Trabalhadores da televisão pública galega exigem a demissão dos responsáveis informativos após cobertura contestada dos incêndios, reacendendo a memória dos Venres Negros
A Galiza voltou a enfrentar, em agosto de 2025, uma vaga de incêndios devastadora. Mas, além das chamas que consumiram milhares de hectares de floresta e obrigaram ao desalojamento de famílias inteiras, um outro lume reacendeu-se: o da contestação ao papel da Televisión de Galicia (TVG) como meio público. O Comité Intercentros da Corporación de Servizos Audiovisuais de Galicia (CSAG) pediu a destituição imediata do diretor de informativos, Alejandro López Carballeira, e da subdiretora, Marta Darriba Quiñitán, acusando-os de ter ocultado deliberadamente a gravidade da crise. Num comunicado contundente, os trabalhadores afirmaram sentir “vergonha, impotência e raiva pela negligência e irresponsabilidade dos seus superiores”.
Segundo os denunciantes, a TVG esteve “ausente do papel que lhe corresponde como primeira fonte de informação de serviço público numa emergência desta magnitude”, falhando em emitir programas especiais ou assegurar cobertura em direto das zonas afetadas
Acusações de censura e branqueamento
As críticas não se limitaram à omissão. Jornalistas e representantes sindicais denunciaram ordens explícitas para evitar testemunhos críticos sobre a falta de meios no combate aos incêndios, qualificando a cobertura como um “branqueamento sem precedentes do PP” — partido que governa a Xunta de Galicia. A acusação repete-se há anos: em vez de dar voz às vítimas e aos profissionais de emergência, a TVG teria priorizado a exposição de figuras políticas, como a do ex-presidente da Xunta e atual líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, numa estratégia que trabalhadores consideram ser de propaganda institucional.A direção da CRTVG negou todas as acusações, defendendo-se com o argumento de que a cobertura foi “completa e plural”. Ainda assim, o episódio ganhou dimensão política, com o PSOE a anunciar que pedirá explicações no Parlamento galego.
Uma lei que ameaça ainda mais a independência
O mal-estar dos profissionais agravou-se em janeiro de 2025, quando a Xunta aprovou uma nova lei dos meios públicos. O diploma elimina o Conselho de Informativos, enfraquece o estatuto profissional e permite a nomeação do diretor-geral da CRTVG sem necessidade de consenso parlamentar.Para os jornalistas, trata-se de um retrocesso democrático, que institucionaliza a dependência política da TVG e fragiliza ainda mais a proteção da independência editorial.
Serviço público ou braço partidário?
O caso dos incêndios de 2025 cristaliza uma tensão que percorre a história recente da televisão pública galega: será a TVG uma ferramenta de serviço público ou um braço mediático do governo autonómico?Enquanto os trabalhadores acusam os responsáveis de “manipulação grosseira e descarada”, a direção insiste na neutralidade. No meio, está uma cidadania que, em plena emergência, questiona se pode confiar na sua televisão pública. Os lumes de agosto consumiu casas, montes e vidas, mas também expôs as cinzas de um debate que parece não se apagar: o direito dos galegos a uma informação independente, rigorosa e plural num dos momentos mais críticos da sua história recente.
