A austeridade não é um erro político, mas uma falácia funcional do ultraliberalismo que alicerza o fascismo, em expressão de Varoufakis quando caracteriza o arcabouço de “A ordem do capital” da economista Clara Mattei publicado em 2022, despois de mergulhar desde 2013 nos arquivos da Biblioteca do Banco da Itália e no Arquivo De Stefani e passar anos estudando as obras dos economistas italianos e no jornalismo da época, da classe operária e da burguesa e os despachos da Embaixada Britânica em Roma, guardados nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores dos Arquivos Nacionais.
O principal desafio da economista italiana em juntar esta história foi evitar a compartimentalização das diferentes vidas de seus personagens – suas trajetórias pessoais, acadêmicas e políticas – e integrar e estudar as conexões entre os escritos teóricos dos economistas, as intervenções políticas e as políticas públicas. E ao juntar as peças do quebra-cabeça, surgiu uma imagem totalizadora da austeridade como uma luta de classes unilateral defendida no jargão dos economistas. O livro analisa como a austeridade emerge como uma contra-ofensiva activista, liderada por governos e pelos economistas que aconselham esses governos como especialistas “acima das classes” e acima da loita política.
Para Mattei, a austeridade foi entendida polos economistas num sentido despolitizado e como uma ferramenta técnica para gerir a economia, que pode estar certa ou errada dependendo se realmente produz crescimento económico e redução da dívida ou não. Esta discussão não ajudou a tentar compreender porque é que a austeridade é tão resiliente, mesmo face às moitas recessões que causou no último século.
“Desenterrando as atividades desses homens de arquivos empoeirados do Tesouro, fiquei fascinada com a evidência da persuasão de Hawtrey aos outros dois e, por sua vez, como os dois burocratas, nenhum deles um economista treinado, se tornaram missionários em campanhas para exportar a austeridade britânica como uma agenda imposta para outros países ao redor do globo”
Mália as crises económicas se repetir, continuamos a confiar nas soluções que propõem os economistas para encontrar a Solução quando continuam a exigir que os trabalhadores absorvam a maior parte dos sacrifícios, através de salários mais baixos, horários de trabalho mais longos e cortes nos programas sociais.e nos serviços públicos.Na Galiza, por exemplo, temos vindo a sofrer progressivamente o convívio com políticas de austeridade, particularmente visível nos sectores da saúde pública e da educação.
Entre os moitos exemplos, Mattei menciona um estudo em que o aumento da exploração também era evidente, com os salários reais a caírem moi abaixo da produtividade do trabalho. Em 2020, os economistas Lance Taylor e Özlem Ömer mostraram como nos EUA, nos quarenta anos anteriores, a participação nos lucros da produção do país aumentou substancialmente, enquanto a participação do trabalho nessa mesma produção caiu correspondentemente. A relação entre o lucro do proprietário e a perda do trabalhador era simétrica; um estava tirando do outro (o trabalhador americano médio em 2019 ganha menos em termos reais do ganhado em 1973).
Essa isca apanhou governos neoliberais, desvirtuou a social-democracia, levou governos populares a aderir a essas teses, tomadas por científicas e consensuais. São parte duma ideologia minuciosamente construída que favoreceu a eliminar todas as tentativas de melhoria social após a Primeira Guerra Mundialm do que o ultraliberalismo de agora é apenas extensão duma guerra afoutada quanto visceral do grande capital, visando o control político do mundo.Os países e os governos de todo o mundo responderam à crise financeira com cortes nas políticas públicas e precarização das relações laborais. Embora tenham conseguido acalmar os credores e o mercado, os efeitos sobre o bem-estar social e económico dos trabalhadores foram devastadores.
