
Gaza é hoje a régua moral do nosso tempo. O que acontece nesse território devastado define de maneira nítida quem permanece do lado da justiça humana e quem escolhe a violência e a opressão. Não se trata apenas de um conflito localizado: Gaza converteu-se no espelho ético da ordem mundial contemporânea, o lugar onde se revela até o limite a hipocrisia das democracias liberais, a falsidade das proclamas de direitos humanos e a continuidade do colonialismo sob novas formas. Israel como Estado que se apresenta como democrático e moderno, reproduz hierarquias coloniais e destruição da modernidade ocidental. O genocídio de Gaza como um sintoma do declínio da ordem liberal internacional atlantista, essa ficção na que vivimos,representa a era da decadência do liberalismo ocidental e constitui um divisor de águas na história mundial. Como demonstrado por Ilan Pappé, a criação de Israel envolveu práticas de limpeza étnica sistemática, posicionando-se claramente contra a narrativa convencional de fundação do Estado. As raízes das atuais operações genocidas de Israel em Gaza estão na “doutrina Dahiya” implementada durante a invasão do Líbano por Israel em 2006, que propõe o uso de força desproporcional e “priorizar ativos prejudiciais em vez de procurar todos os lançadores” e atingir interesses econômicos e os centros civis de poder. Isso é aumentado pela busca por “risco zero” para os soldados israelenses, o que “encoraja o fogo desenfreado sem preocupação com os civis”, como escreveu o cientista político israelense Prof. Yagil Levy no Haaretz .
A Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio (IAGS), considerada a principal referência mundial na área, declarou que Israel está cometendo genocídio na Faixa de Gaza, afirmando que foram cumpridos os critérios legais definidos pela Convenção da ONU. Entre os especialistas que se pronunciaram está Omer Bartov, judeu israelense e catedrático da Universidade Brown, que afirmou que os ataques a Rafah em maio de 2024 marcaram o momento em que teve certeza de que não se tratava mais de uma operação militar, mas de uma tentativa deliberada de tornar Gaza inabitável.
A instrumentalização sionista da memória do Holocausto (na Europa, a palavra hebraica “Shoah”, ou catástrofe, é mais comumente usada) quanto a negação árabe do Holocausto. A crítica à instrumentalização da memória do Holocausto para justificar ações atuais é cada vez mais presente em círculos acadêmicos e políticos. Moitos apontam que o sofrimento histórico não pode ser usado como escudo para práticas que violam o direito internacional. Como disse Melanie O’Brien, presidente da IAGS, “ignorar o que está acontecendo em Gaza é perpetuar o genocídio”. Da mesma forma, as revoltas populares árabes que eclodiram em 2010-11 e novamente em 2019, são protestos em massa em toda a região impulsionadas pelas falhas dos regimes de acumulação de capital e governança neopatrimonial e marcaram apenas o início do processo histórico de seu desmantelamento. A Europa, nesse contexto, enfrenta um dilema ético profundo: entre a memória e a responsabilidade, entre o silêncio e a denúncia. E talvez o maior desafio seja romper com a paralisia moral que impede uma resposta proporcional à gravidade dos feitos. As eleições parlamentares de novembro de 2022 trouxeram dois partidos religiosos sionistas messianistas-fascistas para o governo israelense. Os seus votos no Knesset (parlamento) garantem que Benjamin Netanyahu não será exposto à prisão caso seja condenado em qualquer um de seus três julgamentos em andamento por corrupção, enquanto permanecer como primeiro-ministro. Consequentemente, os messianistas-fascistas, em aliança com direitistas fanáticos “comuns”, são a locomotiva que impulsiona as políticas de Israel. Anos antes de 7 de outubro, eles vinham agitando para que Israel anexasse a Cisjordânia enquanto seus apoiadores colonos se envolviam em pogroms com o objetivo de desapropriar e limpar etnicamente os palestinos de áreas cada vez maiores da região. As táticas de Israel em seu ataque a Gaza – bombardeando áreas habitadas por civis, negando alimentos e suprimentos médicos, destruindo infraestrutura – se enquadram na definição de genocídio especificada na Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, que entrou em vigor em 1951. Além disso, as potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos, foram totalmente cúmplices desse crime.Eis a descrição dos palestinos feita pelo então Ministro da Defesa, Yoav Gallant, como “animais humanos”, uma das muitas declarações violentamente racistas de líderes políticos e militares israelenses que anunciaram sua intenção de violar a Convenção sobre Genocídio. Já em novembro de 2023, o New York Times catalogou 18.000 declarações genocidas de israelenses no X e relatado 286 declarações de israelenses proeminentes potencialmente incitando comportamentos ilegais. O Times observou que seu “efeito cumulativo… normalizou a discussão pública de ideias que teriam sido consideradas proibidas antes de 7 de outubro: conversas sobre ‘apagar’ o povo de Gaza, limpeza étnica e aniquilação nuclear do território”. A corrente messianista-fascista na política israelense é um componente emblemático das crescentes forças neofascistas na Espanha, Portuga, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Reino Unido, Estados Unidos e além – países que prestaram ajuda material ao genocídio israelense em Gaza e reprimiram suas próprias oposições internas a ele. O descrédito da ordem liberal internacional atlantista significa que, mesmo que o Tribunal Internacional de Justiça ou o Tribunal Penal Internacional profiram veredictos condenando Israel e seus líderes por genocídio, eles serão em grande parte inexequíveis.
