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Opinião, Pensamento — 23 Decembro, 2024 at 3:34 p.m.

Espiritualidades de fim de ano

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Hoje, a nosso pequeno incomodo  de classe, sob a causa palestiniana, deve ser alvo de reflexão e de provocação. Será que estamos realmente a lutar por esta causa?Temos de assegurar que os nossos discursos não sejam também o produto de um silenciamento global. A compreensão internacionalista deve envolver-nos em acções que denunciem o genocídio. O imperialismo é apoiado por este silêncio, que pode ser quebrado não só pelas lutas no terreno no Médio Oriente, mas também pola solidariedade de classe internacional.Destacar a nossa contribuição para a causa palestiniana significa também sair de cena, por vezes imersa em agendas corporativas, e trazer para o diálogo público a unidade em torno do nosso projeto de sociedade. A construção de uma outra ordem possível nasce da situação atual dos povos que lutam, resistem e sofrem a violência do imperialismo.Precisamos de articular mediações reflexivas entre o que vive o povo palestiniano.Como é que nós, enquanto coletivo, vamos abordar o papel do imperialismo? Como é que a expansão global desta fase do capital afectou as nossas vidas, os nossos sentimentos e a nossa espiritualidade? Como é que os efeitos do capitalismo afectam as alterações climáticas e amplificam o racismo ambiental até minar-nos por dentro?

Questões que ultrapassam o âmbito deste texto, da causa Palestina, que hoje continua a ser  laboratório de testes bélicos, químicos, imobiliários, industriais e expansionistas.

Um momento paradoxal para refletir sobre espiritualidade, não é?. Por um lado, o Natal seica é uma data  espiritual; por outro, é também uma ocasião festiva, mais propensa a encontros e trocas de presentes do que a contemplações filosóficas. Ainda assim, talvez seja apropriado lançar essas ideias na lareira  limpa e varrida para o tizón, como faiscas na lareira que embora frágeis como lume novo de Natal, trazem consigo um convite à reflexão mesmo quando temos a certeza de que as dicotomias como o sagrado versus o secular,  são construções culturais modernas. Isso entra em tensão com a nostalgia de Han por um “retorno ao sagrado”. O cenário atual revela vieiros de busca cada vez mais fragmentados e efêmeros. Meio século atrás, por exemplo, a contracultura dos hippies abraçava espiritualidades orientais em detrimento das tradições ocidentais. Hoje, o apelo espiritual foi substituído por uma mistura de comida rápida intelectual e autoajuda disfarçada de estoicismo. O que antes era um sistema filosófico robusto, representado por pensadores como Marco Aurélio, esluido em clichês adaptados para o consumo rápido nas redes sociais. Porém, as redes sociais não criam também formas de interação e construção de significado? Frases como “aceitar o que não se pode controlar” são elevadas a máximas de sabedoria, enquanto o estoicismo é transformado em uma tendência entre influenciadores digitais, rivalizando em popularidade com o budismo e a cabala feita à medida do neoliberalismo banal e transformada em um mantra que legitima a resignação diante de desigualdades, crises e injustiças sistêmicas.

Byung-Chul Han chama-lhe optimização do cidadão virado em “empresário de si mesmo” que o sujeito neoliberal internaliza como lógica da produtividade, levando a uma perda de sentido existencial. Assim como Nietzsche vê o niilismo como uma crise de valores causada pelo colapso de fundamentos religiosos, Han identifica uma nova forma de niilismo, onde a busca incessante por desempenho substitui a reflexão sobre o sentido da vida. A secularização não apenas elimina Deus, mas também esvazia o mundo de experiências que conferem profundidade e significado. Essa apropriação do estoicismo pode ser vista como uma resposta às ansiedades de uma sociedade marcada por crises constantes – econômicas, climáticas, políticas. Contudo, ao ser moldado para atender às demandas do neoliberalismo, o estoicismo banalizado perde sua capacidade de oferecer uma crítica verdadeira ao status quo, tornando-se, em vez disso, um reforço ideológico.  Nada a ver com a filosofia estoica: porque acadar afouteza ética e virtude perante a vida precisa treinamento e  não a pedagogia blandiblú, tècnica e IA (a trindade pós-moderna) que os alunos recebem no sistema educativo das boas vibrações.  

