
A cinza que cai sobre nós
Em meados de agosto, quando atravessámos os Ancares em direção à Catalunha, aquela luminosidade opaca trazia consigo a clareza de que não se tratava de uma simples fatalidade. O ar denso e triste das cinzas que teimavam em cair sobre nós não eram uma exceção: o país tinha sido concebido para arder. O verão de 2025 ficará na memória da Galiza como mais um acontecimento em que o país se reconhece através da destruição. Durante semanas, a fumaça dos incêndios cobriu vales inteiros, aldeias desapareceram em silêncio, serras antes verdes tornaram-se esqueletos negros, e no Teixadal de Casaio —um bosque ancestral de teixos, sobrevivente da última glaciação— as chamas tocaram árvores milenares, testemunhas de uma história que parecia intocável como Trevinca, também atingida completamente em Foio Castanho. A fumaça que nos cercava era também o reflexo de um modelo de país. Nos olhos de quem viu casas arder em San Vicente de Leira, em Valdeorras, não havia apenas dor pola perda de paredes e telhados. Havia a experiência de perceber que a vida inteira, as memórias e os vínculos que sustentam uma comunidade podiam desaparecer em poucas horas. O incêndio é também social, cultural, histórico. Arde a aldeia e arde, com ela, a forma de vida que ali resistia. A sua memoria inscrita na terra. Mas enquanto a Galiza se cobria de cinza (sim, a Galiza histórica e sem exceçao, foi o que ardeu e não isso que teimam em chamar “el noroeste peninsular”), a narrativa oficial repetia-se como ladainha previsível: “piromaníacos”, “terrorismo incendiário”, “ondas de calor extremas”… Frases que soam familiares porque são repetidas todos os anos, como se a catástrofe fosse sempre exceção, nunca a forma de reprodução de colonialidade que nos abafa em todos os eidos, não apenas no forestal e nas formas demogràficas de subsistência. Porque o que arde sem exceção é o territorio comum da Galiza histórica, por moito que tentem mascarar os atributos comuns lingüísticos, culturais, socio-económicos e demográficos derivados de causas semelhantes de colonizaçao interna e espanholização .
Larouco, Chandreja, Casaio
As cifras tornaram-se um campo de batalha. O incêndio de Larouco, que devorou quase 45.000 hectares, foi o maior alguma vez registado na Galiza. O lume avançou de forma descontrolada, atravessando montes de queiroga, cajigos, urzes e giestas, e transformou-se numa muralha impossível de conter. Em Chandreja de Queija, as chamas mantiveram-se ativas durante dezassete dias, alimentadas pela vegetação rasteira e pola seca acumulada. O lume penetrou até nas entranhas do solo, onde as raízes de queiroga queimavam em silêncio, ressurgindo a cada bafarada. O impacto não foi apenas ecológico, mas também simbólico. No Teixadal de Casaio, uma das joias naturais da Europa, as chamas atingiram árvores com séculos de vida. A perda é irreparável: quando arde um teixo que nasceu antes da fundação de Santiago, arde também a nossa ligação a um tempo profundo. O incêndio destrói o presente, mas também corrompe a continuidade da memória. No total, segundo os dados de satélite do programa europeu Copernicus, arderam mais de 162.000 hectares. A Xunta, no entanto, insiste em falar de 96.500 hectares. A discrepância é reveladora: não é apenas uma diferença estatística, é uma disputa polo sentido da catástrofe. Ao reduzir os números, o governo autonómico procura transformar uma devastação histórica num episódio “difícil”, mas manejável. Como se fosse possível apagar a dimensão política do desastre com um simples ajuste contável.
O que arde sem exceção é o territorio comum da Galiza histórica, por moito que tentem mascarar os atributos comuns lingüísticos, culturais, socio-económicos e demográficos derivados de causas semelhantes de colonizaçao interna.
