Pola primeira vez na história, existem tecnologias dotadas do poder de nos obrigar, de nos acirrar a agir duma forma ou de outra. São sistemas de interpretação comportamental que nos incitam a ir a tal ou tal loja para comprar. Este movimento começou a surgir em meados da primeira década deste século com o advento do iPhone: as suas aplicações interpretam os comportamentos, falam connosco e incitam-nos a comportarmo-nos duma determinada maneira. Depois vieram os assistentes pessoais digitais e os altifalantes inteligentes que começaram a falar connosco. A primeira consequência foi o facto destes dispositivos cultivarem uma relação contínua com os indivíduos. Empresas de todo o mundo criaram isto para facilitar o curso das nossas existências que vai além do capitalismo da vigilância para gerir connosco até administrar a nossa maula, indolência e mesmo o bem-estar. Esta é o primeiro poder prescritivo da Inteligência Artificial. Ao jeito da verdade religiosa que nos obriga a agir de acordo com um dogma. Aqui, então, somos confrontados com tecnologias que nos falam e nos dizem para “fazer isto” ou “fazer aquilo”, com o objetivo de gerar a mercantilização integral da vida. O Google pretende ser um assistente que nos aconselhe durante todo o dia sobre o que é melhor para cada um de nós.Ao abrigo da procura do nosso próprio bem-estar, acabamos por ter uma vida mercantilizada. Ao que se deve acrescentaré o aparecimento de sistemas que gerem sectores coletivos, como os chatbots quie interpretam diálogos com centos de candidatos, entrevistam-nos por áudio e vídeo através para preencher um lugar numa empresa. Cada vez mais, a ação humana é feita através de sistemas automáticos para responder a uma visão estritamente hiper-racionalizada e optimizada da sociedade. E este é um problema político importante. Talvez estejamos errados na ordem dos factores ao acreditarmos que são as tecnologias que influenciam os eleitores. Seria errado acreditar que a utilização destas novas tecnologias de persuasão de massas é a principal causa do que acontece e do ganho de espaço da extrema-direita. Com o ChatGPT e outras aplicações, somos confrontados com tecnologias que falam e orientam no nosso lugar e decidem, limitando o nosso direito natural de nos determinarmos individual e coletivamente com liberdade. Falam-nos e falam em nosso nome. Estão já na última fronteira da automatização dos assuntos humanos. Apoderam-se daquilo que nos constitui; delegamos aos sistemas o poder de produzir linguagem e representação. E este é um problema político fulcral que favorece a patologização psíquica da sociedade. Toda a gente usa estes sistemas sem consciência crítica, banaliza-os.
Temos de olhar para as cousas duma perspetiva diferente. Há um estado de cousas em ação não só nos povos originarios, mas em quase todas as democracias liberais. Refiro-me a um estado psíquico, às disposições afectivas das pessoas que vivem há cerca de várias décadas com a instauração da ordem neoliberal – embora nem todo dependa disso – em que vivemos de desilusão em desilusão, com o desaparecimento progressivo do poder público, do poder regulador do Estado, em condições de trabalho cada vez mais precárias; são desilusões relacionadas com promessas políticas. Subjacentes a isto estão impressões colectivas que tornam impossível acreditar em regimes políticos, e impressões de impotência e desamparo. Vivemos com a consciência de que há forças maiores do que nós, que têm mais poder. Somos um elo dum sistema que nos ultrapassa. Cria-se uma equação entre a liberdade individual, a possibilidade de realizar as próprias ambições e a consideração do interesse colectivo. Essa equação foi deixada num plano fictício e depois impuseram-se outros interesses, prejudicando a possibilidade dessa vida colectiva, prejudicando o corpo e a mente das pessoas.
