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Ecoloxía, Editorial, Globalização, Meio ambiente — 10 Xullo, 2025 at 12:54 p.m.

Entre Altri e a Fossa Atlântica: a Galiza como zona de sacrifício

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Há duas décadas, o mundo viu como a costa galega era engulida polo chapapote do Prestige. Malia as alertas e conhecimento dos marítimos, o petroleiro foi afastado cara ao alto mar sem control, e o resultado foi a maior catástrofe ambiental da história do Estado espanhol. Milhares de toneladas de combustível cobriram praias, mataram vida marinha e devastaram economias locais. Mais o que o Prestige revelou com brutal clareza foi que para o Estado, a Galiza é prescindíbel: uma zona de sacrifício. No entanto, esta lógica é preexistente.  A oeste do Banco da Galiza, a cerca de 678 km da costa, reportou mais de 220.000 bidões de resíduos radioativos lançados para o Atlântico, sen seguimento em responsabilidade pública. E em Palas de Rei, no coração do interior galego, a Xunta promove activamente um megaprojecto industrial de celulosa de Altri, desfrazado de forma sustentável, que compromete os recursos hídricos e o equilíbrio ecológico da comarca e da ria de Arousa. Todo isto baixo un discurso oficial de progreso verde e desenvolvemento sustentábel que vende Galiza como “refúgio climático”. A Galiza aparece sempre no mapa quando é conveniente extrair ou despejar: petróleo, celulosa, resíduos radioactivos, energia. Mas desaparece do mapa político quando é preciso protegêr, reparar ou decidir sobre a soberania dos seus recursos.

O Banco de Galiza, monte submarino situado a cerca de 200 km da costa galega, é um dos ecossistemas marinhos mais produtivos do Atlântico Norte. Riquíssimo em biodiversidade, é essencial para a sustentabilidade da pesca artesanal e industrial galega, e deveria ser reconhecido como uma joia ecológica de valor estratégico. Contudo, a realidade que nos foi imposta é a de um paradoxo tóxico: a apenas 678 km dali, jazem mais de 220.000 bidões de resíduos radioativos lançados no Atlântico durante décadas pela Europa nuclearizada com materiais de laboratório e roupas de proteção contaminados, resíduos da medicina, pesquisa e indústria, a resíduos de reatores nucleares. A área de despejo de resíduos nucleares no Atlântico — entre 600 e 1.000 km da costa galega — continua sem monitorização pública nem planos de descontaminação de nosso. A prática foi oficialmente proibida apenas em 1993. Atualmente, expedições científicas, como a liderada pelo navio francês L’Atalante em 2025, estão mapeando e avaliando o impacto ambiental desses resíduos, tendo já localizado milhares de tambores radioativos. A equipe internacional de 21 pesquisadores quer criar um mapa de todos os locais onde barris de lixo nuclear foram encontrados. Até o momento, pouco se sabe sobre o lixo nuclear no oceano e sua localização exata.Em moitos casos, faltam informações sobre a condição ou a localização exata dos tambores, e os dados sobre o tipo e a origem dos resíduos radioativos são frequentemente incompletos ou de difícil acesso.

Os bidões lançados ao Atlântico representam um exemplo brutal de “acumulação por descarte”: uma lógica capitalista onde o que não serve mais ao ciclo produtivo (o resíduo radioativo) é externalizado para as periferias do sistema — neste caso, o oceano e a Galiza atlântica, historicamente tratada como zona de sacrifício ecológico. A indústria nuclear europeia, sobretudo nos anos da Guerra Fria e o Fraquismo, operou dentro de um regime de produção que aceitava danos colaterais invisíveis desde que estes fossem empurrados para as margens geográficas, sociais e epistêmicas do centro imperial-capitalista. Esse legado invisibilizado de contaminação — ignorado sistematicamente polos poderes públicos — coloca em xeque a credibilidade da política ambiental do Estado espanhol e da Xunta de Galicia. O que está em causa não é apenas o passado, mas a forma como se escolhe olhar (ou não olhar) para ele hoje. A comparação com a gestão ambiental da empresa Altri — especialmente o caso do projeto industrial da macrocelulose em Palas de Rei (Lugo) — permite evidenciar os padrões estruturais de permissividade ambiental da Xunta e reforçar a crítica ao modelo de desenvolvimento que trata a Galiza como colônia de extração e vertedouro e total falta de sentido de urgência perante um risco latente. Por isso, a mesma Junta que ignora riscos reais e presentes, como a contaminação radioativa, é também a que promove com entusiasmo o projeto de macrocelulose da Altri em Palas de Rei — uma instalação industrial altamente poluente, apresentada como “verde” e “estratégica”, apesar da oposição maciça da comunidade local e da comunidade científica. A macrocelulose envolve o consumo de enormes quantidades de água, emissões poluentes e uma transformação radical do uso do solo. Tudo isto numa comarca rural que não pediu nem precisa deste modelo extrativista. A Xunta não só apoiou politicamente o projeto, como também facilitou os procedimentos, minimizou os impactos e ignorou os protestos sociais e ambientais contra o mesmo. Um exemplo claro de como os territórios periféricos são geridos: quando necessitam de ser protegidos, desaparecem; quando precisam de ser explorados, aceleram. A financeirização da natureza e os grandes projetos “verdes” impactam povos, comunidades tradicionais e territórios por toda parte.