As cifras e a sua política: Copernicus vs Xunta
As casas completam este quadro. Em San Vicente de Leira, de 150 moradias, 120 arderam por completo. A Xunta, porém, só reconhece 144 casas afetadas em toda a Galiza —um número que, ao lado das centenas de milhares de hectares perdidos, parece quase marginal se como fai a Xunta introduz que 42 segundas vivendas e o resto como abandonadas. Ao contabilizar casas em ruína ou abandonadas, dilui-se o drama das casas realmente habitadas, reduzindo a carga social e humana da catástrofe. A Xunta alegou que 42 das casas destruídas estavam desabitadas, como se a ausência de moradores anulasse a perda. O gesto não é inocente: desvaloriza a tragédia, dilui a dimensão social e cultural do incêndio e converte aldeias inteiras em cifras desdramatizadas. Mas uma casa desabitada não é uma casa sem valor: é parte de uma aldeia, de uma paisagem e de uma memória coletiva. Reduzir a sua destruição a estatística é outra forma de violência simbólica. Para quem viveu o incêndio na pele, o número pouco importa: a destruição é concreta, visível, incontornável. Mas para o poder, a estatística é instrumento. Enquanto os satélites do programa europeu Copernicus registam mais de 162.000 hectares ardidos, a Xunta fala de 96.500. A diferença não é detalhe técnico: é narrativa política. Um incêndio de 162.000 hectares é uma catástrofe histórica; um de 96.000 é um verão duro, mas dentro da normalidade. Ao escolher a segunda cifra, o governo autonómico molda a percepção pública, produzindo uma ilusão de controlo (por baixo de 100 mil). A técnica converte-se em retórica de números ajustados para que a tragédia caiba no discurso da rotina. A mesma lógica aplica-se às casas. O incêndio que arrasou San Vicente de Leira queimou 120 casas num único povoado, mas a Xunta reconhece apenas 144 afetadas em todo o país. A discrepância não é casual. Admitir centenas de casas destruídas significaria reconhecer que o incêndio não foi apenas ecológico, mas também social. Ao reduzir o número polo “abandono”, o poder reduz também o alcance simbólico-político da catástrofe.
Gestão deshistorizada
Eis o modo como a Xunta relata a catástrofe incendiaria. Cada verão é narrado como um episódio singular, isolado, sem relação com o passado. Os incêndios aparecem como acidentes de uma meteorologia adversa, nunca como consequência de décadas de políticas públicas que desenharam uma paisagem pirófita e vulnerável em que o PP tem importante quota responsabilidade. Essa deshistorização cumpre uma função: se o incêndio é exceção, não há estrutura; se é acidente, não há decisão política; se é fatalidade, não há modelo económico a questionar nem responsabilidade. A catástrofe transforma-se em incidente técnico, apagando-se a sua genealogia. Mas a história insiste em arder. Desde os anos 1960, quando os programas estatais de “modernização florestal” introduziram encoros, minaria a ceu aberto para substituir monte cavado, gando, horta e leiras por plantaçoes de pinheiro e eucalipto como promessa de rendimento rápido, a Galiza foi moldada como colónia energética e de celulose. O abandono rural, a fragmentação fundiária e a perda de monte comunal completaram o cenário. O resultado é uma paisagem concebida para o lume, onde cada verão apenas reitera o que já estava inscrito no território.
A gestão deshistorizada não é, portanto, inocente. É um modo de governar através do esquecimento. Esquecer que o eucalipto não é tradição, mas imposição. Esquecer que o abandono rural não é destino, mas resultado de políticas económicas e sociais. Esquecer que o lume não é acidente, mas consequência de uma estrutura local apenas agravada polas condições climáticas globais. Ao apagar a história, o poder perpetua o modelo que garante a sua própria reprodução.O planeta Terra não está em perigo. É anterior a nós em 4 mil milhões de anos e sobreviverá a nós. Por outro lado, o extractivismo e a degradação dos ecossistemas, que caracterizaram a “racionalização” da natureza e o desenvolvimento da civilização industrial refém dos sistemas capitalistas, privados ou públicos, já não racionalizam nada. Os incêndios devastadores existiram num passado longínquo, mas eram raros. Agora já não existem. Os outeiros ficam desertos, os boques são severamente destruídos, aldeias inteiras desaparecem. A “época dos incêndios” dura todo o ano e os mega-incêndios deslocam-se continuamente polo planeta, ultrapassando mesmo os pólos, ao ponto de um eventual cenário catastrófico elaborado pela NASA considerar que toda a Terra emersa poderia transformar-se em brasas.
