Nasceu de uma faísca no Dia do Orgulho em Cedeira e tornou-se um espaço vivo de resistência, afeto e luta coletiva. A agora Associação Mestas fala sobre visibilidade, redes de apoio, o peso do silêncio institucional e a urgência de ocupar o espaço público com poesia, corpo e festa. Uma conversa sobre dissidência, cuidado e o sonho de criar raízes onde antes só havia exílio interior.

Como nasceu Mestas? Como se organizou e disse: “basta, precisamos de um espaço nosso”?
O Mestas, realmente, nasceu de uma reunião que se realizou com pessoas do Concelho de Cedeira para fazer um vídeo sobre o Dia do Orgulho. Lá, todas as pessoas que participaram consideraram uma ótima ideia celebrar este dia na vila. Começamos como uma plataforma ativista e, a partir desta quinta-feira, dia 27, somos oficialmente uma Associação. Esta ideia de celebração nasce da necessidade que sentíamos de não ter rede de apoio ao grupo, víamos que faltava um espaço seguro, um local onde pudéssemos estar sem medo.
Qual foi o papel do Dia do Orgulho do ano passado? Foi uma faísca ou houve lume antes?
O lume já lá estava antes, sempre fomos pessoas moi guerrilheiras e não conseguíamos ficar caladxs sobre nada, mas o Orgulho do ano passado foi o momento em que saímos daquele círculo em que estávamos e realmente fixemos uma verdadeira comunidade. Foi a primeira vez que a nossa aldeia viu algo do género e também a primeira vez que muitos de nós nos sentimos vistos, respeitados e até lisonjeados pelo nosso bairro. Como disse e bem, foi uma faísca que acendeu algo muito maior e agora ninguém nos pode parar.
Como é crescer ou viver em Cedeira sendo LGTBIQ+? Há mais medo ou mais força?
Depende da época em que viveu. Houve um antes e um depois em que alguns de nós (que continuamos a viver na vila), depois de sofrermos o que sofremos, decidimos viver as nossas vidas como qualquer outra pessoa na aldeia, independentemente do que as pessoas dissessem. Antes disso, moitas pessoas tinham saído porque sentiam que não podiam viver livremente aqui. Mas também há muita força. O facto de estar aqui, de não se esconder, de criar este espaço, é prova disso. Por isso dizemos que depende muito do momento que se viveu, graças a isso houve um antes e um depois onde agora é muito mais fácil ser quem se quer ser, sabe-se que há pessoas que estão sem que nada aconteça.
Quais são as violências ou silêncios que mais doeram até agora?
Esta resposta pode variar consoante quem responde… Há muito silêncio em todas as instituições, que fazes o secundário e não tens referências afeta o teu ser, sentes-te vazio, que estás sozinho na cidade e que ninguém te pode ajudar. Já o mundo da violência é algo muito comum, não é só físico, os insultos, as ameaças, o facto de ignorar e isolar uma pessoa são também um ato de violência e todo isto continua a acontecer constantemente.
E a genta moça? Estão a quebrar mais moldes?
Sim, mas a verdade é que vemos dous lados moi marcados, há uma nova geração que chega com mais coragem, que não se deixa pisar tanto por certas coisas, mas também continua a encontrar obstáculos com o outro lado destas novas gerações. Digamos que disparam mais
do lado do isolamento e da extrema-direita. Hoje podemos falar mais sobre diversidade, mas isso não significa que seja fácil vivê-la.
Dixestes estar à procura de “visibilidade e espaço”. O que vos foi negado até agora?
Quando dixemos que procuramos visibilidade e espaço, estamos a falar de uma necessidade que nós, pessoalmente, consideramos moi básica: poder ser, estar e viver sem medo, sem vergonha e sem sentir que estamos a perturbar a vila. Durante moito tempo, aqueles de nós que pertencem ao coletivo viram todo isto negado. Fomos invisíveis, ridicularizados e simplesmente ignorados. Não víamos referências, não falavam de nós, e quando acontecia, era quase sempre baseado no preconceito ou no estereótipo, e todo isto pesava moito para nós porque se não vês ninguém coma ti, acabas por pensar que quem não se enquadra na sociedade és tu.
Por isso queremos visibilidade: para que quem vem atrás não tenha de se esconder. Queremos espaço: não um recuncho, mas estar no meio, partilhando, criando, construindo em conjunto. Queremos viver com orgulho, sem pedir desculpa por existir.
