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Opinião — 16 Setembro, 2023 at 6:35 a.m.

Imperialistas fracasados

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“Sodes pois uns imperialistas fracasados”

Castelao

Na neurociência, a questão de saber se os neurónios-espelho são a base material da empatia não é apenas um processo estético – o que acontece quando lemos noutra língua ou quando vemos o Pórtico da Glória e escutamos The Rain Song- mas também uma parte fundamental do que acontece quando nos relacionamos com outras pessoas. É a base para compreender o que os outros sentem ou fazem. Toda esta empatia não faz de nós melhores pessoas. Podemos tê-la mas não tratar bem os outros.  Esta semana vimos como o Partido Popular votou “não” para apoiar o uso da língua galega no Congresso e impediu que a proposta do BNG, que tinha o apoio do PSdeG, avançasse no Parlamento galego e até Aznar levantou voo como a ave de rapina que é com esse tom insurrecional que deslegitima a maioria parlamentar saída das urnas. Na verdade, a empatia pode ser instrumentalizada para manipular as pessoas.Por isso é cousa de pasmo enfitar como ainda agromam a eito franquistas, trumpistas e discípulos de Erdogan.

Sabem, eu sou galego pela graça de minha avó Isolina do Cubilote, agulha de marear da familia e da tieta Maruja que fazia trabalhos de rede, das vizinhas que ajudavam a apanhar nas patacas e dos olhaparos-amigos do mar de Cedeira, mas também por falar o idioma de Martin Codax e de Isaac Forneiro, de Inés de Castro e Élida  do Barral, de Olga Novo e de Rosalía, das Tanxugueiras e Aires de Breixo, de Miki Miragaia e de Pereiro, de Xaquín Marín e de Pessoa,  do Zeca e do Buarque, do Guimarães Rosa e da Clarice Lispector de além mar. Galego por graça dos fuxidos e por meu pai e  minha mãe que sobreviveram a tanta infâmia…E não pelo Caudilho de Espanha  nado em Ferrol, nem pelos Bourbons e a sua caterva de súbditos, nem pelos empanados do PSOE e a sua Constitução superdemocrática.  O meu país, antes de qualquer outro, é a Galiza. Estado espanhol se baseia na ideia de que os seus súbditos têm uma ideologia, uma língua e uma cultura nacionais homogéneas (a ideia de “nação espanhola” se baseiar na língua espanhola, no sistema político monárquico, na bandeira vermelha e amareal e em alguns outros elementos culturais). Embora seja evidente que está sujeito a um sistema de relações de poder cujo ponto central está em Madrid, não aceitei desde o início o de uma nação periférica. Periférica de quem?Esta imagem não corresponde à da nossa realidade social e foi permeado na linguagem por uma clara diretriz ideológica de homogeneização e distribuição hierárquica derivada precisamente do fato de naão termos tido adequada representação nas instituições de Madrid e o seu Parlamento, o que nunca consideramos como uma instituição própria.A sociedade espanhola está dividida e tem um problema de integração interna que a obrigará a repensar as ideias de “patriotismo” e “nação” se em Madrid querem ganhar a coexistência. Para botão, um exemplo, mas há muitos. Certas empresas energéticas dedicam-se à extracção dos produtos de que necessitam na Galiza, mas depois são cotadas para as suas actividades comerciais na capital espanhola.

Pertenço a essa geração que nasceu por acaso na Galiza quando podia ter nascido no Brasil, na Austrália ou na Suíça, porque os fascistas raptaram a alma do meu país (os corpos já tinham sido saqueados gerações antes nas primeiras vagas de emigração para  Castela e  América) e nos fizeram acreditar que emigrar não é tão ruim, destruir o território é para o nosso bem e a língua de nosso para lindar as vacas e escrever poesia. Eu sou dessa geração nascida em 1968, que não foi educada em galego, que ainda sofreu as lições dos professores franquistas (também daqueles mestres que, de uma maneira ou de outra, tinham sido vítimas da ditadura), que ainda cresceu no meio da Transição e do catecismo tarsício no Salón de la Adoración, que teve medo na noite de 23-F sem saber porquê e que viveu o entusiasmo dos nossos pais no dia em que o PSOE ganhou as eleições, porque nessa altura a alternativa da esquerda soberanista galega ainda estava ilegalizada  e nem sequer se aperceberam disso nem da cilada que significaria de facto o  “estado das autonomias”, porque as elites franquistas não estavam interessadas em que os galegos se sentissem nacionais  e  não se esperava que os galegos mansos se comportassem como iguais. Mesmo quando os órgãos governamentais autónomos acabam nas mãos daqueles que estão dispostos a drenar-lhes de dentro o poder soberano  e o realmente  permitido é um “vivamos como gallegos” que nada mais é do que o lema da autoprivação consciente do que na verdade é a privação de plenos direitos políticos a nacionalidades completamente não hispanizadas, o que leva ao desconhecimento da própria existência de outros povos e transforma a vítima em sujeito culpado. O que tem levado moitos a abandonar a sua identidade e a juntar-se às fileiras da identidade espanhola, supostamente e falsamente civilizacional e universal e que deveria ser substituída por um sistema não hegemónico (também à escala europeia e global), democrático, dialógico, plural e complementar. No entanto, as reacções à entrada do idoma galego no parlamento espanhol, nem culpado nem punido, anunciam a lógica persistente do pior.

