Sempre me interessou ler Suso de Toro nos media catalães porque coloca o olhar da reflexão sobre aquilo a que poderíamos chamar a dimensão antropológica galega para os não galegos ou para os galegos incautos. Para ele (“Galícia crema per l’abandonament”, Ara (2025) a Galiza arde por causa do “abandono”. A imagem é forte e moi difundida, mas não me parece a mais justa. O que ocorreu no campo galego não foi um ato de desistência coletiva; foi uma expulsão planificada, seguida de uma substituição de usos e saberes. As palavras importam: “abandono” sugere desânimo, voluntariedade. Não só houve expulsão, senão também substituição. Ou seja, substituição da gente, dos usos e do território por monocultivos pirófitos por um modelo que troca aldeias vivas por paisagens vazias, inflamáveis e instrumentalizadas. A fórmula “expulsão e substituição” permite mostrar que não foi só despejo: houve também uma ocupação programada com novos usos (industriais, energéticos, especulativos), o que reforça a ideia de colonialidade interna.
Centenas de milhares de galegos foram obrigados a partir, primeiro para a América, depois para os centros industriais espanhóis e europeus, porque as condições para permanecer foram fanadas: não havia investimento produtivo, não havia alternativas de trabalho digno, não havia serviços públicos suficientes.O que se chama “abandono” foi, na verdade, o efeito de um despejo econômico e social continuado com formas de colonialidade sob a restauração borbónica de 1978 (que não reverteu esse processo, apenas o reorganizou em formato autonómico) e que conta entre nós com diagnóstico de longa data desde que o apoucado quanto visionario Risco (1930) já albiscara que “o centralismo oficial e extraoficial privou a Galiza dos benfeitos do réxime lieral, E Galiza non puido tirar proveito ningún do liberalismo”. Que dizer, do capitalismo colonial que vai de braço dado da Modernidade sob a sua nova ideologia totalitaria: o neoliberalismo. Quer dizer, a ideia de que cada uma das instituiçoes sociais é uma empresa. O individuo é uma empresa ( a teologia da prosperidade) e por isso vai para a escola e a universidade não porque a educação é importante, mas porque é investimento para se tornar um individuo – empresario de si mesmo orientado a dar lucro (capital humano, ideia da competição,etc). Um jeito de existir sustentada pola ideia da meritocracia que visa fazer que cada um seja empresario de si mesmo, portanto, individualizado no seu ser social como indiferente narcisista ao bem comum. Que investe todo para que o seu capital de lucro em vencer todos os outros na concorrencia da competição e quando ele vence, está provado o seu mérito. E assim por diante….Na realidade, o que aconteceu no mundo rural galego não é que as pessoas tenham abandonado a terra sem motivo, mas sim que tenham sido expulsas por decisões políticas e econômicas que reconfiguraram o território ao serviço de um totalitarismo que coloca a energia, a silvicultura e a extração mineral ao serviço da vida enxergada como empresa e no que o produtivismo foi substituindo progressivamente a população rural e o seu modo de relação com a terra por monoculturas sob um visão urbanocéntrica do campo (eis a macrocelulose Altri). Moito mato, moita árvore (para celulose e madeira, que não bosques, prados e várzeas) e pouca gente. Todo foi ficando a monte. A experiência de instituições, corpos e espaços neoliberalizados durante meio século após uma ditadura de 40 anos.
Outro vetor de expulsão foi a política florestal que incentivou monocultivos pirófitos (eucalipto/acacia/pinheiro), reordenando economias labregas para o circuito da celulose. A literatura documenta etapas de expansão e consolidação do eucalipto induzidas por políticas públicas (Cidrás et al., 2018; Cidrás, 2022). Hoje, o eucalipto ocupa cerca de 28–30% da superfície florestal galega, com impactos ecológicos (como a redução de aves e insectos) e com efeitos na perigosidade dos grandes incêndios, ainda que o problema do lume seja multicausal e socialmente condicionado. A relação despovoamento–lume também é sistematizada: estudos sobre a Espanha rural sublinham os motores estruturais (saída de população e envelhecimento) e os padrões desiguais de crescimento/declínio municipal (Pinilla & Sáez, 2017; Gómez Valenzuela et al., 2024). No caso galego, até 95% dos incêndios são de origem humana, o que remete para dimensões socioeconômicas e de gestão do território — não para um “desleixo” abstrato (López-Rodríguez et al., 2021). A cobertura noticiosa recente confirma a gravidade do ciclo de lumes e a necessidade de políticas de proximidade e gestão fina do combustível.