Uma política de esquecimento e irresponsabilidade
Entre as décadas de 1950 e 1980 países europeus como o Reino Unido, Bélgica, Holanda, Suíça, Alemanha, França e Itália descartaram mais de 200.000 barris de material radioativo na chamada Fossa Atlântica, localizada a algumas centenas de quilômetros da Galiza com o beneplácito tácito dos estados europeus. A fossa abissal onde os bidões repousam situa-se entre 600 e 1.000 km da costa galega, numa zona sem monitorização ativa, sem transparência institucional e sem qualquer plano de remediação conhecido. A pergunta é inevitável: o que fez a Xunta de Galicia para avaliar ou reivindicar a monitorização desta ameaça? Qual é o grau de implicação do Estado espanhol, que deveria zelar pelo cumprimento dos compromissos internacionais em matéria de resíduos perigosos e pela integridade do seu próprio território marítimo? A resposta, até hoje, tem sido o silêncio. Um silêncio que naturaliza a marginalização da Galiza e revela o peso do colonialismo interno na política ambiental do Estado: enquanto certas regiões são protegidas e tratadas com zelo ecológico, outras — como a Galiza — são invisibilizadas, tratadas como zonas de despejo a céu (ou mar) aberto.

 

Os bidões lançados ao Atlântico representam um exemplo brutal de “acumulação por descarte”: uma lógica capitalista onde o que não serve mais ao ciclo produtivo (o resíduo radioativo) é externalizado para as periferias do sistema — neste caso, o oceano e a Galiza atlântica, historicamente tratada como zona de sacrifício laboral e agora também ecológico.

 

Banco de Galiza: riqueza ameaçada pela inação.
A distância de cerca de 678 km entre o Banco de Galicia e a zona de despejo não pode ser vista como segura num contexto de dinâmica oceânica, circulação profunda e risco de corrosão dos bidões. A possibilidade de libertação de radionuclídeos de longa duração — como césio-137 ou estrôncio-90 — coloca em risco os ecossistemas e a economia do mar galego. Neste cenário, não é admissível que a Xunta não tenha uma política pública clara de investigação, avaliação de risco e proteção específica dessa área. A sua omissão converte a Galiza não apenas em vítima, mas em território negligenciado dentro do próprio Estado. Essa distância, relativamente curta em termos oceânicos, representa o que o sistema vê como “seguro o suficiente” para despejar riscos longe dos centros de poder. A Galiza — historicamente marginalizada, tratada como colónia interna pelo Estado espanhol e a UE— torna-se, mais uma vez, zona de sacrifício invisível para manter a ilusão de limpeza do progresso europeu. A lógica é clara: os centros decidem, os periféricos sofrem. O que se esconde sob as águas profundas da costa galega é parte duma estratégia de acumulação por descarte — uma forma de capitalismo que gera valor à custa da contaminação das margens, externalizando riscos para quem não tem voz nos processos de decisão.