Se as cifras já serviam para domesticar a catástrofe, a retórica completou o trabalho: piromaníacos, terroristas incendiários, interesses ocultos e assim por diante. Palavras repetidas todos os anos como salmo, destinadas a deslocar a atenção do essencial. Em 2025, porém, a estratégia deu um passo adiante: Inma Rodríguez, dirigente do PP em Valdeorras, acusou as próprias brigadas forestais de atear fogos “para ter trabalho”. Esse movimento de culpabilização não é novo. Em 1998 (governos de Fraga) Nuevas Generaciones do PP da Galiza atribuiu os incêndios a “grupos organizados vinculados com o nacionalismo galego”. O próprio Fraga alimentou, nesse contexto, a ideia de “trama organizada”, embora sem provas — uma narrativa de “terrorismo incendiário” que regressaria em anos posteriores. Embora não seja sobre incêndios, ilustra a predisposição discursiva para associar “nacionalismo” e “ameaça/violência”, um pano de fundo que facilitou a hipótese de “tramas” quando chegavam os verões de lume. Em 2006 a oposição de Feijóo ao bipartito PSdeG-BNG, usou as quatro mortes como arma de campanha contra o Governo bipartito, afirmando: “Con nosotros no moría gente en los incendios, y con ellos, cuatro personas”, responsabilizando diretamente o Executivo onde o BNG detinha a gestão de incêndios. Após os grandes incêndios daquele verão, veio a público uma circular do PP da Corunha instruindo alcaldes a “dilatar” a constituição de brigadas anti-incêndios para, depois, acusar o Governo PSdeG-BNG de lentidão — um episódio que mostra como o incêndio se tornou terreno de disputa e construção bodes expiatórios. Também a ministra Cristina Narbona chegou a culpar trabalhadores florestais desempregados, enquanto outras figuras como Rubalcaba mencionaram uma “trama criminal organizada”. O PP, por sua vez, negou responsabilidades, destacando que o único acusado tinha ligações ao PSOE. Conforme Adega e Greenpeace, isso revelava uma estratégia de deslocar a atenção dos erros políticos para supostos culpados isolados. Em 2017, durante outra vaga significativa de incêndios, a Xunta liderada por Feijóo declarou que todos os lumes eram intencionais, enfatizando a tese da ação maliciosa. Isso foi feito antes mesmo de se apurarem responsabilidades ou da natureza real dos incêndios ser esclarecida. Similar tática adotada durante tragédias como o Prestige ou a DANA de 2024.
A acusação de Inma Rodríguez tem precedentes e cumpre uma função: transforma os trabalhadores precarizados em culpados, enquanto exonera décadas de políticas públicas que deixaram o território vulnerável. O inimigo não é a monocultura pirófita, nem a ausência de ordenamento, nem o abandono rural: é o brigadista que, por salário miserável e contrato temporário, arrisca a vida em encostas em chamas. Como lembra Xesús Veiga, o PP repete um guião já visto noutras catástrofes (Praza.gal, 30/08/2025). O bode expiatório cumpre aqui uma função política: desviar a atenção da estrutura de abandono, precariedade e negligência governamental. O recurso ao bode expiatório não é mera figura retórica mas uma tecnologia política de governo da catástrofe. Desde a Antiguidade, o ritual do bode expiatório consistia em concentrar sobre um corpo —um animal, um indivíduo, uma minoria— as culpas de uma comunidade inteira, expulsando-o depois para o deserto como forma de purificação coletiva. René Girard mostrou como essa lógica de canalização da violência social se repete nas sociedades modernas: quando a ordem entra em crise, o poder desloca a culpa para um “outro” facilmente sacrificável. O bode expiatório cumpre a sua função de desviar a atenção e legitimar a continuidade. A tragédia converte-se em espetáculo sacrificial, em que o verdadeiro culpado —o modelo capitalista-colonial do território— nunca é levado ao altar. A realidade, contudo, desmente esse delírio. O próprio presidente Alfonso Rueda admitiu que houve meios de extinção parados durante os incêndios por falta de pessoal. Não se tratava de helicópteros em falta, mas de brigadistas ausentes. Ausentes não por escolha, mas por precariedade: contratos sazonais, salários baixos, jornadas extenuantes. A engrenagem de combate falhou não pela conspiração dos trabalhadores, mas pola lógica de austeridade e abandono institucional. É possível observar uma linha recorrente: diante dos incêndios, governos do PP procuram culpar terceiros — brigadistas, opositores, o Estado central, ou mesmo figuras técnicas —, ao invés de assumir falhas estruturais ou administrativas. Essa estratégia serve tanto para reduzir a pressão sobre si mesmos quanto para manter intactas as dinâmicas territoriais e econômicas que contribuem para a vulnerabilidade ao fogo.
