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Europa, Movementos sociais, Politica internacional — 9 Xullo, 2024 at 6:55 a.m.

Os resultados de domingo pintam um quadro duma França ingovernável enquanto a extrema-direita fortalece-se em todo o território

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Uma aliança de partidos montada às pressas há menos de um mês, o NFP frustrou as expectativas de uma vitória iminente do Rassemblement National de Marine Le Pen. Depois de dissolver a Assembleia Nacional em 9 de junho, o presidente Emmanuel Macron agora pode ser forçado a uma “coabitação” governamental com um governo de oposição. Os líderes do NFP – que jungue a França Insubmissa, o Partido Socialista, o Les Écologistes e o Parti Communiste Français – exigem o direito de formar o próximo governo e aplicar seu programa comum de “ruptura” com a era Macron. Apresentada em meados de junho, a plataforma do NFP inclui a revogação da impopular reforma da aposentadoria de Macron em 2023, a redistribuição de riqueza, o investimento em serviços públicos e o reconhecimento do Estado palestino. Uma maioria absoluta na Assembleia Nacional requer 289 assentos, o que significa que a câmara continua fortemente inclinada a favor da direita.

Embora tenha evitado uma derrota eleitoral completa, a coalizão centrista de Macron, Ensemble, perdeu quase oitenta assentos. O partido pivô na última Assembleia Nacional que manteve o governo minoritário de Macron nos últimos dois anos turbulentos – a facção majoritária de centro-direita Républicains, que se opõe à aliança do líder do partido Éric Ciotti com Le Pen – conseguiu manter 45 cadeiras, abaixo dos 61 deputados eleitos em 2022. A tarefa do Presidente da República, que terá de encontrar um primeiro-ministro com quem coabitar, não será fácil. Os resultados de domingo pintam agora um quadro duma França ingovernável. Nem a primeira força da nova Assembleia, a Nova Frente Popular (a aliança de esquerda) nem qualquer outro bloco obtiveram uma maioria clara e não significa que a França representada por Marine Le Pen não exista ou seja anedótica. De feito,  complicará a nomeação dum novo primeiro-ministro. Com os resultados finais, o bloco de esquerda, apesar de ser o mais numeroso, tem apenas 182 deputados, longe dos 289 da maioria absoluta. O segundo grupo é a coalizão do presidente Macron, com 168 cadeiras, e a terceira força é a extrema direita de Marine Le Pen, que conquistou 143 cadeiras. 

Ainda que em Paris a esquerda varre e que o principal manchete das eleições seja a derrota do Rassemblement National  (RN), não se pode ignorar que o partido de Marine Le Pen ganhou terreno em comparação com dois anos atrás em praticamente todo o território. Após o primeiro turno das eleições legislativas o mapa da França foi tingido com a cor da extrema direita: o partido de Jordan Bardella e Marine Le Pen, assim como seus aliados conservadores, ficou em primeiro lugar em 258 círculos eleitorais dos 501 que ainda eram disputados no domingo.

.Nas últimas eleições legislativas, a extrema direita do RN terá 89 deputados, ao passo que a esquerda terá 143, ou seja, 54 a mais. Neste segundo turno, o RN obteve 8,8 milhões de votos, mas se somados os votos que foram para candidatos do Republicanos que apoiam a formação de extrema direita, o número ultrapassa 10 milhões. Em algumas regiões, o crescimento do percentual de votos é muito notável, chegando a 20 pontos percentuais. Os principais bastiões da formação de extrema-direita são o norte da Catalunha e toda a costa do Mediterrâneo, bem como o extremo norte do país. De facto, para além das vastas e sobrepovoadas periferias de Paris, Lyon e outras grandes cidades, ela é maioritária, incluindo o Norte da Catalunha

Essas eleições levaram ao fortalecimento dos três grandes blocos políticos e ao virtual desaparecimento das formações menores não agrupadas em nenhum deles, exceto o Les Republicans, a direita conservadora tradicional, que mantém 46 cadeiras. Parte da explicação é o efeito da chamada Frente Republicana para conter a extrema direita. Mais de 220 candidatos que haviam passado para o segundo turno desistiram, dos quais 211 o fizeram na tentativa de não fragmentar o voto anti-Le Pen, de acordo com a contagem do Le Monde. O número de círculos eleitorais triangulares (ou seja, círculos eleitorais onde três candidatos passaram para a segunda volta) caiu de 306 para 89, um número historicamente elevado. A percentagem de votos globais não é o que conta, mas quem é o mais votado em cada círculo eleitoral: o Reagrupamento Nacional (e os candidatos conservadores que o apoiam) é o que obteve a maior percentagem de votos (37,7%), mas isso explica-se polo facto de ter muito mais candidatos a concorrer.

