Fome, sede e epidemias são armas de guerra mais letais do que as bombas que o exército israelita utiliza para bloquear a entrada de ajuda humanitária, impossibilitando a recolha de resíduos ou destruindo estações de purificação de água. Para termos um equilíbrio mais realista, basta recorrer às estatísticas. Foi o que fizeram três investigadores num estudo publicado na prestigiada revista médica The Lancet, que dá um cálculo assustador: 186 mil mortes, na estimativa mais conservadora.

Esta não é a primeira vez que esta revista médica publica estimativas sobre o custo humano das guerras. No caso do conflito que desencadeou a invasão do Iraque em 2003, estimaram que causou 655.000 mortes, o que também serve para colocar o massacre em Gaza em perspectiva. A guerra no Iraque durou oito anos e, quando a invasão começou, o país tinha uma população de 23 milhões de habitantes, dez vezes mais do que a da Faixa. No mês passado a Organização Mundial de Saúde determinou que em Gaza existiam mais de 865 mil casos de infeções respiratórias agudas, meio milhão de casos de diarreia, entre outras doenças como a sarna e a varicela. O Ministério da Saúde de Gaza quantificou 38.243 mortes no relatório diário desta terça-feira. Dois terços são mulheres, crianças e idosos. Mas são apenas os que chegaram aos hospitais: não contam os milhares de corpos que não puderam ser resgatados dos escombros (cerca de 10.000), os que o exército israelita enterrou em valas comuns nas zonas que ocupavam e os que morreram sem serem transferidos para centros médicos.
O estudo “Counting the dead in Gaza: difficult but essential” lembra que “os conflitos armados têm implicações indiretas para a saúde, para além dos danos diretamente causados pola violência. Mesmo após o fim do conflito, as mortes indiretas continuarão durante meses ou anos devido a doenças e epidemias”. Alertam que, no caso desta guerra, o custo total deverá ser muito elevado “devido à intensidade do conflito; à destruição das infra-estruturas de saúde, à grave falta de alimentos, água e abrigo; à impossibilidade de a população fugir para uma área seguro e a falta de financiamento da UNRWA, a agência da ONU para os refugiados palestinianos, uma das poucas organizações humanitárias ainda activas na Faixa.”
Em conflitos recentes, essas mortes indiretas variam de três a 15 vezes o número de mortes diretas. Aplicação de uma estimativa conservadora de quatro mortes indiretas por uma morte direta 9 às 37 396 mortes registadas, não é implausível estimar que até 186 000 ou até mais mortes possam ser atribuídas ao actual conflito em Gaza.
O novo artigo de The Lancet salienta que “as medidas provisórias estabelecidas pola Corte Internacional de Justiça em janeiro de 2024 exigem que Israel “tome medidas efetivas para prevenir a destruição e garantir a preservação de evidências relacionadas a alegações de atos no âmbito de (…) a Convenção sobre o Genocídio”. As bombas e as balas matam menos pessoas numa guerra do que as doenças, a fome ou a falta de recursos de saúde. Sabemos isto polo relatório publicado em 2008 polo secretariado da Comissão de Genebra sobre o peso da violência armada, analisando as guerras recentes: estas vítimas indirectas são entre 3 e 15 vezes mais numerosas do que as provocadas polas armas. A publicação do British Medical Journal faz um cálculo conservador: 4 mortes indiretas por cada morte direta reportada. Haveria, no mínimo, 186 mil mortos: 7,9% da população de Gaza desapareceu do mapa em nove meses.”Um relatório de 7 de fevereiro de 2024, quando o número direto de mortos era de 28 mil, estimou que sem um cessar-fogo haveria entre 58.260 mortes (sem epidemia ou escalada) e 85.750 mortes (se ambas ocorressem) até 6 de agosto de 2024″.






























