O que arde, nesse quadro, não é apenas o monte: é a dignidade de quem deveria defendê-lo. Quando um governo admite que deixou meios ociosos no auge da maior catástrofe ambiental da nossa história, não estamos perante simples ineficiência. Estamos perante negligência estrutural. Um governo que pratica abandono institucional sistemático, que governa a catástrofe como se fosse destino. E governar assim é exercer violência política contra o próprio país. A violência não se mede apenas em hectares ou casas queimadas. Mede-se também no modo como se criminaliza quem combate o lume, no modo como se desvaloriza quem perdeu tudo, no modo como se converte uma tragédia coletiva em oportunidade para contratos de emergência, para fundos europeus, para negócios de biomassa e de mudança para usos extrativistas. A pirropolítica é também isto: gerir o território através da combustão, produzindo lucro para uns poucos e impotência para a maioria.
Política da catástrofe: a exceção é o normal
A Galiza conhece de sobra a gramática da catástrofe. Em novembro de 2002, quando o petroleiro Prestige rebentou ao largo da Costa da Morte, o país inteiro aprendeu como o Estado e a Junta sabiam transformar um desastre em espetáculo de minimização. Enquanto os satélites mostravam a maré negra expandir-se em direção à costa, Madrid e Santiago falavam em “pequenos regueiros de fuel”, em “situação controlada”, em “risco limitado”. O resultado foi uma das maiores crises ambientais e sociais da história contemporânea galega. Como grave foi a maré de manipulação: a gestão não buscava proteger o território, mas proteger a narrativa do poder. Em 2025, a lógica repete-se com outras cores. Onde antes o mar se tingiu de negro, agora as serras ficaram cinzentas. A estratégia discursiva, no entanto, é a mesma. Reduzir os números, adiar as declarações, sugerir causas individuais, evitar a assunção de responsabilidade politica e estrutural. Os 162.000 hectares registados por Copernicus transformam-se magicamente em 96.500; as 120 casas ardidas em San Vicente de Leira convertem-se em pouco mais de uma centena em todo o país; as chamas que atingiram oTeixadal de Casaio -como há pouco as Fragas do Eume- reduzem-se, nos comunicados oficiais, a “focos controlados”.
No Prestige, os marinheiros e mariscadoras foram transformados em figurantes de uma narrativa tecnocrática, na qual o desastre era apenas um problema logístico de gestão de resíduos. Nos incêndios de 2025, os brigadistas cumprem o mesmo papel: transformados em suspeitos, acusados de provocar lumes “para manter emprego”, enquanto as estruturas que produzem a catástrofe permanecem intactas. A técnica serve para deslocar a política, a retórica serve para apagar a história. Em ambos os casos, a emergência converte-se em laboratório de gestão da exceção, em vias de consolidar como o normal. O Prestige justificou a intervenção estatal direta, a mobilização militar, a centralização das decisões em Madrid; o lume de 2025 legitima a presença da UME, apresentada como prova de solidariedade, mas que também confirma a incapacidade —ou a renúncia— da Galiza em responder com meios próprios. A exceção naturaliza a tutela. A política da catástrofe, seja no mar ou no monte, funciona como pedagogia de impotência e de dependência. Ensina-nos que o território não é nosso, que as decisões vêm de fora, que a única resposta possível é aceitar a centralização e a tecnocracia. O Prestige deixou uma geração marcada polo grito de Nunca Máis; os incêndios de 2025 deixam-nos perante a mesma pergunta: até quando aceitaremos que o país seja governado pola lógica da exceção, sempre administrado como catástrofe?
