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Cedeira | Hoje, 16 de Maio,às 18h30, a Madalena chama: “Paremos as obras da praia!”

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A emergência de uma mobilização cidadã sob a plataforma SOS Praia da Madalena  (@sospraiadamadalena) é um sintoma mais do mal-estar em Cedeira ante as transformações do litoral, somando-se a outras vozes críticas de longa data. A recente aparição deste coletivo é uma iniciativa louvável que mobiliza os cidadãos contra as obras na praia, convocando uma protesta nesta quinta-feira, 16 de Maio, às 18h30, na “entrada” da praia da Madalena em Cedeira, promovendo até a participação virtual através de sosmadalenacedeira@gmail.com  contra a nova intervenção promovida sob o pretexto de “regeneração ambiental”. Trata-se de uma oportunidade importante para tornar visível a precupação perante mais uma tentativa de maquilhar a destruição progressiva do litoral com areia alheia e promessas recicladas. Este descontentamento não é novo. Já foi amplamente diagnosticado em artigos informes e notas de reflexão como “Sanxanxenizar a praia, a ría e a vila de Cedeira” ou nos dossiês reunidos polo portal Ollaparo.gal, onde se pode encontrar a memória crítica da plataforma Somos Cedeira, ativa desde 2013.

O projeto — aprovado polo Ministério para a Transição Ecológica com base na Declaração de Impacto Ambiental BOE-A-2023-9282 — prevê dragar 50.000 m³ de areia em Langosteira, transportá-la até Cedeira, remover tarais e redesenhar o perfil natural da praia. Uma intervenção com impacto ambiental “não significativo”, segundo as autoridades. A ironia, como se vê, também é um recurso técnico.

Surpreende, contudo, que esta nova mobilização pública não tenha estabelecido uma ligação explícita com essas experiências anteriores. O movimento parece surgir num vácuo, como se a história tivesse começado agora, e como se não houvesse já um acervo coletivo de denúncias, propostas e resistência organizada.

A importância de estar hoje no areal

A presença hoje nos maruzós não é apenas um gesto simbólico. É um recado claro às instituições: não queremos mais decisões unilaterais, nem projetos descontextualizados que ignoram, para além da instrumentalização economicista a curto prazo, a complexidade ecológica, cultural e social da Madalena e da ria de Cedeira. A mobilização popular é, neste momento, a única forma de interromper um ciclo de obras ineficazes, gastos públicos mal justificados e processos opacos.Por isso, sim, é fundamental apoiar a mobilização desta tarde. Mas também importa saber de onde vimos e quem já alertou para o que agora se tenta, mais uma vez, impor à força.

Um protesto necessário, mas ainda sem rumo estratégico

A convocatória para hoje, véspera do dia das Letras Galegas, em protesto contra as obras previstas na praia da Madalena, é uma oportunidade legítima e necessária de manifestar o desagrado popular. Falamos de uma intervenção que inclui o transporte de 50.000 metros cúbicos de areia desde o porto exterior da Corunha, a remoção de vegetação costeira e a modificação forçada da morfologia da praia — um projeto que, como mostra a própria Declaração de Impacto Ambiental publicada no BOE-A-2023-9282, está longe de ter fundamentação técnica sólida e ignora as dinâmicas ecológicas locais.

A atual plataforma SOS Praia da Madalena surge num contexto de descrença generalizada face à governação autonómica, local e estatal. Mas seria um erro — e uma injustiça — esquecer que esta luta tem história. Desde 2013, a plataforma cidadã Somos Cedeira denunciou tecnicamente, juridicamente e publicamente os efeitos das dragagens, a destruição das dunas, a contaminação do Condominhaas e o uso instrumental do litoral para fins turísticos e eleitorais. Ignorar esse legado fragiliza a resistência e impede que se avance. Seria mais útil que a convocatória de hoje tivesse incluído essa memória coletiva, não por formalismo, mas porque já muito foi feito, dito e aprendido. Fingir que tudo começa agora é repetir a lógica institucional que apagou as vozes críticas dos últimos anos.

No entanto, esta mobilização corre o risco de se limitar a uma reação simbólica, sem tradução numa estratégia mais robusta de defesa do território, se não for capaz de se articular com os saberes e lutas já existentes. Ignorar o trabalho acumulado de plataformas como Somos Cedeira ou das análises de Ollaparo.gal é desperdiçar um património de conhecimento cívico, técnico e político que poderia fortalecer a causa atual. Embora a plataforma faça um apolo legítimo à ação imediata, seria aconselhável incorporar uma visão mais ampla, ligando a defesa do espaço natural ao debate sobre o modelo de desenvolvimento e à especulação. A ausência de referências a estes debates anteriores pode enfraquecer profundamente a sua afirmação.