A partir do final dos anos 90, as ferramentas digitais apareceram nas mãos de milhões de pessoas, criando uma ilusão de superpoder e egocentrismo. Há uma série de serviços e produtos à nossa disposição que supostamente facilitam a nossa existência. Existem plataformas que nos permitem exprimirmo-nos continuamente ou expor o nosso quotidiano aos olhos de todos: as redes sociais. Todo isto gerou uma sobreposição entre um sentimento de esvaziamento geral e, de repente, a impressão dum superpoder através de tecnologias que dão às pessoas uma sensação de centralidade, de que o mundo vem até nós através do acesso a informações, produtos e serviços personalizados que nos são propostos. Temos a ilusão de ser o âmago do mundo. O Facebook e o o X (Twitter) deu-nos a possibilidade de nos expormos ao olhar do público, de recebermos gostos, de termos momentos de entusiasmo, deixndo a porta aberta à expressividade de cada um de nós; de súpeto, pensámos que podíamos fazer parte de toda uma série de opiniões marcadas pola marca da desilusão, do ressentimento, do rancor e, por vezes, do ódio. É por isso que não falo de redes sociais, mas de plataformas de expressividade que foram concebidas para podermos aceder a toda uma série de fontes de informação. Cada um podia criar as suas próprias fontes de informação. E assim houve uma disseminação de histórias, uma atomização da verdade, moito mais do que fake news.
Cada um percebe a realidade e os acontecimentos através do prisma da sua própria subjetividade, do seu ressentimento ou dor, das suas genreiras, numa espécie de enxurrada verbal. É evidente que as tecnologias políticas de persuasão de massas podem afetar os indivíduos, criar grupos, analisar comportamentos, analisar mensagens e reacções. Aqueles que exploram comercialmente estas novas tecnologias de persuasão de massas são precisamente aqueles que sabem jogar com estas sensações negativas e mortíferas que as pessoas têm, com o facto de as pessoas sentirem ressentimento e rancor. É assim que podemos compreender a eleição deTrump. Deste ponto de vista, são estas sensações, sentimentos e emoções negativas que foram exploradas, alimentadas e cultivadas politicamente, através das tecnologias de persuasão de massas. Podemos pensar também no Brexit, em Bolsonaro e em Milei. Essas tecnologias não afetam especificamente uma vila da Espanha vacía, mas afetam populações que sentem ressentimento ou rancor em relação ao Estado, ao governo e ao poder público. São pessoas que se sentiram deixadas de lado e as tecnologias souberam manter uma relação direta e explorar esses sentimentos negativos. Então, antes de falar dessas tecnologias, temos que falar dum estado de desilusão, dum sentimento de inutilidade que as pessoas já sentiam. E pôr isto em ressonância com a desigualdade e a precariedade. Estas tecnologias permitem que a extrema-direita explore um intenso estado de ressentimento generalizado em todo o mundo. Esse ressentimento é explorado e cultivado. Estas tecnologias não permetem a política ser feita de forma diferente; a política não é uma ligação, é uma espécie de presença em conjunto, é a expressão da pluralidade e não um balhão permanente. Também nao é o comúm (privatizador) mas o coletivo. Apoiar acríticamente o “comum” com todas as suas derivações políticas acaba louvando o que afinal é mais uma forma de propriedade privada e sobretodo disimula para não alertar que o comum não é o coletivo, mas sim o contrário.Um coletivo é um grupo humano formado por pessoas que compartilham objetivos baseados em interesses comuns. Numa comunidade, os membros estão vinculados por valores morais e mantêm relações que são de alguma forma de convivência, ou seja, comungam, unem-se.
É uma pluralidade e uma subjetividade que se exprimem num quadro estruturado. É o facto de produzir acordos ouvindo-nos uns aos outros num quadro de pluralidade, de acordo com princípios que nos regem. É o contrário das redes sociais e da tecnologia digital em geral. O digital gera interferências entre as pessoas porque cria um primado da palavra de cada um. Há quinze anos, havia toda uma literatura sobre a democracia na Internet e as novas formas de organizar a democracia através desta nova tecnologia. Em que é que isso resultou? Em nada. Porque não é através de ecrãs que vamos criar democracia, mas sim com presença, com uma articulação da palavra de cada um que tenha em conta a escuta dos outros, a pluralidade. E que tem em conta o facto de que o sofrimento e a expressão do próprio sofrimento não são suficientes: devem ser seguidos de ação e de acordo sobre a realidade e a vida quotidiana. O voto é definido por uma combinação de racionalismo económico do tipo “hei votarem si se estiver melhor” – mais a soma de sentimentos emocionais que um candidato consegue transmitir.