Respeitando o diagnóstico sobre o envelhecimento social e o clientelismo, discordo do conceito-chave: “abandono”. A palavra desloca o foco da causa para o efeito. O que ocorreu no campo galego — e noutras periferias do mundo e do projeto pós-imperial restaurativo borbónico — não foi desistência espontânea da gente rural; foi expulsão decorrente de decisões de Estado e de políticas econômicas que reconfiguraram o território para fins energéticos, florestais e mineiros. Essa distinção não é semântica: muda a responsabilidade política e a agenda de soluções. A história recente mostra processos ativos de deslocamento. O caso paradigmático é Portomarín: a barragem de Belesar (1963) submergiu o povoado medieval e obrigou à sua trasladação “pedra a pedra” para cota superior — episódio vivido como trauma coletivo. Não é um episódio isolado; a Espanha franquista fez dos grandes aproveitamentos hidroelétricos um projeto nacional com milhares de deslocados. Isto não é “abandono”; é expropriação colonial de que foi um terreno comum e uma propriedade coletiva privada pertencente a todos os moradores com residência habitual na freguesia, aldeia ou lugar onde se encontra o terreno. Este sistema de propriedade comunitária de origem germânica não pode ser registado, vendido, distribuído ou apreendido mas foi expropriado primeiro, durante o franquismo pela ICONA, seguido da ENCE ( Empresa Nacional de Celulosas), porque seica ninguém conseguia comprovar oficialmente a sua propriedade das terras comunais galegas. Quer dizer, também foi um epistemicidio de usos e saberes utilizados desde tempos imemoriais, para fornecer pasto ou lenha. Uma colonialidade abrasiva em construçao que foi configurando subjectividade¹.
Chamar de “abandono” ao que foi desapropriação para eletrificar centros urbanos e polos industriais é inverter a causalidade. Mas a expulsão não ocorreu no nada: ela foi seguida por uma substituição programada do território. Onde antes havia mosaicos agrários — campos de cultivo, soutos de castanheiros, pastoreio extensivo — instalaram-se monocultivos pirófitos de pinheiro,acacia e sobretudo eucalipto, incentivados por políticas públicas e pelo mercado da celulose. Uma plantação artificial de uma espécie, o eucalipto, que é em essência, uma praga inserida a mantenta e que, lá onde são autóctonas, não conformam bosques e ecossistemas.²
Onde havia aldeias vivas, surgiram encoros, minas, linhas de alta tensão e, mais recentemente, megaparques eólicos entre a matogueira. O território foi transformado numa reserva de recursos para fora, esvaziada de população e de autonomia. Essa substituição não é apenas material: é também epistêmica. As práticas agrícolas, florestais e pecuárias próprias — que durante séculos garantiram equilíbrio e diversidade — foram deslegitimadas e abandonadas à força em nome do “progresso” e de uma paradoxal pedagogia progressista em que “la economía va como una moto”. Técnicas como a roça controlada, o manejo dos soutos de castanheiros ou o pastoreio extensivo eram formas de gerir o combustível natural, reduzir o risco de grandes incêndios e manter a fertilidade do solo. Ao serem substituídas por modelos industriais e burocráticos, assistimos a um verdadeiro epistemicídio (Boaventura de Sousa Santos): a destruição de um conhecimento local, comunitário, acumulado por gerações, em nome de uma racionalidade técnica e de mercado. Hoje, quando se discute o lume, fala-se em “abandono”. Mas o que existe é um território expulso e substituído. Expulso das suas comunidades humanas, que foram obrigadas a sair; substituído por monocultivos inflamáveis e por infraestruturas de extração; substituído também nas práticas de gestão, apagando-se os saberes labregos e impondo-se modelos externos, produtivistas e segundo uma lógica fiscal recentralizadora em Madrid. Os símbolos de identidade e sustento, convertidos em negócio que alimenta dividendos alheios.