Sintoma, trauma, gozo
O lume, mais do que um acidente, é um sintoma. Como escreveu Brais Estévez no Praza.gal, trata-se de um “sintoma real”: aquilo que retorna sempre, revelando a contradição que o sistema tenta ocultar. Todos os verões, a Galiza arde; todos os verões, o poder repete a retórica dos “piromaníacos” e do “terrorismo incendiário”; todos os verões, comunidades rurais veem casas, animais e paisagens desaparecer. Não há nada de excecional nisto. É a própria estrutura do território, organizada para arder, que regressa como verdade reprimida. Os incêndios ocorrem normalmente de forma ocasional e sazonal. Faziam “parte” da natureza. A natureza separada das actividades humanas, não transformada por elas, servindo tanto de modelo como de explicação geral, e por vezes como um paraíso mais ou menos perdido.Esta natureza sem humanos é, ou melhor, foi real até há cerca de vários milhões de anos. Como demonstra Stephen Pyne, os incêndios a que chama “espontâneos” ajudaram a moldá-la desde que existe gás oxigénio na atmosfera. Estes incêndios, essencialmente causados por lóstregos em tempestades secas, eram ocorrências regulares; no entanto, à escala da vida humana, eram raros. Eram suficientemente espaçados para permitir que a floresta se regenerasse no tempo necessário: entre 30 e 400 anos, consoante a região.Por outro lado, os incêndios que devastam a Galiza e O Bierzo não são “selvagens” no sentido de que fazem parte da natureza. São selvagens no sentido de serem destrutivos, paroxísticos, violentos. O que corresponde a essa selvageria não é a selvageria, mas outra selvageria: a predação, a ferocidade, a “barbárie”, aquilo que escapa a qualquer esforço. No nosso imaginário, os “animais selvagens” não são geralmente esquios e saltões, mas grandes predadores que atacam, matam e devoram as suas presas. Os incêndios que assolam a Galiza e Leao e moitas outras regiões do mundo são selvagens neste sentido. São mega-fogos incomparáveis com os incêndios florestais “normais”. Causam danos irreversíveis. Não provocam regeneração, mas desolação. As árvores ardem até ao fundo dos troncos e das raízes, os animais morrem, as pessoas sufocam, a atmosfera enche-se de dióxido de carbono e metano, que contribuem drasticamente para a perturbação do clima. A fumaça gerada polos incêndios no sudeste da Austrália em janeiro de 2020 deu a volta ao globo e regressou ao seu ponto de partida em 15 dias. Mas todos estes incêndios, incluindo os acidentais, não seriam tão grandes se não beneficiassem também, em parte, das condições criadas pela desregulação climática, cujos principais responsáveis são bem conhecidos, e, em parte, das más políticas de supressão sistemática dos incêndios tradicionais. A desflorestação maciça, a artificialização e a fragmentação do território, a extração de recursos minerais sem qualquer cuidado com as paisagens e os seus habitantes, mas também a deslocação dos povos, o seu isolamento e a destruição da sua cultura, são ecocídios que se duplicam frequentemente com o etnocídio e a morte de inúmeros animais selvagens.
Na chave de Žižek, o sintoma é precisamente o que insiste apesar das tentativas de simbolização. O discurso oficial procura enquadrar o incêndio como falha técnica ou crime individual, mas o lume escapa: regressa, com violência, como revelação de que o problema é estrutural. O que arde não é apenas o mato —é a própria lógica de gestão do território, baseada na monocultura pirófita, no abandono rural, na subordinação ao capital da celulose. Se o incêndio é sintoma, é também trauma. E o trauma, ao contrário do sintoma, não é apenas repetição: é ferida vivida de forma desigual. O lume não atinge todos por igual. São sobretudo as comunidades rurais, já envelhecidas e precarizadas, que carregam a dor mais pesada. Quando em San Vicente de Leira 120 casas ardem, não desaparecem apenas paredes, mas modos de vida, vínculos comunitários, histórias familiares.Um omnicídio, a destruição de todas as cousas. Cada incêndio é, assim, uma retraumatização coletiva de todo o país: a confirmação, pela experiência da perda, de que nada mudou, de que o abandono é estrutural.
Mas há também uma terceira dimensão, mais perturbadora: o gozo. Como observa Rebeca Baceiredo, o problema é o capitalismo, maudia-leva!. O capitalismo não tem condições reformar-se , está orientado à autodestruição. E o capitalismo, também no caso galego, goza com o lume. Porque o incêndio, mesmo destrutivo, gera fluxos de recursos: contratos de extinção, fundos de emergência, biomassas, certificações verdes, oportunidades de replantação e ajudas convenientemente direcionadas. A combustão converte-se em engrenagem do sistema económico. Não é um fracasso, mas parte do cálculo. Aqui, a pirropolítica revela o seu rosto perverso. O lume não é apenas tolerado, é funcional. A paisagem estruturada para arder permite acumulação contínua —lucros para a indústria da celulose, rendimentos rápidos para pequenos proprietários, contratos milionários para empresas de extinção. O sofrimento coletivo converte-se em recurso. E a repetição, por mais traumática que seja, contém sempre um excedente de gozo: ainda que destrutiva, ela alimenta o ciclo da acumulação. Assim, o lume é tudo ao mesmo tempo: sintoma que revela a verdade reprimida, trauma que distribui desigualmente a dor, e gozo que assegura a reprodução do modelo. É por isso que não podemos tratá-lo como exceção ou fatalidade: o incêndio é a própria linguagem política do território.Nenhum egoismo elevado a norma universal pode conduzir ao bem social, económico e cultural de todos.
