Um artigo publicado em Nature aborda as evidências emergentes de mudanças abruptas no ambiente da Antártida, particularmente em relação ao gelo, circulação oceânica e ecossistemas oceânicos, destacando que algumas dessas mudanças são não lineares e podem ser irreversíveis. Este artigo ressalta que as mudanças na Antártida não são apenas graduais, mas podem ocorrer de forma repentina e irreversível, afetando significativamente o clima e os ecossistemas globais. A urgência de limitar o aquecimento a 1,5 °C aparece como condição crítica para evitar esses cenários extremos.
O artigo publicado na Nature por Abram et al. (2025) alerta que a Antártida está a experimentar mudanças ambientais abruptas, com perda acelerada de gelo marinho, risco de colapso da camada de gelo da Antártida Ocidental e desaceleração das correntes oceânicas profundas. Esses fenómenos, embora ocorram a milhares de quilómetros, terão impactos diretos na Galiza.Redução abrupta no gelo marinho antártico. Os autores apontam que a extensão do gelo marinho antártico sofreu um declínio que está abaixo da variabilidade natural observada nos últimos séculos. Esta diminuição é, em muitos aspectos, mais abrupta, possivelmente irreversível e menos compreendida do que a perda de gelo no Ártico. Observa-se uma desaceleração significativa na circulação termohalina que traz águas frias profundas para a superfície — conhecida como Antarctic Overturning Circulation(AMOC). O estudo projeta uma desaceleração significativa dessa circulação oceânica, que transporta águas frias profundas à superfície. Esse fenômeno pode se intensificar ao longo do século XXI, com ritmo até mais acelerado que a esperada para o AMOC. Essa mudança pode intensificar-se ao longo deste século e ocorrer em ritmo mais acelerado do que a prevista para a circulação atlântica do Hemisfério Norte Mesmo sob os cenários mais otimistas de redução das emissões de CO₂, o limiar de instabilidade do Manto de Gelo da Antártida Ocidental pode ser ultrapassado, potencialmente desencadeando cascatas climáticas globais irreversíveis.
Mecanismos de feedback amplificadores e instabilidades autoperpetuantes
O artigo destaca que as mudanças abruptas observadas na Antártida frequentemente resultam de feedbacks amplificadores, ou seja, processos que se reforçam mutuamente, acelerando o impacto e dificultando a reversão. Isso inclui a perda de gelo, alterações na circulação oceânica e transformações ecossistêmicas.Há evidências de um regime shift — mudança de regime — que reduziu a extensão do gelo marinho antártico a níveis bem abaixo da variabilidade natural histórica, com traços de não linearidade, abruptidade e potencial irreversibilidade, comparativamente a processos já documentados no Ártico com perda de habitat, ultrapassagem de limites fisiológicos por espécies e falhas cumulativas de reprodução — fatores que elevam o risco de extinções. Mesmo sob cenários otimistas de redução das emissões de CO₂, há o risco de ultrapassar o ponto de instabilidade do West Antarctic Ice Sheet, o que poderia desencadear cascatas climáticas globais com potencial irreversível.
Transformações em ecossistemas e perda de biodiversidade
Os ecossistemas antárticos e da Região da Antártica Sul estão passando por mudanças abruptas — mudanças de regime e superaquecimento de limites fisiológicos — que resultam em falhas generalizadas na reprodução de espécies, elevando o risco de extinções. As mudanças comentadas são frequentemente autoamplificantes, criando feedbacks que potencializam o impacto sobre o sistema climático. Diante disso, os autores enfatizam ser crucial estabilizar o aquecimento global em níveis mínimos (em torno de 1,5 °C), acompanhando medidas de adaptação para reduzir os efeitos drásticos das mudanças abruptas na Antártida e no Oceano Austral
Impactos em Galiza derivados das mudanças abruptas na Antártida
Elevação do nível do mar e seus efeitos costeiros
O derretimento acelerado das camadas de gelo da Antártida contribui significativamente para o aumento global do nível do mar — a perda de massa de gelo alcança cerca de 136 bilhões de toneladas por ano. Esse processo gera elevação gradual do nível do mar, o que afeta zonas costeiras baixas, provocando erosão, salinização de reservas de água doce e aumento da frequência de inundações costeiras.Para Galiza, tradicionalmente vulnerável a eventos marítimos extremos e com extensa linha costeira, esse cenário significa maior risco para comunidades, infraestruturas portuárias, zonas de marisqueo e áreas habitadas próximas ao mar.
