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Obituário — 31 Maio, 2025 at 2:14 p.m.

Morreu o escritor e linguista Fernando Venâncio

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O linguista e escritor Fernando Venâncio faleceu aos 80 anos, conforme noticiado pelo Público em 30 de maio de 2025. Venâncio era uma figura destacada no campo da linguística e da literatura, conhecido por suas contribuições para o estudo da língua portuguesa e por sua produção literária.

Nascido na vila alentejana de Mértola en 1944, Fernando Venâncio dedicou-se a questões como a história da língua portuguesa, a variação linguística e a relação entre língua e identidadef nos Países Baixos, onde viveu, trabalhou e desenvolveu estudos históricos sobre a língua galego-portuguesa. Além de sua carreira acadêmica, era um escritor ativo, com obras que transitavam entre o ensaio e a ficção. A sua morte representa uma perda significativa para a cultura portuguesa, especialmente no domínio da linguística e da reflexão sobre a língua galega. A sua visão era clara: defendia que o galego e o português são a mesma língua, separados por razões políticas e históricas, não linguísticas.Para Venâncio, a separação entre galego e português foi um processo artificial, imposto pela dominação castelhana na Galiza a partir do século XV. Argumentava que, linguisticamente, o galego atual é uma variante do português, tal como o alentejano ou o açoriano.

«[…] Faço isto porque acho importante que Portugal conheça a Galiza. […] Nós somos, nós existimos, porque nos separámos da Galiza. […] A Galiza não existe, e não só na mente do português médio, nem na maior normalidade da cultura portuguesa. […] Neste contexto é preciso agir e penso que este trabalho que estou a fazer vai surpreender os portugueses. As pessoas não podem começar por dizer que nos esquecemos da Galiza e culpar-nos pela nossa ignorância. Esse não é o melhor caminho. O que faço é tentar surpreender o público português, divulgando uma realidade da Galiza que está longe de se imaginar. […] Vejo uma Galiza moderna, que faz música do nosso tempo em galego, que faz teatro do nosso tempo em galego, e rádio, banda desenhada de interesse internacional, blogues em sítios tão atrativos como o Portal da Língua Galega ou o Vieiros. Portugal desconhece hoje o dinamismo cultural galego, e estes são alguns exemplos disso. Quero que os portugueses descubram que têm uma sociedade tremendamente dinâmica no norte do país e que falem da facilidade de comunicação, da importância da língua. […] Como linguista, posso afirmar que o português e o galego são a mesma língua. No entanto, sei que, do ponto de vista social, isto é uma provocação e, por isso, não o faço, porque também sei que é igualmente justificável ver o galego e o português como duas línguas; e não porque o galego se esteja a afastar ou porque nós nos estejamos a afastar: o facto é que nos estamos a afastar um do outro. Portanto, não é o galego mais autêntico, nem o português. Após a separação política, a nossa língua entrou em processos divergentes que são perfeitamente compreensíveis. O galego e o português conheceram uma avalanche de influência castelhana durante séculos. O castelhano influenciou o galego de uma forma e o português de outra. […] Também é verdade que a abertura da língua galega ao contacto com o português abre um mundo de 200 milhões de falantes, e isso é benéfico para o galego. […] Felizmente, há pessoas que usam o galego autêntico e têm uma maior capacidade de absorção do que o castelhano. Só nos últimos anos é que comecei realmente a compreender o que está a acontecer na realidade. Antes, não fazia ideia disto, e o português médio também não, nem mesmo os portugueses de elite. […] Do ponto de vista estritamente jurídico, o galego é uma língua regional europeia; e o catalão e o basco são línguas internacionais, faladas em mais do que um Estado. No entanto, o galego tem um aspeto quase único dentro das línguas regionais europeias, que o catalão ou o basco não têm: a possibilidade de aproximação ao português. Assim, o galego pode ser visto como uma língua regional, como uma das línguas espanholas, como diz a Constituição; ou como uma forma de língua que se conhece como português, e desta perspetiva é uma língua internacional. […]» La Voz de Galicia, 26/08/2006, Culturas, p.10

Criticava a norma ortográfica da Real Academia Galega (RAG), que se aproxima do castelhano. Via nisso uma “castelhanização” da língua, em vez de uma evolução natural a partir do galego-português. Era favorável ao movimento reintegracionista, que defende a escrita do galego segundo as normas do português e considerava que a aproximação ao português seria a forma mais lógica de preservar a identidade linguística galega. Em obras como “Assim Nasceu Uma Língua” (2020, distinguido com o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho), mencionava que a Galiza fazia parte do mesmo espaço linguístico que Portugal, antes da divisão política. Chegou a afirmar que, se não fosse a Reconquista e a formação de Portugal, o galego moderno seria hoje simplesmente “o português da Galiza”. Numa entrevista ao Público (2021), disse: “O galego é português maltratado pelo castelhano. A norma oficial galega é uma rendição.” 

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