Alain Badiou entende a filosofia como escuta dos acontecimentos que rompem o tempo histórico. Gaza é esse acontecimento que divide a humanidade: não há espaço para ambigüidades. Quem não se coloca ao lado das vítimas confirma, por omissão ou por cinismo, a posição do colonizador. Por isso Gaza é a régua que mide a sinceridade de todo discurso crítico: o feminismo, o antirracismo, o progresismo, o anticapitalismo revelam a sua verdade ou falsidade na maneira em que se relacionam com Gaza. Não existe política emancipadora que poida ignorar este acontecimento. A lógica duma luta de colonizador contra colonizado implica, conforme diretrizes de direito internacional reconhecidas, que a resistência encontra justificativa diante da negação de autodeterminação e liberdade — embora as formas dessa resistência (pacífica ou armada) sejam objeto de debate e regulamentações legais distintas.
Como lembra Judith Butler (2023), a diferença entre vidas choráveis e vidas descartáveis marca a política global. Gaza demonstra que certas mortes são consideradas dignas de dó, enquanto outras, como as de milhares de nenos palestinianos, reduzem-se a dano colateral. A partir de aqui, toda neutralidade é impossível: calar diante do genocídio é validar a lógica colonial que organiza o mundo. Os eventos de 7 de outubro devem ser vistos dentro duma “guerra de cem anos” — um processo contínuo de colonização, ocupação e resistência, no qual o horror atual representa uma escalada, não uma ruptura completa.Israel é geralmente descrito como uma ilha democrática no meio de um oceano obscurantista, e o Hamas como um movimento inspirado por um fanatismo sanguinário. A destruição de Gaza, diz Enzo Traverso, lembra a era de ouro do colonialismo, quando o Ocidente perpetrou genocídios na Ásia e na África em nome de sua missão civilizadora. Os seus pressupostos essenciais permanecem os mesmos: civilização versus barbárie, progresso versus intolerância. Ao lado das declarações rituais sobre o direito de Israel de se defender, ninguém jamais menciona o direito dos palestinos de resistir a agressões que duram décadas. Por isso é preciso questionarmos a narrativa unidimensional e enfatizar a violência contínua e o uso da memória coletiva (como a do Holocausto e o uso instrumental da memória da Shoah) para legitimar ações contemporâneas — o que reforça a interpretação duma continuidade histórica de dominação. Mas isso não implica antissemitismo; ao contrário, o combate ao genocídio preserva a integridade da memória do Holocausto. Antissemitismo só existe se houver motivação de ódio contra judeus enquanto grupo — a denúncia de genocídio é uma crítica ao Estado ou sua política, não a um povo.
Achille Mbembe (2003) nomeou necropolítica a capacidade soberana de decidir quem vive e quem morre. Gaza é a materialização extrema desse poder: um povo sitiado, privado de auga, medicinas e alimentos, submetido a bombardeios continuados. Nom é uma exceção, senão a confirmação de que o colonialismo continua a ser o núcleo da política internacional. Gaza converteu-se no laboratório onde se experimenta o governo da morte, o lugar onde se mostra o verdadeiro rosto do poder global. Enrique Dussel (2025) recorda que a crítica não pode vir do centro, senão da exterioridade, das vítimas, dos condenados da terra. Gaza é essa exterioridade radical que desvela a falsidade do universalismo moderno-capitalista. Fiel a Gaza só pode ser quem compreenda que, desde ali, fala a verdade do mundo, contra a retórica de quem se proclama civilizado enquanto legitima o extermínio e inverte categorias éticas fundamentais: oprimidos e opressores, vítimas e perpetradores. Essa inversão não protege a memória do Holocausto, mas a corrompe, associando-a à legitimação de massacres. Daí a ideia de uma “segunda Nakba” em curso, que comprometeria definitivamente a legitimidade histórica de Israel. A insistência ocidental apenas no “direito de Israel à autodefesa”, leva a deturpar o direito dos palestinos de resistir à ocupação e perante a destruição de Gaza que representa não só violência física, mas um exercício de supremacismo letal sobre populações “indesejadas”.
Desde Galiza, a solidariedade com a Palestina não é só internacionalismo abstrato. É também a memória da nossa própria condição periférica e colonizada. Por isso, estar com Gaza é também descolonizar Galiza, reconhecer que a justiça universal começa por uma solidariedade concreta e que não há emancipação nacional nem social possível sem internacionalismo real. Gaza ensina-nos que toda heresia é política e que toda solidariedade verdadeira é revolucionária.