Apoiar acríticamente o “comum” com todas as suas derivações políticas acaba louvando o que afinal é mais uma forma de propriedade privada e sobretodo disimula para não alertar que o comum não é o coletivo, mas sim o contrário.Um coletivo é um grupo humano formado por pessoas que compartilham objetivos baseados em interesses comuns. Numa comunidade, os membros estão vinculados por valores morais e mantêm relações que são de alguma forma de convivência, ou seja, comungam, unem-se.
Temos de ter cuidado com as palavras que moldam as nossas representações e que, na maioria das vezes, são moldadas pola indústria digital. Estamos a falar de plataformas de expressão, lugares onde todos se podem exprimir. Visando os factores de decisão, a algoritmia da Inteligência artificial tem uma posição preeminente. Trump e Bolsonaro ganharam batalhas neste campo. As alternativas de direita ao conservadorismo clássico proliferam num submundo de youtubers, instagramers, tiktokeiros e influencers que permanecem agochados para a maioria, agás para os novos. Em que medida é que a ascensão de grupos ultra-conservadores está ligada à nova subjetividade pós-moderna que está a ser esculpida através de algoritmos no mundo digital? Não tanto a moldagem por algoritmos, mas estamos num estado de ressentimento coletivo generalizado. Essa é a subjetividade contemporânea, não é moldada por algoritmos. Isso já existe. A essa subjetividade e a esse estado de cousas, a essas psiques fragilizadas e sofredoras, segue-se uma série de fontes de informação destinadas precisamente a consolidar, enraizar e cultivar esses sentimentos. Este é o primeiro patamar.
Não há uma sobredeterminação das tecnologias, mas indivíduos, instâncias, agrupamentos e partidos políticos que souberam explorar o estado dessas psiques perturbadas, utilizando tecnologias de IA e análises comportamentais e linguísticas em grupos de WhatsApp, visualizações no YouTube, etc.todo isto permitiu compreender os seus comportamentos e dirigir-se precisamente a essas populações. Mas como é que se dirigem a essas populações? Fazendo-lhes discursos que cultivam e intensificam o seu ressentimento. Foram-lhes dadas razões para acreditarem no seu ressentimento, para odiarem os políticos que não pararam de os trair e de faltar à sua palavra e ao seu dever. É por isso que os partidos democráticos têm moitaa dificuldade em fazer valer a sua palavra e a sua visão das cousas nesta estrutura relacional entre indivíduos e tecnologias de persuasão de massas. A função dos políticos não deve ser a de jogar com as emoções da população, mas sim a de oferecer um discurso racional, de dizer que isto ou aquilo tem de ser feito. As pessoas parecem já não acreditar em tais discursos: esse é o facto mais notável desta época. E há também a questão de não querermos que as pessoas falem em nosso nome. Cada um quer falar por si e fazer valer a sua própria lei, a sua própria palavra.
O que vemos no mundo digital é que cada um pode fazer valer a sua opinião como se fosse a sua própria dignidade e primazia. Quando há um comentário de alguém a um post, o comentário vem em baixo. Por outras palavras, se olharmos de forma ergonómica, há também uma forma de colocar as cousas no espaço que torna a opinião do outro inferior à minha. Isto cria a ilusão de que acreditamos estar a dizer a verdade.