O mundo, na era digital, torna-se superficial e fragmentado, reforçando o vazio existencial. Mas não é bem assim. A busca pola transparência total, promovida por redes sociais e tecnologias digitais, destrói o “negativo”, ou seja, o que é oculto, inacessível e essencial para o sagrado. Han defende que a espiritualidade está sendo substituída por uma lógica de exposição e consumo. A modernidade potencia uma incapacidade de lidar com o invisível e o transcendente, substituindo o mistério pola lógica instrumental. Isso ressoa com a crítica de Nietzsche à secularização como uma redução do mundo à utilidade e que atomiza o indivíduo, reforçando a ideia de que o sucesso ou fracasso depende exclusivamente de sua capacidade de controlar emoções e pensamentos, enquanto desvia o olhar das condições estruturais que moldam sua realidade. Nas complexas e frequentemente difíceis periferias das grandes metrópoles europeias, onde a diversidade étnica se torna uma característica marcante, emergem dinâmicas sociais e culturais que desafiam interpretações simplistas. Han não rejeita a espiritualidade; ele busca formas de reconectá-la à experiência contemporânea. Em A Expulsão do Outro (2016), sugere que a redescoberta do “Outro” (aquilo que é diferente, ignoto ou transcendente) é essencial para superar a crise existencial da modernidade. Porém, a saudade por uma “espiritualidade perdida” ignora as desigualdades e exclusões associadas às sociedades que valorizavam o transcendente e foca exclusivamente nos aspectos subjetivos. Embora Han critique extensivamente o neoliberalismo, ele não explora suficientemente suas bases econômicas ou as forças estruturais que sustentam esse sistema. Suas análises são mais focadas nos efeitos culturais e subjetivos do neoliberalismo. Hartmut Rosa, conhecido por sua teoria da “ressonância” e pola análise da aceleração social, diverge de Han ao enfatizar as possibilidades de conexão e ressignificação mesmo em contextos modernos acelerados. Como as abordagens excessivamente pessimistas que ignoram os potenciais positivos das transformações sociais contemporâneas. Rosa sugere que mesmo na sociedade moderna acelerada, existem espaços e práticas que podem gerar ressonância, como iniciativas comunitárias, movimentos ambientais, práticas artísticas e novos modos de engajamento social. Ao focar excessivamente nas consequências negativas da aceleração social e da digitalização, deixamos de explorar suas possibilidades emancipadoras?

Entre essas dinâmicas, observa-se um curioso retorno ao catolicismo por parte de alguns cidadãos de origem europeia, frequentemente uma minoria em bairros onde a presença da comunidade muçulmana é particularmente evidente. Esse fenômeno, longe de ser apenas uma percepção subjetiva, encontra respaldo em dados concretos: em 2023, foram registrados 5.463 batismos de adultos na França, um aumento significativo de 21% em relação ao ano anterior. Em 2021, esse número era de 3.639, indicando um crescimento impressionante de 50% em dous anos. Esses dados não podem ser ignorados como meras anedotas; são indicadores relevantes de uma tendência em ascensão. Assim  Jean-Louis Schlegel, sociólogo das religiões, destaca a contradição de que esses batismos ocorrem em uma Igreja enfraquecida e abalada por escândalos, o que torna o fenômeno ainda mais surpreendente.

Para alguns analistas, essa reaproximação com a fé cristã seria menos um movimento espiritual e mais um gesto de afirmação identitária ou cultural. A ideia seria reforçar ou mesmo construir do zero um vínculo social que oferecesse coesão em meio à pluralidade, ecoando o sentido original da palavra “religião” – derivada do latim religare, que significa “jungir” ou “unir”. A religião continua sendo um marcador de identidade em sociedades multiculturais. As comunidades cristãs e muçulmanas respondem de maneiras distintas às mesmas pressões sociais e culturais.O retorno ao catolicismo nas periferias urbanas não pode ser entendido isoladamente de seu contexto social mais amplo. Em bairros onde a diversidade étnica e religiosa é evidente, a identidade religiosa muitas vezes se torna um espaço de afirmação e resistência. Para alguns cidadãos de origem europeia, a prática religiosa católica pode ser uma forma de reconstruir uma identidade que percebem como ameaçada ou diluída pola coexistência com comunidades muçulmanas ou outras minorias religiosas.