Para nomear o padrão histórico subjacente, a teoria do colonialismo interno continua sendo útil: identifica desigualdades políticas e económicas dentro do Estado-nação e como certos territórios são convertidos em reservas de recursos e mão de obra (Torres-Guillén, 2017). Há um debate contemporâneo aplicado à Galiza, que resgata uma tradição crítica desde Beiras, López-Suevos e Rodriguez (1972,1975,1978) e mostra como as identidades e economias periféricas são reconfiguradas por dispositivos estatais e corporativos (de Pablo del Valle, 2021; Álvarez, 2024). Sob novas “carautas” — greenwashing — persiste o modelo extrativo: grandes parques eólicos em outeiros com conflitos de ordenamento, biomassa, e mineração (ouro em Corcoesto, entre outros). A literatura descreve as resistências locais e os conflitos de aceitação social dessas infraestruturas (Upham & García, 2015; Pim, 2021). Quando a “transição verde” replica a velha lógica de enclave, temos continuidade de expulsão: rendas e decisões ficam fora, riscos e custos ficam dentro. Portanto, o abandono (efeito) decorre da expulsão (causa). Se aceitarmos a narrativa do “abandono”, naturalizamos a desresponsabilização e ficamos condenados a respostas meramente tecnocráticas (mais meios de extinção). Se reconhecermos a expulsão programada, a agenda muda: reforma fundiária e fiscal favorável à gestão comunitária (mão-comum), restrição efetiva a monocultivos pirófitos e promoção de mosaicos agroflorestais, correção das assimetrias centro-periferia na política energética, e cogestão local do risco com apoio público estável (inclusive ao pastoreio extensivo e a soluções baseadas na natureza). Sem isto, a gestão “imediata do lume” continuará a tratar sintomas e não a doença. Porque sob os novos “cinturões verdes” — enormes parques eólicos nas montanhas, projectos de biomassa, minas a ceu aberto — persiste o mesmo padrão de extração: os benefícios e as decisões escapam para o exterior, enquanto os riscos e os custos se mantêm no interior. É o que alguns autores designam por colonialismo interno: territórios convertidos em reservas de recursos e de mão-de-obra, sem real capacidade decisória. Em vez de resistir, será que vamos finalmente levar a sério o que está a causar toda esta confusão que, desde a expulsão dos labregos polos agreements e as políticas franquistas, conduziu ao abandono progressivo do que somos, do que nos é próprio, de todo o que nos é caro e que nos permite viver uma vida boa e solidária? Puxar o freio da locomotiva diante do abismo é revolucionaro, diz Walter Benjamin. As expectativas optimistas de alcançar a estação final pervertem-se na imagem desesperadora de um precipício abismal, que se aproxima a cada segundo que passa.
O lume é, portanto, um sintoma de um processo histórico profundo de colonialismo interno, que converteu a Galiza numa periferia de recursos para benefício alheio. A Galiza não está a arder por Lugo e Ourense porque o seu povo desistiu; está a arder porque foi expulso do território útil e da tomada de decisões sobre o mesmo. Chamar a isto “abandono” é culpar as vítimas; chamar a isto “expulsão” é apontar as responsabilidades e abrir caminho para soluções justas e sustentáveis. Essa é a diferença entre reculpabilizarmos os vencidos pelo “abandono” e identificarmos a cadeia de políticas que produz o lume. Na Galiza, o que deveria ser anormal converteu-se em rotina: todos os verões arde, e todos os verões se normaliza a catástrofe. Essa normalização é o rosto mais cruel de uma anormalidade histórica: a expulsão e a substituição da gente e das práticas que mantinham vivo e seguro o território.
1. E q ue podemos reconhecer em diferentes contextos pelas suas opiniões brutais sobre as alterações climáticas, Gaza, o wokismo etc. Uma subjectividade de corpos separados com medo, frustração e até ódio. A transformação molecular fascista é um precipitado de mais de meio século de políticas neoliberais: expulsão, destruição dos laços sociais, cooptação de uma democracia como espaço aberto ao conflito igualitário, destruição de espaços comuns de encontro e conversação, destruição da capacidade e do desejo dos indivíduos de coexistir com si pròprio e com o outro diferente.
2.Estudos como o projeto FIREglobulus mostram que o fogo se propaga rapidamente em eucaliptais, especialmente em condições de baixa umidade e vento forte Durante incêndios em plantações de eucalipto, as temperaturas podem atingir entre 800 °C e 1.200 °C, dependendo das condições ambientais, da quantidade de material combustível e da intensidade do vento. Essas temperaturas são suficientes para provocar a combustão completa da vegetação e a liberação de compostos voláteis presentes nas árvores. No caso específico dos eucaliptos, eles são particularmente inflamáveis por causa do eucaliptol (também conhecido como óleo de eucalipto, um acelerador natural do fogo), um composto volátil presente nas folhas e na seiva. A serapilheira (folhas e galhos secos acumulados no solo) em plantações de eucalipto pode ultrapassar 11 toneladas por hectare, formando um leito de combustível altamente inflamávelQuando aquecido, esse óleo vaporiza e forma uma névoa altamente inflamável, que pode se inflamar subitamente, criando o efeito de uma “bola de lume”. Em cenários críticos, o fogo pode atingir as copas das árvores, tornando o combate muito mais difícil. Simulações com o software FlamMap indicam que povoamentos com distribuição etária irregular são mais propensos a incêndios severo Esse comportamento é comparável ao de combustíveis como o querosene, embora o eucaliptol tenha propriedades químicas distintas. O chamado pinheiro do país não é tal, mas da Itália e do norte da África. E o “radiata” da California, com alto poder calorífico e resina altamente inflamável.
