregado. Para quando, em fim, tortalecer a soberania tecnológica com investimento em inovação endógena?. É urgente repensar esse modelo e defender e exigir contrapartidas sociais, tecnológicas e ambientais que garantam uma reindustrialização com justiça e soberania. O que parece difícil na atual fase da nossa condição colonial.