Sentiram-se parte da vila ou, por vezes, como se estivéssemos emprestados?
Bem, há dias em que sim, e há dias em que nem por isso. Sentimo-nos parte da cidade porque este é também o nosso lugar: crescemos aqui, temos memórias daqui, amamos loucamente a nossa cidade. Mas às vezes parece que temos de estar quietos, que se não nos conformarmos com determinadas regras atrapalhamos um pouco. Como se só se pudesse viver de uma forma muito específica e o resto fosse estranho ou incómodo. Queremos romper com isso e dizer: não somos emprestados, este lugar também é nosso.
O que significa ocupar o espaço público com a vossa presença?
Significa viver sem medo. É poder sair à rua sendo quem somos, sem disfarces, sem baixar a voz, sem desviar o olhar. Significa estar presente e não se esconder. Porque muitas vezes aprendemos a reduzir-nos, a tornar-nos pequenos, para não incomodar. E ocupar o espaço é fazer o contrário: existir com orgulho, com sorriso, com cartaz, com poema, com abraço e, por que não, com festa.
Começa-se com um livro poderoso sobre a dissidência sexual na Galiza. Que lugar dá à palavra, à arte, à cultura na loita?
Como diz Manuel Rivas, “A palavra é casa. A arte é refúgio.” Aquele livro abriu-nos caminho, colocou-nos perante outras histórias que também vieram do campo, de pessoas como nós, pessoas que foram historicamente silenciadas. A Cultura ajuda-nos a não esquecer de onde viemos e a imaginar para onde queremos ir.
Falede-nos do manifesto poético: o que quer dizer, berrar, o que se pretende afirmar nele?
O manifesto é um grito que vem do peito de todos nós, uma necessidade que sentimos e que precisamos fazer. É uma forma de colocar em palavras todo o que às vezes dói, mas também todo
aquilo que sonhamos Queremos dizer que existimos, que amamos como todos os outros e que é assim que construímos a beleza. Queremos ter uma voz coletiva que diga: estamos cansados de estar calados, cansados de ouvir como temos de ser e da mesma forma, queremos abraçar, contar, celebrar. O manifesto é este: palavra viva e amor rebelde.
A luta LGTBIQ+ é também uma luta contra que mais? O patriarcado? Capitalismo? Centralismo urbano?
Sim, totalmente. A nossa luta vai muito para além da orientação ou da identidade. Lutamos contra um sistema que nos quer dóceis, produtivos, em forma. O patriarcado diz como devemos amar; o capitalismo marca quanto valemos de acordo com o que produzimos; e o centralismo faz com que todo o que não é cidade seja silenciado. Dizemos não: queremos cuidado, tempo, laços reais. Queremos habitar o campo sem nos sentirmos invisíveis. Habite os urbanos para que nos vejam bem.
São o primeiro grupo na área. Pensa tecer redes com outros locais da Galiza?
Sim, claro. Sabemos que não estamos sós e queremos encontrar quem também faga cousas noutros lugares como já fazemos com Ferrol, Lugo, A Corunha… Porque quando nos juntamos, apoiamo-nos, aprendemos e ficamos mais fortes. Queremos que Mestas faga parte de uma rede e que cada encontro nos lembre que resistimos porque nos temos uns aos outros.
Como sonha o futuro do Mestas? O que quer semear aqui?
Sonhamos um Mestas cheia de vida, de encontros, de risos, de conversas destemidas. Sonhamos com um lugar onde as crianças podam crescer sabendo que não existe uma forma única de ser ou de amar. Queremos semear a liberdade, o respeito e a comunidade. Um futuro onde não é necessário explicar tanto, porque a diversidade já é entendida como fazendo parte da vida. Queremos ficar aqui e criar raízes, e não sair porque não nos enquadramos.
Se tivesses de enviar uma mensagem a quem se sente só, desconectada ou deslocada.. o que lhe diria?
Diria-lhe que não está só. Que também sentimos isso, aquela sensação de não nos encaixarmos em lado nenhum mas que aos poucos, quando se encontra alguém que nos compreende, todo muda, parece um vída completamente diferente. Todas nós já sofremos o suficiente para as gerações vindouras. Eu diria: procura-nos, escreve-nos, fala connosco e vive livre. Venha tomar um café com bolos ou ler um poema connosco. Não precisa de explicar nada, nós já o compreendemos e queremos caminhar contigo e que tezas redes livremente.