Catástrofe tutelada
A chegada da UME (Unidad Militar de Emergencias) às serras galegas foi apresentada como gesto de solidariedade e eficácia. Colunas de veículos militares, helicópteros pintados de amarelo, uniformes que conferem autoridade e ordem: tudo isso compõe uma encenação de soberania. Mas é precisamente essa encenação que revela a fragilidade da autonomia que renuncia a tal. A Galiza, no auge de mais uma catástrofe ambiental, depende de uma força militar espanhola para gerir o lume. O discurso oficial apresenta a mobilização como inevitável. A dimensão do desastre ultrapassaria a capacidade autonómica, justificando a intervenção estatal. Mas o que está em jogo não é apenas logística mas é política. A emergência transforma-se em oportunidade para reafirmar a centralização, para recordar que a última palavra —e a última força— pertence a Madrid. A exceção suspende a autonomia e devolve-nos à condição de território tutelado. Nessa lógica, o lume torna-se instrumento de colonialidade interna. A Galiza não é apenas espaço periférico de exploração da celulose; é também espaço onde a soberania é limitada, sujeita à intervenção de emergência que confirma a dependência estrutural. A gestão dos incêndios inscreve-se assim numa gramática de poder: o território arde, o Estado intervém, a autonomia recua.
Uma leitura decolonial ajuda a compreender esse processo. O que está em causa não é apenas a política florestal, mas a forma como o território galego é administrado segundo interesses externos —industriais, estatais, globais— e não segundo uma lógica de soberania comunitária. A Xunta mantém essa orientação, apesar das evidências de vulnerabilidade e risco, funcionando como intermediária entre o território e o capital transnacional. Ao aceitar (e até reclamara para depender) da intervenção da UME, a Xunta reafirma que a Galiza não tem meios próprios para gerir os seus desastres. Essa renúncia prática reforça a tutela do Estado central e naturaliza a ideia de que a soberania autonómica é apenas formal, nunca material. Nesse quadro, a Xunta age não como governo de soberania territorial, mas como gestor local de uma ordem externa: aplica e legitima políticas de exploração que beneficiam capitais e mercados exteriores, enquanto sacrifica o território. A autonomia, nesses termos, não passa de administração delegada.
A monocultura do eucalipto não é escolha natural: é produto de programas estatais de “modernização” desde os anos 1960, reforçados por políticas europeias e pela pressão do mercado global da celulose. O abandono rural não é fatalidade, é resultado de décadas de migração forçada, precariedade e invisibilidade política. Ao intervir no território apenas em momentos de catástrofe, o Estado reforça um padrão colonial: não governa para prevenir, governa para gerir o desastre. Não reconhece a soberania da comunidade, mas reafirma o seu poder na exceção. É o mesmo padrão que vimos no Prestige: o desastre como ocasião para reafirmar quem manda. Uma verdadeira abordagem decolonial exigiria inverter essa lógica para devolver poder às comunidades locais, reconhecer o monte comunal como sujeitos de soberania, diversificar a paisagem em vez de monoculturizá-la, e sobretudo aceitar que a Galiza não é periferia administrada, mas território capaz de decidir sobre si mesmo. Sem isso, o lume continuará a ser não apenas um fenómeno natural, mas a metáfora da nossa condição política.
Politizar o lume: soberania e futuro
Durante séculos, o fogo na Galiza não foi ameaça, mas ferramenta. As comunidades camponesas e pastoris usavam-no para limpar o mato, regenerar pastos, fertilizar solos. Era uma tecnologia comunitária, integrada num ciclo de cuidado e proximidade, regulada por normas coletivas e pelo conhecimento transmitido entre gerações. O fogo fazia parte de uma economia moral da terra, onde cada uso estava vinculado à reprodução da vida. Hoje, essa lógica foi substituída pela pirropolítica capitalista: a combustão deixou de ser exceção controlada e passou a ser engrenagem funcional. O incêndio é parte do cálculo económico, aceito como inevitável porque garante matéria-prima barata, fluxos de biomassa, contratos de extinção, fundos de emergência. O que antes era prática de cuidado tornou-se sintoma de destruição.