As raizeiras da austeridade na Grã-Bretanha e na Itália de entreguerras, revelaram como a autonomia da classe trabalhadora nos anos após a Primeira Guerra Mundial incentivaram políticas econômicas de cima para baixo que estrangulou os trabalhadores e impôs uma hierarquia inflexível nas suas sociedades. A autora escolheu se concentrar nessas nações porque as disparidades de suas realidades político-institucionais facilitam a identificação dos elementos fundamentais da austeridade e do modo capitalista da produção através dos lugares e através do tempo. revela como o liberalismo britânico e o fascismo italiano promoveram ambientes semelhantes para a austeridade prosperar. Essas semelhanças iam além dos sacrifícios compartilhados de cidadãos britânicos e italianos, ou do fato de as agendas de austeridade de ambos os países serem racionalizadas por teorias econômicas semelhantes. Especialistas econômicos, sejam fascistas ou liberais, reconheceram, para garantir a liberdade econômica – isto é, a liberdade de mercado do poupador e do empresário “virtuoso” – os países tinham de renunciar, ou, no mínimo, marginalizar as liberdades políticas. Isto foi particularmente evidente durante os “anos vermelhos” de 1919 a 1920, quando a maioria dos trabalhadores italianos demonstrou a sua relutância em aceitar uma noção de liberdade económica que pressupunha a sua subordinação a relações hierárquicas de produção. Estes trabalhadores lutaram pela libertação da maioria e defenderam uma conceção de liberdade económica que era antitética à dos especialistas. Esta ideia pressupunha o derrube da propriedade privada e do trabalho assalariado a favor da partilha dos meios e do controlo democrático da produção. Italia expõe um impulso repressivo só latente no caso britânico e persistente agora em países de todo o mundo. Enquanto na Itália a austeridade industrial subordinou diretamente o trabalho através da proibição de greves e sindicatos, agás os sindicatos fascistas –uma contradição em termos, aparentemente–, a austeridade monetária da Grã-Bretanha causou uma crise econômica, mas indiretamente alcançou os mesmos objetivos.O feito dos especialistas britânicos estarem dispostos a aturar um desemprego tão alto, ostensivamente a serviço do control da inflação, fai parte da “tolemia” à qual se referiu Blyth em Austerity: The History of a Dangerous Idea. No entanto, essa loucura faz sentido se reconhecermos o alto desemprego funcionar para suprimir a ameaça das demandas dos trabalhadores para o capitalismo. Não apenas matando o entusiasmo político das classes trabalhadoras, mas também forçar os trabalhadores a aceitar salários mais baixos. No caso da Grã-Bretanha, uma queda salarial nominal de 41% de 1920 a 1923 permitiu a taxa de lucro recuperar-se rapidamente de seus problemas imediatos do pós-guerra. a principal vantagem da crise econômica ter sido a restauração inequívoca da estrutura de classe capitalista. Em vez de exercer coerção política e econômica direita, como na Itália, a Grã-Bretanha contou com tecnocratas aparentemente apolíticos à frente de seu Tesouro e do Banco da Inglaterra, acadando objetivos semelhantes por meio de deflação monetária e cortes orçamentários.Violência estrutural da política macroeconômica poderia fazer o equivalente à violência física das milícias fascistas.
De facto, o livro é dedicado aos revolucionários de todo o mundo com uma recordação específica da vida de Gianfranco Mattei, tio-avô da autora já que aos 27 anos era professor de química e fabricou bombas contra a ocupação nazi-fascista em Itália e foi capturado, preso e torturado durante dias e decidiu desistir da vida suicidando-se na prisão para não trair os seus companheiros de resistência.
” A combinação das políticas fiscal, monetária e industrial no manual de austeridade lançou um golpe duradouro nas classes trabalhadoras e nas suas expectativas dum sistema socioeconômico diferente. A reabilitação das relações salariais hierárquicas, nas quais a maioria das pessoas não pode ganhar a vida de outra forma senão vendendo sua força de trabalho como mercadoria no mercado e, ao fazê-lo, renuncia ao seu direito de ter uma palavra a dizer sobre como essa mercadoria é consumido polo empregador comprador, talvez seja a característica definidora da austeridade”.( capítulo 9 )
Foi quando a austeridade revelou o seu principal alvo, a proteção do capital e a eliminação de todas as alternativas ao sistema capitalista, e foi nesse contexto que a política econômica funcionou como aliada ao fortalecimento do fascismo.
Na Grã-Bretanha, a situação não é menos sombria: 30% das crianças do país (4,1 milhões) viviam em relativa pobreza em 2017-2018, e 70% dessas crianças viviam em famílias trabalhadoras. Em 2020, o número de crianças pobres aumentou para 4,3 milhões.
Além disso, A Ordem do Capital ultrapassa as fronteiras academicistas da economia, política, história econômica e história do pensamento econômico, bem como Trabalho e História Social.
Hoje, também os vencedores sob a austeridade continuam sendo uma minoria rica: o 1% mais rico da população subsiste principalmente dependente de rendimentos 26 relacionados com o lucro vinculados à riqueza existente, por exemplo, dividendos e juros. Num momento de alta de inflação, em que os governos se sentem inclinados a voltar a ‘apertar o cinto’ o livro de Mattei é leitura obrigada para aqueles que querem sair da zona de conforto intelectual e olhar a agenda oculta da austeridade diretamente na cara e como as mudanças econômicas na Grã-Bretanha e na Itália sustentam seu argumento da austeridade ter sido e continua sendo uma ferramenta de control de classse, fulcral para defender os fundamentos da economia capitalista e a sua lógica política da austeridade composta por políticas fiscais, monetárias e industriais funciona em uníssono e se reforça mutuamente. Por outras palavras, se quisermos o capitalismo, temos de aceitar a austeridade, o que implica que a maioria dos trabalhadores sofrerá para que a economia se mantenha forte









