
A Palestina atravessa, há mais de sete décadas, uma experiência contínua de colonização, ocupação e violência sistemática. Desde a Nakba de 1948, quando mais de 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas, a política israelense estruturou-se em torno da limpeza étnica, da segregação institucionalizada e da fragmentação territorial (Pappé, 2016). Após os Acordos de Oslo, em 1993, criou-se a Autoridade Palestina (AP), liderada pelo Fatah, com soberania limitada sobre pouco mais de 10% da Palestina histórica. Nesse período, mais de 4 mil casas foram demolidas, deixando cerca de 22 mil pessoas desabrigadas. Na prática, Oslo não significou paz, mas o reforço de um regime de ocupação, com expansão contínua de assentamentos e a construção do muro de separação que isola comunidades palestinas.
Relatórios da Human Rights Watch e da Amnesty International denunciam que Israel mantém um sistema de apartheid: uma arquitetura de discriminação legal, segregação espacial e repressão cotidiana que nega ao povo palestino o direito elementar à autodeterminação. A “judaização” da Palestina, conceito presente em políticas de Estado desde a fundação de Israel, sustenta-se na criação deliberada de uma maioria demográfica judaica, em detrimento da presença árabe, com base em um racismo estrutural.
O sionismo: matriz colonial e supremacista
Para compreender o presente da Palestina é necessário voltar ao conceito que sustenta o Estado de Israel: o sionismo. Desde a formulação de Theodor Herzl, em O Estado judeu (1896), o sionismo se apresentou como projeto de criação de um Estado nacional judaico em território já habitado, legitimando a expulsão da população nativa sob a máxima colonial “uma terra sem povo para um povo sem terra” (Losurdo, 2021). Diversos analistas apontam que o sionismo não é um desvio, mas a etapa final de uma longa história de colonialismo ocidental. Para Leonardo Sacramento (2023), ele constitui uma forma do colonialismo anglo-saxão, instrumentalizada pelos EUA e pelo Reino Unido como peça geopolítica no Oriente Médio. Nessa lógica, Israel converteu-se em “fortaleza avançada da civilização contra a barbárie” asiática, ecoando a visão de Herzl.
Além do caráter colonial, o sionismo possui uma dimensão supremacista racial. Sua lógica funda-se na ideia de que os judeus europeus teriam direito exclusivo à Palestina, enquanto os árabes seriam vistos como massa sem soberania, reduzidos a meros “residentes”. Essa matriz produziu, desde 1948, políticas de expulsão, transferência forçada e segregação, configurando um regime de apartheid e limpeza étnica contínua (Pappé, 2016).O sionismo também foi apropriado por correntes religiosas e políticas fora de Israel. Na América Latina, converteu-se em instrumento de dominação estadunidense, fragmentando projetos de unidade regional. No Brasil, aparece em sua versão neopentecostal e bolsonarista, articulando a promessa bíblica da “Terra Prometida” com práticas de apoio ao colonialismo israelense e de ataque a povos indígenas e populações negras. Hoje, intelectuais críticos descrevem o sionismo como um falso ídolo: uma ideologia que substitui a tradição judaica plural por uma identidade etnonacionalista belicista, que nega tanto a humanidade palestina como a judaica da diáspora. Para Naomi Klein, é tempo de um “êxodo do sionismo” e de retorno a um judaísmo não colonial.
Assim, o genocídio em Gaza não pode ser dissociado do projeto sionista realmente existente, que combina colonialismo europeu, supremacia racial e militarismo estadunidense. Trata-se da expressão contemporânea de uma metafísica imperial que, sob o discurso de defesa, produz morte e expulsão em massa.
Gaza: a prisão total e o genocídio em curso
Entre todas as frentes da ocupação, Gaza tornou-se o epicentro de uma tragédia histórica. Frequentemente chamada de “a maior prisão a céu aberto do mundo”, a Faixa é, segundo analistas, ainda mais do que isso: não há nada “aberto” em Gaza, uma vez que Israel controla fronteiras, circulação de bens, energia, medicamentos e até o espaço aéreo. Desde outubro de 2023, o enclave foi submetido a uma campanha de bombardeios classificada por especialistas em guerras como uma das mais devastadoras da história contemporânea, com punição sem precedentes à população civil. Hospitais, escolas e universidades foram alvos diretos. Em janeiro de 2024, a última universidade em funcionamento, Al-Azhar, foi destruída por um ataque aéreo israelense; 85% das escolas de Gaza foram igualmente danificadas. O historiador israelense Ilan Pappé é categórico: a guerra de Gaza não é autodefesa, mas genocídio. Para ele, trata-se da aplicação sistemática de políticas de extermínio, nas quais os palestinos são alvos não por atos específicos, mas por sua própria existência em Gaza (Pappé, 2024). Essa visão ecoa nas palavras de Paulo Sérgio Pinheiro, ex-relator da ONU, que afirma ser inevitável classificar como genocídio as operações conduzidas por Israel.
Geopolítica do genocídio
A continuidade da destruição em Gaza só é possível graças ao respaldo das potências ocidentais. Estados Unidos e União Europeia, ao sustentarem Israel em nome do “direito de autodefesa”, legitimam crimes de guerra e bloqueiam sanções internacionais. O apoio material, militar e diplomático de Washington é apontado como motor central da engrenagem genocida. No plano simbólico, observa-se uma seletividade moral: enquanto a invasão da Ucrânia mobiliza a defesa da “civilização” contra a barbárie, Gaza é tratada como exceção tolerável . Intelectuais, artistas e ativistas que denunciam os massacres sofrem censura em países europeus, em especial na Alemanha, onde a defesa de Israel é considerada “razão de Estado”, mesmo que venha à custa da repressão à liberdade de expressão de judeus antissionistas. Espanha, por sua vez, desempenha papel ambíguo. Embora o governo Sánchez tenha condenado o genocídio de Gaza, segue mantendo relações comerciais e militares com Israel que alimentam a máquina genocida em Gaza.

Resistência e solidariedade internacional
Apesar do cenário devastador, a resistência palestina persiste. O eixo de forças que se opõe a Israel — formado por diferentes facções palestinas e apoiado por setores do mundo árabe e muçulmano — mantém viva a reivindicação de retorno, soberania e dignidade. Fora do Oriente Médio, movimentos estudantis em universidades norte-americanas e europeias reativaram uma solidariedade comparável à luta contra o apartheid sul-africano. Para Salem Nasser (2024), o apoio incondicional de governos ocidentais a Israel demonstra que o Ocidente nunca acreditou na universalidade dos direitos humanos que diz defender. Gaza, nesse sentido, tornou-se o teste derradeiro: reconhecer ou negar o genocídio palestino é decidir se os direitos humanos podem ser, de fato, universais.
A causa universal da Palestina
A Palestina não fala apenas por si. Como lembram diversos autores, defender o direito dos palestinos de existir em sua própria terra é defender a própria ideia de humanidade. Reduzir essa luta à caricatura de terrorismo ou antissemitismo é uma manipulação que afronta os direitos humanos e obscurece o caráter colonial da ocupação. Ao nomear a realidade como ela é — apartheid, limpeza étnica e genocídio —, intelectuais e movimentos sociais insistem em afirmar: Palestina livre não é apenas um slogan, mas uma exigência ética global. Gaza, com seus escombros e mártires, tornou-se o emblema trágico de nossa época, a fronteira extrema da luta pela dignidade e pela justiça.