A Xunta não investiga, não informa e não actua, embora a proximidade ao Banco da Galiza e à economia piscatória deva fazer dela uma prioridade. Estamos a falar dum risco real, acumulado e intergeracional. A corrosão dos tambores e a possível mobilização de radionuclídeos representam uma ameaça para a biodiversidade, a saúde humana e o futuro marinho da Galiza. A inacção institucional é um claro exemplo de abandono territorial e de colonialismo ambiental: a Galiza continua a ser tratada como um espaço de extração e deposição ao serviço dos centros financeiros.

 

O paradoxo tóxico da modernidade verde

Hoje, os mesmos que defenderam a energia nuclear como solução “verde” para a crise climática omitem o que fazer com os seus resíduos. A Galiza carrega o fardo duma modernidade que vende tecnologias limpas sem contabilizar os seus danos “invisíveis”. A presença desses bidões, envelhecendo e corroendo-se sob pressão oceânica, representa uma ameaça permanente para os ecossistemas marinhos e para a saúde humana, via bioacumulação de radionuclídeos na cadeia alimentar. Mais do que um problema técnico, trata-se duma questão de justiça ambiental intergeracional. Quem autorizou estes vertidos? Quem se responsabiliza pela sua monitorização? Quem vai pagar polos seus efeitos futuros?

É um paradoxo cruel: enquanto a Galiza fornece recursos pesqueiros, energia e apoio ecológico ao Estado e à UE, o que recebe em troca é a poluição invisível, o esquecimento institucional e a inacção política. A Xunta gaba-se de estratégias de “crescimento azul”, mas não protege nem investiga a fundo os riscos que afetam diretamente o seu maior patrimônio natural: o mar. E o Estado espanhol, suposto garante do cumprimento dos acordos internacionais sobre resíduos perigosos, lava as mãos dum legado tóxico que é tanto seu como da indústria nuclear europeia.

 

É um paradoxo cruel: enquanto a Galiza fornece recursos pesqueiros, energia e apoio ecológico ao Estado e à UE, o que recebe em troca é a poluição invisível, o esquecimento institucional e a inacção política.

 

Inação absoluta face ao legado nuclear tóxico, ainda que afete um dos maiores tesouros marinhos do país. Ativismo político e institucional para impor um modelo industrial insustentável, disfarçado de verde, em zonas vulneráveis ​​do interior. Estes dous casos não são exceções: fazem parte do mesmo padrão estrutural. A política ambiental da Xunta não visa proteger o território, mas sim facilitar o acesso do capital aos recursos públicos, sem garantir a soberania ou a sustentabilidade.

O que exigimos.

Este manifesto é um apelo à ação. Um pedido de responsabilização. Um aturuxo que vem do fundo do mar. Exigimos:

Que Espanha, e especialmente a Xunta de Galicia, inicie investigação e monitorização para avaliar o impacto e a evolução destes resíduos no meio marinho (quem suportará os custos de tais medidas?).

Que o Estado espanhol reconheça publicamente esse passivo ambiental e o inclua nas suas estratégias de política marítima e gestão de resíduos.

Que se crie um protocolo interinstitucional com especialistas, mariscadoras, marinheiros, ecologistas, cientistas e entidades ambientais galegas para enfrentar o risco acumulado.

Que a Galiza seja reconhecida como sujeito político-ambiental pleno — com capacidade de decidir sobre o seu mar, a sua saúde ecológica e o seu futuro.

E como não há justiça ecológica sem justiça territorial.

Que a Xunta de Galicia suspenda, com efeitos imediatos, o projeto da macrocelulose de Altri.

A Galiza — assim como outras zonas costeiras da periferia europeia — tem sido tratada como colônia interna ambiental: um território útil para extração (pesca, energia, mão de obra migrante) e para descarte. A população local nunca foi consultada, nem teve acesso ao saber técnico e político que regulava esses depósitos — o que demonstra uma colonialidade do saber e do poder. A luta pela recuperação e preservação do Banco de Galicia é também uma luta pela dignidade da Galiza enquanto território sistematicamente marginalizado nas decisões que afetam a sua terra e o seu mar.

A política ambiental da Xunta não pode continuar a fingir que este problema não existe. E o Estado espanhol e a UE não podem continuar a esconder-se atrás de tratados antigos e omissões técnicas.

Não há futuro sustentável enquanto não forem enfrentados os resíduos do passado. E neste caso, os resíduos são nucleares — mas também são políticos e reproduzem-se e manifestam-se como formas de colonialidade.

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