Entre promessas incumpridas e silêncios convenientes

A nova plataforma surge num contexto marcado pola crescente desconfiança face à governação local. O executivo liderado por Pablo Diego Moreda Gil (PSOE) já teve múltiplas oportunidades de repensar os modelos de intervenção costeira. Contudo, optou por manter os planos herdados dos ciclos anteriores — nomeadamente do mandato de Luis Rubido Ramos (PP) — reforçando a perceção de continuidade na ausência de transparência e escuta. Ja nao colam as mentirinhas na imprensa quando  Moreda di que vai “volver ao 1956”…. Impossível porque Cedeira construiuse acima do areal e o “basculamento” é natural, aparece em 1956, em centenas de fotos, e nas cartas de 200 anos. O que mudou todo foi o Urbanismo Salvagem!

8 Setembro, 2016

Esse ciclo de promessas não cumpridas explica, em parte, a fragmentação atual das acçoes. É difícil articular unidade quando quem ontem se manifestava contra um modelo hoje o executa no poder. É o caso, discretamente visível, de figuras que participaram em protestos anteriores organizados por Somos Cedeira — hoje integradas no governo local em silêncio perante um projeto que antes criticavam. Não se trata de personalizar o conflito, mas de exigir coerência e responsabilidade política. A cidadania tem o direito — e o dever; onde estavam aqueles que agora clamam com uma sensação de urgência agonizante em 2014? — de exigir explicações a quem mudou de posição sem justificar porquê. As imagens estão disponíveis nas hemerotecas e redes sociais, e ilustram bem como a política local também sofre de amnésia seletiva.O alcalde Moreda (PSdeG) já nos enganou antes. E José de Vigo deve explicar por que mudou de parecer.

Críticas e preocupações locais
Apesar das intenções declaradas, a intervenção continua causando ainda mais preocupação e oposição entre os residentes e algumas vozes locais. Segundo as autoridades, o projeto inclue a construção de um quebra-mar de 77 metros para estabilizar a linha de costa e evitar a deslocação do sistema dunar; um total de mais de 50.000 metros cúbicos de área provém do porto exterior de Punta Langosteira;canalização do rio Condominhas e do regato Veiga;revegetação com espécies autóctones para preservar e valorizar a biodiversidade do espaço e da sua envolvente, incluindo a Reserva Marinha de Interesse Pesqueiro de Ría de Cedeira;e stas ações procuram, segundo o Ministério da Transição Ecológica, restaurar e conservar a praia face aos fenómenos erosivos e ao impacto das alterações climáticas. Porém,

SOS Praia da Madalena de Cedeira iniciou uma recolha de sinaturas no Change.org para paralisar a intervenção, argumentando falta de informação e transparência sobre o projeto.

O naturalisto Rafael López Loureiro critica que o estudo de impacto ambiental dispensa apenas uma visita à área de intervenção, sem catalogar adequadamente a biodiversidade existente, como a presença de várias espécies de orquídeas.

O levantamento da área de Punta Langosteira também levanta dúvidas, uma vez que não foi realizado um estudo comparativo da composição química e mineralológica das áreas para garantir a compatibilidade ecológica com o estuário de Cedeira.

O abate de árvores e a modificação do sistema dunar existente são vistos por alguns como a destruição de um ecossistema que, embora não seja exemplar, afecta a sua própria riqueza biológica e singularidade.

Se SOS Praia da Madalena pretende ir além de um momento catártico e construir uma frente duradoura de resistência eficaç perante uuma intervenção altamente invasiva já em curso, terá de assumir três compromissos essenciais:

  • Recuperar o fundo de conhecimento que se foi gerando
  • Recolher e integrar os contributos de iniciativas anteriores é não só um gesto de justiça política, mas também uma forma eficaz de acelerar aprendizagens, mobilizar alianças técnicas e evitar erros repetidos.
  • Exigir responsabilidade política
  • A denúncia não pode permanecer no plano genérico. O presidente da câmara deve ser publicamente interpolado sobre as obras. Os membros do governo municipal que ontem criticavam tais práticas devem explicar o que mudou, para que a cidadania possa formar juízos informados.
  • Construir unidade popular com propostas concretas
  • Protestar é necessário, mas insuficiente. É preciso avançar para a exigência de uma moratória das obras, promover consultas populares e abrir um espaço permanente de escuta e decisão cidadã sobre o litoral de Cedeira.

Protestar sim, mas também propor. A mobilização só ganhará força se for acompanhada de exigências claras:

  • Moratória imediata das obras
  • Estudo técnico e ambiental independente
  • Consulta popular vinculativa
  • Revisão do modelo turístico e urbanístico da vila
  • Participação real da comunidade em decisões sobre o território

Salvar a Madalena não é só impedir uma obra. É impedir que se repita, sob nova linguagem e hashtags reluzentes e chamados ben-intencionados polo whatsapp, o mesmo velho modelo. Três pontos para não repetir o ciclo “protesta-desmobiliza-esquece”.