No entanto, assumir tal perspectiva de forma categórica parece, além de imprudente, desrespeitoso para com as motivações individuais de quem escolhe trilhar esse caminho. A história nos mostra que a espiritualidade é um território complexo e diverso. O batismo, em particular, é um rito com profunda carga simbólica e espiritual. Para os cristãos, não é apenas um evento social, mas uma experiência transformadora que transcende o material e penetra o metafísico. Contudo, em tempos de distanciamento crescente entre a Europa e a religião – um afastamento que, segundo Emmanuel Todd, representa o “estado zero da religião” –, a busca por sentido parece ganhar formas inusitadas. Para Todd, esse “estado zero” é um marco sociológico em que a religião deixa de desempenhar um papel estruturante nas interações sociais, nas normas culturais e nas dinâmicas políticas, resultando em uma sociedade onde a fé, embora não extinta, é relegada ao plano individual ou simbólico, sem o impacto coletivo que historicamente exercia. Apesar do avanço da secularização, muitas vezes coexistem movimentos de retorno às tradições religiosas ou de reafirmação identitária, como os batismos de adultos ou conversões. Evidentemente, a visão de Todd não considera a capacidade das sociedades de se adaptarem e criarem novos paradigmas éticos em resposta às mudanças culturais e sociais e simplifica o processo de secularização ao sugerir que a ausência de religião leva inevitavelmente ao niilismo. De feito, a religião ressurge de maneiras inesperadas, mesmo em contextos “secularizados”. Taylor , por exemplo, explora como a secularização não é apenas a ausência de religião, mas a pluralização de visões de mundo, onde o religioso e o secular coexistem. Para Talal Asad, o secularismo é uma construção cultural específica, profundamente enraizada nas tradições europeias, e que não pode ser aplicada universalmente. Berger, um dos primeiros defensores da teoria da secularização, revisou a ideia e fala de “dessecularização”, com o aumento de movimentos religiosos em escala global.

Na Europa, particularmente na França, que possui uma longa tradição de “laicidade” projectada, esse fenômeno é frequentemente percebido como um reflexo do distanciamento gradual entre as instituições religiosas e os cidadãos. Esse afastamento não implica necessariamente a ausência de espiritualidade, mas sim a diluição da religião enquanto força unificadora e normativa. Há uma críticaà narrativa predominante de que a modernidade e a secularização são caminhos inevitáveis para todas as sociedades. Intelectuais críticos, como Tariq Modood e Achille Mbembe, questionam o secularismo reducionista e a ideia de que a religião deve ser relegada ao domínio privado ou desaparecer por completo. Para eles, o retorno à religiosidade pode ser uma maneira de comunidades marginalizadas rechaçarem as premissas da modernidade ocidental, afirmando suas próprias histórias e trajetórias.Mbembe argumenta que a religião, longe de ser uma mera sobrevivência arcaica, é uma forma de reapropriação cultural. Nas ex-colônias, a religião, frequentemente transformada e ressignificada, funciona como um mecanismo de resistência ao poder colonial e ao neoliberalismo global. Nesse cenário, as práticas religiosas podem continuar existindo, mas geralmente assumem formas alternativas, como a busca por espiritualidades mais individualizadas ou por filosofias seculares que preencham o vazio deixado pola religião tradicional. Esse estado não é homogêneo nem universal. Grosfoguel, no campo da crítica decolonial, aponta que a secularização é frequentemente apresentada como uma “neutralidade”, mas, na verdade, perpetua uma matriz de poder colonial. Ele argumenta que o secularismo ocidental é uma extensão das estruturas coloniais, ignorando outras epistemologias espirituais. A ideia de Todd deslegitima práticas religiosas como formas de resistência e identidade cultural em sociedades marginalizadas.

A ciência, por mais que nos ofereça explicações precisas sobre o funcionamento do universo, não satisfaz plenamente nosso anseio por significado, especialmente diante das grandes questões da vida e da morte. Estes mistérios demandam respostas que extrapolam as leis da gravitação universal ou a tabela periódica dos elementos. Essa procura incessante por significado reflete uma sociedade que, mesmo saturada de informações, continua sedenta por compreensão e transcendência?. A diferença entre o olhar cansado e resignado de Marco Aurélio e o olhar inquieto, mas vibrante, do cristianismo primitivo digamos, de um Prisciliano, é uma metáfora para os desafios de uma sociedade que oscila entre o consumo desenfreado e a necessidade de introspecção?

Que as conversas sejam tão farturentas quanto um bom grolo de vinho do país.

One Comment

  1. Parabéns pelo artigo! Ganhou mais um seguidor. Me interesso muito pelo assunto e tenho o prazer de compartilhar contigo meu último artigo também: https://davipinheiro.com/01-escravos-da-cara-inchada/

Grazas por leres e colaborares no Ollaparo !

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