Politizar o lume significa inverter esse processo. Significa, em primeiro lugar, nomear a catástrofe pelo que é: não um acidente, não um conjunto de atos individuais, mas resultado de políticas públicas e estruturas económicas que subordinam o território ao lucro. Politizar é perguntar: quem decide sobre o monte? Para que serve? Quem ganha com ele? Quem perde?
Politizar também é enfrentar a desigualdade. Porque o fogo não distribui as suas consequências de forma homogênea. São as aldeias, já despovoadas e envelhecidas, que perdem casas e modos de vida. São os pequenos agricultores e gandeiros que veem campos e animais destruídos. Enquanto isso, a indústria da celulose, os fundos de biomassa e as empresas de extinção encontram no desastre novas oportunidades. Politizar é reconhecer que o lume é também um campo de conflito de classes. Aqui, a reflexão de Greg Bankoff torna-se decisiva. O historiador lembra que os desastres nunca são apenas naturais mas convertem-se em catástrofes quando sociedades vulneráveis —fragilizadas por decisões económicas, políticas e históricas— não têm como responder. O que ele chama de “habitar em paisagens de risco” aplica-se integralmente à Galiza. O lume não é destino climático, mas consequência de uma vulnerabilidade construída polo expulsao do campo, pola deslegitimição epistemicida das tipologias de propriedade, pola monocultura pirófita imposta como modernização e única alternativa. Politizar o lume é, portanto, reconhecer que essa vulnerabilidade foi fabricada —e que pode ser desfeita por outras escolhas políticas.
Mas sobretudo, politizar é abrir caminhos de soberania. Isso passa por recuperar os montes vicinais e comunais, devolvendo às comunidades a capacidade de gerir o território. Passa por diversificar as paisagens, substituindo a monocultura pirófita por mosaicos agroflorestais que reduzam o risco de incêndio e fortaleçam economias locais. Passa por investir no rural, não como espaço residual, mas como centro de vida e decisão. Politizar o lume é devolver poder a quem o habita. É afirmar que a Galiza não é apenas periferia ardida, mas território com direito a decidir sobre si. É reconhecer que a catástrofe não é destino, mas consequência de escolhas políticas —e que outras escolhas são possíveis.
Se não politizarmos, ficaremos presos ao tecnocratismo das estatísticas, às certificações verdes, às intervenções militares de emergência. Repetiremos o ciclo de trauma e gozo, ano após ano, até que o país se consuma em cinza. Politizar é, ao contrário, abrir a possibilidade de um futuro: uma Galiza viva, comunitária e insubmissa, que já não governe o lume como exceção, mas o reinscreva como prática de equilíbrio e soberania.
Os incêndios de 2025 mostraram-nos duas verdades contraditórias. A primeira, que a Galiza já vive na catástrofe: aldeias queimadas, bosques milenares destruídos, centenas de milhares de hectares reduzidos a cinza. A segunda, que o pior ainda não chegou. Porque o lume maior —o que ameaça as faixas costeiras e periurbanas densamente povoadas, cobertas de eucalipto e pinheiro até às portas das casas— ainda está por vir. É como viver sobre um barril de pólvora: sabemos que a ignição chegará, só não sabemos o dia.
A gestão oficial insiste em apresentar cada verão como exceção, cada fogo como acidente, cada aldeia destruída como fatalidade. Mas essa exceção ja está normalizada. A cinza que cobre o país não nos deixa esquecer que estamos perante um processo estrutural, produzido por políticas que transformaram a Galiza em colónia florestal e em laboratório de catástrofes. Politizar o lume é a única saída. Porque se não o fizermos, a cada verão o país arderá de novo, repetindo o ciclo de sintoma, trauma e gozo, até que da Galiza reste apenas vaga memória. Mas se aceitarmos o desafio —se devolvermos soberania ao território, se reconstruirmos comunidades, se diversificarmos as paisagens— o fogo poderá voltar a ser o que foi outrora: não ameaça, mas ferramenta. A pergunta, então, não é se o país arderá de novo. Isso é certo. A pergunta é outra: quando a lapa se apague, estaremos condenados a continuar apanhando cinzas, incapazes já de acender futuro?