Concluindo, o SOS Praia da Madalena é um passo positivo que não admite dúvida e que desde aqui apoiamos e chamamos á mobilização, mas deve ligar as vozes críticas existentes para fortalecer a sua base argumentativa e evitar cair  mais uma vez no esquecimento estacionário. Uma praia não é apenas um espaço físico, mas um símbolo da relação entre a comunidade e o seu meio cultural e social envolvente. As críticas acumuladas há mais de 10 anos apontam para a falta de estudos detalhados e possíveis impactos negativos na biodiversidade e na paisagem. Por isso, é fundamental uma maior transparência e uma real participação dos cidadãos para garantir que as intervenções contribuem realmente para a conservação e melhoria do ambiente natural de Cedeira e não para a sua instrumentalização estacionária em benefício de poucos até à sua total artificialização (aquilo a que aqui chamamos sanxenização da ria e da praia). Décadas de advertências estéreis. Agora algo se está a mover entre a gente. Bem-vidos!

#SOSPraiaDaMadalena #Cedeira #Galiza


Para saber mais, aquí tes uma escolma de artigos publicados en Ollaparo.gal relacionados com a Madalena e a Ria de Cedeira

 

Ollaparo. (2013, 3 de outubro). Somos Cedeira apola a informes xurídicos da Xunta Consultiva de Contratación Administrativa. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2013/10/03/somos-cedeira-apola-informes-da-xunta-consultiva-de-contratacion-administrativa/

Ollaparo. (2014, 16 de xaneiro). Somos Cedeira e ADEGA piden apoio para salvar a praia de Cedeira. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2014/01/16/somos-cedeira-e-adega-piden-apoio-para-salvar-a-praia-de-cedeira/

Ollaparo. (2014, 20 de marzo). Adega e Somos Cedeira reafirman a súa visión alternativa fronte á intención de Costas e o Concello de Cedeira de soterrar unha reserva mariña antes do verán. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2014/03/20/adega-e-somos-cedeirar-reafirman-a-sua-vision-alternativa-fronte-a-intencion-de-costas-e-o-concello-de-cedeira-preven-soterrar-unha-reserva-marina-antes-do-veran/

Ollaparo. (2014, 9 de abril). Adega e Somos Cedeira farán unha charla-coloquio para informar do problema da praia. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2014/04/09/38191/(Ollaparo)

Ollaparo. (2014, 12 de abril). Adega e Somos Cedeira convocan o día 17 unha concentración reivindicativa baixo o lema “Salvemos a praia de Madalena”. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2014/04/12/adega-e-somos-cedeira-convocan-o-dia-17-unha-concentracion-reivindicativa-baixo-o-lema-salvemos-a-praia-da-madalena/

Ollaparo. (2014, 22 de marzo). Somos Cedeira e ADEGA convocan unha concentración o 17 de abril baixo o lema Salvemos a Praia. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2014/03/22/somos-cedeira-e-adega-convocan-unha-concentracion-o-17-de-abril-baixo-o-lema-salvemos-a-praia/

Ollaparo. (2014, 24 de marzo). Somos Cedeira e Adega convocan unha charla-coloquio o 11 de abril. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2014/03/24/somos-cedeira-e-adega-convocan-unha-charla-coloquio-o-11-de-abril/

Ollaparo. (2017, 16 de xaneiro). ADEGA e Somos Cedeira deixarán de participar na Plataforma en Defensa da Ría de Cedeira. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2017/01/16/adega-e-somoscedeira-deixaran-de-participar-na-plataforma-en-defensa-da-ria-de-cedeira/

Ollaparo. (2017, 13 de outubro). A voltas coa factura da auga [2]. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2017/10/13/a-voltas-coa-factura-da-auga-2/(Ollaparo)

Ollaparo. (2014, 30 de agosto). O goberno “popular” de Cedeira segue desbaratando recursos coa conivencia da deputación da Coruña. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2014/08/30/o-goberno-popular-de-cedeira-segue-desbaratando-recursos-coa-conivencia-da-deputacion-da-coruna/(Ollaparo)

Ollaparo. (2023, 14 de decembro). Delegado do governo espanhol confirma em Cedeira a licitação definitiva dum dique que certifica a desfeita da praia da Madalena. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2023/12/14/delegado-do-governo-espanhol-confirma-em-cedeira-a-licitacao-definitiva-dum-dique-que-certifica-a-desfeita-da-praia-da-madelana/(Ollaparo)

Ollaparo. (2024, 1 de abril). A Madalena: o quebra-mar não é a solução. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2024/04/01/a-madalena-o-quebra-mar-nao-e-a-solucao/Ollaparo

Ollaparo. (2023, 14 de decembro). Delegado do governo espanhol confirma em Cedeira a licitação definitiva dum dique que certifica a desfeita da praia da Madalena. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2023/12/14/delegado-do-governo-espanhol-confirma-em-cedeira-a-licitacao-definitiva-dum-dique-que-certifica-a-desfeita-da-praia-da-madelana/

Ollaparo. (2023, 21 de abril). Sanxanxenizar a praia, a ria e a vila de Cedeira. Ollaparo.gal. https://ollaparo.gal/2023/04/21/sanxanxenizar-a-praia-a-ria-e-a-vila-de-cedeira/

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