Há moitos anos que vemos e sofremos o mecanismo de dominação e manipulação do real quando os casos particulares de crimes da ETA, o poder estatal toma como exemplo permanente para demonstrar a ilegitimidade dos nacionalismos cidadãos emancipatórios perante uma opinião pública espanhola pouco habituada ao debate plural na mídia. Ao explicar o geral pelo particular ou ao construir predicados para grupos sociais, a tarefa de manipulação para dominação torna-se mais fácil. Qualquer introdução enfática de predicados comunitários no campo ideológico, político e estatal leva ao pior. E assim podemos observar pessoas comprometidas com projetos democráticos ignorando e até apoiando o apartheid de Israel ou, ao contrário, defendendo o anti-semitismo ou aplaudindo o “A por ellos!”.

Mas também uma geração, a minha, a do 68, que pouco ou nada fez para recuperar o que foi usurpado aos seus avós e pais e a si pròprios. O que o ensino público da Autonomia não quis ainda devolver aos seus netos. Sim, a geração que falava com os seus filhos em espanhol e dançou na muito galega discoteca “Touliña” ao ritmo da madrileñísima movida.Nascemos durante a ditadura franquista e passamos grande parte da nossa vida vivendo sob o regime pós-franquista como se fosse o melhor de todos os mundos possíveis sob uma monarquia bourbónica. o que exemplifica o pior que nos aconteceu como povo, quando os nossos avós puderam ver e participar no nascimento de uma República mesmo que não fosse plenamente a República Galega.

Pertenço a essa geração que, enquanto os heróis da cal viva e da corrupção González e Guerra se tornavam presidente e vice-presidente do governo, trabalhou de ajudante de pedreiro e de pintor  durante os verões para ir estudar a  Compostela enquanto na minha  vila e comarca a classe média estava a despontar por geração espontânea e bebedeira de pescada e conversões navais em troca de subsídios confortáveis ​​que nunca deveriam ter sido moeda de troca. E no meio de todo aquele redemoinho de modernidade (“la democracia que nos dimos entre todos”, ousaram dizer) alguns até se  aventuraram a fazer perguntas aos velhos da tribo que calavam senão todo se sabe, mas nunca o suficiente, porque estávamos a ir para algum lado às cegas e não tínhamos uma língua própria que teria servido de bússola embora em todo presente, de Ortegal ao Minho, como campo magnético terrestre. E pegamos a ela como erva no sulco aberto.

Nem Leguina, Cosculluela, Redondo, Vázquez e Moreda, até um total de 66 antigos deputados, todos eles de  braço dado dos franquistas Martín Villa, Lamo de Espinosa e Soledad Becerril e doutros denominados “diputados históricos” do PP e do PSOE mudaram: continuam a viver de agressões verbais, de mentiras injuriosas, de difamações injustificadas… Porque aqui não se nega o castelhano. Porque talvez se tenham esquecido de que um dia foram socialistas, mas nós lembramo-nos de que, na realidade, nunca foram socialistas nem nunca foram os seus co-signatários de tão infame manifesto, democratas de longa data. Péssimos ventríloquos, todos eles. É por isso que estas pessoas não entendem o que são direitos. Hoje, com os seus ditames caluniosos, associam-se à extrema-direita espanhola, enquanto nós,  os galegos que não queremos ser súbditos de um Estado que não nos reconhece, continuamos a trabalhar pola soberania pessoal e colectiva. Porque a soberania seminal começa quando não deixamos que a nossa língua seja castrada. Durante quanto tempo teremos de lutar contra o sentimento de que os galegos não são aceitess de pleno direito, mas apenas como aleijados ?A prova da profundidade deste sequestro é como 40 anos de atitude beligerante de quem não teve palavra e não é ninguém para me colocar, a mim e a todos os meus compatriotas galegos, ao mesmo nível que os  assassinos dos nossos avós, não há vozes militantes do PsG-PSOE para vos tirar do caminho ou para estripar o cartão de militante. O PSOE foi o protagonista do primeiro caso de corrupção do governo socialista e da guerra suja do Estado. Vê-se que autoridade moral têm para nos acusar de desenvolver um movimento pré-fascista a partir da Galiza. Tu, filho de um militar, que justificas as cargas policiais contra concidadãos europeus na Catalunha, não podes exigir sermos cúmplices na extinção da nossa língua,

De onde vem a arrogância que leva o indouto Bofill (PSOE) a afirmar que existe “uma riqueza superior, a riqueza da língua espanhola, que é um plus que 400 milhões de pessoas falam e através do qual sempre nos entendemos” e escrever um documento que considere trágala inaceptable, una verdadera ruptura de las reglas propias de cualquier sistema democrático”?Uma arrogância que os impede de observar interiormente, mas também exteriormente, como estão a ser construídos estados plurinacionais na América.