As cores pintadas no mapa de distribuição de assentos mostram divisões territoriais bastante claras:nos subúrbios de Paris e no oeste da França, as cores da Nova Frente Popular (NFP) e do Juntos pola República (Ensemble), partido de Mélenchon, dominam. Na capital francesa, a esquerda ganhou força em relação às últimas eleições legislativas. Dos 18 círculos eleitorais, a esquerda tirou 12 – onze do PFN – o melhor resultado desde 2012. Conquistaram três cadeiras que eram do campo presidencial, o que salva o mobiliário, embora fique com apenas seis deputados, longe dos 13 representantes que obteve na chamada “onda” do En Marxa em 2017. O RN ainda não consegue representação na capital. O cordão sanitário da esquerda e da centro-direita surtiu efeito na capital e os eleitores de esquerda reagiram. No primeiro turno, a coalizão de esquerda havia conquistado nove cadeiras dos 18 distritos eleitorais, todos a leste da cidade, territórios historicamente ancorados à esquerda. Mas, no segundo turno, a esquerda também ganhou força no Ocidente.

O crescimento do Partido Socialista

A comparação entre as eleições de 2022 e as deste domingo mostra mudanças na correlação de forças dentro do bloco de esquerda em favor das opções mais moderadas. Destaque para o crescimento do Partido Socialista, que há dois anos obteve 27 deputados e agora alcançou 59. O apoio aos Verdes também está crescendo, de 16 para 28 representantes. Por outro lado, a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, mantém-se estável, com apenas um lugar a menos (74), e o Partido Comunista passa de 12 para 9.

Mudanças de cor

No final, foram derrotados em 154, a maioria (109) em círculos eleitorais onde alguns dos outros partidos retiraram os seus candidatos para não dividir os votos. Em comparação com a Assembleia Nacional que emergiu das eleições de 2022, 155 círculos eleitorais mudaram de cor: 80 mudaram para a direita e 65 para a esquerda.De acordo com os comentários da imprensa francesa, em 134 círculos eleitorais, os candidatos de esquerda desistiram da sua candidatura a favor dum candidato de centro-direita mais bem posicionado, enquanto em 82 outros, ocorreu o contrário, com o candidato macronista a desistir da sua candidatura a favor dum candidato de esquerda

O que acontecerá a seguir? 

Ainda é moi cedo para formar uma ideia precisa. Macron declarou que vai “respeitar o resultado das eleições”. A lógica desta declaração é que irá convocar a direção do bloco de esquerda para formar o governo. Como é que esta declaração será recebida pelo seu próprio partido, Renaissance, que se dividiu sobre o assunto? Do outro lado do espetro político, o que fará o tradicional partido de direita Les Républicains, que deverá manter-se com 60 a 65 dos 577 deputados? Unir-se-á ao Rassemblement para formar um bloco de oposição? Ou tentarão conquistar uma ala dos macronistas? 

Sem governo no curto prazo

A Nova Frente Popular (FNP) obteve 182 deputados eleitos, apenas mais 39 do que a RN. Esta aliança de circunstância é formada polos socialistas, os comunistas, os verdes, os insubmissos (LFI). A Assembleia Nacional é, de facto, inviável, mesmo a curto prazo. É improvável que a França tenha um novo executivo no curto prazo. Espera-se que as negociações sejam longas e o país não pode se dar ao luxo de não ter um primeiro-ministro, especialmente considerando que em pouco mais de duas semanas serão abertos os Jogos Olímpicos de Paris, um evento que envolverá um destacamento policial sem precedentes e que ocorrerá quando a França estiver em alerta máximo de terrorismo.

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