Deixaram-nos sozinhos
Porque não há plano de combate ao fogo que dê jeito.
Porque não há programa de defesa ambiental que atenue a perda da biodiversidade.
Porque não há programa assistencial que tire as aldeias da tristeza e da penúria.
O lume é apenas o sintoma de como se organiza o poder na Galiza (como o clientelismo e a corrupção)
A causa é política — um modelo colonial de monocultura e de expropriação agravado pela mudança climática. Porque o que arde não é apenas o monte: arde o próprio modelo de desenvolvimento, feito de monocultivos, abandono e dependência. Cada verão repete o mesmo ritual: discursos oficiais de tranquilidade, helicópteros em voo, aldeias evacuadas, hectares de cinza. E no fim, após as chuvas, o silêncio.
Não é só falta de meios, nem de relatórios técnicos. É excesso de cegueira política, é cumplicidade com os interesses que enriquecem à custa do território: a indústria da celulose, os grandes grupos agroexportadores, as minas abertas no coração dos montes. Um país que entrega a terra ao lucro imediato está condenado a assistir à sua própria destruição.
O lume consome árvores, mato e vilares, mas revela a verdade: a Galiza não precisa de mais planos que maquilhem a catástrofe. Precisa de romper com a mentalidade colonial que ainda hoje a trata como periferia, fornecedora de matérias-primas e mão de obra barata. Precisa devolver ao rural gente, dignidade, futuro.
Até lá, cada programa de combate será só remendo.
E cada agosto, um espelho de cinza. A Galiza queima não porque a abandonamos, mas porque nos arrancam dela. Tudo isso não é fruto do acaso nem de um suposto abandono das terras ourensanas, mas sim duma política de expulsão sistemática. A Galiza — um território habitado, com memória, cultura e recursos próprios — é tratada como se fosse deserta, como se estivesse vazia, disponível para ser explorada. Os outeiros estão hoje atravessadas por fileiras de aerogeradores, e já se anuncia a colonização do mar com o mesmo modelo depredador. A nascente do Ulla, berço de águas claras, foi escolhida pela Xunta e por uma multinacional portuguesa como palco para erguer uma macrocelulose, símbolo maior da submissão de um país às lógicas externas. E, enquanto isso, as lapas repetem-se verão após verão: em agosto arderam 492 fogos, mas a Xunta apenas reconheceu 44. A terra arde não por abandono, mas porque se expulsa a quem a trabalha, quem a guarda. Porque se desarticulou deliberadamente a vida rural, para que o território seja reduzido a mercadoria.
Rueda e Feijoó, agora sem mangueirinha e mocasines, nem sabem encobrir a sua incompetência e má fé. Como em 2006 e 2013 e assim por diante… As labaredas que se repetem todos os verões não são um acidente, agora acrescentado pola mudança climàtica, nem obra de marginais. São o rosto visível de um projeto económico que desertificou aldeias, entregou montes às celulósicas, converteu a diversidade em monocultura de pinheiro e eucalipto. A cada hectare queimado, arde também a promessa duma Galiza habitável que ainda teimam em vender como “refúgio climático”. Propaganda que banaliza a mudança do clima e mostra um país inexistente que contradiz a realidade empírica.
Os meios que escolhemos são os objetivos no processo de formação. Os meios aplicados pela kaquistocracia do PP à frente da Xunta durante 40 anos conduziram-nos à negação das alterações climáticas, encorajando a reprodução maciça de espécies pirofíticas e desmantelando os serviços públicos nas zonas rurais.
O clima apenas acelera a tragédia: secas prolongadas, ventos fortes, calor extremo que tem as frondosas como melhores aliadas. Mas não foi o clima que expulsou famílias do rural, nem que concentrou lucros em fundos de investimento. A imagem é clara: outrora celeiro, fornecedora de alimento para gerações inteiras, hoje bebe leite embalado por Lactalis Ibérica, empresa com sede fiscal em Madrid. Os símbolos de identidade e sustento, convertidos em negócio que alimenta dividendos alheios. A terra produz, mas o país não se beneficia. Essa é a velha história da colonização interna — o lume é apenas o espelho.
Leonardo Boff chamou a este tempo Piroceno: a era em que já não controlamos o lume, mas somos controlados por ele. A Galiza encarna esse drama global — uma paisagem que se tornou combustível de mercado. É aqui que o eco-decálogo de Michael Löwy soa como resposta. Não adorar os ídolos do crescimento. Recusar a lógica suicida do mercado. Apoiar ações coletivas, desde a agroecologia até o bloqueio a projetos ecocidas. Lutar pelos refugiados climáticos, que amanhã poderemos ser nós. Combater políticos ecocidas com todos os meios democráticos razoáveis. É um decálogo de combate, não de resignação.
E como lembra John Bellamy Foster precisamos de um “novo equivalente moral de guerra”: não contra povos, mas contra a lógica da devastação. Um combate pela vida, pela água, pelo bosque, pelo pão. O nome desse combate é ecossocialismo com decrescimento. Um futuro em que a Galiza deixa de exportar cinza para recuperar diversidade. Em que os montes voltam a ser comunais e as aldeias voltam a ser morada. Em que a produção deixa de ser mercadoria sem rosto e se torna alimento, cuidado, dignidade.
Não há helicópteros de abondo que apaguem um modelo que arde por dentro.Só a coragem de romper com ele — de descolonizar a terra, de recusar a monocultura, de reinventar a vida coletiva — pode salvar-nos da repetição infinita do desastre.
Deixaram-nos sozinhos e enganados. Mas também houve povo, autogestão e apoio mútuo.