O objetivo é acender o pavio do victivismo com aquela  fasquia  tão franquista de “rico acervo”  e  “Coros y Danzas”. Se é “um plus que 400 milhões de pessoas falem espanhol”, qual é o problema de o catalão, o galego e o basco serem falados no Congresso, se com esta medida (pedagógica) é possível exercer os direitos fundamentais de uma parte da cidadania? Para estes signatários reativos, a hipótese de falar em outras línguas que não o espanhol sob a proteção de um regulamento que o permite é uma “trágala”, mas é surpreendente que alguns destes signatários tenham beneficiado da lei de amnistia pré-constitucional de 1977 e continuam a falar sem pudor de “trágalas”. Continuam com a mesma operação ideológica de sempre, de há quarenta anos, mas com as suas raízeiras no domínio colonial espanhol. Porque pretendem colocar a violência exercida pela língua dominante ao mesmo nível que a dos cidadãos que procuram exercer os seus direitos linguísticos em pé de igualdade.De um ponto de vista moral, esta não é uma posição coerente e é moralmente inaceitável inclusive do ponto de vista histórico ( consultem ” O libro negro da lingua galega” de Carlos Callón ou “O ódio à paródia. O estereótipo antigalego na literatura espanhola do século XVII” de Alexandre Peres). 

Se quisermos compreender por que razão existe este tipo de pensamento em Espanha no s.XXI, temos de compreender a tradição colonial exercida entre os povos europeus e a forma como persiste no interior dos Estados. Falar em “quebra das regras de qualquer sistema democrático” ao tentar incluir as línguas co-oficiais no Congresso é uma falsificação, pois transforma em agressores os cidadãos que foram vítimas por não poderem exercer historicamente os seus direitos linguísticos. É chocante que estes supostos porta-estandartes da democracia liberal espanhola se exprimam desta forma porque continuam a prolongar esta tradição colonial, falando como se estivessem perante uma audiência exclusivamente franquista ou imperial.

O Estado emerge do colapso do Estado feudal, descentralizado, multiétnico, multilingue e com esferas de poder fragmentadas. No momento onde começa a construção de uma identidade europeia (os estados europeios são todos hegemônicos e uniformizadores), espanhola e cristã sobre o outro diferente, incompreendido, menos humano e não-humano.Interessa-nos observar como funciona o mecanismo narcísico da construção imperial, mesmo que se transforme num imperialismo falhado, porque depois de vários séculos continuam a afirmar, eu sou nacional, eu sou europeu, eu sou espanhol porque sou católico e só falo espanhol (castelhano). Porque eu sou mais do que o outro, do que o outro diferente, o falante de dialectos, o selvagem indígena. Espanha continua sem saber enxergar a sua pròpria barbárie. De facto, continuam a construir o seu projeto de Estado-nação em termos de “eles não são iguais a nós”, razão pela qual acabam por ter refluxos de desumanização e reificação do outro.

Na época em que o Reino de Espanha colonizou e arrastou os povos do continente americano com os ingleses, portugueses e franceses, a Espanha era um Estado racial (expulsou e perseguiu muçulmanos, judeus e ciganos.), um Estado em que a raça desempenhava um papel essencial. Se quisermos compreender esta reação em 2023 por deputados e ex-ministros de uma democracia liberal, temos de perceber porque é que ainda se alegue como “riqueza” que as línguas dos impérios sejam faladas por milhões como argumento para que as línguas co-oficiais não possam ser faladas de pleno direito num Parlamento. Note-se que há justificação para a minha violência, mas não para a violência do outro, nem mesmo para a negação do direito de resistência. O Estado moderno nasceu da parceria entre o Rei, a nobreza e a burguesia.  A proteção desta estrutura estatal aos interesses burgueses permitirá então o desenvolvimento do capitalismo, o enriquecimento da burguesia e a sua tomada de poder. Esta aliança não foi quebrada. Ainda hoje as monarquias parlamentares europeias exemplificam o sucesso desta parceria, que tem tido resultados desiguais consoante o grau de uniformidade alcançado, de que o Estado necessita para o desenvolvimento do capitalismo. Atè hoje.

Um problema não resolvido da conformação do Estado espanhol, fundamental para o seu reconhecimento interno pelos súbditos inicialmente e presente para os cidadãos no futuro constitucional, é o facto de o poder do Rei e do Estado os reconhecer, não podendo este monarca identificar-se internamente com qualquer grupo étnico. Os vários grupos de identificação pré-existentes do Estado-nação (pouco democrático e nada representativo dos grupos não uniformizados) não podem criar dissonâncias internas de comunicação, pois ameaçariam a continuidade do reconhecimento do poder e do território deste novo Estado. A construção de uma identidade nacional torna-se assim essencial para o exercício do poder soberano. A construção desse Estado que nasce da intolerância para com os que são diferentes não terminou.Pela mesma razão que se defendem os direitos linguísticos e se trata de preservar o território e as terras de importância ecológico-cultural não devemos ceder à chantagem das minorias madrilenhas que atacam sem consideração todo o que se move e questiona seu abundante e viscoso supremacismo.

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