O que é a palavra hoje, como emanação da nossa subjetividade e do nosso vínculo interpessoal com o outro? Quem diz “palavra” está a falar de escuta mútua num quadro de diálogo e de relação com o outro. Em nenhum caso esta estrutura da “palavra” existe nas plataformas da expressividade. São dilúvios verbais em que cada um fala primeiro, depois espera polos comentários dos outros e, na maior parte das vezes, é para afirmar o seu próprio ressentimento, rancor, ódio ou uma certa ideia do que o mundo deve ser, antes de esse comentário ser substituído por outros. É disso que se trata nas plataformas. Cada um exprime-se por detrás do seu ecrã, acreditando que tem a verdade. Isto não produz rigorosamente nada e dá a ilusão dum envolvimento político. Quando na realidade, devido à perversidade do sistema, todo o que faz é manter ilusões e intensificar ainda mais um mecanismo que só visa gerar lucro. Relativamente às plataformas principais das redes sociais. Como é que podemos acreditar que são instrumentos políticos equivalentes à ágora grega? Na ágora havia uma troca de pontos de vista. Implicava a liberdade de cada um e a pluralidade para se exprimir, a necessidade de fazer acordos e depois retomar o diálogo para trocar na pluralidade e na contradição, e para decidir em conjunto. É a isto que Hannah Arendt chamou bios político. Primeiro exprime-se na ação através da sociedade e depois é discutido na ágora para decidir em conjunto através da palavra. O bios político é isso mesmo: a ação e depois a palavra, com uma tensão permanente entre os dois termos.
Nas redes sociais, polo contrário, há um primado da enxurrada verbal que não produz nada, antes intensifica a tensão entre os seres humanos e a surdez crescente. Este esquema enlouquece-nos, intensifica o ressentimento. É um fracasso político. É a ilusão do envolvimento político, quando na realidade é um dos maiores fracassos da possibilidade que temos de fazer política.Não é no terreno digital que se está a definir uma parte da votação. Porque não é aí que o jogo está a ser jogado,entre “rebeldes” e “influencers”. Há um tipo de discurso a funcionar através do ecrã que exprime a pouca relação entre os seres num regime de isolamento coletivo. Não é um regime de racionalidade discursiva, mas de emoções contínuas e confrontos permanentes. O contra-projeto seria retomar a ideia de estar juntos na sociedade, em diferentes escalas: no trabalho, nas aldeias, nas cidades, nas colectividades. Ou seja: falar, afirmar os seus pontos de vista, os seus testemunhos. Não se trata de dar a sua opinião através de emoções, mas de construir estruturas de intercâmbio comum capazes de conduzir a acordos e à ação política coletiva. É o contrário das redes sociais. O que se fez no X num dia está no lixo no dia seguinte. O problema do X é que cada dia é um novo dia e todo começa de novo. todo o que faz é gerar lucro e a ilusão de ação e envolvimento político. Esse jogo não deve ser jogado, a única cousa que faz é dar privilégios a um regime de ressentimento. Temos de jogar um jogo completamente diferente, um compromisso total com um tipo diferente de responsabilidade, a todos os níveis da sociedade. Ou seja: fazer valer as nossas situações pessoais, os nossos testemunhos e os nossos sofrimentos.. Sabemos que a população de Gaza massacrada num gueto tem uma situação e testemunhos a partilhar que devem ser transmitidos aos grupos de ação, mas Palestina não tem Estado.
E o mesmo se aplica aos poderes públicos. Estamos a falar duma verdadeira ação política, estruturada, concertada e organizada. Isso não existe. Não nos podemos esquecer que as plataformas de expressividade são negócios. São plataformas gigantescas que só pensam em gerar lucro e só têm como objetivo intensificar a lógica do ódio e da opinião, através duma série de algoritmos de recomendação. E ainda caímos na armadilha da ilusão do envolvimento político. Mas não há disseminação de experiências, de pontos de vista, do desejo de expressar as cousas duma forma diferente. E é isso que precisa de ser feito de forma completamente oposta às plataformas digitais. No fenómeno da formação de convicções de massa, a direita cultiva o ressentimento através da tecnologia. Claro que sei que a direita está a ganhar espaço e, no entanto, caímos na armadilha da ilusão do envolvimento político. Mas não há divulgação de experiências, de pontos de vista, nem vontade de exprimir as cousas dum jeito diferente. E é isso que é preciso fazer, de forma totalmente oposta às plataformas digitais. Nos fenómenos de formação de convicções de massa, a direita cultiva o ressentimento através da tecnologia.