Mudanças na circulação oceânica e efeitos na pesca e na biodiversidade marinha
A desaceleração da Circulação de Retorno Antártica (Antarctic Overturning Circulation) influencia a redistribuição de calor e nutrientes no Atlântico Sul. Alterações nessas correntes podem modificar os padrões de produtividade marinha, afetando espécies comerciais importantes como o marisco e o peixe, que têm forte presença na economia galega. A previsão antecipada e a monitorização desses padrões são fundamentais para planejar a adaptação das comunidades pesqueiras e do marisqueo artesanal. A redução do gelo marinho antártico e o consequente aquecimento regional intensificam o aquecimento global e afetam a cadeia trófica oceânica.Mesmo que indiretamente, esses processos podem repercutir na produtividade e na distribuição de espécies marinhas no Atlântico Nordeste, influenciando a biodiversidade costeira galega.Em Galiza, estudos mostram preocupações específicas em relação aos ecossistemas pelágicos marinhos, litorais e à biodiversidade, com vários relatórios regionais aprofundando esse tema incluindo o projeto CLIGAL
Adaptação e necessidade de estratégias locais
Especialistas coincidem que, mesmo com esforços para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, parte das consequências já é inevitável. Na Galiza, isso exige planeamento costeiro adaptativo, reforço de infraestruturas portuárias e investimento em ciência marinha aplicada, para garantir a resiliência das comunidades que vivem do mar. A desaceleração da circulação de retorno antártica, descrita no estudo, altera o transporte global de nutrientes. Isso significa potenciais mudanças na produtividade marinha do Atlântico, afetando espécies cruciais para a economia galega, como a sardinha, o mexillón e o polbo.A acidificação do Atlântico e o aumento da temperatura já provocam deslocações de espécies, e especialistas alertam que algumas poderão desaparecer das rías galegas, alterando toda a cadeia alimentar.
Segundo o Ministerio de Transición Ecológica, a Xunta de Galicia já integrou estudos avançados sobre impactos do câmbio climático na Galiza, abordando cenários climáticos, ecossistemas, economia e saúde No entanto, os impactos globais derivados da Antártida — como elevação do nível do mar e mudança de correntes oceânicas — reforçam a urgência de adaptar essas estratégias com visão ampliada: investir em infraestrutura costeira resiliente, monitorização contínua de erosão e ecossistemas marinhos, e políticas públicas focadas na resiliência costeira.
Litoral mais vulnerável
Segundo projeções do MITECO, áreas como as rías de Vigo, Pontevedra e Arousa poderão sofrer inundações recorrentes até final do século. A intrusão de água salgada ameaça os bancos de marisco e zonas húmidas, enquanto comunidades costeiras — de Vilagarcía a Cambados, de Moanha a Marim — arriscam perdas de território e infraestruturas.A erosão costeira é outro risco. O aumento da frequência de temporais e a elevação do mar podem acelerar a perda de areia em praias como a Madalena e aumentar a pressão sobre falésias,noiros e acessos costeiros.
Abram, N. J., Purich, A., England, M. H., McCormack, F. S., Strugnell, J. M., Bergstrom, D. M., Vance, T. R., Stål, T., Wienecke, B., Heil, P., Doddridge, E. W., Sallée, J.-B., Williams, T. J., Reading, A. M., Mackintosh, A., Reese, R., Winkelmann, R., Klose, A. K., Boyd, P. W., Chown, S. L., … Robinson, S. A. (2025). Emerging evidence of abrupt changes in the Antarctic environment. Nature, 644(8050), 621–633. https://doi.org/10.1038/s41586-025-09349-5






























































